Tandem Felix

10 Et inventum est in abscondito


Notas iniciais
Félix e Jayme começam uma conversa... Jéssica vê o que tem na gaveta dos talheres...

No restaurante, alguns clientes já haviam chegado e Niko os atendia quando Jéssica chegou. Olhou para o patrão e desviou o olhar. Estava mais estranha aquela manhã. Dirigiu-se ao balcão, mas Niko a interceptou.

– Ei, Jéssica, que houve? Por que chegou atrasada? Você está apenas no seu terceiro dia de trabalho!

– Eu... Sei, seu Niko... Desculpa... – Ela fungava entre as palavras, como alguém que está muito gripado ou chorou muito. Tinha os olhos avermelhados e estava pálida.

– Você está bem?

– Estou...

– Não parece!

– A-acho que tô meio resfriada...

– Resfriada? Isso parece uma gripe das fortes... Olha, se você estiver gripada não pode trabalhar hoje!

– Eu... Eu estou bem, seu Niko! – Porém, ao dar mais uns passos, Niko notou que ela parou como se estivesse tonta.

– Jéssica, você definitivamente não está bem! O que você tem?

– Nada...

– Se não quer dizer pra mim que sou seu chefe, não sei a quem vai dizer...

Ela, pela primeira vez desde que chegou, dirigiu o olhar para ele. – É... Eu tô bem mesmo, seu Niko! Isso é só uma enxaqueca que eu tenho! Licença... Eu vou me aprontar pra trabalhar! – Ela entrou rápido para a cozinha. Niko também não foi atrás, tinha clientes para atender. Ela vestiu o uniforme de chef, porém, ao voltar, mal deu dois passos que pareceu estar tonta. Niko foi até ela.

– Jéssica, você não está bem, é melhor ir embora!

– Eu... Eu acho que é gripe mesmo, seu Niko... Mas, eu queria trabalhar hoje...

– Não, criatura! Você trabalha com comida, uma pessoa gripada não pode estar numa cozinha de um restaurante! Olha, vai pra casa, hoje eu dou conta, se amanhã estiver melhor você vem, se não estiver você liga pra dizer que não vem e vai ver um médico...

– Tá bem, seu Niko... Eu vou! Eu vou, então, trocar essa roupa e pegar minha bolsa lá dentro...

– Vai! Você não está nada bem! – Niko achou muito estranho o jeito que ela estava e preferiu não questioná-la sobre a porta aberta do dia anterior.

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Em casa, Jayme saía do quarto apressado e foi até a varanda onde Félix estava observando Fabrício brincando no jardim. Jonathan estava com ele.

– Pai! Você foi ao meu quarto? – Perguntou Jayme.

Félix, pego de surpresa, resolveu ser sincero com o filho. – É... Eu?! E-eu fui! Fui sim, Jayme!

– Você... Você mexeu no meu casaco preto?

– No... Casaco? – Levou a mão ao bolso. – Mexi sim! Mexi e peguei o que estava no bolso! Pronto, falei!

– Pai! – Jayme ficou sem saber o que dizer. Félix e Jonathan notaram sua reação meio envergonhada e finalmente Félix tomou uma atitude. Levantou e chamou o filho do meio.

– Vem aqui, Jayme... Jonathan toma conta do Fabrício!

– Tá... – Jayme entrou e antes que Félix também fosse Jonathan interviu:

– Ei, pai... Pega leve com ele! Eu sei o que tinha no bolso desse casaco!

– Então foi sobre isso que vocês estavam de segredinhos?

– Não, pai... É sério! Pega leve! E se acalma, tá! Ele é só um garoto...

– Um garoto não guarda isso no bolso! – Mostrou discretamente.

– Pai! Lembra que eu dei pra você e pra minha mãe uma dessas quando eu tinha treze anos também! Ela entendeu, mas você fez essa cara de susto e depois nem ligou!

Félix pigarreou. – Sua mãe entendia muito desses assuntos né?! – Jonathan o olhou com uma cara de reprovação e ele logo fez sinal de silêncio para ele mesmo e respirou fundo. – Ok! Não falo mais! Estou bem, estou zen! Acho que estou nervoso mesmo é com essa conversinha que eu tenho que ter agora e sem o carneirinho presente! Eu mereço! – Entrou.

Lá fora, Jonathan ficou rindo. – Esse meu pai... Eu sabia que ele ia fazer essa cara! Ah, mas essa eu tenho que ver... Ei, Fabrício, vem cá, maninho! Vem ver o que eu trouxe! – Chamou o irmão para que ele não ficasse sozinho lá fora e entrou com ele.

Jayme e Félix estavam na cozinha e nenhum dos dois tomava a iniciativa de falar. Jonathan foi com Fabrício direto para o quarto. – Olha Fabrício, eu trouxe um monte de gibis...

– Papi Félix tá me ensinando a ler!

– Papi?! – Pensou: — Até isso ele aprendeu com meu pai! – Continuou: — É, eu sei, por isso eu trouxe esses pra você aprender mais! Fica aí vendo que eu venho já, tá!

O pequeno ficou lá com as revistinhas e Jonathan desceu para espiar a conversa. Parecia que Félix tinha perdido o medo da conversa e começado.

– Então, mocinho, vai me responder de onde isto surgiu? – Perguntava Félix a Jayme mostrando um preservativo que havia acabado de tirar do bolso.

– É... Pai...

– Responde, criatura! De onde isto saiu?

– Ora... De uma fábrica de camisinhas!

– Pelas contas do rosário, Jayme! Sem piadinhas, pode ser?!

Jayme riu. — Foi mal, pai... Foi o Jonathan que me disse pra falar isso se você perguntasse!

– Só podia ser... Tinha que ter dedo do Jonathan nessa história! Foi ele quem te deu isso?!

Jonathan olhava balançando a cabeça. Jayme respondeu sério:

– Não, pai! Nos deram na escola! Foi na aula especial de educação sexual! Foi no último dia de aula antes da gente entrar de férias! Eu ia entregar a você ou ao pai Niko, mas não deu tempo...

– Como não deu tempo, criatura?! Eu tô aqui o dia todo...

– Eu sei, mas... É que... Eu queria mais entregar ao pai Niko, e como ele tá com muito trabalho no restaurante...

Félix ficou com uma expressão triste. – Ah... É, mas... Por que não podia entregar pra mim mesmo, criatura?

Jayme baixou a cabeça, sério, e falou com sinceridade. – Ah pai Félix, é que... O pai Niko é quem sempre me tirou as dúvidas, respondeu o que eu queria saber...

– O carneirinho é mesmo muito paciente, muito sábio, mas... Filho, eu podia te responder também né?! Essas suas perguntas... Me diz, o que você quer saber, hein?!

O garoto levantou o olhar para o pai, mas ainda não parecia muito a vontade. Então, Jonathan interviu.

– É... Pai, Jayme, por que vocês não vão conversar no jardim, sei lá, ou lá na varanda?! Sabe... Ficar mais à vontade...

– Você estava ouvindo, Jonathan?

– Estava, ué!

– Pensei que você já tivesse esclarecido as dúvidas do seu irmão!

– Não, pai! Eu fui até onde poderia ir como irmão... Mas, tem coisas que acho que os pais devem falar... – Pegou nos ombros de Jayme, ficando os dois de frente para Félix.

Ele olhou para os filhos e ficou com os olhos marejados. Pigarreou e falou mostrando sensibilidade: — Jonathan, meu filho... Eu nunca tive uma conversa assim com você...

Jonathan sorriu. – Não importa, pai! O pouco que você me ensinou já foi muito! Lembra quando eu comecei a namorar a Ana e você queria me ensinar tudo e mais um pouco?! Valeu a pena! Agora, é a vez desse carinha aqui!

Félix sorriu com a compreensão do filho e olhou para Jayme, estendendo a mão para ele. – Vem... Vamos lá pra fora!

O garoto respirou fundo e pegou na mão do pai, e antes de os dois saírem, Félix virou para Jonathan de novo.

– Obrigado, filho!

– Imagina, pai... Vai lá! E, não se assusta não!

– Com que deveria me assustar?

– Com a curiosidade do meu irmãozinho! – Os irmãos piscaram um pra o outro.

– Sei... Só de você me dizer isso já quero correr... Socorro! O que me espera?! Bom, cuida do Fabrício... Aliás, cadê ele?

– Tá no meu quarto, eu trouxe umas revistinhas pra ele!

– Ok, cuida dele! Vamos, Jayme, eu vou responder tudo que você quiser saber... Ou não! Não sei...

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Quando Jéssica estava saindo, mexeu na maçaneta da porta do escritório e viu que estava trancada e assim deduziu que provavelmente o patrão percebera que ela não a trancou. Ficou mais nervosa querendo procurar uma explicação, mas sua cabeça doía demais pra ela pensar em qualquer coisa, então achou melhor ir mesmo embora como o patrão havia recomendado. Mesmo que a porta continuasse aberta como ela deixou, ela também estaria nervosa pelo que poderia vir a acontecer.

Assim que saiu da cozinha, parou perto ao balcão, pois Niko estava socorrendo um menininho que havia se engasgado. O pequeno chorava um pouco ainda assustado, mas já estava bem, pois o loiro havia prestado os primeiros socorros. Angélica começou a observar aquela cena, ficando emocionada com o jeito como Niko acalmava o menininho.

– Pronto, pronto, calma! Já passou! – Dizia o loiro com o menino no colo. A mãe do menino estava ao lado.

– Nossa! Muito obrigada! – Agradecia a mãe.

– De nada! Imagina... – Respondeu Niko.

– Que sorte que você sabia o que fazer... Eu não saberia!

– Aprendi primeiros socorros... É importante saber! E eu também tenho um filho dessa idade e é bom prestar atenção neles, porque ainda é difícil comerem algumas coisas sozinhos!

– Ah... Sei...

– Quando o meu bebê vem comer aqui eu prefiro que ele use um garfinho infantil, é melhor que tentar fazê-lo usar os hashis e acontecer algum acidente! Quer que eu pegue pra ele?

– Ah... Sim, por favor...

Niko olhou para o balcão e viu Jéssica lá perto, então pediu:

– Jéssica, antes de sair pega aí nessa última gaveta da direita um garfinho infantil pra esse rapazinho acabar de comer!

Ela demorou uns segundos para responder, olhando para o garotinho. – Ah, sim, seu Niko! Na gaveta do canto?

– É, nessa mesma! Tem um jogo de talheres aí, pega um desses garfinhos de criança!

Ela abriu a gaveta dos talheres e ao puxar notou que o fundo da gaveta se mexeu como se estivesse solto. Abriu mais e afastou a parte onde estavam os talheres, e levantou por um cantinho o fundo da gaveta pensando que estivesse apenas solto. Ao abrir aquela parte ficou surpresa com o que viu. — Quanto dinheiro! – Pensou.

Da mesa, Niko chamou: — Jéssica, que foi? Não achou?

– Ah, sim, sim achei, seu Niko! – Ela pegou um dos garfinhos que ele havia pedido e fechou a gaveta deixando tudo como estava.

– Aqui, seu Niko! – Entregou.

– Obrigado! – Deu o garfinho ao menino. – Pronto... Aqui, pequeno! Agora pode voltar a comer devagar né?! – O menininho confirmou com a cabeça e sorriu pra ele. – Oh que lindo! Qual seu nome?

– Miguel! – Respondeu com a vozinha infantil que lembrava a de Fabrício.

– Que nome lindo! Me diz, Miguel, o que você mais gosta de comer?

– Eu gosto do bolinho de arroz!

Niko sorriu. – Gosta? Meu filho também gosta, olha só! Pois eu vou fazer outro pra você, tá! Mas, cuidado pra não se engasgar de novo! Dá um beijo no tio Niko!

O pequeno deu um beijo na bochecha dele e ele o colocou de volta na cadeira. Naquele momento, Niko sentiu uma saudade enorme do seu pequeno Fabrício. Enquanto voltava ao balcão, pensava em quanto tempo já fazia que não preparava as coisas que ele mais gostava, que não brincava com ele, que nem mesmo o ouvia ir atrás dele lhe chamando de papi, como havia aprendido com Félix. Inclusive, pensava também no quanto seu bebê aprendia com o pai Félix e não aprendia com ele, pois não encontrava tempo para lhe dedicar.

Seus pensamentos foram interrompidos por Jéssica que avisou:

– Seu Niko, eu já vou embora, viu!

– Hã? Ah, sim Jéssica! Pode ir! Vê se melhora!

– Sim... Bom dia! – Saiu.

Niko, então, chamou o garçom. – Muito bem, Carlos, a Jéssica está meio adoentada e foi embora! Estou com a impressão de que hoje vamos ter correria aqui de novo!

Voltaram ao trabalho.

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Na varanda, Félix com seu humor costumeiro decidiu tornar as coisas um pouco mais divertidas. Mandou Jayme ficar na espreguiçadeira, como se ela fosse um divã, e ele sentou-se ao lado.

– Pronto, filho, faz de conta que eu sou um psicólogo e você meu paciente! Agora, espera... – Respirou profundamente. – Pronto! Já estou mais relaxado...

Jayme riu. – Pai... Geralmente quem tem que relaxar é o paciente não?!

– É... É sim! Mas, não nesse caso! Dependendo do que você queira me perguntar eu tomo até remédio tarja preta!

– Ai pai... – Jayme ria.

– Que é?! É sério isso... Onde já se viu passar de administrador a psicólogo num estalar de dedos?! Só eu, filho! E eu posso, porque eu sou eu, e como eu não há! Inteligência chegou nesse corpinho e fez morada!

Jayme ria ainda mais. – Ah pai... Você é muito inteligente mesmo, mas... Você vai responder mesmo qualquer coisa que eu perguntar?

– É... Vou né?! Estou aqui pra isso! Fazer o quê... Vamos, solta logo todas as bombas de uma vez! Estou preparado!

Jayme respirou fundo dessa vez. – É... Pai... Pra começar... Eu tenho uma dúvida...

– Sobre?

– Sobre você e o pai Niko!

– Sobre mim e o carneirinho... Que coisa! Como se eu não soubesse... Enfim, fala! Qual sua dúvida?

– Bom, na verdade... São várias, mas, primeiro eu queria saber uma coisa...

– O quê, hein? – Félix já estava receoso de novo.

– Você e o pai Niko já eram namorados desde quando você e a Márcia passaram o natal lá em casa?

– Hein?! É isso? Ah... Não, filho, não, nessa época nós éramos só amigos...

– É que o pai Niko já ficava todo contente só de falar em você...

– Ah, seu papi carneirinho é assim... – Félix sorriu pensando nele. – Se apaixonou por mim desde o primeiro dia que me viu! Não sou eu que falo, é ele mesmo que diz!

– Tá, mas... Quer dizer que quando nós passamos o réveillon na casa da vó Pilar vocês ainda não namoravam também?

– Não, filho... É... A gente se paquerava, tenho que admitir, rolava um clima, mas, eu não queria ceder aos encantos do seu papi Niko!

– Por quê? Como assim?

– É... Bom... O Niko já tinha me convidado pra... – Pigarreou. – Jantar... Várias vezes... Demonstrava sentir algo por mim... Mas, eu não queria ficar com ele...

– Por quê?

– Por que... – Suspirou. – Eu achava que não ia fazê-lo feliz!

– Mas, você já gostava dele?

Félix sorriu com um ar de tristeza. – Gostava... Mas... Acontece que eu não sabia como gostar de alguém...

– Como assim?

– Ah Jayme, eu... Eu nunca tinha gostado de ninguém de verdade até conhecer o Niko... Ele... Ele me mostrou o que é amor de verdade... – Com o olhar distante ele pensava em Niko. – Antes eu nunca tinha amado ninguém... E também achava que não merecia ser amado... Mas, aí o Niko apareceu e... Mudou minha vida! – Se emocionou nas últimas palavras.

– Dá pra ver que vocês se gostam muito!

Félix sorriu. – Nos gostamos sim! Ele é o amor da minha vida!

– Pai... E a mãe do Jonathan?

– O que tem aquilo? – Perguntou meio surpreso.

– Você amava ela?

– Não, filho, eu... Eu cheguei a pensar que amava, mas não... Nunca amei...

– Eu não entendo...

– O quê?

– Se você nunca gostou de mulher, porque se casou com ela?

– Ah filho... É uma história longa...

– Pai, eu sei que foi por causa do vô César! O Jonathan me contou um pouco... Que ele não te aceitava, que não queria te ver com outro homem, por isso te apresentou a mãe dele e você namorou ela só pra deixar o vô César feliz...

Félix engoliu seco e respirou. – Pois é... O que seu irmão contou é verdade... Mas, a verdade mesmo nessa história é que tudo que eu fiz não fez o papi feliz comigo... Por que... Por que a gente não pode mudar o que é, meu filho!

– É aí que eu fico confuso... Se a gente não pode mudar o que é, como que você mudou? Assim... Como que conseguiu viver com uma mulher se você era gay? O pai Niko disse uma vez que se é já se nasce gay...

– Eu acho que sim... Mas, Jayme, eu não virei gay... Não é por que já fui casado com uma mulher que eu era um marido normal, entende?!

– Não...

– Jayme, meu filho, acontece o seguinte... – Respirou fundo e foi sincero e sucinto. – O papi não gostava de mim! Não me aceitava! Meu objetivo de vida era agradar o meu pai, ser o filho perfeito pra ele, mas... Só fazia burradas! Eu me casei por que ele queria... O Jonathan nasceu por que ele queria que eu tivesse um filho... Eu só não me tornei médico, porque não tinha a menor vocação! Enfim... Apesar de tudo, eu tentava gostar da Edith, mas, dentro de mim, uma coisa me dizia que eu nunca seria feliz com ela... E eu não conseguia mesmo porque eu sabia que só seria feliz ao lado de um homem... E, vou confessar uma coisa... – Deu um sorrisinho rápido com o olhar distante. – Enquanto eu estava vivendo uma vida que não era a que eu queria, eu sonhava em, um dia, um príncipe encantado aparecer e me levar pra longe dos meus problemas...

Jayme sorriu, perguntando: — Esse príncipe encantado foi meu pai?

Félix olhou para o filho e sorriu. – Foi...

Jayme levantou da espreguiçadeira, dizendo: — Pai... Acho que quem precisa deitar aqui é você!

– Ora... Por que garoto? Que é isso, tá dizendo que eu preciso de terapia?! – Perguntou brincando.

– Não! – Jayme riu. – Mas... Eu prefiro perguntar outras coisas ao pai Niko, se não se importa...

– Ok! Já vi que você só confia no seu papi carneirinho...

– Não, não é isso... Eu confio em você! Mas, tem umas coisas que eu acho que ele que vai responder...

– Como o quê, criatura? Vai, pergunta pra mim! Faz um teste, vai que eu respondo...

– Tá bom! – Jayme voltou a sentar. – Quando vocês começaram a namorar, afinal?

– Bom, foi um tempo depois do réveillon de dois mil e catorze... Foi no final de janeiro...

– Hum... Mas, se vocês já se gostavam antes, porque não namoraram antes?

– Ai Jayme... – Coçou a cabeça. – As coisas não são tão simples assim... Eu já te disse, eu nunca tinha me apaixonado de verdade por ninguém e tinha medo de magoar o Niko caso aceitasse ficar com ele...

– E depois, como você decidiu ficar com ele?

– Eu... Bem, eu não consegui mais esconder... Sei lá, mas eu já estava tão... Tão louco por aquele carneirinho que decidi arriscar... – Sorriu. – E olha só, deu certo! Se eu tivesse sido um covarde nessa fase da minha vida, eu não teria vocês hoje! E você, seus irmãos e o seu pai são o tesouro mais precioso da minha vida!

Jayme levantou e abraçou o pai.

– Você é o melhor segundo pai que meu pai Niko podia arranjar!

– Ah meu filho...

Jayme sentou de novo.

– Pai... Tenho mais uma dúvida!

– Qual?

– Quando o Fabrício foi sequestrado, eu lembro que você dormiu lá na casa do pai Niko... Você dormiu no sofá, ele na poltrona e dormiu lá também aquele cara que você chama de lacraia...

– Ah nem me lembre...

– Ele era namorado do pai Niko antes de você?

Félix pigarreou e coçou a cabeça.

– Olha, eu devia ter te deixado perguntar algumas coisas só pra o Niko, porque certas perguntas pra mim são...

– Se ficou incomodado, pai, eu pergunto ao pai Niko quando ele chegar...

– Não, pensando melhor, eu respondo... Sim, aquele lá era, ou melhor, é o ex do Niko, mas como foi um imprestável e traiu a confiança do pobre carneirinho, eu... – Sorriu com satisfação. – Eu tive que tirá-lo do caminho do seu pai... Entendeu, Jayme?!

Jayme sorriu. – Entendi...

– Olha aqui, não pense que foi grande coisa, porque daquele lá seu papi nunca gostou tanto assim... Mas, o coitado, ingênuo, confiava naquela lacraia, um apelido carinhoso que eu dei, até ele cometer a maior burrada da vida dele! Aí foi quando o Niko viu quem ele era de verdade e desencantou! Foi então que eu cheguei para salvar seu pai, seu irmão e você... E o carneirinho, fazer o que, se encantou pelo meu charme, beleza e simpatia...

– Ai pai... – Jayme ria. – Sabe que o pai Niko vivia falando de você? Ainda mais depois que você ajudou a resgatar o Fabrício, ele só falava em como você era bom, como tinha sido um herói pra a nossa família... Mas, quando eu vi meu pai mais feliz, até fazendo cara de bobo quando falava em você, foi num dia que o pai Niko voltou do restaurante e a primeira coisa que disse foi “Adriana fica com os meninos que o Félix me disse que vem hoje de novo!” Eu perguntei se você ia jantar lá, e ele disse que sim... Mas, agora, lembrando bem, você também estava no café da manhã no outro dia... Assim como no dia anterior que você tomou café lá antes de eu ir pra escola... – Jayme começou a entender. – Espera aí... Pai, foi nesse dia que vocês começaram a namorar?

Félix ficou ruborizado. Lembrou bem que o dia em questão fora a primeira noite que passara com seu carneirinho.

– É... Foi, filho! Foi nesse dia...

– Então... – Jayme riu. – Vocês mentiram quando disseram que você tinha dormido lá só porque ficou tarde pra você voltar pra casa, não foi?!

– Jayme! Garoto... É... É melhor terminarmos essa conversa quando seu papi Niko chegar... Mas... Você está ficando espertinho demais pra o meu gosto!

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Notas finais
Continua...