Tango Soviético
1 Capítulo Único
Quantas palavras, quantas garrafas
são necessárias para se fazer emanar,
da garganta,
um rouco grito de amor?
E quantas noites, quantas luas
ouviram os seus lamentos,
seus pedidos por alento,
estrelas, amigas suas?
O uísque ardia na garganta.
A dor pulsante na cabeça.
Confusas palavras, no
coração de um amador
na dura arte
que é o amor.
Em meio ao frio,
de bolso vazio.
A vida é injusta.
"Amor" — quanto custa?
Desceu a rua, meio manco.
O coração batendo,
pulsando, dançando.
Graciosamente solavancando
Na doce ventania
da incerteza na noite,
da leveza no açoite
que é o amar.
Abriu as portas do bar
de calor laranja
e arrumou a franja
para vê-la passar.
Rezou baixinho pra que ela virasse,
pra poder ver aquele verde de novo;
e achou que estava louco
quando contemplou aquela face.
Primaveras floresceram seu coração,
uma reles pedra de gelo
na palma de sua fria mão,
que jogou de lado o medo.
O Verão ainda vivia nos verdes olhos
da menina que só em seus sonhos vivia.
Sonhos velhos de uma amizade
que ficou pra trás na saudade.
E ela vem balançando, dançando,
sorrindo, como se não acreditasse
em seu destino, no que o passado lhe trazia,
na noite que se fazia.
Os minutos passavam, a noite caía.
Saíram os dois sorrindo e rindo
de aventuras, de como era lindo
o mundo antes da Guerra Fria.
A neve caía devagar
como nos passos do casal,
ao mais leve bailar
no confuso vendaval
do álcool, da euforia,
da paixão, da alegria.
Ao saírem das ruas, arrancaram seus casacos,
segurando-se próximos, num calor
tão estranho, ainda que tão familiar,
num tímido e inconsciente murmurar.
E naquela noite,
não havia Lua nem estrelas
Só tinham mesmo a si mesmos
na bela escuridão imperfeita.
Não havia palavras, pensamentos
nas ações, beijos lentos,
monossílabos como em lamentos
todos jogados ao vento.
Poucos dominam a linguagem do amor,
a linguagem do pavor,
linguagem do calor,
da dor, do sabor,
do valor, do pudor.
Pés tropeçantes e risadas infantes.
Tocaram-se, curiosos,
bebendo de seus semblantes
sorrisos luxuriosos.
E se amaram ao atrasado luar,
no suor e no sangue
que, os suspiros, tangem
durante a noite sufocante;
no tango de dois amantes
que não sabiam dançar.
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