A nevasca não pareceria que iria cessar naquela hora e, mesmo que parasse, a quantidade de neve impediria deles sair dali. O trio estavam sentados no chão em círculo, já com certo tédio.

Eles eram velhos para brincar com algo como verdade e desafio e, apesar da idade para beber da maioria ser aceitável (o que na verdade não impedia do mais novo de participar), eles não tinham álcool para fazer desafio de shots.

Assim, era compreensível que começassem a falar de tempos da qual faziam parte de uma gangue. Relembraram sobre como se conheceram, a adrenalina de ter "sequestrado" um sofá para o point deles e até discutiram do porque de Tanaka não saber que os outros dois jogavam basquete na época em que passavam maior parte do tempo juntos. Falaram desses e outros episódios com um sorriso em seus rostos, com franca vontade de voltarem para o passado e fazerem tudo de novo:

— Ter invadido um prédio abandonado, começado uma luta e, consequentemente, conhecer Tanaka;

— Sobre o favor que este último fez para o de moicano em comprar um presente para a futura namorada;

— Terem que suportar um calor terrível em que Shinji e Rika começaram a namorar.

Ainda assim o menor gostava do estado atual, em que estava com Yuko. A garota entendia o passado do ruivo e o ajudava a ser uma pessoa melhor. Já Shinji e Rika, apesar de estarem atualmente juntos, queriam apagar o hiato em que estavam longe um do outro, com cada qual compromissado com outra pessoa. Eles realmente gostavam um do outro, mas a realidade nos surpreende, não é mesmo?

O interessante daquela noite era que, apesar deles estarem juntos há anos, ninguém sabia da história que seria contada. Ele nunca mencionou sobre seu irmão mais novo.

Talvez os dois anos de diferença contribuiu para Tanaka e seu irmão serem próximos.Faziam tudo juntos, principalmente no requisito de aprontar. Nisso eles eram extremamente bons.

Apesar de novos, se aventuravam em propriedades alheias e aproveitavam para cometer pequenos delitos (ex furto). Sobre isso, devo dizer que na verdade eles gostavam de roubar maços de cigarros e dar de presente para sua mãe. Esta não questionava, pois sempre estava fora de sintonia (seja pelo álcool, seja pelas drogas), que reforçava esse tipo de comportamento com um sorriso e uma tentativa de carícia na cabeça dos dois. Tanaka relatava de forma que isso era o mais próximo do amor que eles recebiam de alguém.

Já seu pai era extremamente instável. Você nunca sabia quando ou o porque de receber a surra. O fato dele aparecer em casa tornava o clima estranhamente pesado. Os dois as vezes prendiam a respiração por instinto, como se o fato de respirar já dava motivo da surra que viria. Tanaka não contou para os amigos, mas as vezes tinha que distrair o pai para que o menor fugisse e escondesse a marca de urina que se formava em sua calça quando via a autoridade da casa chegar. No ponto de vista do ruivo, e concordo com ele, o termo 'pai' era apenas por referência, pois 'monstro' parecia ser o termo que se encaixava melhor.

Mas enfim, os dois moleques na época trabalhavam vendendo doces na rua. Vez por outra conseguia apontar para algo dentro do carro de alguém e perguntava se poderia ficar com isso. Era dessa forma que eles conseguiam suas guloseimas. Caso não acontecesse e acabassem com fome, eles tinha risco de receber uma nova surra se beliscasse algo do que vendiam (a volta pra casa já era terrível pois iriam receber a punição de não ter vendido o bastante). Na história, Tanaka não mencionou sequer uma vez o nome de seu irmão, mas falava dele com um sorriso fechado, parecendo de ternura e de tristeza.

Apesar da vida injusta, conseguiam ter seus momentos de felicidade. Eles gostavam do frio e da guerra de bolas de neve. Na escola, gostavam da merenda (e cá entre nós, gostava da sensação de bater nos outros e se vangloriavam pelo grau de castigo que recebiam da diretora). Eles também compartilhavam tudo juntos, um confortava o outro e era o que bastava.

Eles pensavam realmente que isso apenas bastava.

Mas se enganaram.

Após um dia bem ensolarado em que entraram em terreno privado, os dois foram para o quarto sem nunca se preocupar em tomar banho. Eles começaram a relatar a aventura, se divertindo com o ganho de detalhes irrealísticos da ocasião. Ouvem o monstro gritar por silêncio. Eles abafam as risadas com as mãos. O mais novo não consegue conter seus risos. O mais velho, Tanaka, dá uma advertência por bater com o único travesseiro que tinham. O menor revida. Logo estão rolando entre tapas, ataque de travesseiro e altas risadas. Ah, se pudessem voltar no tempo... Mal sabia deles que seu pai apareceria com a fúria nos olhos. Que naquele dia, o gritos dos dois não adiantariam. Que Tanaka diria ser o culpado e que seria trancado novamente naquele confinamento imundo e escuro atrás do criado mudo de seu quarto. Que não veria mais seu irmão mais novo.

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