Talvez
1 Único
Sentada aqui, com esse ar espesso e gélido,
sobre a cama, algo puxa-me para baixo. Então penso,
e tudo. Na vida que tive, sonhos de criança revelaram-se
pesadelos magnéticos. O prazer tornou-se dormente. A felicidade
ausente. Amor? Não consta no dicionário. Pouco tornou-se muito,
como se preste a explodir; já o muito: nem sinto mais.
Casas e ruas, sons e cores, formas, sabores;
as pequenas gotas continuam, apenas mudam de opinião.
Acostumada com tudo aquilo
já grudado em minhas paredes internas;
agora já, quase, imperceptível sempre ali
parado, espreitando, já quase não há força,
apenas para respirar. E continuar a viver.
Tudo já passou por cima. Camadas pesadas.
Lembranças embaçadas de um passado recente,
mas aos poucos anos, exageradas emoções,
se move unicamente, então diante dos olhos, passa reto
como em um vôo subterrâneo.
Mas sempre existem motivos que me fazem caminhar
na escuridão perversa que perde, atrofia.
ou no calor do sol rasga a pele, queima os olhos.
Como se nada mais houvesse, apenas a motivação, não minha,
mas daqueles que ajudam lentamente
a tecer minha alma retalhada. Então, continuo a viver.
Há alguém chama, muito longe, mas cansada não consigo.
Sem resposta, caio sobre o lilás desbotado.
A textura de meu pijama de seda que cai sobre meu corpo nu.
Sem proteção, sozinha. O gosto dos domingos nublados,
quando olha-se pela janela, a corrida da chuva.
Ou no verão, o orvalho sobre a nuca,
o silencio tentador. Gosto amargo na língua.
Nada mais faz sentido. Mas tudo é bonito,
como em um arco-íris liquido, o sangue em minhas veias aquece.
Mas a chama, que antes tão intensa,
que me corroia no âmago de minha essência
esvaindo se foi com o cansaço.
A dor já acostumara de jeito que
quase impossível dizer se o que via em mim
intacta.
E a culpa. Tão cruel que esmaga.
Sentimentos em questão, nunca meus.
Sempre cega não evitei, caindo no chão sem reflexo.
Depois de pronto, o desespero. Calculo sem x.
Muitos pedaços para colar, minhas mãos tremulas e minha boca seca.
Rastejo para fora, buscando ar, deixando pra trás
onde apenas o eco era sua companhia. Casca oca, monstro formado.
Então se vai, míope egoísta.
Sempre no chão há onde pisar, e sempre há alguém,
aquele que no escuro já não vias mais.
Onde as lembranças ruins estraçalham as boas,
olhos revirados, para fora agora,
porque a realidade não acorda tão cedo.
Rápido foi, com os olhos secos e ardentes.
O topor se foi, mas e agora o que há?
Uma sensação diferente, como se tudo que passou
não passasse de poeira sob meus pés.
Segundos e linhas. Ao infinito sem contar.
De repente, me sinto sozinha. Tão solitária.
Como se nada mais tivesse, mesmo na palma de minhas mãos.
Com o barulho na porta e um ultimo adeus
Mesmo que breve ou inexistente.
De quem vai ali e já volta, mas na verdade
nunca volta, apenas a presença que nada mais significa.
E na tela procuro abrigo, mas meu vazio só aumenta
Na desistência minha sobre as coisas.
No cansaço. Na saudade permanente, no desejo.
Patético. Pois já não sei o que me dizem.
E o relógio cruelmente fala, que o tempo passa, horários pares.
Onde tudo volta à tona.
A dor aguda abriga-se em minhas pálpebras, da chuva que já vem.
Por segundos um resumo me faz lagrimejar.
O suficiente embaça minha visão, mas não por completo.
Olhando para o teto branco. Tentativa fazendo não transbordar
as emoções, tanto tempo recatadas, inocentes.
Inexperientes.
E a sensação de vazio, o frio, o nervoso.
Arrepio, mas nem sei. Tantas horas que não como
Não sei mais a diferença. Do vazio em minha alma
Ou do vazio em abstinência. Mas aquilo sempre era, e devia ser.
tão ordinário se tornara.
A raiva, o remorso. Palavras não pronunciadas.
Juramentos sem volta. E a cegueira sempre volta a mim,
quando menos necessito e quando mais imploro.
Porém acredito na vida, acredito no futuro.
Mesmo que difícil, mesmo que rígido,
tudo continua. O ponto? Desconhecido.
Mas vá até os olhos não enxergarem mais.
Por distancia, por desistência, ou por fim.
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