Talvez - EM HIATUS
36 Especial: REMENDOS.Terceiro Pedaço.
Notas iniciais

Oito meses depois.
–Sakura-sama!
Sakura ignorou os chamados, ela já havia feito tudo o que precisava ali, e não estava afim de deixar aqueles médicos mau acostumados, eles ficavam inseguros demais quando ela não estava por perto e não precisava de ninguém dependendo dela, ela não estaria ali pare sempre, pra eles.
Pra ele.
E ele não podia se dar ao luxo de entrar sozinho em batalha contra tantos inimigos, perceber que até ele sofria da típica megalomania que atingia os grandes Kages a irritava ao extremo. E ela apenas correu, exigindo coordenadas de por quem passava em busca de onde o Shinjukage enfrentava o inimigo.
Todos a mandavam voltar para trás, que não devia estar em qualquer linha de frente, mas esqueciam que ela, e só ela ali, como ninja médica poderia passar por cima das regras e enfrentar o inimigo, e ela iria, e daria também uma surra naquele homem pretencioso, dominador e possessivo.
Avistou uma clareira enquanto uma chuva torrencial caia em sua cabeça, o céu estava turbulento e raios já ameaçavam atingir o solo, porém seu nariz gelado por conta da água captou algo além do cheiro de lama e madeira.
Ela sentiu cheiro de sangue.
E cada vez que se aproximava ficava mais forte, e pela primeira vez em anos ela tremeu por causa da sensação de morte pairando ao seu redor, não deveria ficar surpresa por senti-lo em meio o inferno da guerra, mas surpresa por só senti-lo agora.
No fim ela esteve bem protegida no hospital e no distrito, ela se permitiu ser apenas protegida, de novo. Isso a fazia trincar os dentes de ódio.
Proteger não era tão diferente de enganar em certos aspectos.
E elas as vezes sentia que escondiam algo dela.
O clã Yumi, com seus olhos felinos alegres mas caprichosos... quantos segredos envolviam neles?
Ela parou em meio ao campo num salto, não sentiu um único lampejo de chakra ao redor, mas o cheiro de sangue tapou seu nariz e quando olhou em volta seus joelhos tremeram tanto que bateram um no outro, seu coração parou, e imagem junto ao cheiro de morte veio como uma bofetada em seu estomago que a derrubou e fez vomitar saliva e suco gástrico que era tudo o que tinha.
Num gesto de desespero ela fez o sinal de mãos, de liberação, esperando que o que havia a volta se desfizesse, que fosse um genjutsu.
Mas os restos humanos ainda frescos, o sangue se misturando a lama, as vísceras tremulando ainda vivas, expressões de terror em faces partidas.
Tudo era real. A sua volta. E ela tentou vomitar o que não tinha de novo.
Quando ergueu a cabeça e limpou o canto da boca, sua espinha gelou ao sentir a gigantesca quantidade de chakra parada atrás de si, a sombra enorme aparecia a cada relâmpago que cruzava os céus.
Era e não era um chakra conhecido, ela gemeu aterrorizada só perceber isso, ela sabia e não sabia o que iria encontrar.
Respirou fundo e se virou para encara-lo.
E a última coisa que viu, foi o relâmpago atrás dele, iluminar parcialmente sua face pálida, seus olhos rodeados de estrias de sangue, os orbes completamente negros, e a íris mais rubra que já havia visto na vida.
E ela achou que já tinha visto.
Mas no fim só vira o sentimento por sangue.
Agora via ele, via sede, fome.
Via que poderia mesmo ser devorada.
–o...o que você é...? – as palavras escaparam de seus lábios, mesmo não querendo, mas era uma pequena tagarela afinal.
Quando ele moveu a boca para começar ela viu o sangue inundando o queixo largo, escorrendo por causa da chuva, sangue que não via de nenhuma ferida aparente.
–se eu disser o que sou...- ele começou, nada inseguro, mais duro e desafiador – você terá de ser minha.
Sakura apenas continuou o encarando, incapaz de processar aquilo devidamente, o que mais ele poderia querer dela? Ela era médica e lhe dava suas mãos para curar seu povo, era diplomata e lhe dava sua voz para apoiar seu povo, era mulher e lhe deixava se saciar nela. O que mais ele poderia querer? Certamente ele sabia que ela não podia oferecer mais nada, agora ele sabia.
Depois do tempo que se conheciam ele sabia, sabia que não tinha nada, sabia que ela não era nada, nem estava em seu nível, ela era uma plebeia de uma aldeia distante, e ele tinha fortuna e nobreza em seu sangue a séculos, eles tinham posições políticas distintas e niveladas também. Ela era só uma diplomata, e consequentemente haveria de ser enviada a outros lugares, e ele tinha sua raiz ali.
E ela não tinha nem um tronco seco para se firmar. Ela não era mais que uma flor murcha sendo levada pela corrente.
Ela não podia lhe oferecer nada, não a um homem que tinha tudo.
–eu não tenho nada...
–eu quero você, você já é minha, mas depois de hoje... não vai poder escapar, não depois do que viu aqui.
–você fez isso?
–fiz – Sakura se levantou de uma vez e cambaleou para trás, insegura e tremula, enquanto ele permanecia fitando-a com olhar fixo, vidrado, e ainda apreciativo, como se ela estivesse minimamente atraente naquela calça larga e colete grosso que nada emoldurava.
–o que você é? – pronunciou com mais urgência, forçando as cordas vocais a trepidarem o mínimo possível – o que você é... Yasuhiko?!- exigiu.
–pequena tola, você será minha, você já é minha – ele deu um passo e ela recuou dois quase tropeçando – minha... – o sobretudo branco arrastava-se na lama encharcado emoldurando seus ombros, deixando seu cabelo mais liso e brilhante a cor em seus olhos se intensificando, a fome neles a afogando. – dou-te meu amparo, minha fidelidade, minha mente, meu coração, minha alma e meu corpo...– Ela gritou ao sentir que cairia sobre algum corpo, mas foi puxada com violência suas mãos bateram em seu peito gelado. – Para compartilhar... tudo com você, sua vida, sua felicidade, e seu bem estar, estarão em primeiro lugar... – O zíper do colete foi aberto bruscamente, a gola da camisa por baixo, puxada esgarçada, — Para mim, és minha companheira... – E dessa vez nada abafou o grito que eclodiu em sua boca quando os dentes dele cravaram na carne de seu ombro, de novo, o sangue quente dela escorreu e ela não mais sentiu as pernas, ou os braços. Ele pousou a mão em suas costas firmando-a contra si. Sentiu apenas o som dele tragando sua carne e seu sangue, após tirar a boca da ferida. Sentiu seus lábios roçando seu pescoço numa caricia terna e fria. Os lábios subindo até seu ouvido enquanto ela mal conseguia abrir os olhos. – E está unida a mim por toda eternidade...– Yasuhiko a acolheu no colo e ela deixou a cabeça cair para trás tentando fita-lo e encarando olhos cinzentos novamente — e sempre sob o meu cuidado.
–o que você é?
Ele sorriu, mordaz, talvez sádico, ou louco, mas com seus dentes a mostra, o sangue ainda manchando-os um pouco. Belo assassino, um verdadeiro demônio devorador de carne, um Shinigami, um deus, um...
–Ghoul...
Tudo o que Sakura esboçou foi um leve arregalar de olhos e um tremor, quando aqueles olhos rubros dentro de poças negras ressurgiram.
–eu sou um... Ghoul... E você vai se casar comigo.
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