Talk to Me
4 Capítulo IV - O Apartamento Laranja Contra-ataca
Notas iniciais
Thomas retribuiu como se já esperasse por aquilo. Suas mãos apertaram meu quadril, puxando-me para o seu colo, de modo que eu ficasse a sua altura. Minhas mãos acariciaram o seu pescoço, puxando-o para mais perto de mim. Suas mãos deslizaram vagarosamente por baixo da minha blusa, provocando-me arrepios. Ao nosso lado, Bambina latia freneticamente.
— Ela deve achar que você está me atacando – ele riu.
— De certa forma, eu estou – provoquei.
Em minha frente, Thomas revidou com um singelo, porém provocativo, sorriso de canto de boca e a minha única reação foi afundar, novamente, os meus lábios nos dele. Agarrei a barra de sua camisa, puxando-a por cima de sua cabeça e atirando-a ao lado do sofá. Puxei-o para baixo, deitando-me no sofá e fazendo-o ficar por cima de mim. Nós nos encaramos por alguns segundos, ponderando a veracidade daquele momento. Seu rosto, acima do meu, era modelado pelas mechas que pendiam em direção às minhas bochechas, seus olhos escuros penetravam os meus de tal forma que eu me sentia nua, ainda que estivesse vestindo uma blusa e um short quatro números maiores que eu. Seu corpo era completamente diferente do de Tony – com o qual eu já estava acostumada –, era magro e muito menos definido, mas, ainda assim, ele era um conjunto bastante convidativo, e cada detalhe parecia salientar o seu charme.
Além disso, Thomas era muito mais preocupado em sair da zona de conforto para desbravar meu corpo, o que começou a acontecer logo após minha blusa e meu short serem atirados para bem longe e eu sentir seus dedos em lugares jamais tocados por outra pessoa além de mim em momentos de “amor próprio”. Para um homem, Thomas sabia fazer, e muito bem, mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Mexi rapidamente minhas pernas, tentando retirar a calcinha, que ainda era o único pedaço de tecido que nos impedia de terminar aquilo. No entanto, antes que eu pudesse fazer aquilo, Thomas caiu rolando no chão, as mãos entre as pernas.
— Não acredito, eu te machuquei? – perguntei, levantando-me rapidamente para ajuda-lo.
— Não – respondeu, parando de fazer careta e retirando as mãos de lá. – Eu estava achando o sofá desconfortável, mas não sabia como falar isso sem quebrar o clima.
Eu ri, revirando os olhos. Aquele pequeno teatro só me fez querê-lo ainda mais. Diferente do que eu conhecia de outras pessoas, que apenas tratavam o momento com seriedade e só se interessavam em alcançar o orgasmo, aquele era um momento como outro na vida de Thomas, que ele fazia questão de transformar em algo divertido e não robótico. Era impressionante como os pequenos detalhes faziam toda a diferença em momento como aquele.
— Idiota – disse. Mordi o lábio, provocando-o enquanto abaixava lentamente a calcinha, chutando-a em seguida.
Caminhei de costas, sem tirar os olhos dele, aproximando-me do quarto. Rapidamente, Thomas me seguiu, enquanto tirava a sua calça de moletom, agarrando minha cintura quando já estávamos de frente para o colchão e erguendo-me contra sua cintura. Pude sentir todo o efeito das minhas provocações abaixo dos meus glúteos, e sorri, mordendo o seu lábio.
Caímos na cama, minhas pernas ainda ao redor de sua cintura enquanto ele tentava abrir o pacote fosco de preservativo. Para dificultar ainda mais, comecei a fazer cócegas em sua cintura com os pés, desconcentrando-o.
— Se eu rasgar isso, a culpa vai ser sua – ele disse, enfim abrindo o pacote.
Quando estava, enfim devidamente colocado, Thomas me encarou e eu puxei sua cabeça, em minha direção, voltando a beijá-lo. O que se seguiu foi uma das melhores experiências da minha vida: nossos corpos deslizando um contra o outro e beijos quentes, mas ao mesmo tempo ternos. Não havia controle, apenas duas pessoas fazendo o que convinha para tornar o momento o mais prazeroso e duradouro.
Quando terminamos, caímos – cansados e suados –, cada um em seu lado da cama. Levantamos alguns minutos após recuperar o fôlego, Thomas para recuperar sua cueca, e eu para recuperar minha calcinha que estava perdida na sala. Quando retornei, ele me puxou, depositando um beijo seguido de uma mordida em meu pescoço. Arrastamo-nos até a cama, ainda cansados da atividade.
— Se eu soubesse que contar a verdade renderia isso, teria contado antes da festa de formatura – ele disse, deitado de lado, olhando para mim.
— Eu não sei, afinal, já estava com Tony – comentei, colocando o travesseiro entre as minhas pernas. Agora, o único contado que tínhamos era o meu joelho roçando em sua coxa.
— Bom, você está com ele agora, não está?
— Mas eu estava apaixonada.
— Então significa que você não está mais? – disparou. Suas perguntas perfuravam a minha mente, mexendo com tudo que havia dentro dela.
— É tudo muito mais complicado do que isso – suspirei. – Eu olho para Tony e vejo meu porto seguro, alguém que sempre suportou o meu peso quando eu passei por momentos tempestuosos – desabafei. Thomas prestava atenção em cada palavra que eu dizia. – Mas agora, é como se uma parte dele estivesse quebrada e eu estivesse praticamente ilhada, com apenas uma tábua de madeira me ligando a ele.
— E você vai se agarrar a um mísero pedaço de madeira apenas para viver uma relação que lhe dá segurança? – como eu já havia dito, a sensatez de Thomas era invejável – Quer dizer, sabemos que pedaços de madeira não são um bom sinal. A última vez em que um casal teve que se agarrar a uma tábua, um deles teve que largar e acabou morrendo. Não se agarre a tábuas, é uma péssima ideia. Você pode morrer.
Eu queria poder dizer que ele estava errado, que ele não entendia nada do que estava se passando. Queria poder perguntar quem ele pensava que era pra opinar daquela maneira no meu namoro. Queria poder mandá-lo ir tomar conta da própria vida.
Mas eu não podia.
Ele estava certo.
Além de certo, ele já estava envolvido naquela história de qualquer maneira.
Eu pensei em responder algo como “é muito mais complicado”, mas eu estaria apenas passando por cima da realidade, já que eu mesma não sabia o que estava sentindo realmente. Thomas me deu um sorriso encorajador e eu decidi não falar mais nada. Aquele momento com ele estava sendo incrível, não queria estragar estendendo o assunto.
Nós permanecemos continuamos deitados conversando. Discutimos a respeito da melhor banda de rock e, por fim, acabamos concordando que era Pink Floyd, mesmo que a sua banda favorita fosse Led Zeppelin e a minha fosse Queen. Thomas também me falou sobre alguns projetos de filmes que ele estava desenvolvendo com seus colegas da faculdade, e eu fiquei surpresa ao perceber que ele já estava no segundo ano do curso. Já faziam quase dois anos desde o fim do ensino médio e eu só começaria a dar um rumo a minha vida dali um mês.
— O que houve com o curso de Direito? – ele perguntou quando eu expressei aquele pensamento. – Eu soube que você havia passado.
— Eu achava que era o meu sonho, mas estava muito longe de ser. Desisti após quase um ano e meio e deixei meus pais com raiva por nem sequer ter terminado o semestre. Agora estou esperando o resultado de outra universidade para ingressar em Jornalismo – senti um frio na barriga ao lembrar aquilo. – Meus pais não parecem mais tão furiosos, mas eu sinto que eles me punem com pequenas ações.
— Ainda bem que você saiu cedo – disse, suspirando. – E pelo menos os seus pais, por mais que não estejam de acordo, não interferiram na sua decisão. O meu morreu sem aprovar a minha escolha.
Depois daquilo, Thomas sentiu que deveria mudar de assunto. A nossa conversa se estendeu pelo resto da manhã e até metade da tarde, quando fomos chamados de volta ao mundo real pela fome. Ficamos tão submersos na conversa, que eu mal pude notar quando a luz laranja do apartamento começou a se perder, revelando as reais cores do local. Segui-o até a cozinha, onde preparamos macarrão instantâneo com algumas salsichas dentro.
— Eu ainda não pude fazer as compras do mês. Isso são apenas suprimentos – justificou-se, atirando-se no sofá.
Catei a minha blusa no chão, vestindo-a antes de sentar-me ao seu lado. Era estranho pensar que a primeira vez que eu havia andado praticamente nua em um apartamento não foi no meu próprio, e sim no de um cara que eu não via há dois anos.
— Você não tem Netflix? – perguntei, apontando para a estante. – Ou você é daquele tipo de pessoa que acha que esse serviço desvaloriza o mercado cinematográfico?
— Eu tenho, mas apenas costumo usar para assistir as produções originais.
— Que pena, porque eu sou exatamente esse tipo de pessoa – falei, dando play no filme que nós havíamos começado a assistir de manhã.
— Mas você me disse lá na cama que era fã de Stranger Things – Thomas argumento, puxando um grande fio de macarrão.
— Sim – respondi, dando de ombros. – Assisti pelo de Rosa – ele apenas riu.
Quando terminamos o filme, voltei ao criado-mudo de Thomas, apanhando o meu celular. Eu havia perdido algumas ligações de Rosa e Tony. Não me importei muito com o segundo, mas tratei logo de me comunicar com a minha amiga. Abri minha caixa de mensagens, observando que os dois também haviam marcado presença por lá. Rosa estava me chamando de volta para casa, pois já não aguentava mais ficar sozinha em um apartamento tão vazio.
Não me importei em abrir as de Tony.
— Eu disse pra você que Rosalice não aguentaria – comentei, enquanto digitava uma resposta. – Ela já começou a sentir minha falta.
Thomas me observou, encostando-se na estante que dividia os cômodos. Seu cabelo agora estava preso em um curto rabo de cavalo e ele já se encontrava vestido em sua calça de moletom.
— Se quiser, posso te levar de volta – ele disse, atirando o seu short esportivo que eu estava usando em minha direção.
Aceitei a gentileza, começando a recolher as minhas coisas. Thomas vestiu rapidamente uma blusa com o desenho de Luke Skywalker carregando o Mestre Yoda nas costas, calçando-se em seguida. Nós parecíamos dois indigentes andando com roupas surradas.
— Você só compra blusas com estampas nerd para desfilar por aí exibindo todo o seu conhecimento sobre a cultura pop? – perguntei, encostando-me na parede do hall enquanto ele fechava a porta. – Não. Eu uso para conquistar garotas – respondeu, girando a chave nos dedos.
As portas do elevador se abriram, revelando uma pequena senhora carregando um cãozinho pequinês. Thomas sorriu para ela, ao passo que esta apenas o ignorou. Em seus braços, o cachorro tremia, rosnando em nossa direção. Thomas apenas ignorou, mas eu, com medo que apequena fera se soltasse, decidi dar um passo atrás.
— Sempre ocupado, não é, sr. Rocco? – a idosa perguntou, sem se dar ao trabalho de nos olhar.
— Sim – Thomas respondeu, balançando-se para frente e para trás. O cachorro parecia ainda mais furioso com a movimentação. – Cuidando da minha vida, principalmente.
— Não perca seu tempo com esse jovem, garota. Ele é apenas mais um perdido.
— Sabe o que a senhora deveria fazer com a sua opinião? – ele começou. Antes que Thomas continuasse a frase, eu arregalei meus olhos em sua direção, alertando-o para que não o fizesse. – Colocar na urna de sugestões do prédio. Tenho certeza que todos gostariam de escutá-la na próxima reunião – finalizou, contendo-se. – Aliás, você recebeu o meu aviso sobre a conta do veterinário? Seu monstrinho machucou, e feio, a minha cachorra. Espero que esteja ciente – era impossível que alguém fosse tão cínico daquela maneira.
— Sim, eu recebi, tanto a sua carta quanto... Sinceramente, sr. Rocco, era realmente necessário deixar a sua cachorra urinar na porta do meu apartamento?
Thomas não respondeu e nós permanecemos em silêncio até que o elevador atingiu o saguão do prédio. A senhora apanhou sua sacola de supermercado, deixando o elevador a passos pesados.
— Aliás, sra. Odete – ele chamou. Ele se virou, olhando para dentro o elevador, os olhos ardendo em fúria. – As duas partes do aviso foram de minha autoria – completou, sorrindo sadicamente enquanto as portas se fechavam.
— Você urinou na porta dela? – perguntei, puxando a manga da sua blusa quando finalmente o elevador chegou ao estacionamento. – Você é louco?
— Ela se acha no direito de implicar comigo apenas por que eu contei para todos que era ela quem deixava o cachorro defecar no hall e escondia as fezes sob os tapetes. Além disso, eu também a vi violando a correspondência de diversos moradores.
— Você não existe – comentei, rindo.
O carro de Thomas era um Range Rover anos 90 na cor verde escuro. Ao vislumbrar o veículo, lembrei algumas vezes que vi o pai dele parado dentro daquele mesmo carro enquanto o esperava sair da escola. Thomas parecia uma versão em miniatura e de cabelos longos de seu pai, que na época deveria ter em torno de quarenta anos. Ele sempre o recebia na entrada da escola com um abraço apertado e uma barra de Kitkat. Mesmo que ele fosse bastante rígido quanto à sua escolha profissional, Thomas havia me dito, em algum momento de nossas conversas, que ele sempre demonstrara seu amor incondicional pelos filhos.
— É um belo carro – comentei, pensando no trabalho que Thomas tinha para manter aquela lembrança de seu pai intacta.
— É – ele balançou a cabeça, ligando o carro. – Dá muito trabalho mantê-lo jovem assim – completou, sorrindo.
Nós fomos durante todo o percurso cantando ao som das bandas que Thomas tinha em seu pen drive. Seu gosto musical era bem próximo do meu, o que rendeu uma nova discussão a respeito de ícones musicais. Então, ele acabou revelando um pouco mais da sua vida, contando que costumava tocar apenas por hobby com alguns amigos na Last Kiss.
— Eu poderia ter me dito, e aí eu chegaria mais cedo para te ver tocar – reclamei.
— Ainda bem que eu não falei. Você teria ido embora ao perceber que era eu – ele constatou, balançando a cabeça em minha direção.
Thomas parou em frente ao prédio e eu me despedi com um beijo em sua bochecha, agradecendo pela noite. Suas bochechas ficaram instantaneamente vermelhas, o que me fez abrir um largo sorriso.
— Qual é, nós transamos, você não parou de fazer piadas e vai ficar tímido por causa de um beijo na bochecha?
— Eu não sei do que você está falando – respondeu, virando o rosto para o outro lado.
Saí do carro, dando tchau para ele quando alcancei a portaria do prédio. Eu já frequentava tanto o apartamento de Rosa que já não precisava mais de autorização para subir, então apenas seguia em direção ao saguão pomposo do prédio.
Peguei o elevador e subi até à cobertura. Abri a porta com as chaves de Rosa e, finalmente, pude explodir de alegria. Subi as escadas correndo, abrindo a porta do quarto de Rosa com certa violência. Lá estava ela, enrolada em seu cobertor na cama, os olhos vidrados na TV, agarrada a um balde de pipoca doce. A minha súbita aparição apenas fez com que esta desviasse os olhos em minha direção.
— Você não vai acreditar! – exclamei, puxando seu edredom.
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