Take my heart
1 Capítulo único
Tudo começou com um ato. Ele queria ajudar, mas ela não queria sua ajuda...
Por mais que sua mente e coração estivessem puros, seu passado falava mais alto na cabeça de quem presenciou. Porém, ele não teve culpa, afinal, não sabia o que era o amor. Visto que sua família com seus 13 filhos, seus pais deveriam ser amorosos, com tantos filhos eles devem se amar "ardentemente". Mas pelo contrário, nenhum dos seus irmãos recebeu um carinho, e ele principalmente, por ser o décimo terceiro na família. O número 13 não é exatamente um número que traga sorte. Hans poderia apostar que sua família não saberia que ele estivesse presente em casa ou nas festas que davam.
Apesar de aparentar ser um rapaz frio e indiferente, Hans tinha sim um coração. Sentia que tinha mudado, e pra melhor, mas se ninguém reparou a diferença, nem sua própria família, o que ele pretendia fazer era mostra para alguém com quem ele havia errado.
No colégio ele também era excluído. Todos o viam como o bad boy solitário de quem deviam manter distância e isso o machucava tanto quanto uma faca enfiada em seu peito. Principalmente quando ouvia as piadas de Elsa. Ah, aquela garota maravilhosa! Maravilhosamente bonita, maravilhosamente inteligente e maravilhosamente esnobe. Hans já havia perdido a conta de quantas vezes fora ignorado ou humilhado por Elsa, a rainha da popularidade. Ela sim deveria ser conhecida como "coração de gelo". Não iria, nem em um milhão de anos, entender o porquê de ser tão atormentado.
Depois de tudo isso, ele por muitas razões se passou pelo cara mal. Mesmo não sendo o culpado, queria morrer, assim teria mais paz, tanto ele como seus amigos – se é que podiam ser chamados assim. Já tinha ido ao psicólogo algumas vezes, e fora diagnosticado com sociopatia. Seu maior desejo era ser aceito, e basicamente sua sociopatia iria obrigá-lo a seguir em frente com seus objetivos, custe o que custar. Saber disso não o agradava muito. Algum dia ele seria aceito? Seria perdoado?
"NÃO" diz a albina de cabelos brancos, tirando-o de seus pensamentos. Só estavam eles dois na sala. Hans havia pedido para falar com ela, mas a garota, em toda sua arrogância e frieza, mal entendia o que ele queria dizer.
"Como assim não? Estou tentando melhorar, não está vendo?"
"Hans, entenda: existem pessoas públicas, com uma reputação e boa imagem à zelar; essa sou eu. E existem aqueles que estragam a reputação e boa imagem dessas pessoas; esse é você"
“Está dizendo isso porque não viu como eu mudei! Não me escuta só porque eu fiz algo no passado, mas o que vale é o hoje, estamos no futuro e eu sei que posso mudar"
"Bom, então procure outra pessoa para mostrar essa sua mudança, porque eu NÃO VOU ser sua amiga"
Hans deu um muxoxo. "Certo..." ele observou a garota deixar a sala sem olhar pra trás.
Talvez ele devesse mesmo procurar outra pessoa, ou talvez nem devesse procurar alguém. Já passara a vida sendo excluído mesmo, não faria tanta diferença morrer assim.
Pouco tempo depois, a porta da sala foi aberta, revelando a garota ruiva de trancinhas.
"Oh! Eu não deveria ter entrado" ela riu forçadamente indo para trás "então... eu volto depois, desculpe"
"Espere! Por favor, preciso de um conselho" ele pediu.
A garota o encarou, claramente confusa, acreditando que aquilo só poderia ser algum tipo de brincadeira. "Você precisando de um conselho? Essa é nova"
Hans aponta para a carteira em frente a ele e Anna caminha até lá e se senta, esperando ele dizer algo.
"Eu conheço alguém que o amigo dele está com problemas. Esse amigo já fez uma coisa muito ruim, e agora quer o perdão para seguir em frente" ele explica. Aquilo estava um pouco complicado para Anna entender, mas fez um sinal para que o mesmo continuasse
"Mas e se as pessoas que ele machucou não quiserem perdoá-lo, o que ele deveria fazer?" Hans finaliza com a pergunta. Anna encarou profundamente aqueles olhos verdes claros. Hans querendo ajudar alguém? Isso se ele não fosse o amigo, ele atua muito mal quando está nervoso.
"Está falando de você mesmo, não é?"
Ele engasgou com a própria saliva e arregalou os olhos
"N-não, é o amigo do meu amigo" ele responde rápida e desajeitadamente, sem conseguir parar de encarar o chão. Anna, por outra lado, estava pasma. Como ele havia mudado! Não acreditava no que estava vendo, nem se a pagassem muito por isso.
"Você mente muito mal!"
Em um ato inesperado, ela pulou em seu pescoço e o abraçou. O rapaz ficou ali, processando o que acabara de acontecer.
Um tempo depois ela se afastou "Eu acho que esse amigo do seu amigo deveria falar com a minha irmã, ela é boa em convencer as pessoas"
"Já tentei isso, mas não deu muito certo..."
"Por quê?"
"...Bom, ela é uma das pessoas que não querem perdoar. Ela não quer me ajudar"
"Ah, Hans... Não sei se eu poderia fazer tanto quanto ela, desculpe"
"Tudo bem, já estou acostumado" Anna o encarou por alguns segundos, ele podia enxergar em seus olhos azul-mar que ela tinha pena dele; algo que Hans odiava mais que tudo. A garota finalmente desviou o olhar para as próprias mãos "Só quero que saiba que sempre terá uma amiga em mim, ok?"
O rapaz assentiu com a cabeça e ela saiu. Sozinho novamente.
☆ ☆ ☆
Elsa caminhava de nariz empinado pelos corredores do colégio, mostrando confiança e superioridade, como deveria ser. Afinal, ela era a rainha do ensino médio, talvez a rainha do colégio. Porém, sua vida não era tão perfeita quanto aparentava, não mesmo. Ela definitivamente era cheia de problemas, e atualmente seu coração era o maior deles. Aquela droga de órgão, sempre batendo menos que o necessário, incapaz de executar sua única função de forma decente.
Bradicardia, este era o nome da doença. Além de "estragar" o órgão mais importante do corpo, também causa enorme cansaço, algo que estava conseguindo vencer Elsa aos poucos. A albina olhava para os lados, vendo todos os alunos sorrindo para ela. Elsa acreditava que todos eles queriam ser como ela. Com certeza todos pensavam assim, quem não queria ser Elsa Arendelle? Seu pensamento mudou assim que sentiu seu peito se apertar e a respiração falhar; seu coração estava novamente falhando. Isso era um absurdo! Ela não conseguia ir de um canto a outro sem que seu maldito coração ficasse sobrecarregado!
A garota recostou-se nos armários, se esforçando para respirar. Tratou de sair dali e se enfiar no banheiro antes que alguém percebesse sua situação. Empurrou a porta com força, verificou todas as cabines para ter certeza de que estava só, e foi até a pia lavar o rosto. Quando levantou a cabeça e olhou-se no espelho, sua face se retorceu numa careta de espanto. Estava mais pálida que o normal – se isso fosse realmente possível – olheiras fundas e um aspecto exausto, como o de quem acabou de correr uma maratona de 3km sem parar.
De repente sentiu seu corpo a arrastar para o chão e acabou sentada. Sua visão ficou turva e tudo girou ao seu redor, sentia que, aos poucos, o ar se tornava escasso.
"É apenas o cansaço tentando te dominar" pensou, tentando manter a calma. Então se deitou quase que involuntariamente e fechou os olhos, que pareciam incrivelmente pesados.
☆ ☆ ☆
Anna acompanhava Hans pelos corredores movimentados do hospital. Aquele lugar deixaria qualquer um maluco, ou no mínimo enjoado. O cheiro era estranho, mas não tão incomum, afinal eles estavam em um ambiente de pessoas doentes. Deveria ser um local muito limpo, pelo menos era o que eles pensavam.
Nervosos, chegaram até a recepção. "Olá, Você poderia nos dizer onde está a paciente Elsa Arendelle?" Anna pediu gentilmente.
A recepcionista os olhou com descaso e respondeu com voz indiferente: "Está no segundo andar, quarto 263"
Eles assentiram com a cabeça e Anna a agradeceu, mesmo que de má vontade.
Os dois subiram as escadas e procuraram pelo número.
"245, 246..." Hans repetia mentalmente os números pregados nas portas.
"263" disse Anna um tanto alto e empurrou Hans para dentro com delicadeza, "literalmente". Quando entraram, se depararam com Elsa deitada em uma cama, ligada a vários aparelhos. Sua aparência não era das melhores, isso poderia ser enxergado à quilômetros. Sua pele, antes alva e delicada como porcelana, agora era de uma palidez amarelada que assustava Hans.
Anna lentamente se aproximou da irmã, sem conseguir parar de encarar a garota, pasma. Ela sabia do problema com o coração de Elsa, mas nunca imaginou que seria algo tão grave.
"Ela está tão mal... A aparência doente dela chega a dar arrepios" a ruiva murmurava mais para si mesma que para Hans.
"Você... Sabia?"
"Da Bradicardia dela? Sim, mas nem mesmo o médico estimava que pudesse chegar ao ponto de causar coma"
"Bradicardia?!" exclamou o rapaz. Como alguém tão alto-confiante e segura de si poderia esconder tal doença? Deus, ela poderia morrer! Isso era mesmo a cara da Elsa, até os piores dos problemas ela guardava para si mesma, tentando não preocupar sua irmã. Anna provavelmente era uma das únicas pessoas com quem a albina se importava realmente.
"É, não precisa gritar!" a garota o repreendeu baixinho "Ou os médicos vão nos expulsar daqui"
"Perdão. É que, para uma doente, ela não parecia demonstrar muito isso" ele fez uma careta e Anna encarou a irmã suspirando antes de puxar um sorriso de canto.
"Você sabe, é da Elsa de quem estamos falando. A popular rainha do pedaço"
Ele riu "Eu que o diga..."
O celular de Anna vibrou e a menina apressou-se em apanhá-lo. "Hm... Vou ter que ir agora, meus pais querem me ver, mas pode ficar se quiser"
"Tudo bem" A ruiva saiu apressadamente, deixando Hans a sós com uma Elsa desacordada. "É rainha, estamos sós pela primeira vez sem você gritar comigo" disse ele com uma ar de piada, mas seu rosto não demonstrava isso.
As horas se passaram e se tornaram dias, que se tornaram semanas. Hans sempre aparecia no hospital para fazer uma visita à Elsa e lhe deixar margaridas – a flor favorita da garota, segundo Anna.
O rapaz estava lá, sentado na poltrona ao lado da albina, quase adormecendo, quando percebeu que o beep de um dos aparelhos havia saído do padrão. Era o coração de Elsa falhando. Correu para chamar os médicos, enfermeiros, qualquer um que pudesse ajudá-la. Saiu literalmente gritando por socorro. Rapidamente uma equipe médica o encontrou e foi até o quarto de Elsa, porém não permitiram que o rapaz permanecesse lá, pois não era da família da garota.
Depois de uma longa espera do lado de fora, Hans viu os pais de Elsa adentrando o quarto, acompanhados de uma enfermeira.
"Como não podem?!" o rapaz ouve a voz da mãe da garota, que fala a ponto de chorar.
O médico suspirou "Olhe, o transplante é a cura, mas não é tão fácil encontrar alguém disposto a doar um coração."
☆ ☆ ☆
Os olhos azuis de Elsa se abriram lentamente, tendo sua visão um tanto machucada pela luz repentina. A albina esfregou-os enquanto tentava reconhecer o local, chegando à conclusão de que nunca estivera lá antes. Havia apenas uma coisa – ou alguém – que Elsa já conhecia: sua mãe, que dormia com uma expressão preocupada no rosto. Ela sorriu e levantou-se com dificuldade, cutucando a mais velha em seguida.
"Mãe..." A mulher se remexeu, fazendo a filha rir "Mãe, acorda"
"Hum...? Elsa? Ah, você acordou querida! Você está bem!"
"Estou" ela sorriu "Espere... Há quanto tempo eu estou aqui? Aliás, por que eu estou aqui?!"
Só agora ela havia percebido: estava em um quarto de hospital. Ah, não! Sua doença tinha se agravado? Deus, imagine a tamanha preocupação de sua família! Tudo por causa daquele órgão idiota. Pelo menos ela ainda estava viva, uma dor a menos para seus pais suportarem.
A mãe da garota respirou fundo, ponderando sobre as palavras que utilizaria.
"Se lembra da sua doença? O médico disse que ela vinha ficando mais forte havia algum tempo"
"Hm, é verdade..." A menina confessou.
"Por que não nos contou, filha? Isso poderia ter sido evitado!"
"Não queria preocupar vocês! Mas isso não vem ao caso, continue"
"Certo. Parece que você teve um desmaio no banheiro do colégio e uma garota te encontrou e avisou à diretoria." Elsa ia reconhecendo tudo aos poucos, se lembrando vagamente da sensação de tontura, cansaço e falta de ar. "Então você foi trazida pra cá e ficou em coma por quase um mês! Havia um rapaz, Hans, que vinha te visitar todos os dias. Ele até lhe trazia flores... Parecia se importar muito com você"
"Hans?! Ele esteve mesmo aqui?" Um sentimento de culpa invadiu a garota. Ela, que tinha sido tão arrogante com Hans, recebia flores do mesmo? Por que ele faria isso? Talvez tivesse, de fato, mudado. Como ela se arrependia de não ter acreditado nele! Podia apostar que nenhuma de suas amigas – mais para seguidoras que para amigas – tinha ido visitá-la ou ao menos se preocupado com sua saúde, enquanto Hans, que sempre fora menosprezado por ela, fazia isso todos os dias.
"Sim. Inclusive foi ele quem avisou os médicos quando seu problema começou a se agravar. Você esteve à beira da morte, minha querida!"
"E onde Hans está? Ele já foi? Eu preciso muito falar com ele!"
A mãe se calou. Seu rosto foi ocupado por uma expressão de dor.
"Seu coração estava à ponto de parar de bater. Seria necessário um transplante..."
Elsa logo entendeu a situação, mas não conseguia aceitar. Não podia ser, não mesmo! Ela precisava ter certeza de que seu pensamento estava errado. "Onde... Onde ele está, mãe?" ela perguntou novamente, quase em um sussurro, com a voz falhando; estava prestes a chorar.
"Elsa... Foi ele quem lhe doou o coração"
De repente tudo parou. Elsa estava em choque. O único sinal de movimento era a lágrima gorda e silenciosa que deslizava rapidamente por seu rosto, seguida de vários soluços. E pensar que ela recusou a amizade do rapaz. Ah, Deus, como ela se arrependia! Como ela queria poder voltar atrás e fazer certo desta vez. Hans seria conhecido por todos como o garoto sem sentimentos que deu seu coração para a rainha da popularidade, a garota mais mesquinha daquela porcaria de colégio repleto de estudantes tão fúteis quanto a própria Elsa, e aos poucos seria esquecido até haver apenas uma pessoa para contar sua história; ele seria eternamente lembrado por essa garota mesquinha, que recusou tê-lo ao seu lado e acabou com uma parte dele dentro de si.
"Eu sinto muito, filha, ele não negou nada" Elsa olha para cima respirando fundo, deixando as lágrimas rolarem. Sua mãe estende o braço e lhe entrega uma folha de caderno dobrada. Ela coloca a mão em seu ombro como um último consolo e em seguida deixou o quarto.
Elsa olhou para a carta, pensando se realmente deveria lê-la e, com delicadeza a abriu. Uma caligrafia não muito atraente deixava visível que aquelas palavras haviam sido escritas num momento de pressa e nervosismo.
"Olá, Elsa. Se está lendo esta carta é porque tudo deu certo e você finalmente acordou. Desde que eu cheguei no hospital com a Anna, você está em coma. Mesmo com sua família insistindo que eu deveria ir descansar, preferi ficar ao seu lado, seria um começo para me redimir. Só queria dizer que sinto muito mesmo pelo que eu fiz a você.
Certamente muitos irão comentar que dei meu coração à você como um meio de limpar meu nome, ou até mesmo ser herói para talvez lembrado. Não me importo que pensem assim, mas você precisa saber meu real motivo. Eu estava em dívida com você, Elsa, e eu sei que pela primeira vez que fiz algo bom que minha família não fez por mim.
Hans realmente se importa com Elsa. Quem diria.
Eu ouvi sua mãe dizer que não tinham um doador a tempo de te salvar. Você tem mais motivos para aproveitar um coração saudável que eu. Tem muita sorte de ter uma família como essa, deve valorizá-la e muito.
Espero que você seja feliz Elsa, e cuide do meu coração. Esse é o último pedido egoísta que eu faço.
Com todo o amor que ainda me resta,
Hans."
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