Tanise
2 Capítulo 2: A Verdadeira Família.
TANISE – Capítulo 2
Os campos estavam frios. Meu cabelo voava ao redor de meu rosto e cobria os meus olhos. No entanto, meus olhos não estavam abertos. Eles estavam fechados. Fechados para a escuridão de minha própria desonra. Estávamos todos em seu enterro. Estávamos lamentando sua perda. Minha mãe chorava. Meus irmãos mais novos também sofriam por dentro, embora estivessem sempre em silêncio. No entanto, Takashi não chorava. Ele continuava a me encarar, continuava a me olhar. Ele conversaria comigo logo e eu não gostaria disso. Não gostaria do que ele me falaria.
{...}
Eu me distanciei daquelas pessoas. Fiquei debaixo de uma árvore. A árvore de Sakura. Meu pai me levava sempre ali quando eu estava com raiva ou irritada. Ele me fazia meditar até eu me acalmar. Realmente, viver sem ele daqui para frente seria completamente difícil.
Eu tentei ouvi-lo. Ouvi-lo por uma última vez. Tentei sentir a sua energia, abrindo minhas mãos para meditar. No entanto, nem sua energia era possível sentir mais. A morte realmente significava a quebra de tudo. Significava a quebra de conexão, e do tempo. Ele não existia mais. Ele agora havia sido engolido pela solidão das memórias que a cada dia que passasse, iria ficando para trás. Eu precisava seguir em frente. Precisava seguir em frente e esquecê-lo. Assim era como uma guerreira deveria pensar. Ele havia feito o seu sacrifício. Ele havia dado a sua vida para aprisionar Karatsu. Ele havia salvado todo o vale de Trioto. Estávamos seguros. Bem... era isso o que eu pensava.
{...}
A Tarde já se aproximava finalmente. Eu olhei para o céu e fiquei contente em ver o sol brilhando para mim. Estava frio. Olhei para as montanhas ao longe e desejei estar em alguma delas. Desejei sair de perto de todas as pessoas daquele vale e meditar durante anos e mais anos. Eu queria ficar mais forte por dentro. Meu Chi precisava estar intacto. Ele precisava se fortificar. Ameaças iguais aquela viriam em breve e eu teria que me preparar de corpo e alma.
Cheguei na primeira rua do vale. Naquele momento, senti uma coisa acertar meu pescoço. A dor foi extremamente forte. Quando coloquei a mão no local, eu vi sangue. Uma pedra havia me acertado. Me abaixei e peguei a pedra. Então, surpresa, olhei alguns lados da vila e avistei eles. Os moradores. Eles começaram a me apedrejar.
— Parem! O que estão fazendo? – Tentei me defender, colocando a minha mão na frente de meu rosto.
— Sua traidora imunda! Você desonrou a sua família! Nos desonrou!!! Você foi a guerra!
A dor estava forte. As pedras continuavam a serem jogadas em mim com força. Tudo o que eu queria era entrar em casa e me livrar daquela dor maldita.
— Cuidem de suas malditas vidas, seus desgraçados! – Gritei.
Uma menina de dez anos chegou perto de mim. Eu parei naquele mesmo instante. Olhei bem em seus olhos. Ela então disse:
— Vadia traidora! – Em seguida, ela me tacou uma forte pedra na direção de minha coluna que me tirou sangue.
Naquele momento, eu me enfureci. Lágrimas escorreram de meus olhos. Eles estavam me julgando sem me conhecerem? Sem saberem da verdadeira história? Eu havia salvado aqueles filhos da puta. Eu havia dado a eles a oportunidade de viverem o amanhã. O custo que eu tive que pagar foi caro. Eu tive que sacrificar meu pai para prender o maldito Karatsu no talismã da vida. Naquele momento, peguei a menina pelos braços e a empurrei no chão com força. Em seguida, corri em direção a minha casa. Eu precisava do apoio de minha família. Eles não iriam virar as costas para mim em um momento como aquele.
{...}
Abri a porta de minha casa. Quando eu fui surpreendida por uma forte bofetada em meu rosto. Senti todo meu corpo arder. Eu não aguentei e cai no chão. Fiquei zonza. Não entendi o que havia acontecido. Até que vi ela. Minha mãe. Minha própria mãe havia me agredido.
— Eu preferia a sua morte do que ver você desonrada!
— Mãe! Por favor! Não a senhora!
— Eu te avisei, Tanise!!! – Tsukushi estava ao lado dela. – Eu avisei que você iria destruir tudo. E você destruiu. Não sabe que uma mulher não pode lutar no campo de batalha? Olhe o que isso causou a todos da vila! Nosso pai está morto por sua causa.
— Eu não tive culpa, Tsukushi. O Maldito do Mestre Takashi...
— Ainda está querendo colocar culpa no Mestre? Ele nos disse que você nunca foi fácil de controlar, mas agora, temos certeza.
Aqui estava sendo um pesadelo. Essa era a única explicação. Minha família. Minha própria família estava me tratando como uma animal. Estavam me batendo e me expulsando de suas vidas como se eu não me importasse. Depois de todo o sacrifício que eu havia feito para aqueles ingratos, era muita falta de humanidade fazerem aquilo comigo.
— Querem saber? Eu cansei de vocês. Não me importo... eu... eu não me importo para o que vocês pensam. Eu não preciso de vocês. E sabem por que? Porquê eu fui mais do que qualquer uma mulher daqui dessa vila maldita e fui mais brava do que um homem daqui. Eu provei minha força. Eu provei minha bravura. Eu tenho orgulho de mim. Por isso, eu seguirei meu caminho. O mundo é enorme e com certeza, eu conseguirei achar um lugar onde eu me encaixo.
— Isso não vai acontecer, irmã. – Disse Tsukushi.
— Como?
— O Shogun ficou sabendo de você. Todos no império sabem sobre você. Ele nos propôs um acordo... e resolvemos aceitar. – Minha mãe disse aquilo com uma frieza na alma e no olhar. Oh céus. Onde eu havia parado? Em um inferno?
— Que tipo de acordo?! – Fuzilei minha mãe com o olhar. Eu queria arrancar a verdade dela. Mais do que estava escondida em sua alma podre.
— O Imperador Shao Gio, nos prometeu redenção. Ao nosso nome e ao nosso legado. Essa vergonha, será deixada de lado... agora que você será sua esposa.
Meu olhar se elevou na mais profunda agonia de meu peito.
— Como?
— Você agora não pertence mais a nós, Tanise. – Disse ela. – Pertence ao seu imperador. Pertence ao seu marido. Os seus homens virão amanhã mesmo para buscá-la. Você será levada para a capital do Império. Irá morar em seu palácio.
— Eu não pertenço a ninguém, sua vadia! Eu pertenço apenas a mim mesma.
Então, aquela mulher horrível que eu não me atrevo mais a chamá-la de mãe, tentou me bater mais uma vez. No entanto, dessa vez, meus reflexos foram rápidos. Segurei em sua mão e a encarei fortemente no olhar e disse:
— Nunca mais, em sua vida, Irá encostar um dedo em mim, me ouviu?
— Não há para onde fugir, Tanise. Os guardas de Shao Gio são muitos. Eles te encontrarão. Não durará essa noite. Eles possuem habilidades que nenhum outro homem possui. São chamados de Vigilantes Noturnos. São essenciais para encontrarem fugitivos. Aceite o seu destino.
Naquele momento, eu desejei não existir mais. Desejei destruir minha vida ali mesmo. O que iria acontecer comigo? O que iria ser de mim de agora em diante? Eu seria uma prisioneira. Eu seria uma prisioneira do ser mais repugnante da terra. Shao Gio.
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