Talvez sejam os óculos...

3 Talvez seja o Natal...


Notas iniciais
Desculpe a demora para postar, e independente da sua religião...FELIZ NATAL! ^^

Mesmo com todo aquele sentimento de confraternização e paz de fim de ano, eu andava um pouco desanimado, não sei ao certo se aquela sensação era desanimo ou ansiedade, desde a chuva, desde o outono a nossa amizade crescera indescritivelmente e agora posso dizer que sou intimo dela, coisa que nem nos meus sonhos mais exoticamente perfeitos acontecera.

Eu caminhava por uma rua estreita e antiga, não era assustadora, mas muito escura, era 24 de dezembro, véspera de Natal. As únicas coisas que eu levava comigo eram minhas roupas e um papel, mais esclarecedor possível um convite. Os professores estavam organizando e discutindo sobre essa festa desde abril, muitos mudariam de escola por isso era muito importante não só para mim, mas para todos daquele ano letivo.

Também levava comigo um único objeto, um relógio de prata, COMPLETAMENTE falso, mas com um valor simbólico enorme, a coisa material mais importante que eu possuía.

Eram exatamente 19h54min. Eu tinha 6 minutos para chegar à casa da minha professora de biologia.

Eu caminhava depressa mesmo com o frio e com minha mente nebulosa. Eu reparei que a maioria das crianças espera o natal mais pelos presentes e todo esse capitalismo incrédulo do que a família reunida e as festas tão enigmáticas de fim de ano.

Cheguei a casa exatamente às 19h59min. Entrei lentamente, a porta estava aberta. Parei por uns instantes para observar os quadros que estavam brilhando de tanta limpeza na parede. Crianças sorrindo e pinturas abstratas. A casa estava vazia, mas dava para ouvir uma melodia natalina em tom alegre vindo de cima. Era uma casa grande e confortável. Andei até uma espécie de sala de estar e achei uma escada. Caminhei um pouco e subi de andar. O segundo andar era incrivelmente maior, passei por uma cozinha com enfeites na parede e finalmente achei o pessoal. Era um espaço grande com piscina e churrasqueira, todos rindo e comendo, alguns fazendo graça e outros nadando. Os professores estavam em um canto um pouco afastado conversando e falando mal do salário, alguns riam, outros pareciam um pouco estressados, provavelmente pelos gastos de fim de ano.

Sim, era a coisa mais entediante que eu poderia escolher fazer.

20h40min.

As coisas pioraram de vez, ninguém esperava por uma “chuva de verão” e muito menos pela falta de eletricidade. A festa fora cancelada. E devo admitir que fiquei desanimado, a única coisa que fiz a noite toda foi observar ela. Tão diferente das outras e tão bonita. Ela não fazia “esforço’ para ter aquela beleza, ela apenas tinha.

Todos estavam indo embora, não havia passado nem 10 minutos e só eu, ela e os moradores da casa estavam lá. Eu até que estava começando a gostar da noite, daqui a pouco só eu e ela...

O celular dela começou a tocar. Ela pareceu meio triste, pelo que vi, ela iria a pé para casa.

21h00min.

Novamente eu ela e a chuva em uma rua sem ninguém.

Ah como eu amava a chuva!

Tão romântica e sem forma.

Tão fina e forte.

Tão limpa e realizadora.

Corríamos feito jovens imaturos, eu podia ver seus olhos através daquelas lentes que eu tanto amava. Eles estavam se divertindo, pareciam rir...

Chegamos a uma lojinha de confecções que tinha uma tenda colorida.

–-Olá – Uma mulher de uns 65 anos, cabelos pretos, e pele morena nos cumprimentou, ela estava com uma criança de uns cinco ou seis anos, não mais.

–-Já estou fechando, mas acho que uma ultima compra não fará mal a ninguém. Vamos, entrem – Ela deu um sorriso lindo e nos convidou com um gesto acolhedor.

Eu sorri de volta e entrei na pequena e bonita loja. Deslizei meus olhos por uma pequena vitrine e nada mais me chamou a atenção do que um pequeno urso de pelúcia, não era muita coisa, mas mesmo assim não poderia fazer pouco caso da bondade da senhora, afinal ela não sabia que não entramos na loja com a intenção de comprar e sim sair da chuva e pelo menos escapar de um resfriado. Olhei para os óculos da minha tão inalcançável amiga e segui pela “linha” de sua visão, ela parecia uma criança querendo doce, ela estava com um ar fofo que me esforcei para não me declarar ali mesmo, em uma loja de confecção em um bairro que eu não conhecia.

–-Qual você quer? – as palavras simplesmente saíram de minha boca. Ela olhou para mim e sorriu um sorriso que eu guardarei para sempre em minha memória.

Ela apontou para o ursinho.

–-Aquele. – Sorri para a senhora e comprei o ursinho. O presente mais simples e talvez mais insignificante que alguém poderia dar.

Antes de sair da loja ouvi a senhora dizer:

–-Belo casal.

Eu honestamente não sabia se agradecia ou simplesmente ignorava.

Por fim virei e dei meu sorriso mais tímido. E sai de novo com uma garota alegre e meio criança.

21h27min.

Passei por um mercado grande e comprei um lanche. Dividimos em silêncio.

Na minha cidade, grande parte dos estabelecimentos comerciais ficavam abertos durante as datas comemorativas. E eu nunca fiquei tão feliz por isso.

22h00min.

Andamos sem presa alguma por uma rua úmida, conversamos um pouco, mas no final, foi um passeio silencioso, não era porque me tornei amigo dela que perdi completamente minha timidez idiota.

Cheguei à frente da casa dela.

Era uma casa grande, um sobrado, a parede branca refletia um pouco as luzes na casa, era uma família grande. Ela me convidou para entrar, mas eu não podia.

E então...

Ela me deu um beijo perto da boca, e sussurrou alguma coisa no meu ouvido, algo como:

“Acredite em Papai Noel”.

O relógio de prata pesava em meu braço, bem que meu avô quando vivo, dizia que ele trazia sorte. Velho sábio.

E todo meu desânimo desapareceu junto com meus pensamentos.

E talvez naquele natal eu voltei a acreditar em Papai Noel...

E depois disso eu devo ter ficado uns cinco minutos parado na rua refletindo sobre as coisas que aconteceram naquele dia.

E também o natal entrou na minha lista de dias favoritos, junto com qualquer outro dia de chuva.

Notas finais
Pessoal obrigado por ler e mandem sugestões por favor^^ BOAS FESTAS!!