Tales
4 III - O primeiro evento
Notas iniciais
Naquela noite ele não pôde dormir... Na verdade ele quase nunca conseguia dormir sem usar remédios, mas naquela noite os calmantes não funcionaram, seu dia prometia ser uma bosta. Começou com uma noite e madrugada inteira tendo lembranças dos assassinatos de sua família, tanto a natural quanto a que o adotara, desesperado ele gritava e rolava na cama, chorava como se estivesse revivendo aquilo e tentava tomar mais calmantes até se aquietar, mas não dormiu apenas parou de rolar e gritar por fisicamente estar anestesiado, ficou tentando controlar a dor de seu peito, apenas as lágrimas continuavam a rolar.
No trabalho a sua nova secretária o obrigou a comer o almoço com ela novamente e não parava de lembrá-lo do evento que teria de ir na parte da noite. Os papéis não paravam de chegar e quatro clientes já tinham cancelado os trabalhos que fariam com a empresa, dois deles passaram os trabalhos para a Lamia e tudo o que Gray não precisava era ficar mais nervoso na hora do evento. A situação praticamente batia na cara dele dizendo “Todos têm de gostar de você ou então... Falência!” e ele estava imaginando isso quando Natsu entrou pela porta sem bater e começou a falar.
— Vamos Gray? A Lucy já está aqui!
— O que? — Falou sem entender.
— Pedi que ela fosse com a gente pro Clothes and stuff*, lembra a loja de roupas do Jellal?
— Porque estamos indo pra lá?! — Gray ainda não entendia nada.
— A Lucy e eu vamos ajudar você a comprar um terno bem bonito pra ir ao evento de hoje à noite!
— Que? Natsu, eu não preciso disso! Sinceramente cara...
— Vamos logo, rapazes! —Lucy disse entrando na sala e levando os dois pelas orelhas para fora.
— Está dispensada, Juvia — Gray falou rapidamente enquanto estava sendo arrastado.
Juvia olhou a cena achando-a engraçada, juntou suas coisas e foi de ônibus para a casa de Gajeel onde estava morando de favor provisoriamente, arrumou algumas coisas que estavam fora do lugar, limpou um pouco e fez a comida.
Enquanto isso...
Gray estava comprando roupas com a ajuda de Lucy e Natsu, cumprimentou Jellal que já não via há algum tempo e depois dos dois pombinhos finalmente concordarem em algum dos modelos eles compraram e Gray foi para seu apartamento.
Gray morava sozinho num apartamento grande o bastante para três ou quatro pessoas. A decoração do lugar era bonita e o acabamento era perfeito, as paredes tinham cores calmas como marrom, bege, branco, cinza e azul dependendo do lugar em que se estava.
Gray limpava a casa freneticamente uma vez na semana, por isso sua casa estava sempre limpa e era só lá que ele podia ficar a vontade, ficar apenas de cuecas, ele era um homem muito calorento, estava sempre quente pra ele e era um inferno ter que trabalhar em roupas tórridas** como seus ternos, pelo menos ele tinha um ar condicionado no trabalho. Ele gostava de sua casa, mas todo aquele espaço apenas o lembrava do quão solitário era.
Tomou um banho e vestiu-se com o terno que havia comprado com a ajuda dos amigos, pegou o convite que a secretária havia lhe dado mais cedo e o pôs no bolso direito, junto com a chave do carro. Desceu usando as escadas e ao chegar à garagem entrou no carro, checou o horário e o lugar do evento e saiu de casa sem muita pressa.
Foi passando pelos locais olhando a cidade, estava saindo um pouco cedo. Viu no caminho um lugar que costumava ir quando estava no ensino médio e resolveu dar uma parada, estacionou o carro e entrou no café que não visitava há muito tempo, tomou um copo de café naquele que era o local onde a irmã mais velha costumava trabalhar e ficou se perguntando por que estava ali, não ia aquele lugar desde que Ultear havia morrido. Resolveu sair, afinal tinha que ir até o evento, deixou o dinheiro com alguma gorjeta em cima da mesa e saiu sem falar com ninguém.
Chegando ao evento foi recepcionado e levado até a mesa onde sentaria sozinho, no convite estava escrito que poderia levar até dois acompanhantes, mas escolhera não levar ninguém.
— Gray-san! —Disse uma mulher alta de cabelos verdes — Que bom que veio! — Gray levantou por educação e foi cumprimentado com um beijinho de cada lado pela mulher, ele vestiu o sorriso falso que usava nesse tipo de ocasião.
— É bom te ver por aqui! — Gray afirmou, mesmo sem saber com quem estava falando.
— Claro que me veria por aqui, bobinho! — A garota riu — O evento é meu afinal de contas!
— Sim, sim! Mas é bom poder ter a chance de falar com minha anfitriã, você deve estar muito ocupada agora, então é uma honra ter mesmo que um pouco de seu tempo! — Inventou antes que ela percebesse que ele não sabia seu nome e terminou a frase dando um beijo educado na mão da mulher que demonstrou estar satisfeita com aquilo e foi embora depois de um pouco mais de conversa.
Gray sentou-se novamente e pegou uma taça de vinho quando o garçom ofereceu a ele, ficou olhando aquelas pessoas dançarem a música que não era desagradável e observou os detalhes da decoração. Havia pilastras, as mesas eram redondas e tudo parecia estar decorado em branco e suas variações, do mais amarelado ao mais límpido branco.
— Gray! — Foi tirado de suas observações por uma voz masculina bastante conhecida.
— Lyon! O que está fazendo aqui? — Perguntou enquanto encarava o irmão de cabelos quase brancos.
— O mesmo que você! Estou tentando conquistar clientes, não é óbvio? — Disse sentando-se ao lado do irmão e rival de cabelos pretos.
— Hum! Mas não vou deixar que você leve essa, eu estou aqui pra representar a Tales dessa vez, tenho certeza que...
— Você acha que é fácil conquistar um cliente? Acha que é só vir aqui e contar com a sorte ou com o nome da empresa da qual você é presidente? — Lyon parecia um pouco irritado — Não é só isso, Gray! Você não só simplesmente vem, você tem de ser cordial e tem de saber os nomes das pessoas, tem de saber como divertir as pessoas!
— Foi assim que você conquistou o Arthur? — Perguntou sarcasticamente.
— Claro! — Lyon riu. — Conhecendo você posso dizer que você nem ao menos sabe o que está fazendo aqui!
E ele tinha razão. Por dentro tudo no que Gray pensava era quando ele poderia ir embora e no que estava fazendo ali. Ele não sabia nem o nome da mulher que estava dando o evento e se safou por pouco quando ela veio falar com ele, como poderia apenas continuar daquele jeito?
— Hum! Você está aqui representando a Tales por pura sorte e nem ao menos se esforça para ser um bom presidente? Cara, você é realmente um bosta às vezes... — Gray apenas olhou para baixo, não estava com vontade de brigar com Lyon e não iria entrar na discussão.
No final da noite acabou por encontrar Laxus, Cana e Mirajane, conversou um pouco com os amigos e conseguiu por milagre não passar vergonha sem saber o nome da anfitriã. Saiu pouco antes de o evento acabar e foi para o apartamento deu graças a Deus por seu apartamento ser isolado acusticamente e “brincou” de karaokê, uma das únicas coisas que o deixava feliz e algo que ele costumava fazer quando estava triste.
Não dormiu naquela noite novamente, dois dias sem dormir era muito e ele estava extremamente cansado na manhã do dia seguinte. No trabalho, sua secretária não parava de importuna-lo com mais trabalho e perguntas como havia sido o evento na noite passada, obrigou ele a comer de novo naquele dia e ele já estava se sentindo acostumado com isso, mesmo que fosse apenas o terceiro dia dela ali.
— Gray-sama! —Juvia entrou na sala e ele olhou a mulher — Yuri-san está aí para a reunião!
—Quem está aqui? —Gray perguntou.
— Yuri-san, Gray-sama! A mulher que deu aquele evento em que você foi ontem!
— Ah! Então esse era o nome dela?
— Você foi ao evento sem ao menos saber o nome da anfitriã? — Juvia não sabia se chorava ou ria da situação e Gray deu um risinho sarcástico como quem diz “Me safei por pouco”.
Depois disso Gray seguiu Juvia até a sala de reuniões, Natsu e Yuri já estavam lá. Discutir um pouco sobre como seria o contrato, o investimento e o lucro de cada empresa eles concordaram e depois de escolherem os modelos e as pessoas que iriam trabalhar com aquele projeto, tudo foi acertado e Yuri foi embora.
— Muito obrigado, Gray! — Natsu agradeceu.
— Pelo que? — Gray franziu as sobrancelhas ao perguntar.
— Eu sei que não faz seu estilo ir nesses eventos e lidar com as pessoas, mas você foi e até se virou bem, muito obrigado por não ter me deixado na mão, cara!
— Eu só não quero levar a Tales á falência, não é como se estivesse fazendo isso por você cérebro de fogo!
— Sei que você me ama mesmo assim, cueca gelada!
Juvia pigarreou da porta e os dois finalmente perceberam sua presença ali.
— Desde quando você está aí, Juvia? — Natsu perguntou.
— Desde que você estava agradecendo ao Gray-sama, Natsu-san! — Os dois se entreolharam e olharam a mulher novamente. — Posso perguntar uma coisa? — Os dois confirmaram movendo a cabeça num sim — De onde veio esses apelidos? — Perguntou sorrindo.
— Quando a gente estava no ensino médio o Gray tinha mania de ficar tirando a roupa, não na escola, mas quando ele ia dormir na minha casa e tal. Ele é um cara muito calorento! Por isso eu o chamo de cueca gelada até hoje!
— O Natsu sempre foi meio doidinho da cabeça, Juvia. Quando a gente tava no ensino médio ele era meio piromaníaco, por isso o chamo de cérebro de fogo!
Os dois falaram as frases juntos e Juvia riu se divertindo com a situação, Natsu acabou sendo contagiado pela risada da garota e os dois riam juntos, Gray permaneceu calado olhando-os como se fossem espécimes a parte naquele ambiente, saiu da sala e os deixou sozinhos.
Natsu e Juvia ficaram conversando durante mais alguns minutos sobre a empresa, Gray e os clientes, depois foram trabalhar. Juvia entrou na sala de Gray com o telefone da empresa, que era sem fio, na mão e procurou o livro que Natsu havia falado durante a conversa, o livro dos clientes e colaboradores mais antigos e fiéis da companhia.
Era um livro que tinha foto e nome de cada fornecedor, cliente, trabalhador ou colaborador que normalmente trabalhava com a empresa, Juvia queria decorar os nomes e rostos para saber com quem estava falando ao telefone e também para não passar vergonha como achava que havia passado com Arthur.
Gray não fazia ideia do que Juvia estava fazendo ali, sabia apenas que ela havia pegado um grande livro e sentado numa cadeira um pouco afastada de sua mesa, ela estava bastante concentrada e passava as ligações pra ele pelo telefone sem muita vontade.
Cerca de 3 horas depois o celular da mulher tocou e ela avisou que estava na hora de Gray ir para o seu apartamento se arrumar para o evento daquela noite, deu o convite a ele e mandou que ele fosse logo para casa.
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