Tanzaku

16 A Décima Quinta Noite


Notas iniciais
Boa leitura~

Em tempos de guerra, cada momento com entes queridos deve ser apreciado, pois nunca se sabe qual deles será a sua última oportunidade de dizer que os ama, de os abraçar ou simplesmente de desfrutar os prazeres de conversar e sorrir juntos.

A coisa começou bem. Lenalee e Krory tinham acabado de voltar de uma missão e estavam aproveitando a pausa para comer algo quente, quando Lavi resolveu se juntar a eles, os olhos – corrigindo, o olho – fundo de olheiras e a boca cheias de reclamações sobre Aquele Panda Velho.

Comiam felizes e cansados, quando Allen e Anny apareceram, esfolados e cheios de curativos. Até que algum General chegasse, os Exorcistas restantes da Ordem se revezavam no treinamento da garota. A situação se tranformou numa cena tão caseira e aconchegante que parecia até difícil de acreditar que em meio a Guerra Santa seus soldados ainda tivessem chances como essas.

– Mas como vocês vieram parar aqui? — a pergunta veio da ponta da mesa, onde Anny comia sorvete.

Em sua cabeça, não podia deixar de estranhar tanta camaradagem entre pessoas tão diferentes. Se perguntava há quanto tempo estavam juntos e por quantas coisas haviam passado para poderem alcaçar um momento como esse. Encheu outra colher de sorvete, esperando alguma reação além da troca de olhar confusa que os exorcistas tiveram. No fim, as hitórias foram se misturando.

Lenalee tinha sido a primeira dali, mas sua versão era curta. Não tinha nada demais ali, só uma menina que desde muito cedo se viu forçada a caminhar com o peso da innocence em seus passos.

As versões de Lavi e Krory foi se sobrepondo, pois Krory queria por mais detalhes sobre como sentia falta de Elliade enquanto Lavi tentava desviar de todas as perguntas sobre como era a vida antes de entrar para Ordem. Allen mais fazia caretas a toda e qualquer menção sobre seu passado com o Mestre do que contava alguma coisa que prestasse...

– E o da franjinha? Ele não gosta tanto assim de vocês, né? — Todos olharam para onde apontava, do outro lado do refeitório. Lá estava Yu Kanda, comendo soba quente. Ignorando os olhares em cima de si, o sorriso de Lavi e a careta emburrada de Allen.

– Oh, é mesmo... Kanda já estava quando cheguei aqui! — Lenalee anunciou, a expressão pensativa. — Mas só descobri isso depois que passei a andar pelos corredores... — A voz do ruivo logo ecoou pelo refeitório, em um “OOH! YUUU~” sonoro paralelo a fala da chinesa; ele balançou o braço e indicou um lugar vago pro nada.

Kanda permanecia de olhos fechados comendo soba.

– Qual tipo de passado ele tem? Nenhum, né! Do jeito que é antissocial ninguém nunca deve ter chegado muito perto! — Anny soltou, os braços cruzados. Qual é, Kanda podia colaborar uma vez na vida!

O clima repentinamente fechou. Krory comentou, alheio ao ar pesado, que Kanda era um bom Exorcista. Lavi deu um riso meio murcho, quebrado, como quem sabe de alguma coisa, mas não sabe tanto assim. Allen pensou que, bom, Anny conseguira ser cruel com o comentário...

– Anny... — Lenalee soltou, repreendendo-a com o tom – Kanda não é tão distante assim, certo? — e sorriu, meiga, querendo defender o amigo sem expor muitos detalhes.

– Então como ele é? Pra mim aquele viadinho lá – aponta pro espadachim, que a encara com um olhar cortante – só está aqui para servir de comedor para esse outro viadinho aqui! — e finaliza, indicando Allen. Krory não entendeu, Lenalee arregalou os olhos e Lavi riu, de novo, num desinteresse por reagir de forma diferente. Anny era uma peste.

– Uma peste que definitivamente irritava Yu Kanda mais do que Lavi o chamando pelo primeiro nome.

Em uma questão de milésimos o refeitório foi atravessado. As vestes da garota subiram, junto dela, em direção ao rosto furioso do espadachim. As expressões se chocaram, ela tão irritada quanto ele.

– Diga se tem coragem. — a voz do moreno dançou entre os Finders presentes, fazendo-os levantar. Lenalee, Lavi e Krory fizeram o mesmo, enquanto Allen continuava com a bochecha apoiado numa mão conforme a outra balançava num movimento afirmativo. “Vá, mate logo essa coisinha inútil, vá.”

– OE ALLEN! NÃO VAI DEFENDER A ANNY? — Lavi logo reclamou, puxando-o para cima pela gola do traje. O albino suspirou e se deixou levantar.

– Kanda, bota Anny no chão! Mooh... — Lenalee foi a primeira, como sempre, a expressar alguma preocupação real com a situação. Ela abriu os braços e ficou esperando, a cara levemente fechada, numa ameaça muda pro moreno. — Me dá, ok? Não precisa de tanto!

Kanda deixou a garota de qualquer jeito nos braços da chinesa, soltando um “tsc” audível. Anny reclamava visivelmente enquanto Lavi puxava o moreno para perto de si. Todos se sentaram – inclusive o espadachim. Alguns contrariados, outros entediados. Enfim.

– Confessa logo que você já dormiu com o Moyashi! — e Anny soltou.

Que vida desgracenta, essa.

Krory ficou vermelhinho, murmurando “Elliade” no canto. Lavi se engasgou com o suco e desatou a rir, com a mão na barriga e a cabeça pra trás. Kanda foi segurado pelo Allen, que soltava coisas como “Deixa, vou pensar numa vingança melhor”, mas ninguém esperava a resposta inocente de Lenalee.

– Eu já dormi com Kanda.

– QUÊEEEEEEEEEEEEEE? — até Jerry meteu a cabeça pelo espaço dos pedidos, repentinamente atônito. Anny ficou vermelha como um pimentão e os Finders olhavam petrificados. Lavi e Allen, chocados demais para falar alguma coisa, alternavam o olhar entre a chinesa e o japonês.

– C-c-com-o a-assim Lenalee...? — Anny foi a primeira a perguntar. Ora, ora, aqui temos a pervertida mirim envergonhada? TimCampy, registre isso!

A chinesa sorriu, alheia as interpretações dúbias da frase anterior. Kanda permanecia calado como um túmulo, uma áurea negra densa exalando de si.

– Toda vez que os Corvos me assustavam eu corria pro quarto dele! — a mulher riu, agraciada com as lembranças. Kanda fora o primeiro amigo Exorcista, mas logo veio Suman, Daisya, Marie... E então sua vida mudara completamente – A gente às vezes perdia o sono, então eu pegava livros na Divisão e ficava lendo de baixo das cobertas enquanto ele meditava até dormir. Nee, Kanda, você lembra daquela vez que o Reever pegou a gente no banh-

– Lembro. — o moreno cortou, querendo evitar problemas. Jerry sorriu durante o monólogo de Lenalee, voltando a trabalhar. Os Finders exclamaram frases como “Ah, era isso” e Anny disfarçou a própria timidez.

– Pegaram vocês aonde? — Lavi perguntou, mastigando um pão.

– No banheiro~ Kanda sempre rouba minhas fitas do cabelo, né? Ele pegou o hábito nesse dia, quando eu amarrei o dele. — um burburinho de entendimento tomou contra a mesa deles. Exceto por um Exorcista albino, amaldiçoado e pupilo de Cross Marian.

Com o olhar perdido, ele mal prestava atenção enquanto Lenalee continuava desfiando fato constrangedor atrás de fato mais constrangedor ainda. Na verdade, não tinha nada o que estranhar ali, né? Era normal que Kanda tivesse um passado.

Quer dizer, todo ser humano tem um passado, uma infância. Eles não podem simplesmente sair de buracos no chão, não é? Mas mesmo assim, só a ideia de um Kanda criança... Um Kanda sorrindo sem sarcasmo no canto do lábio? Um Kanda pequeno e de rosto redondo sem expressão emburrada e espada na mão? Um Kanda perguntando de onde vem os bêbes? Não, não, isso era pedir demais de Allen Walker.

– Mas pera, o Kanda também veio da China?

As palavras saíram de sua boca meio que sem querer, meio que planejadas. Depois de muita prática roubando e fingindo, certas coisas se tornam mais automáticas do que deveriam.

– Não.

– É, ''Kanda'' não é bem um nome chinês — Lenalee completou, disposta a continuar a conversação.

– Soa mais japonês. Se bem que você não veio do Japão né, Kanda? — Não precisava ser Bookman para saber que o Japão já há muito não era habitado por nada senão Akumas.

Kanda apenas estalou a língua, sem expressar uma mínima vontade de articular a resposta. Não faria sentido algum explicar que sim, ele era japonês, mas de uma época que o Japão ainda não pertencia ao Conde.

Ninguém ali era idiota e com exceção de Anny, logo perceberiam a incompatibilidade de idades. Teria que explicar que era resultado de uma experiência tosca. Então, Lenalee ia começar a chorar e balbuciar coisas estranhas sobre as experiências com Primeiros Exorcistas e... Bom, não é como se ele quisesse realmente falar alguma coisa. Muito menos servir de arquivo ambulante para Bookmans.

Em situações normais tal atitude sequer seria mal interpretada. Na verdade não era sequer difícil ver Lenalee o defendendo, explicando que ele é assim mesmo. Até porque, por mais que a cena ali declarasse o contrário, não era só por estarem juntos que precisavam, devessem ou quisessem desnudar todos os seus problemas e traumas para os ''amigos''.

Anny não estava errada, há mais mentiras e menos confiança entre companheiros de guerra do que se gostaria e esse pequeno fato pode custar caro nas piores horas, mas naquele instante Allen subitamente entendeu cada uma das vezes que Lenalee gritara com ele, que se enfurecera por ele deixar de contar algo ou por simplesmente não ser capaz de não sorrir, cheio de gentileza e educação.

Ela o fazia porque queria confiar nele e queria que ele confiasse nela. Doia na chinesa a fria polidez de Allen assim como lhe cutucou o orgulho silencioso do espadachim. Ele confiava em Kanda como companheiro de manto. No campo de batalha.

Sabia que a Mugen estaria lá, ainda que não para o defender, sabia que eles jamais voltariam de uma missão fracassados ou sem terem dado seu máximo... Mas só isso já não bastava.

– Mas onde você morava antes de vir pra Ordem?

– Isso não interessa.

– Se não interessasse eu não estava perguntando.

– Allen...

– De todas as pessoas, não quero perder tempo falando de passado com alguém que chegou aqui amaldiçoado.

– Ah sim, porque você ''não aperta a mão de gente amaldiçoada'' né? Não esperava uma dose dessas de hipocrisia da sua parte. Espera, quer que eu te explique o que signifique hipocrisia?

– O Allen é amaldiçoado?

– Aaah, agora o Moyashi vai ficar dando lição. Não lembro de ter ouvido reclamação antes.

– Bom, não é como se você costumasse ouvir as pessoas em geral né, Kanda? Ou será que escuta, mas tem vergonha de dizer que não entendeu?

– CHEGA VOCÊS DOIS!

Chegaram a se assustador, os dois pares de olhos – vário pares – virados para Lenalee que se levantara batendo na mesa.

– Mas que coisa! Vocês estavam se dando tão bem esses dias e agora vão ficar nessa besteira por uma coisa tão boba! Ninguém liga pro passado, o que importa é que estamos aqui juntos!

Kanda também se levantou. Pegou seu prato e saiu do refeitório, ignorando a voz de Lenalee que soava particularmente irritante em seus ouvidos. Desconfortável, Allen pediu licença e se levantou também. Pediu desculpas a Lenalee. Ela não tinha que ficar passando por esse tipo de coisa. Ninguém tinha.

A meio caminho de qualquer longe dali, ele parou. TimCampy o olhava – sem olhos, mas olhava – curioso para Allen, ali de pé no meio de um corredor.

Não queria ter que admitir isso.

Não queria ter que admitir isso em relação a Kanda.

Não queria ter que admitir principalmente por ser o Kanda

... Mas talvez tivesse sido insensível.

Olha, antes que isso fosse interpretado de maneira errada queria dizer que ele não se sentia assim por sentimentos de amizade ou compaixão. Kanda não precisava dessas coisas! Na verdade, se alguém começasse a tratá-lo com algo do gênero, era capaz de acabar com metade dos membros com os quais tinha começado.

A verdade é que por mais que por fora parecessem diferentes, se alguém conseguisse olhar um pouco atrás da máscara ou além da tatuagem, logo notaria que os dois eram desnecessariamente parecidos.

Por isso se odiavam, se entendiam, brigavam e quase se matavam. Mas também, era por isso que Allen conseguia aceitar que Kanda devesse ter algo ou alguém em seu passado que não quisesse mencionar. Tanto mais por ele mesmo não ser também um exemplo de confiança e transparência nesse assunto.

Virou sobre os próprios passos, TimCampy se assustando sobre sua cabeça.

Argh, que saco.

Bateu na porta, como pedia o mínimo de educação. E como Kanda não parecia ter nem isso, a esmurrou de leve.

Logo só estava a espancando mesmo.

Kanda tinha essa capacidade de tirá-lo de dentro da carcaça de bom moço.

Se aquele fosse o quarto de qualquer outra pessoa, não teria feito o que fez. Mas, nah, era o quarto daquele Bakanda que NÃO ESTAVA LHE RESPONDENDO.

Enfim, simplesmente girou a maçaneta e abriu o raio da porta. Uma janela com vidro quebrado. Uma cama arrumada, porém vazia. Um gancho esquecido numa parede num canto. Um chão surpreendentemente limpo, mas sem graça.

Um quarto vazio.

Bateu no próprio rosto, fazendo Tim levantar vôo – ele não gostava quando Allen ficava irriquieto assim.

Duh. Claro, afinal de contas, desde quando o primeiro lugar onde se iria para procurar um Exorcista seria seu próprio quarto? Quer dizer, com exceção de Lavi e do Bookman, que normalmente estavam no quarto soterrados entre livros e documentos, claro.

Fechou a porta do quarto, pensativo. Foi descendo as escadas, passando antes pela Divisão de Ciências.

E lá estava ele. Sozinho, as calças sujas da areia sobre a qual se erguia. Os cabelos rigidamente presos não impediam uma gota de suor que lhe descia pela nuca. Na mão fechada, o cabo de uma espada de madeira, com a qual destruira vários alvos que jaziam a seus pés. A respiração acelerada estava longe de ser descompassada, usava o ritmo acelerado que movia os músculos do tronco envolto na regata negra ao próprio favor.

E Allen ali, encarando na maior cara dura, segurando um saquinho cheio de areia em uma das mãos.

Ver o saquinho (ideia do Jhonny, para deixar os treinos mais interessantes, principalmente entre Finders, para os quais se esquivar das balas dos Akumas era particularmente importante) estourando na cabeça de Kanda, tingindo o rabo-de-cavalo com um vermelho escorrido foi particularmente satisfatório.

Ah. Se sentia bem melhor.

– Distraído, Kanda?

O espadachim olhou para a própria mão, agora também vermelha depois de a passar pelos cabelos peguentos e olhou para aquele maldito Moyashi abusado com aquele sorrisinho estúpido na cara.

– Acordou com vontade de morrer, é?

– Oooh, que cara assustadora – Allen descia os degraus (recém reformados) jogando um segundo saquinho para cima e para baixo, a espada segura de qualquer jeito na outra mão — tá sujo ai.

– Tsc, bem sua cara mesmo esse tipinho de jogo sujo.

Literalmente sujo, desta vez. Mas Allen não se deixou que seu sorriso de jogatina fosse abalado pela cara feia de Kanda, cheia de areia. Desceu até a arena de treinamento de areia. Há, quantas lembranças já não tinham criado ali...

– Oh, o Moyashi está me desafiando? Sabe que não tem como ganhar de mim na espada.

– Quer apostar?

Notas finais
Bastidores da Fic e Reações ao Capítulo Novo de DGM! K: ... Não tem notas dessa vez... Só você me mandando escrever logo e eu enrolando para escrever... A: Pode falar sobre o capítulo novo de DGM. Na verdade, se for considerar desde o começo, tem bastante coisa. K: Tipo? A: Tem Devil, os Sisos, Lokassena, 50%off, Love Stage, Dubladores sem Voz Sexy, Yugioh.. ~~Indo na ordem~~ A: A Road está tão fofinha. Ah, eu gostava daquele Noah. Haha, o Wisely. Nossa, que abraço longo~~ K: MANDA ESSE MANGA DEVOLTA PRO HIATUS DE ONDE ELE SAIU. EU ESTAVA MELHOR SEM ESSE CAPÍTULO. ISSO ERA MESMO NECESSÁRIO??? (Os comentários sobre Devil – alguma coisa do Super Junior – não serão inclusos porque são infinitos comentários aleatórios feitos ao longo de vários dias. Mas, até onde eu entendi, só o DongHae fez certo) A: E Tanzaku? K: Achei que eu poderia usar o fato de você ter acabado de fazer uma cirurgia dental pra ganhar mais tempo... ~~mais tarde no mesmo dia~~ K: Você me deu uma ideia. Eles não vão mais conversar. A: Vão se bater e se pegar? K: Se bater. K: Eu não consigo me concentrar. Toda vez que olho essa cena do Allen olhando o Kanda eu lembro de uma cena do 50% Off... (''look at him.. All sweaty... Working hard... They dont even know I am watching him... Yeaaah *som de zíper de calça se abrindo*”) A: Sua estúpida. (Love Stage e Dubladores sem Voz Sexy não serão inclusos por motivos de irrelevancia, mas gostaria dizer que o dublador do Izumi é o mesmo do Nagisa e o do Rei é o mesmo do Rei e-) Obs.: o estabilizador da Amarulla queimou, ela tá postando o cap de um jeito bem desconfortável, cheia de sangue na boca e *drama queen* n Não está revisado, mas ainda assim, amem-na. Obs2: note que Allen chama Kanda de hipócrita por já ter passado várias mãos bobas nele e ainda assim, vir com esse papinho de não tocar em amaldiçoados. Mais alguém, além de mim, queria que alguém perguntasse ao Allen pq Kanda é hipócrita? o/ Obs3: essa fanfic é away. Fazer o quê *dá de ombros* Obs4: alguém gosta de dançar, assim, por acaso?