Talvez.
1 O Começo do Começo.
Notas iniciais
O sol brotou como um verdadeiro herói no céu, empurrando os escuros e gélidos dedos noturnos para os lados, fazendo a claridade derramar-se sobre o infinito negrume como o leite caí sobre o chão de mármore negro.
Mas, mesmo nascendo tão cedo como sempre, o sol não conseguiu chegar mais rápido do que as pálpebras de Pietro se abrem, deixando o menino no breu total – não no total, afinal, as estrelas faziam a sua bela luz prateada espargir-se sobre as elegantes paredes azuladas do quarto dele –. Mesmo se preparando durante anos para aquele momento, o garoto não conseguia acreditar que seria naquelas vinte e quatro horas que o primeiro dia no 9° Ano do Ensino Fundamental se desenrolaria. Aquele era o primeiro dia do fim de um especial acontecimento na vida de um “homenzinho” – como Tio Cicero vivia o chamando durante as férias –, mas também era o último ano de sua infância.
Bom, seria legal rever Joanna, sua namorada. Passaram todos os quase três meses de sossego puro sem se verem, só conversando pelo “infernal WhatsApp!” – outra coisa que Tio Cicero gostava de falar –. Não tinham um relacionamento bom, era verdade, mas não chegava a ser ruim... Haviam decidido que deveriam namorar assim que pegaram um na mão doutro durante um recreio no sexto ano, e desde então nunca se separaram. Mesmo gostando de falar para todos que tinha uma namorada, Pietro sabia que aquilo não podia ser chamado de um real namoro... Só tinham se beijado três vezes!, e mesmo assim nunca fora para valer. Beijo de língua era impensável, pelo menos para Joanna.
Viviam no único condomínio de Girassol Quadrado, um maravilhoso lugar feito com duas torres gêmeas que se interligavam por uma ponte: o Irmão e a Irmã. Os prédios eram vermelhos, e todos sabiam que lá só havia festas de matar, com muita comida – mesmo que Pietro a achasse ruim – e músicas altas – mesmo que Pietro as odiasse –... No fim, aquele jovem menino achava que, na verdade, era algum alienígena. O pai não tinha foto alguma de sua mãe grávida, o que só fazia a teoria tornar-se mais forte; na verdade, havia bem poucas fotos de sua mãe.
Chacoalhou a cabeça e virou o rosto, tateando a mesinha ao lado de sua cama, procurando o celular. O encontrou e digitou a senha, antes de desligar o despertador. O pai trabalhava muito, e não gostava de ser acordado antes da hora certa.
Levantou-se e tirou o uniforme antes de tomar uma rápida ducha. Saiu do banho vermelho e sendo seguido pela quente fumaça que fugia teimosamente de dentro do box. O pai sempre presara pelo conforto de Pietro, dando-o a única suíte da casa para o filho.
Gerson, o pai, era um bom homem de quarenta anos de idade com a pele escura e os olhos esverdeados como esmeraldas. Não era a pessoa mais alta que Pietro conhecia, mas chegava perto, com quase dois metros.
Pietro era diferente, com um tom amarelado um tanto quanto escuro, mesmo que não pudesse ser chamado de negro. Seus cabelos eram de um tom de castanho estranhamente obscuro, e os olhos verdes eram como os do pai, porém mais claros. Normalmente era considerado bonito.
O uniforme da Escola Estadual Margarida Onório – a primeira diretora da escola – era um preto acinzentado com listras douradas. O símbolo da escola era sempre cosido do lado direito da camiseta, um girassol amarelo e verde com um arco-íris colorido sobrevoando-o... O nome da escola ficava do lado esquerdo, bordado com linha prata. O uniforme era pago, mas mesmo assim não havia calças.
Vestiu-o, colocando um jeans escuro nas pernas. Mais embaixo havia um all star preto e gasto, o mesmo que Pietro adorava fazer uso. Meias brancas e grossas eram a única camada que havia entre seus pés e o odioso frio da manhã.
O cabelo do garoto era uma negação, sempre se recusando a ficar ajeitado. Independente da quantidade de gel ou de tanto pentear ou lavar, o cabelo continuava igualmente bagunçado. Não importava, ele gostava assim.
Com tudo preparado saiu de seu bem arrumado quarto e caminhou até a cozinha, onde encontrou o bolo amanhecido comprado na Padaria do Jão . Era de cenoura com cobertura de chocolate, e por isso Pietro teve que se segurar para não comer tudo enquanto empurrava os doces pedaços com suco de caixinha de maçã.
O lanche o esperava na geladeira branca e velha e malcheirosa. Dois pães de forma com nutella e uma mini Coca-Cola era tudo o que Pietro precisava para passar o dia... Quando o Sino da Igreja badalava treze vezes o almoço era servido na escola, mesmo que nunca fosse muito bom.
A cozinha da casa era estreita, porém larga, com a pia cheia de pratos sujos do lado esquerdo e armários, mesa de café da manhã e geladeira no direito. Como era casa de dois homens, não havia fogão... Gerson e Pietro viviam de pizza, bolo da Padaria de Jão, merenda escolar e miojo.
A mochila do jovem estava jogada no sofá vermelho em formato de L que ficava na sala, onde uma grande TV de tela plana erguia-se no raque. A mesa de jantar ficava logo atrás do sofá, mas na frente da parede do quarto do pai... Tudo era impecavelmente mobiliado.
Quando já ia entrando no elevador, Pietro se lembrou do perfume e do relógio que tanto usava. Voltou para seu quarto e colocou-os, só para, quando já atravessa o arco que ia para a portaria perceber que estava sem o passe do ônibus, “O que umas férias estendidas não fazem...”, pensou enquanto pegava a carteira em cima da mesa de café da manhã, na cozinha.
Foi até o ponto de ônibus feito de madeira que ficava na calçada da frente á sua casa, e então sufocou um grito quando colocou a mão no bolso e não sentiu o celular... Estava na mesinha ao lado de sua cama, mas o ônibus já ia chegando.
- Um dia sem celular não é nada demais. – Pietro falou alto, decidido. Subiu as pequenas escadas, passou o passe na maquina e então se sentou na cadeira de plástico azul.
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