Taking Over Me
2 Capítulo 2
Notas iniciais
"But who can decide what they dream?
And dream I do"
(Mas quem pode decidir o que sonha?
E eu sonho)
Mirajane podia ser tudo, menos desatenta. Ela sabia perfeitamente os sentimentos que assolavam o coração de seus amados irmãos, e a maga não era o tipo de pessoa que simplesmente ignorava e deixava para lá.
Aproveitando a ausência de Elfman, tocou carinhosamente o braço de uma desanimada Lisanna:
–O que houve, amor? Mal tocou na comida.
Esta se assustou com o toque, mas logo voltou a mastigar a mesma porção de comida pela quinquagésima vez. Debatia consigo mesma se deveria ou não falar.
–Vamos, pode me contar. Não desconte no pobre arroz, ele já deve estar liquefeito aí na sua boca.
Ela engoliu e riu baixinho, afastando uma mecha de cabelo dos olhos. Foi direta:
–Natsu me questionou sobre o meu... a minha forma take over incontrolável.
Mira deixou cair o garfo que segurava, assustada.
–M-mas como...ele se lembrou ou...
–Não, na verdade...estávamos apenas discutindo os tipos de poderes e o assunto surgiu e...eu fiquei tão assustada que paralisei ali mesmo na mesa.
Ela via sua jovem imouto entrar em pânico, exatamente como entrara oito anos atrás.
–Mira-nee, e se ele...se eles...e se eu...
–Shhhh, calma Lisanna, nada vai acontecer. Eu não vou permitir, e nem você. – Fios brancos passeavam por entre dedos carinhosos. – Aquilo é passado, um passado distante e nada mais, esquecido por todos.
–Não sei, conheço o Natsu, ele ai fuçar até descobrir alguma coisa, e se ele souber daquele dia...
–O único modo de alguém descobrir é se um de nós três, ou o Mestre, contarmos a ele, ou caso você tente usar a transformação de novo. E nenhum destes casos vai acontecer... – Mira hesitou por um segundo. – Não é?
–Eu prometi, não foi? Ninguém jamais verá aquela besta de novo.
Mora finamente a abraçou, na tentativa de consolar a ambas. Lisanna tornou a se perder em pensamentos.
“Nunca mais...nunca mais colocarei nenhum deles em perigo.”
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A manhã seguinte trouxe consigo um céu nublado e um ar úmido e frio. Com preguiça demais pra sair das cobertas, Lucy recusou o chamado de seu parceiro exatas seis vezes antes de ter a colcha quentinha arrancada de cima dela.
–Anda logo Lucy, faz meia hora que eu tô chamando!
O biquinho não convenceu a loira, que se encolheu ainda mais e afundou a cabeça debaixo do travesseiro.
–Eu sei, e faz meia hora que eu digo que não quero levantar! Moou Natsu, qual o seu problema, a gente tá de folga... – Choramingou.
–Charlie veio aqui e disse que o Mestre chamou com urgência.
Aquilo enfim chamou a sua atenção.
–Urgente...quanto?
Natsu sabia que ela estava tentando se convencer de que não podia ser tão sério, mas não dava pra simplesmente ignorar o Mestre em casos assim.
–O bastante. Agora... – Ele mostrou todos os dentes em um sorriso que fez todos os pelos do corpo dela se arrepiarem. – Vai trocar de roupa ou eu preciso fazer isso por você?
Um travesseiro fofo e com babadinhos rosa no meio da cara foi a resposta da muy envergonhada Lucy, que correu para o banheiro armada de toalha e roupas limpas.
–NÃO OUSE ESPIAR, OU VOU TE AFOGAR NA PIA DA COZINHA!
–Hai hai...
Ela bateu a porta com tanta força que quase se ouviam as dobradiças gemerem em protesto. O rosado riu mais uma vez e se deixou cair para trás, deitando na cama desarrumada da parceira.
Só então, seu sorriso dele se desfez.
Esfregou o rosto com as mãos, na tentativa de afastar o cansaço e as olheiras. Não dormira muito na noite anterior e, quando finalmente conseguia fechar os olhos, era assolado por pesadelos terríveis que quase o faziam gritar. Na verdade, ele não lembrava visualmente do sonho, mas era perfeitamente capaz de lembrar do cheiro e da sensação de desespero correndo por cada célula de seu corpo.
Medo e morte. Solidão e altruísmo. Sentimento de perda. Passos silenciosos o encurralando na escuridão, e no fim de tudo, uma vozinha que gritava por ele...
E ele acordava.
“O que isso quer dizer? Será que tem a ver com o chamado do mestre? Ahh que droga...”
–Algo errado?
Ele sacudiu a cabeça e guiou a loira recém banhada pra fora do apartamento.
–O que será que ele quer com a gente?
–Provavelmente alguma missão importante, deve ter chamado a Erza e o bunda gelada também.
–Sei... – Ela ficou pensativa e se calou pelo resto do caminho.
Ao cruzarem as portas da guilda não era possível notar nenhuma diferença em especial; tudo e todos se comportavam como o usual, inclusive um gatinho azul decidido a conquistar a qualquer custo o coração daquela exceed tsudere.
–Happy, Charlie!
–Ah, Lucy! Bom dia!
–Estão atrasados. O Mestre está esperando na sala dele
Lucy fez uma careta com a secura da gata, mas Happy flutuou até o seu ouvido e sussurrou:
–Dá um tempo, ela tá de mau humor porque o Mestre chamou a Wendy mas não deixou nenhum de nós dois entrarmos. Parece ser importante, ele tava muito sério.
Era a deixa para que os dois se apressassem, subindo a escada de dois em dois degraus. Abriram a porta do escritório sem aviso.
–Desculpe, estamos atrasados!
Dentro da sala, uma cena atípica se desenrolava diante de seus olhos: o resto do seu time esperava pacientemente, Gray largado numa poltrona e Wendy e Erza calmamente de pé. Do outro lado da sala, os três Strauss estavam alinhados comportadamente.
E, no centro, o Mestre estava sentado atrás de sua mesa, com uma das expressões mais sérias que eles já haviam visto.
–Tudo bem...o que eu fiz agora?
A pergunta de Natsu era genuína, mas arrancou dois ou três sorrisos estrangulados.
–Não sabemos o que está acontecendo ainda, Natsu. – Erza esclareceu. – Mestre?
Makarov aparentava ter envelhecido dez anos desde o dia anterior. Ficou de pé e encarou cada um dos presentes.
–Vou ser direto. Recebi um comunicado do Conselho, e as notícias não são nada boas. – Ele suspirou. – Preciso mandá-los para uma missão extrema, todos os oito.
Os rostos se franziram em um misto de preocupação e curiosidade. Não era comum que times se mesclassem daquela forma, ainda mais sob a ordem de Makarov.
–Mestre, o que aconteceu? – Mira indagou. – Sabe que não costumo mais participar de missões.
–Eu sei minha cara, mas para esse caso em particular eu preciso da experiência sua e de seus irmãos, e da força e do trabalho em equipe do time de Natsu.
–Mestre, desembuche logo o que é que tá pegando! – Natsu finalmente suplantou a sua paciência.
–É, falar as coisas claramente é coisa de homem!
Makarov respirou fundo mais uma vez antes de dizer.
–Phobos retornou.
O time de Natsu não entendeu a seriedade daquele fato, mas todos notaram o empalidecimento súbito dos três irmãos. Lisanna chegou a vacilar por um segundo, sendo apoiada por seu Elfman.
Mirajane arriscou-se a falar primeiro:
–M-mestre...nós tínhamos certeza de que...
–Todos nós achávamos o mesmo, mas estávamos errados.
–Hey, dá pra alguém explicar o que está havendo aqui? – Gray tomou a palavra.
Lucy então bateu a mão fechada na outra em palma, soltando um sonoro “Ah!” de quem lembra de algo importante.
–Ele não é um dos demônios do livro de Zeref? Eto..um demônio do medo, eu acho.
–O que quer dizer com isso? – A ruiva questionou.
–Andei pesquisando sobre as magias e demônios de Zeref depois do que aconteceu na ilha Tenrou, e tenho certeza de que Phobos era um dos que estavam no livro que eu tenho. Ele é capaz de manipular os medos e sentimentos das pessoas ao redor, mergulhando-nas em caos e pânico, assim consegue destruir tudo o que quiser sem ser impedido. É muito poderoso, pelo que eu entendi.
–E está certa, ele realmente é. Por isso fomos selecionados pra tentar impedir o seu avanço.
–M-mas... – Lisanna tentava a todo custo não tremer. – Porque nós Quer dizer, porque só a Fairy Tail? Eu tenho certeza de que outras guildas ajudariam...
Makarov fez um gesto para que ela se aproximasse. Lisanna o obedeceu, e como recompensa teve um afago caloroso do mestre em seu rosto, seus olhos tentando transparecer que odiava o que estava prestes a fazer.
–O problema, minha criança, é que ele não foi o único a ressurgir. Outras criaturas surgiram em diversas pequenas cidades do país, e todas as guildas estão se mobilizando para impedir que o pior aconteça. Muitas vidas foram perdidas, tanto de civis quanto de magos. – Um suspiro longo e profundo saiu de seus lábios. – Eles precisam de nós.
Ela entendia essas palavras, mas não era o suficiente pra impedir que seu coração se enchesse de medo e remorso. Deu dois passos para longe daquele a quem considerava um pai.
–E-eu não sei...não posso, eu simplesmente não posso...desculpe mestre, miina...
Todos ficaram surpresos ao vê-la fugir daquela forma. Natsu estendeu a mão por um momento, mas tornou a baixá-la ao sentir o olhar gentil de Lucy.
–Mestre, deixe-me falar com ela. Tenho certeza de que ela vai se acalmar.
Ele assentiu para Mira, que fez uma reverência e também se retirou. Elfman no entanto permaneceu, assim como os demais, que tinham mais dúvidas agora do que antes de entrarem naquela sala.
–O que aconteceu com ela? – Foi a pergunta de um pouco vestido mago do gelo.
–Ela mesma contará quando estiver pronta. Por hora, gostaria que você Lucy repassasse para os seus nakamas o que sabe sobre Phobos. Deixei instruções com a Levy também, ela já deve ter algumas informações a fornecer. Aqui, — Ele estendeu um pergaminho amarrado com uma fita. – é onde ele foi visto pela última vez. Tudo indica que está se encaminhando para sudoeste, pra dentro do país. Tudo o que sabemos sobre esse demônio está escrito aí, então, pelos poderes dos Dez Magos Santos, leiam e aprendam tudo. Pode ser a diferença entre a vitória ou a derrota.
Erza pegou o documento e o segurou firmemente, mantendo um olhar determinado no rosto.
–Pode deixar conosco Mestre. Faremos o nosso melhor.
–Tenho certeza de que sim. E tem mais uma coisa: tentem manter o máximo de sigilo possível sobre este caso. O surgimento dessas criaturas não é de confirmação oficial ainda, apenas boatos públicos, e tememos que o caos se alastre casos os cidadãos saibam que as histórias terríveis que ouviram são de fato reais. Entendido, Natsu?
–Hai hai... – O rosado apoiava a cabeça nas mãos, fingindo-se magoado.
–Pois bem, agora vão e procurem Levy. E deem um tempo a Mirajane e Lisanna, elas vão procura-los ainda hoje.
Os seis assentiram e se retiraram. Enquanto Elfman se despedia silencioso do grupo, Lucy e Erza agarraram Natsu pelo cachecol antes que ele tivesse a chance de correr atrás das duas irmãs.
–Mas heim? Me soltem, eu não vou fazer nada!
–Me engana que eu gosto, seu curioso, eu sei que desde ontem tá doido pra colocar a pobre Lisanna na parede e descobrir cada um dos segredos dela. Novidade? Não vamos deixar
–Mas...ela tava assustada, não viram? Que preciso saber o que tá acontecendo ali, por Mavis!
Wendy, que se mantivera quieta até então, puxou o casaco do nakama e sorriu timidamente:
–Natsu-san, deixe que ela conte quando estiver pronta. E-eu não gostaria que ninguém me forçasse a contar coisas que eu não quero...
Diante de tamanha fofura, Natsu cedeu e relaxou os músculos. As duas o soltaram, certos de que era seguro, mas Erza manteve-se alerta apenas por precaução.
–Vamos? – Gray apontou com o polegar para a pequena Levy, que acenava do andar de baixo com uma dúzia de livros em cima de uma mesa. – A Levy tá esperando por nós, e essa não e uma daquelas missões bobas que fazemos só porque a Lucy precisa pagar o aluguel dela.
–HEY! Quando o meu nome entrou na conversa?
O miado de reclamação dela fez com que os quatro rissem, e desceram as escadas para encontrar a maga mais inteligente da guilda.
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Mira sabia exatamente onde encontrar a irmã quando esta estava assustada, chateada ou simplesmente querendo ficar sozinha: em um pequeno cais nos limites da cidade, à beira do rio e com os pés mergulhados na água. Se aproximou firme para que ela a percebesse, notando com certa curiosidade o rosto limpo e seco da menor.
“Então ela não chorou, não é? Interessante.”
–Pronta pra conversar?
A resposta foi tão rígida quando a que ela esperava:
–Eu tenho alguma escolha?
Mira entendeu que ela não se referia apenas às palavras que trocariam em seguida, mas a toda a situação na qual foram forçadamente mergulhadas poucos minutos atrás.
–Querida, sempre podemos escolher o que quisermos em nossas vidas. A questão é saber diferenciar escolher apenas o que queremos do que precisa ser feito.
Lisanna engoliu a seco, tirando os pés de dentro da água e abraçando os joelhos firmemente.
–Assim vai se resfriar... – A bronca não tinha intenção de repreender.
–Quem dera...
Mira suspirou e se pôs atrás dela, de pé. O sol estava quase no meio do céu, mas sua presença era quase que totalmente encoberta pelas numerosas nuvens.
–Eu sei que vou acabar fazendo isso, mas Mira-nee...eu...eu tenho tanto medo...primeiro as perguntas de ontem, e agora isso...nunca teremos paz, é isso?
Mira sorriu, da forma carinhosa e maternal que usava exclusivamente com seus irmãos.
–O Mestre vai entender se recusar a Missão, e eu tenho certeza de que daremos um jeito. Mas como eu disse, você é uma Strauss, e o fim eu sei que vai acabar fazendo o que achar mais correto.
Ela assentiu, as bochechas ainda afundadas na pele áspera dos joelhos. Os olhos se tornaram opacos, mas cheios de determinação.
–Mira-nee...desta vez vai ser diferente, ouviu? Vamos vencer, de verdade!
“E ninguém nunca mais terá de se machucar por minha causa.” Esta última frase foi sussurrada apenas na mente conturbada de Lisanna, mas ela sabia que a irmã ouvira tão alto e claro quanto ela.
E era verdade.
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