Talvez Azul
1 Capítulo 1
Talvez azul
Vazio... é um amplo ponto de vista.
Vazio era como se sentia.
Não fome. Não sede. Ou falta de amor.
Apenas vazio.
Como todos aqueles que o cercava.
Vazios!
E queria que fosse um vazio de amor. De fome. Ou sede. Não era. Era aquele vazio de não ter a si mesmo.
Como todos ali...
Todos que acham que dinheiro irá acabar com o vazio de existirem.
Capitalistas!
Consumistas!
Quantos deles não bebem? Fumam? Comem em demasiado? Tudo para tentar desesperadamente aplacar o vazio.
O vazio de ser ninguém.
De ser mais um...
Como se usar um tênis caro – produzido em algum país muito abaixo dos outros, por crianças que nunca conheceram a doce inocência – os tornasse melhor.
Ainda tem os que buscam religião.
Deus?
Sério?
Tão vazios que criam amigos imaginários.
Não que julgasse isso como algo errado. Crenças são crenças! Quem era para palpitar em fé alheia como se não tivesse a própria?
Apenas não via diferença entre falar sozinho e orar...
Nem entre alguém quem diz ter sentido a presença divina e um esquizofrênico.
Detalhes...
Contudo, voltamos ao vazio!
Ao vazio de inspirar todo o ar que o envolve querendo o sentir preencher seus pulmões e seu diafragma contrair. Contudo, quer o ar mantenha-se dentro de ti ou saia na expiração, ainda será vazio.
Como chegou a esta conclusão?
Já tentou!
Já tentou respirar fundo para ser “cheio”. Comer muito para ser “cheio”. Beber. Fumar. Transar! O que quer que todos os outros humanos usem como fuga do próprio vazio, já usou!
Sim, inclusive religião...
Estranhamente nada fazia o vazio sumir.
Começou com inspirações e expirações. Segurava o ar no peito o quanto podia debaixo da água da piscina. Todavia, logo voltava a superfície para soltar o ar. O vazio continuava ali, mas, no inicio, apenas quando o ar se esvaia.
Porém, depois de um tempo o vazio ficava ali até com o peito cheio.
Então começou a comer!
Comer doces, salgados e frituras como quem vai morrer no dia seguinte. Era quase desesperador! Apenas não ingeria alimentos quando estava a dormir! Praticamente o dia todo comendo. Nestas horas, agradecia ao seu belo metabolismo jovem de não o engordar nessa loucura de se entupir de “porcarias”.
Bem, no início até funcionava. Sentia-se bem quando comia. Se não fosse de total ignorância, havia liberação de endorfina por todo seu corpo que quase o levava ao orgasmo!
Sim, exagero...
Contudo, quando seu organismo gritava para que parasse. Parava! E o vazio ali estava. Um vazio que o preenchia cada vez mais.
E um dia nem comer ajudava mais!
Fora que seu colesterol estava nas alturas, assim como andava na linha para ter diabetes e hipertensão.
Oh, então mudou a tática!
Beber! Primeiro: cerveja... cidra... vinhos... então, conhaque... vodca... E quando menos se esperava bebia whisky puro. Oh, um alcoólatra! E junto às bebidas vinham os cigarros. Era fumar maconha e beber. Claro, sexo vinha no pacote.
Negue-se a sorte de dizer que não pegou HIV ou sífilis, mas teve que passar por tratamento de herpes genitais e gonorreia. Fora quase entrar em coma alcoólico... e pular da maconha para a cocaína... heroína...
Parou antes da linha da morte.
Sorte!
Contudo na época realmente acreditou ser deus quem o salvou...
Apesar de não ter tirado o vazio!
Então lá foi às Igrejas!
Católicas, começou. Contudo quase dormia nos sermões do padre e esse não era seu interesse.
Então um “amigo” o levou a uma igreja protestante!
E vinham os orgasmos de louvar a deus com gritos histéricos e lágrimas sem sentido. Cantava! Orava! Gritava! Era um verdadeiro filho do senhor que sentia o toque divino!
Aleluia!
Talvez ainda houvesse efeito das drogas...
De qualquer forma, assim como todas as outras tentativas frustradas, quando acabava e ia se deitar na cama, lá estava o vazio.
Devorando cada resquício de sanidade que tinha!
E não importava o quanto implorasse uma luz ao tal deus. Ele não dava! Ele não tirava o vazio!
Antes que chegasse ao suicídio resolveu parar com tudo!
Sem buscar mais algo que preenchesse seu vazio.
Agora era acordar de manhã, se trocar, urinar, comer e ir para faculdade.
Agora era zoar com seus amigos, cantar umas garotas, transar com seu melhor amigo e voltar pra casa.
Agora era almoçar, estudar e ficar na frente de um monitor jogando tudo quanto é jogo que houvesse morte, sangue e dor.
Para então ir tomar banho e deitar na cama.
Como se não fosse vazio.
Ou solitário.
Hipócrita...
Agora era fechar os olhos com força rezando para que sua mente não o desse pensamentos ou lembranças. Para que apenas dormisse como todos os outros pareciam fazer.
Na época, não sabia que todos eram vazios.
Bom, nem sempre obtinha o êxito de apenas adormecer, contudo foi se acostumando.
Acostumando-se a ser mais um e agir como mais um.
Como se não doesse ser vazio.
Como se não importasse!
Afinal, o que tinha de diferente de todos os outros vazios que não se encontraram também?
Todos não passavam de corpos perambulantes mesmo!
Vazios...
— Deveria parar de pensar tanto! — Aquela voz entediada o tirou dos pensamentos profundos que tinha deitado na cama.
Abriu os olhos para ver o forro branco de PVC acima de sua cabeça. Limpo. Nojentamente limpo!
Digamos que a obsessão de limpeza do outro o causava náuseas!
Virou a cabeça para o lado lentamente. Como quem tinha preguiça. Ou faltava força de vontade.
Na verdade, era indiferença!
Apenas queria saber por que diabos aquele pirralho inútil e vazio o tirou dos pensamentos! Que fosse algo importante ou iria estourar seu cérebro, afinal, neurônios ele não tinha mesmo!
— Pensar te deixa infeliz... — ele falou doce sentando-se sobre seu quadril como se fosse alguém. Como se tivesse permissão!
Como se não fosse vazio...
— O que quer? — perguntou frio o olhando nos olhos. O único músculo que mexia era o do pescoço para poder virar a cabeça.
Ok, também tinha o coração, diafragma..., mas estamos falando de músculos movidos conscientemente.
— Te tirar da loucura que é sua mente... — ele falou doce começando uma massagem em seus ombros.
Quem dera apenas seu ombro fosse tocado!
— Saia! — ordenou.
Talvez palavras curtas e com sentido lógico ele entendesse sem precisar de um desenho colorido com um mapa para explicar também!
Contudo...
Ele riu!
Aquela risada idiota de quem é ignorante!
Oh sim, ignorância é um dos critérios importantes para ser feliz.
Se você for ignorante e rico, será a pessoa mais feliz do mundo!
Nada supera isso!
Contudo, em contraste, era apenas a segunda opção...
E se orgulhava disso!
— Do que ri? — perguntou, ainda em tom indiferente.
Aquela ignorância o nauseava também.
Aquele pivete metido a algo mais que mero animal – como todos os humanos, diga-se de passagem – o nauseava por completo.
— Do seu jeito idiota! — Ele sorriu doce. Inocente. — Pare de pensar e analisar como um louco sem saída! — Ele se inclinou sobre o corpo alheio. — Pensar nos motivos do porquê do mundo ser redondo não o fará ser quadrado...
Oh sim!
A inteligência dele também era nauseante.
Sorriu, olhando aquelas irises que refletiam as ondas azuis de um céu limpo que tocava o oceano. E ali dentro via seu próprio reflexo.
Bem...
Havia um lugar onde não era vazio.
E era aquele azul nauseante que o fazia, todos os dias, querer apagar aquele vazio.
Querer existir.
Abraçou-o.
Os azuis que refletiam sua alma, tão calmos, tão doces, tão inocentes, como se tivesse ainda seus primeiros meses de vida.
Não era vazio ali...
Ali...
Era dele!
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