Tanzaku
15 A Décima Quarta Noite
Notas iniciais
– E é isso, Kanda. Pode tirar as calças.
– Eu não vou tirar nada, você está jogando sujo — só pra variar — Moyashi incompetente.
– Kanda, Kanda, não seja um mau perdedor. Você apostou, eu ganhei, agora pode tirar.
– Vamos ver se esse seu sorriso idiota continua quando eu partir sua cara no meio!
– Aaah, eu já te expliquei as regras váaarias vezes e você AINDA não entendeu que não tem ESPADAS no jogo Kanda? O quão BURRO você consegue ser?
– Allen, desativa essa innocence antes que o Komui veja!
E aí você pensa: cadê progresso? Tantas coisas, acontecimentos, fatos, cenas e tudo o mais que havia acontecido desde aquela cama que haviam – cahãm, Kanda havia — destruído e, agora parecia ter ido tudo por água abaixo.
Ou você pode lembrar que Kanda precisou de três rodadas – nas quais tiraram o manto, a blusa e os sapatos — antes de perder a paciência e acreditar que na verdade a relação deles está evoluindo sim.
Bônus que você poderia ignorar que aquilo tudo tinha sido – adivinha – culpa do Lavi, alfinetando os dois, querendo ver como eles resolveriam uma situação de estresse depois de serem expressamente proibidos pelo Komui de treinarem dentro da Ordem (ainda estavam tentando reparar os danos causados por Anny e Kanda) e acreditar na versão que Anny berrava sobre Allen arranjar desculpas para ver Kanda sem roupa.
Aproveita e esquece o contexto. Tira Lavi, tira Anny, tira poker, só foque em Allen e Kanda rolando pelo chão, Allen tentando arrancar as calças de Kanda enquanto se defende com a Crown Clown das investidas da Mugen...
E tente ignorar uma mesa voadora de boina que caiu no meio da cena e começou a jogar água nos dois para separá-los.
Palavras não bastam para descrever a raiva de Kanda, encharcado e humilhado por uma mesa voadora – uma Mesa. Voadora. Daquelas de três pernas nas quais uma avó colocaria um pano rendado e um vaso de violetas, a qual não parou de espirrar água fria enquanto todo contato entre a pele dos dois não fosse cessado.
E você pergunta: cadê Mugen?
Há certas coisas contra as quais a innocence é irritantemente inútil e os Exorcistas meio que já sabem disso por pura e infeliz experiência. Metade delas sai da Divisão de Ciências sendo que, dessa fatia, dois terços tem um braço inteiro de Komui no meio.
– Alvos identificados. Yu Kanda. Posto: Exorcista. Allen Walker. Posto: Exorcista. Análise: Comportamento Indecoroso.
– Mas que por...
– Solução: Castrar o dominante, Yu Kanda.
Antes que Allen sequer pudesse reclamar sobre essa história de dominante, as palavras caíram de volta pela boca aberta diante do serrote que a Mesa segurava.
Tudo aconteceu muito devagar.
A Mesa se aproximava, lentamente, dizendo palavras de encorajamento numa versão robótica da voz do Supervisor, falando sobre como era possível levar uma vida normal e com plena funcionalidade fisiológica mesmo após o castramento.
Então, Allen sentiu as mãos de Kanda agarrando seu braço. Fortes, firmes e frias. Precisas. Tocaram sua pele com força, decididas.
E aí seus olhos se perderam nas costas desnudas de Kanda, os músculos se flexionando enquanto ele tomava distância, a Mugen firme em seu punho. Sua mente estava confusa com aquela visão... Afinal, ele estava de ponta-cabeça.
O MALDITO O TINHA ARREMESSADO EM DIREÇÃO A KOMU-MESA!
Kanda ignorou os gritos de protesto de Allen. Sinceramente, esse Komui, viu.
Pensar na segurança de Allen? No bem estar dele? Se o corpo ainda estaria inteiro para necessidades e utilidades futuras? Nah.
Além disso, ainda na base de ver o que se quer, pode-se forçar o fato de Kanda estar aceitando mais e mais Allen e seu jeito de ser, chegando até a incorporar suas técnicas de jogo sujo em trapaça no seu próprio estilo de luta.
Admirável, admirável.
Kanda ajustou a espada em suas mãos, tomando posição de ataque.
– O que você está fazendo? Não, nem pense nisso! Kanda! Kaaanda!
A mesa podia até ser à prova de Exorcistas, mas era fato que ela estava com uma boa parte de seus braços enroladas no corpo de Allen e tentando imobilizar as garras da Crown Clown.
Não se sobrevive tantos anos como Exorcista sem ter um pouco de planejamento. E instintos animais. E um fator de regeneração demoníaco e tals.
Detalhe à parte, Kanda investiu direto contra a mesa.
A má notícia é que Kanda é horrível em matemática e Komui é um mestre em desafiar a lógica e, portanto, ainda tinham braços suficientes dentro da área daquela mesa para agarrarem a Mugen.
A boa é que a mesa foi profundamente danificada antes de conseguir parar o ataque da Mugen.
Mas a outra má noticia é que, com boa parte dos seus circuitos danificados, a mesa estava meio confusa.
A pior é que, confusa, ela resolveu só enfiar a injeção em o que quer que estivesse segurando.
Agora, é um ótimo momento para lembrar-se do contexto, do contrário fica meio esquisito ver uma torre de fogo subindo, enorme e enlouquecida com as chamas lambendo o teto da Ordem, onde antes estava a KomuMesa.
Porque Lavi, apesar da cena estranha, ainda estava lá, né. Fazendo uma torcida meia-boca pro Allen tirar logo a calça do Kanda – sem segundas intenções, CLARO, ele só gostava de irritar Yu mesmo. E era particularmente bom nisso.
Quando a mesa apareceu ele pensou em fugir. Nenhum Exorcista gosta de ficar por perto de qualquer coisa com boina, mas né. O Allen estava em perigo e tudo o mais. Se fosse só o Kanda, ele estaria tirando fotos, maaaas...
E cadê o Allen, você deve se perguntar.
Virou churrasquinho, mais uma trágica baixa em meio à terrível Guerra Santa.
Bom, pelo menos isso era mais plausível do que a realidade, na qual ele repousava nos braços fortes de seu galante salvador: Yu Kanda.
Lavi realmente deveria estar tirando fotos. Não é sempre que se tem o privilégio de ver uma cena tão romântica (patética) assim.
Insira flores e corações ao redor de Kanda, que segurava Allen no melhor estilo princesa, ainda que torto.
Bem torto.
– Yuuuu! Você salvou o Allen de um tórrido final!
– SALVOU PORCARIA ALGUMA ELE-
– Um fraco desses, se não tivesse sempre alguém salvando, já tinha morrido há muito tempo...
– VOCÊ QUASE ME MATOU, BABAKANDA! QUERIA QUE EU FOSSE CASTRADO?
– PARA DE GRITAR NO MEU OUVIDO SE NÃO EU TE JOGO NO CHÃO!
… Em seu cantinho desconfortável de personagem secundário daquela cena, Lavi, apoiado em seu martelo que agora já assumira um tamanho mais razoável, se perguntava o porquê de Kanda AINDA não ter jogado Allen no chão.
Claro, ele estava anestesiado por conta da injeção da KomuMesa, mas desde quando Yu liga pra isso? Desde quando Yu Kanda liga pra alguma coisa? Onde ele podia arranjar uma câmera? Cadê o TimCampy quando se precisa?
– Ahhh, que bonitinho, estão indo pra lua de mel, seus bichas?
Falando em cantinho de personagem secundário, Anny ainda estava lá. E, preso em suas mãos, Tim.
Lavi sorria por dentro — e por fora — em saber que aquele momento estava eternizado. Suas mãos já estavam a meio caminho de recuperar o Golem dourado quando se viu ocupado em segurar outras coisas.
E lá se vai a magia, com Kanda jogando Allen no Lavi. Bom, pelo menos não foi no chão.
– Joga não que depois eu não te devolvo hein~ — Lavi cantarolava, ajudando Allen a se ajeitar. Da cintura pra baixo ele não sentia praticamente nada, mas ainda dava pra ficar de pé.
Já passara por coisa pior quando estava com o Mestre.
– Por que raios o Komui fez isso?
– Deve ser porque o Kanda aí ficou se jogando em cima da Lenalee... Mais um sistema de defesa esquisito... – E Lavi respondeu, com um quase biquinho nos lábios.
– Como assim se jogando em cima da Lenalee? Kanda, o que você fez?! – Allen aumentou o tom de voz, alarmado.
Kanda apenas estalou a língua, virando as costas com a Mugen sobre o ombro, fazendo sua retirada dramática enquanto Allen praguejava.
Moyashi escandaloso.
– Vem, Allen, vamos ver se alguém da Divisão de Ciências tem um antídoto. – o ruivo voltou a comentar, indicando o caminho.
– Pelo menos ninguém cortou seu pau fora, ainda dá pra se divertir com teu homem... Se bem que eu não acho que seja VOCÊ quem vai usar. — Anny, secundariamente esquecida, retornou das cinzas alfinetando ninguém, ninguém menos, que o albino.
– Mas gente, de que buraco você saiu menina? Que boca mais suja! Ei, ei, tá me seguindo por quê? – e Lavi, chocado, respondeu no lugar do certo Exorcista branco.
Anny deu de ombros, os olhos fixos na bolinha amarela que se enfiara dentro da roupa de Allen, receosa e cheia de pequenos traumas.
– Te ajudar, vai que não consegue segurar a princesinha aí?
A quem estranhar a falta de resposta de Allen, é preciso mais contexto. Não, ele não estava aceitando passividade em relação à Kanda, nem aceitando ser chamado de princesinha.
Sinceramente, não estava nem ouvindo a discussão cheia de duplo sentido sobre tensão sexual alheia entre Anny e Lavi. Ele estava distraído. Estava preocupado, na verdade. Não era a primeira, segunda e nem a terceira vez que ele era vítima de um dos planos loucos do Supervisor mas... Ainda assim...
Fora fácil demais...
Enquanto isso, em um lugar nem tão distante dali...
– Lenalee! Ajude seu irmãozinho! Socorro!
– Maninho... Dessa vez, acho que você merece...
Com as DarkBoots ativadas, Lenalee Lee assistia do topo de uma estante enquanto meia dúzia de KomuMesas prendiam seu irmão numa gigantesca mesa cirúrgica, cantarolando enquanto o preparavam para a operação.
Fale com o autor