Talvez Ela
1 Talvez Ela
Talvez ela
Depois de um dia intenso de estudos entro no ônibus e ele segue a caminho de casa. Coloco meus fones de ouvido e dou play em Lana Del Rey, e imediatamente começo a ser visitado por lembranças distantes. Um amor que tive a muito tempo, e talvez o único que haveria de ter. Comecei a lembrar de nossos momentos mais felizes ao som de Born To Die, mas então algo estranho acontece quando olho para a esquerda, para um acento não muito distante de mim. Meu coração para.
Seus cabelos negros e cacheados ondulam com o vento furioso que corre pelo ônibus. Com um gesto aborrecido, ela agarra sua juba e a acomoda em seu ombro direito, da maneira que ela sempre fizera...
Ela... ela? Será mesmo? E se não for?
Já era tarde demais, estava tomado pela euforia. Seria ela Amanda? O meu amor foi embora com a irmã três anos trás para outro país e nunca mais a vi. Era quase impossível que fosse ela naquele acento. Mas a estranha era tão parecida. Sua mão se agitava excitadamente e sua boca não parava. Ela estava falando com alguém ao seu lado, alguém que eu não conseguia ver. Amanda sempre foi tagarela, ela nunca deixava as pessoas em paz em seu silêncio. Por isso me apaixonei, ela não me deixava em paz no lugar em que eu acreditava ser um refúgio. Ela me mostrou o lado bom da tagarelice.
A minha confusão era tanta que até a perfeita música Brooklyn Baby da Lana era ofuscada pelos meus pensamentos. Enquanto Del Rey cantava I’m a Brooklyn baby eu pensava: essa é a minha garota? É ela? ” E a pobre Lana suplicava por atenção no meu fone de ouvido falando do seu namorado que toca na banda e em como ela era descolada, mas eu não conseguia lhe dar atenção.
Retirei meus fones de ouvido e tentei aguçar a audição. Eu tentava escutar sua voz, mas não conseguia. O vento levava qualquer timbre de qualquer voz embora antes de chegar até mim. A estranha, que talvez fosse Amanda, se inclinou para o banco da esquerda como se estivesse dando um abraço na outra pessoa do lado dela. Só segundos depois eu percebi que o ônibus estava parando numa rua bem movimentada. Estava acontecendo uma festa ali. A estranha, que talvez fosse Amanda, se levantou e meu coração parou novamente. Ela acenava como gesto de despedida para a pessoa que estava sentada do seu lado. Se ela ao menos se virasse... se eu ao menos pudesse ver seu rosto...
Mas a agonia era tanta que cansei de especular. Amanda ou estranha, que seja, mas eu precisava saber, naquele momento, naquele instante. Não podia aguentar mais nenhum segundo de dúvida. Me levantei e andei até a sua direção. Ela parecia apressada para sair, mas eu decidi que sairia com ela. Ambos descemos do ônibus naquela rua movimentada. Ela continuava a andar para frente como se ela se recusasse a mostrar seu rosto.
Eu apressei alguns passos.
Peguei em seu ombro.
Ela se virou e eu vi.
Meu coração agora era apenas mais um órgão dentro de um singelo corpo humano.
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