Tales of the Supernatural
6 Caso I — Conhecendo um pouco o Passado
Notas iniciais
— Eu... Eu... – Lucy não sabia ao certo o que falar — Como nosso pai escondeu uma coisa tão simplória de nós?
— Você não pode ter tanta certeza de que ele escondeu isso de nós – rebateu Erza — Afinal, aonde você encontrou esse diário?
— Longa história para contar agora... – a loira revirou os olhos — Vamos! Abra! Eu estou ansiosa para ver o que há dentro!
— Palavras... – Erza caçoou, recebendo um soco de leve no ombro pela parte da loira — Certo, abrirei...
Quando a ruiva abriu o diário, a seguinte frase estava escrita nele:
“Para todos aqueles que desejam descobrir a verdade sobre a cidade de Magnólia”...
As duas irmãs se entreolharam por um instante e depois voltaram sua atenção ao diário.
Gostaria de começar dizendo que tudo o que eu acreditava estava certo! O sobrenatural existe e eu descobri um lugar onde as criaturas andam livremente, porém sem serem vistas.
Tudo começou num duro inverno no ano de 1699. Estávamos na virada do século, obviamente, e por isso todos na minha cidade estavam afoitos...
A ruiva parou de ler quando Lucy a interrompeu por um momento.
— Ano de 1699? Isso foi há cem anos! – Lucy parecia estar surpresa — Não sabia que esse diário era tão antigo assim.
— Lucy! Não me interrompa! – reclamou Erza — Continuando...
[...] e, por causa desse tumulto todo, eu e meu filho Jude precisávamos de um lugar tranqüilo para ficar. Pelo menos por alguns dias, até tudo se acalmar.
— Nosso pai é tão velho assim? Ai não diz quantos anos ele tinha na época? – perguntou Lucy interrompendo mais uma vez.
— Lucy... – Erza suspirou — Aqui diz que ele tinha... Dez anos de idade!
— Dez anos? – a ruiva resolveu ignorar e continuou a leitura.
Então eu fiquei sabendo por meio de uma antiga amiga minha que existia uma cidade que ignorava completamente essas festividades de fim de ano.
Magnólia...
Sem mais demora, eu arrumei as nossas malas e as coloquei na carruagem, partindo em direção a esta cidade de Magnólia. Chegando lá, o ar pareceu pesar ao meu redor. Senti como se uma energia maligna rondasse aquele local.
Arrepiei-me.
Jude, percebendo que eu estava um pouco atônita, segurou a minha mão e, me chamando, me tirou de meus devaneios espirituais. Logo perguntou o que aconteceu e eu o respondi que não era nada. Ele não acreditava naquele tipo de coisa, então seria difícil explicar para ele o que eu havia sentido.
Eu era um tipo especial de sensitiva. Podia sentir a presença de qualquer tipo de espírito. Maligno ou benigno... Seja ele o que fosse.
Minha mãe, a minha avó e até mesmo minha bisavó eram sensitivas. Não sei por que Jude não herdou essa característica familiar. Talvez fosse uma coisa que só afetasse as mulheres da família, eu não sei.
Mas, enfim. Descemos da carruagem e fomos direto para uma estalagem – que diziam que era a melhor da cidade. Adentramos o grande recinto e fui direto à recepção para pegar nossas chaves e saber onde ficavam nossos quartos. Peguei as chaves das mãos do recepcionista e subimos direto para nosso quarto. Resolvi pegar apenas um quarto, já que Jude ainda tinha medo de dormir sozinho.
Acabamos por entrar no cômodo e nos ajeitar para irmos dormir. O aposento não era tão grande, mas era confortável. Era um pouco menor que o quarto da nossa casa, mas assim estava de bom tamanho. Coloquei as malas em cima da cama e comecei a tirar nossos pertences e colocá-los dentro do pequeno guarda-roupa que havia bem ao lado da cama.
Jude, por sua vez, estava muito cansado da viagem e por isso resolveu dormir. Vi que a cama era um pouco pequena – menor que uma cama de solteiro, creio eu – e por isso resolvi dormir no chão enquanto o pequeno Jude descansava confortavelmente em cima da mesma. Peguei uns travesseiros e umas cobertas e me ajeitei ao lado da cama.
Adormeci.
No dia acordei com alguém gritando no meio da rua, bem alto para todos ouvirem.
— Está lá! Está lá! – ele apontava para uma direção — O demônio está lá!
“O demônio”? Do que ele estava falando? O pobre coitado devia estar alucinando...
Ao menos era o que eu pensei naquele momento.
Logo vi que vários guardas corriam pra cima do individuo para imobilizá-lo e levá-lo para um local estável, para que pudesse descansar e assim retornar para sua casa.
— Mamãe... – ouvi Jude me chamar — Que barulho é esse?
— Não é nada, meu anjo. Foi só um homem que passou gritando no meio da rua – expliquei.
— Gritando? Ele estava com dor? – indagou esfregando os olhos, para “afastar” o sono.
— Não, meu anjo. Ele não estava com dor.
Ele apenas deu um sorriso e me abraçou. O peguei em meu colo e disse que era para ele ir se arrumar, pois iríamos descer para tomar café e depois, quem sabe, dar uma volta para conhecer a cidade.
O pequeno saiu dali em um pulo e correu direto para o banheiro. Resolvi separar sua roupa e a minha também. Foi quando senti uma tontura...
Quase fui ao chão.
Cambaleei para trás e acabei por cair em cima da cama. Eu realmente não sabia o que estava acontecendo comigo... Tinha me sentido estranha desde que entrei naquela cidade... “Eu não sabia o que estava acontecendo”... Mas iria descobrir.
Jude saiu do banho e veio em minha direção para se enxugar. O enxuguei e resolvi entrar para tomar meu banho e, enfim, sairmos para tomar café.
Cinco minutos depois sai do banho e fui me vestir.
Estava pronta.
Descemos até o Hall de refeições e fui logo preparar o nosso café.
— Erza, pule logo para a parte interessante... – resmungou Lucy, entediada.
— Nossa! Como você é irritante... – bufou — Mas está bem! Vou pular a parte do café e a parte chatas sobre o passeio que eles tiveram pela cidade.
— Ótimo! – a loira se jogou na cama.
Estávamos terminando o nosso passeio pela cidade, quando ouvi uns gritos vindos de um beco próximo dali. Coloquei Jude para trás e pedi para que ele ficasse parado ali e me aproximei do local.
Quando cheguei, vi uma cena descarada. Um casal, aparentemente jovem, estava fazendo sexo no meio do beco. A mulher, com seus longos cabelos negros, pressionava o joelho contra o membro já rígido do homem o fazendo gritar... De dor ou de prazer. Eles já estavam nus.
Não sei o que me deu naquela hora, mas meu corpo não se movia. Parecia que havia algo que insistia para que eu ficasse ali e visse aquele ato de desejo carnal.
Então eles continuaram... A mulher, com sua sensualidade, foi descendo devagar até chegar ao membro do rapaz, o colocando inteiro na boca. O homem gritou.
Mas eu senti que não havia sido um grito de prazer, mas sim de dor.
Quando, numa velocidade que meus olhos não puderam acompanhar, a mulher arranca o membro do rapaz com sua boca, o fazendo gritar mais ainda.
— Sua vagabunda! – o homem continuava a gritar enquanto tentava estancar o sangue com a sua camiseta surrada.
A mulher se afastou dele e começou a lamber os lábios, sujos de sangue. E, de repente, algo mudou nela... Sua coloração de pele estava ficando diferente... Ela era morena e agora estava ficando... Avermelhada? Também não entendi quando chifres e asas começaram a nascer na sua cabeça e costas.
Ela havia se transformado numa espécie de monstro. Eu não podia acreditar no que estava vendo.
— Vadia! Vai morrer! – foi quando, num momento de adrenalina, ele tentou desferir um soco na face da “criatura” a sua frente. Mas foi inútil. Ela simplesmente parou com apenas um dedo.
— Não... Querido, a diversão ainda não acabou – então ela abriu suas pequenas asas e levantou vôo, levando consigo o rapaz para cima do telhado de uma casa ao lado. Ainda bem que ainda podia ver o que acontecia.
Foi quando ela o beijou. Mas não foi um beijo de paixão ou amor, foi um beijo de luxúria. Mas logo se afastou. Parecia que ela o estava matando de algum jeito, pois o seu corpo estava ficando “vazio”, sem vida...
Mas, em seu último suspiro de vida, ele pôde abaixar seus olhos por um único instante e me enxergar. Foi então que ele gritou.
— Corra! – a mulher olhou para mim e simplesmente ignorou o fato de eu estar ali.
Senti minhas pernas ficando bambas e logo fui ao chão. Tentei me levantar... Mas foi em vão.
Então eu pude ver o brilho de vida que existia no olho daquele rapaz se apagar.
— Mamãe? – ouvi uma voz fina e doce chamar atrás de mim.
Nesse momento senti meu coração parar e o meu corpo gelar por inteiro. A criatura, que havia acabado de se “alimentar”, olhou para o pequeno Jude e o seu semblante logo se transformou novamente. O mesmo semblante que ela havia mostrado para o pobre rapaz, que jazia no chão.
Então, como em um rasante, ela desceu rapidamente em direção a Jude, pronto para pegá-lo... Para matá-lo.
Porém, eu fui mais rápida. O meu coração havia voltado a bater e, como num impulso, levei a minha mão diretamente a face da criatura que tentava atacar meu filho.
E então gritei.
— Jude! Saia daqui! Agora! – o meu grito soou por todo o quarteirão.
Desesperado, o pequeno Jude começou a correr em direção a uma rua pouco iluminada. A uma única luz que podia iluminar aquele local era a da lua.
Senti como se um enorme peso fosse colocado sobre o meu braço esquerdo. Eu havia desferido o golpe e eu mesma senti a dor?
— Que mãe dedicada... Protegendo o filhinho... – caçoou — Mas você não pode protegê-lo para sempre – ela se aproximou da minha orelha e a lambeu o lóbulo da mesma.
Um arrepio consumiu o meu corpo. Senti nojo e náuseas. Poderia vomitar ali mesmo...
Achei que ela não poderia me causar mais dor. Mas me enganei... Ela desferiu um soco muito forte em meu estômago, me fazendo cuspir um pouco de sangue. Então balançou a pequena cauda, que eu ainda não havia visto, para cima e para baixo, me fazendo acompanhar aquele ritmo.
E, como em um lampejo, ela enfiou a ponta triangular da pequena cauda em meu olho direito, perfurando-o.
Gritei de dor. Não sabia como reagir naquela situação. Nunca havia visto nada com isso antes... Era anormal!
Olhei para o lado e pude ver uma pequena estaca de metal. Foi então que a adrenalina tomou conta do meu corpo novamente e pude empurrá-la para me aproximar da pequena estaca de metal e agarrá-la.
Irritada, ela tentou pular em cima de mim, mas eu havia colocado a estaca em cima de mim.
— Sua... – a estava havia perfurado bem no seu coração — Como... Pôde? – a sua forma estava se desfazendo em uma grande fumaça avermelhada. Gritou antes que desaparecesse por completo.
Suspirei aliviada por finalmente ter acabado. Não sabia ao certo se aquilo iria funcionar, mas rezava para que sim.
Resolvi deixar de lado a meretriz que tinha acabado de me atacar para me concentrar em uma questão muito mais importante: Encontrar o Jude!
Aonde ele poderia ter ido? Eu o mandei fugir e o vi correr até uma rua pouco iluminada que ficava logo em frente de onde eu estava. Chamei seu nome alto para ver se ele me ouvia.
Nada.
Gritei novamente na esperança de, nesta vez, ter êxito.
Logo ouvi a voz do meu pequeno Jude me chamar. Ele estava próximo e foi ficando mais ainda. Quando chegou à minha frente, pulou e me abraçou forte.
— Mamãe... Que monstro era aquele? – perguntou com a cabeça encostada no meu ombro esquerdo.
— Eu não sei, meu anjo... Mas ele nunca mais vai te incomodar – o abracei mais forte.
Voltamos para a estalagem e o coloquei para dormir. Nem tomou banho... Mas isso não importa.
Não consegui me deitar, afinal estava quase amanhecendo. A luz do sol, apesar de fraca, já invadia o quarto, iluminando-o um pouco. Levantei-me e fui até a biblioteca da cidade. Precisava descobrir alguma coisa sobre o que tinha acontecido na noite passada... Eu precisava descobrir o que estava acontecendo naquela cidade.
Na biblioteca, encontrei vários livros com o tema “sobrenatural” e aproveitei para ler cada um deles. Aprofundei-me um pouco mais no universo místico que nos cerca e anda lado a lado conosco...
Foi então que resolvi escrever esse diário... Para que você que está lendo possa descobrir toda a verdade por de trás da cidade de Magnólia. A verdade oculta... Sobre o sobrenatural...
{...}
— Acabou? – Lucy perguntou, se levantando.
— Sim, acabou. Mas essa é só a história de como ela resolveu escrever esse diário – explicou Erza — Olha! Aqui tem todo tipo de descrição de criatura sobrenatural... – ela estava passando os olhos pelas páginas do diário quando parou em uma especial — Súcubo... Criaturas em forma de mulheres que possuem suas vítimas e depois roubam sua energia vital através de relações sexuais... Acho que foi essa a criatura que ela viu naquela noite.
— Acho que sim... – a loira parou para pensar — Então quer dizer que realmente tem algo de estranho nessa cidade?
A ruiva apenas assentiu com a cabeça.
— Melhor escondermos isso... – propôs Erza — Se mostramos para alguém vão achar que ficamos malucas!
— Certo! Vamos selar um pacto! – Lucy levantou o dedo mindinho — Nunca mostraremos esse diário a ninguém... Esse segredo ficará só entre nós duas!
Erza levantou o dedo mindinho e o uniu ao de Lucy.
— Certo!
— Mas... Se existia algo naquela época, será que ainda existe nos dias atuais?
— Acho que sim... Isso poderia explicar o assassinato de John e aquele outro assassinato.
— Pode ser... – a loira parou para refletir — Espera! Se o diário é de nossa família, como a Melinda sabia onde estava?
— Eu não sei... Mas isso é história para outro dia! Vamos dormir, já é tarde.
— Está bem... Boa noite, irmã!
— Boa noite!
Erza se deitou em sua cama e Lucy se dirigiu ao quarto dela para finalmente descansar. O dia havia sido duro e agora só queria paz e sossego.
Estava andando pelo corredor quando ouviu alguém a chamar.
— Lucy? O que faz acordada tão tarde? – era o prefeito Makarov. Já estava usando seu pijama de dormir e segurava uma vela dentro de uma xícara.
— Te acordei? Desculpe, não era a minha intenção! Eu estava conversando com a minha irmã e acabei perdendo a noção do tempo! – ela riu, abestalhada.
Makarov apenas olhou para ela com uma sobrancelha arqueada.
— Não andou bebendo, não é? – perguntou fitando as bochechas vermelhas de Lucy — Está vermelha!
— Não, não! Eu não bebo... Muito... – ela coçou a nuca — Bom... Boa noite! – e correu para o quarto.
— Que seja... – o prefeito também foi dormir.
“Espera! Se o diário é de nossa família, como a Melinda sabia onde estava”?
{...}
— Vamos, Jude! – Bridget gritava para que seu filho se apressasse — O cocheiro não vai esperar para sempre!
— Já vou mamãe! – o pequeno estava com dificuldades de levar a imensa mala que carregava.
— Ah, deixe-me ajudá-lo! – um pouco impaciente, resolveu ajudar o menino a colocar a mala na carruagem — Vamos voltar logo para Hageon.
— Sim mamãe! – o garoto abraçou a mãe.
Mas, naquele alvoroço todo, a mulher não percebera que havia deixado um pequeno objeto cair de sua maleta.
Um diário. Um pequeno diário vermelho com uns adornos em dourado. Um pequeno diário que levava em sua capa a seguinte anotação:
“Diário pertencente à Bridget Heartfillia”
— Um diário? – uma senhora se abaixou e pegou — Bridget Heart... Heart... Não consigo ler o sobrenome completo. Mas acho que não existe nenhuma Bridget Heart-alguma-coisa morando aqui... Irei guardar! Até poder devolver a ela!
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