Take My Heart -Em suas mãos tudo começou
5 Capítulo 04 - Ansiedade silenciosa
Notas iniciais
Ansiedade silenciosa: “Qual a condição para o perdão?”
“Por que você me abraçou?”
Ah, sim. Ele me perguntou isso, não foi? Mas por quê?
Ela percebia.
Está tudo tão claro. Mas eu não estou de olhos abertos. Então, como...?
Ela sentia.
E o que é isso? Esse perfume? Tão bom. Seriam lírios? Sim, a mamãe amava lírios... Estou indo vê-la?
Ela ouvia.
Esses sons... Não, são vozes. Mas por que eu não entendo nada do que dizem... Será que é outro idioma? Ou eu estou...
Ela sentia algo cobrindo seu corpo.
Isso é... São plumas? É tão macio, tão leve...
Eu estou no céu?
Eu... Morri?
A ofuscante claridade que atravessava suas pálpebras fechadas. Um aroma doce, gentil e entorpecente. Sons que jamais ouvira antes; vozes se cruzando em um estranho dialeto. Aquele suave toque de algo cobrindo seu corpo como uma fina seda.
Estou morta?
Não seria de se impressionar, na verdade. Ela não podia se mover mais, não podia respirar mais, não podia resistir mais quando o senhor di Castle chegou até ela.
Por quê? Por que você estava chorando, idiota? Se você tivesse sido gentil antes... Não. Se você não tivesse dito todas aquelas coisas, e ainda mais depois de tantos dias, e sem motivo algum... Por que você...
– Det ser ud til, at nogen er endelig vågneop.
O quê? Quem está falando? O que está dizendo?
– Sikke en lettelse! Vi var at miste håbet.
Catherine sente algo quente em sua face, descendo lentamente.
Uma lágrima... minha? Mas onde estou? Por que ninguém me responde nada?
Procurando por algum tipo força que mesmo ela não compreendia, Catherine se concentrou e forçou algo que imaginou serem os músculos dos seus olhos. Vamos!...
– Velkommen tilbage, dame — disse uma voz suave e gentil enquanto uma tremenda claridade a cegava.
– Okay. Lad mig nu — respondeu uma nova voz à primeira. Essa era mais grave, mas também parecia gentil.
Nada entrava em foco. Seria essa a sensação de tentar controlar um novo corpo, um corpo que não era seu?
– Bom dia, senhorita. Vejo que finalmente despertou – disse a voz grave, de repente muito clara e inteligível.
Seus pensamentos falavam dentro de sua mente, mas quando tentou mover os lábios só o que saíram foram ruídos secos, baixos e travados.
– Tente não se esforçar; e não tenha pressa, pois sua voz sairá naturalmente. Apenas continue descansando.
Mas como ouvirão minhas perguntas?
– Vamos com calma, está bem. Depois de tanto tempo, alguns minutos a mais podem esperar.
Tanto tempo? Como assim? Responda-me, por favor! Onde eu estou?
Sem pressa, aqueles minutos passaram. Mesmo ela não percebia o tempo passando, então a cada novo instante ela sentia um novo músculo do seu suposto corpo ao seu comando, apesar de não saber como usá-lo. Depois de certo instante, as coisas começaram a entrar em foco, mas muitas delas ainda eram precárias.
Ela não reconheceu o lugar. Nunca antes estivera em um assim, tão brilhante e silencioso. Mas ela realmente queria recuperar sua voz, o movimento de seus lábios; precisava reaprender a falar.
– Vejo que está se esforçando e parece que o progresso está indo bem, mas ainda assim deve tomar cuidado – informou a voz grave, que Catherine percebeu vir de uma figura branca, de contornos altos. – Muitos pontos ainda estão fragilizados.
– O-o... O-onde...
– Quer saber onde você está? Parece que está recobrando a consciência rapidamente, apesar das condições.
Condições...
Por alguma razão, aquela palavra fazia sentido para ela. Por alguma razão, ela se lembrou de uma ocasião: uma queda, uma dor horrenda e uma pessoa. Sim, associando esses fatores, imaginou que a tal “condição” era a de alguém em estado debilitado e frágil. Ela mesma. Mas seu raciocínio não foi muito além, pois logo em seguida sentiu-se completamente aturdida e perdeu os sentidos.
– Ora, ora. Está despertando novamente. Isso é bom — ouviu, enquanto abria os olhos. Era aquela voz grave novamente, mas agora estava perfeitamente audível.
Sua visão também tinha mais foco do que antes e seus lábios pareciam mais dispostos a cooperar, mas antes preferiu tentar um movimento maior do corpo. Confirmando que o ambiente era o mesmo que o anterior e percebendo-se mais lúcida, experimentou apoiar os braços de modo que pudesse erguer seu busto; foi quando sentiu todo seu corpo latejar com pontos aleatórios de dor.
– Eu ia dizer para esperar um pouco mais antes de tentar se mover, mas muitas horas se passaram desde que falei com a senhorita pela última vez. Vou deixá-la tentar, mas tente não exceder seus limites atuais.
Limites atuais? Eu não sei quais são eles, e também não saberei se não testar.
Forçando ainda mais, conseguiu se apoiar sobre os cotovelos e se mover para trás, onde sentiu algo macio apoiando suas costas.
– Está conseguindo se mover bem ao que posso ver.
Inspirando profundamente pelo esforço repentino, Catherine conseguiu erguer os olhos e focar a alta figura à sua frente; independente dos lugares em que já estivera, ela reconheceria perfeitamente aquela figura trajando um jaleco longo e branco, com um estetoscópio pendurado no pescoço. Um médico.
Ela colocou a mão sobre o peito e percebeu que seu peito estava enfaixado e que respirava normalmente apesar disso.
– O que aconteceu? – Perguntou Catherine finalmente; agora obteria suas respostas.
– Acho que a pergunta correta seria “como vim parar aqui”, não? – Sugeriu o médico.
Catherine afirmou com a cabeça.
– Tentarei dar uma explicação mais direta e compreensível possível. Aconteceu há cinco dias, por volta das quatro horas da manhã. Um rapaz chegou aqui trazendo a senhorita nos braços, inconsciente; segundo algumas enfermeiras, ele parecia completamente desesperado em busca de socorro, e implorou várias vezes para que o ajudassem e que salvassem sua vida. Como moro a uma curta distância do hospital, mandaram-me um mensageiro, que me deu um rápido relatório a respeito da situação e das condições físicas em que se encontrava a paciente, e por isso vim imediatamente ao hospital. Quando cheguei aqui, realizei todos os procedimentos que estavam ao meu alcance, processo que se estendeu durante muitas horas. Por volta das onze horas do mesmo dia, a senhorita entrou em coma, o que fez com que seu acompanhante ficar ainda mais aflito.
Conforme ouvia aquelas palavras, a mente de Catherine as absorvia por completo, fazendo-a baixar o rosto, como se analisasse cada sentença individualmente e depois tornasse a juntá-las naquele contexto explicado pelo médico. Percebendo a concentração da garota, o homem deu uma pausa e depois prosseguiu.
– O coma se estendeu por um período de três dias. No quarto, seu estado se estabilizou e você esteve dormindo até o início desta tarde.
Catherine sentiu a seriedade daquelas palavras e percebeu que seu corpo se lembrava bem das suturas, das dores e da incapacidade de se mover sem qualquer ordenamento de sua dona. Sentiu-se fraca e estremeceu.
– Não fique tão pálida, jovenzinha. Sua condição já estabilizou, portanto, se apresentar alguma regressão a esta altura, eu começaria a desacreditar no sucesso que foi a transfusão de sangue e nas minhas capacidades médicas.
Um sobressalto moveu tanto os pensamentos quanto o corpo de Catherine. Transfusão de sangue? Isso é impossível, não?
– Desculpe, mas o que o senhor disse por último?
– Você estava beirando um limite crítico, basicamente num estado de “semimorte”... Chegou aqui depois de perder uma quantidade de sangue absurda, o que me fez desacreditar em qualquer possibilidade de sobrevivência quando comecei a tratá-la. Entretanto, contrariando minhas expectativas iniciais, alguém se voluntariou imediatamente...
– Quem? – A garota estava ansiosa, pois sabia de algo que ninguém mais além dela e de sua família saberia... – Meu sangue não é compatível com o de ninguém. Sempre que precisei de doação meu pai se encarregou de fazer isso para que meu corpo não rejeitasse...
– Sim, senhorita. É onde quero chegar – interrompeu o médico. – Quando examinei seu sangue, não reconheci qual era seu gênero, e foi isso que me levou a não ter grandes esperanças de salvá-la. Entretanto, como eu dizia há pouco, alguém se voluntariou.
– Quem...?
– Seu acompanhante – apressou-se o médico a responder.
Choque. Incredulidade. Dúvida. Catherine se preencheu desses pensamentos quando ouviu aquilo. Aquilo era logicamente...
– Impossível... – sussurrou ela, transparecendo a descrença em sua voz.
– Foi o mesmo que pensei naquele momento, quando disse a ele que não seria possível sendo que seu sangue não é compatível com nenhum gênero descoberto pela medicina atual; expliquei-lhe que provavelmente haveria rejeição e que as chances de salvá-la seriam ainda menores.
– Mas então, como...
– Então ele me respondeu: “Vai funcionar! Meu sangue vai ser útil, eu tenho certeza! Faça!”. Ele disse aquilo com tanta certeza, tanta convicção, que não tentei mais argumentar contra... Ele já parecia desesperado demais para que eu dissesse mais alguma coisa que tivesse outro sentido além da sua sobrevivência.
– Então... – a garota começou a ligar os pontos e o homem completou seus pensamentos.
– Então fiz o que ele disse e, eu não sei dizer como, deu certo! Acho que talvez a senhorita seja a prova de um milagre. E não de um milagre qualquer: todo seu organismo se recuperou em um ritmo surpreendente, o que normalmente não aconteceria. Em um caso semelhante, a recuperação seria muito mais lenta.
– De... De quanto sangue o senhor está falando? – Catherine pensou rapidamente e perguntou.
Mas a reação que obteve foi oposta à desejada: o médico imediatamente se calou.
– Doutor, quanto sangue ele doou para mim? Diga-me, por favor! – Implorou a garota em voz baixa.
O médico analisou as palavras e tentou elaborar uma resposta que não a deixasse muito preocupada.
– De acordo com a senhorita, esta não é a primeira doação de sangue que recebe, estou certo? – Começou ele.
Catherine apenas acenou com a cabeça, esperando por mais.
– Portanto, deve saber que seu corpo carrega aproximadamente três litros de sangue, sendo que você ainda é muito jovem – continuou, depois de perceber que ela queria a resposta o mais rápido possível. – O corpo de um adulto chega a ter entre cinco e seis litros, se tiver o organismo saudável. Entretanto, como descobri em seguida à transfusão, não era o caso do seu amigo. Apesar de parecer perfeitamente saudável, ele possui um pouco mais que quatro litros, talvez nem chegue a quatro litros e meio...
Mais uma pausa e um suspiro. A ansiedade aumentava.
– Como eu lhe disse antes, a senhorita chegou aqui semimorta... – O médico encarou Catherine e a seriedade pesou mais do que nunca. – Dos seus aproximados três litros, você chegou com um pouco mais de um.
Chocada com a própria condição em que esse encontrara, a garota precisou raciocinar melhor para continuar entendendo cada palavra.
– Ele mandou que eu doasse a quantia necessária para que você estabilizasse por completo. Quando eu informei a respeito da quantidade, ele disse que queria completar o que você havia perdido. Não me deu ouvidos quando disse que poderia haver consequências negativas...
– Quanto ele perdeu? – Insistiu, mais nervosa do que nunca.
– Você recebeu dele o que lhe faltava no corpo... Aproximadamente dois litros.
– Mas então, ele ficou apenas...
– Restou-lhe um pouco mais que a metade... De fato, uma quantia que pode desestabilizar o organismo inteiro.
Será? Não, não pode! Senão ele estaria... Seus olhos começaram a encher-se de lágrimas à medida que os segundos avançavam. O médico percebeu.
– Não entre em pânico, por favor. Ele está vivo, apesar de tudo. Mas ficou inconsciente por dois dias seguidos, no mesmo período do seu coma.
Catherine repentinamente se flagrou analisando o quarto por todos os ângulos que sua cabeça e seus olhos conseguissem alcançar, logo parando o olhar sobre outro leito, ao lado do seu.
Estava vazio.
– Agora ele já está estável, mas não deixou de observá-la em nem um momento sequer; felizmente conseguimos convencê-lo de se alimentar um pouco todos os dias, mas só o faz quando realmente não aguenta mais ficar de vigia ininterruptamente – sorriu o homem solidariamente, enquanto indicava o lugar ao lado do leito de Catherine.
Era uma poltrona. Sobre ela havia um manto e um travesseiro pequeno, mas ninguém estava sentado.
– Ele deve estar comendo algo agora; não comia desde ontem. Rapaz engraçado este, sabe? Quando despertou no segundo dia e soube que você ainda não despertara, chamou uma enfermeira e pediu que comprasse flores para a senhorita; quando a enfermeira perguntou quais deveriam ser, ele fez muitas recomendações do que poderia, pois não tinha certeza sobre o que seria do seu agrado... – Comentou o médico de forma casual, sorrindo para tentar confortar a paciente o melhor possível.
Catherine olhou para o lado. Ali, dentro de um vaso de vidro sobre uma cômoda alta, havia um exuberante buquê de lírios com astromélias, um conjunto perfumado e multicolorido. Imediatamente, a garota sentiu seu coração se aquecer, como se aquilo fosse um presente de sua mãe.
– Diariamente uma enfermeira vem para trocar a água – completou o médico.
Enquanto admirava a beleza das flores, um vulto apareceu à porta. Catherine não percebeu de imediato quem era, mas o médico pediu licença à jovem e dirigiu-se naquela direção para conversar com o indivíduo. Ouviu algumas poucas palavras – algo como “estável” e “alta”. Logo o médico se virou e lhe dirigiu a palavra.
– Parece que a senhorita tem uma visita – disse sorrindo. – E devo dizer que é uma visita importante.
Assim que terminou de falar, o médico virou-se de lado e deixou transparecer o convidado. Inevitavelmente o coração de Catherine disparou, fosse por surpresa ou alívio.
Henry estava parado ali de pé, vestindo algo claro parecido com um pijama. Estava longe, mas Catherine podia ver sua semblante: uma mistura de ansiedade, alívio e cansaço. Quando deu um passo para dentro do quarto, claramente era possível perceber sua palidez e a debilidade de seus movimentos.
O médico olhou rapidamente a cena e teve suas próprias conclusões de como aquele momento deveria proceder.
– Vou deixá-los a sós. Pedirei para que ninguém entre sem permissão.
Nem Henry nem Catherine responderam em retorno ao médico, mas ele sabia que não havia necessidade. Dito aquilo, saiu do quarto e fechou a porta.
Ela podia ouvir claramente seu pulso martelando em suas têmporas e esse ritmo descontrolou-se ainda mais quando ele deu um passo arrastado em sua direção. Outro passo. Em seguida outro, e mais outro. Catherine tinha os olhos vitrificados por não saber o que deveria realmente ver, sua cabeça latejava por não saber o que realmente deveria pensar e seu peito ardia por não saber o que deveria sentir. E então, ele parou. Catherine levemente baixou o olhar quando Henry parou em frente à poltrona ao lado da cama. De repente sentiu-se apavorada; o que deveria dizer a ele? Deveria desculpar-se? Ou perguntar como ele estava? Não fazia ideia alguma.
– Por... Por favor, me perdoe por... – Começou, na tentativa de suplicar por perdão, mas Henry a interrompeu.
– Parece que está se recuperando bem, não? – Sua voz era rouca e arrastada.
Hã...? Catherine ergueu os olhos lentamente e focou melhor o rosto do jovem detetive, que dias antes parecia tão disposto – se já não fosse o cansaço acumulado.
Sim, ele óbvia e definitivamente estava esgotado. Ela se lembrou das palavras do médico e sentiu toda a responsabilidade pesar-lhe a consciência. É minha culpa.
– O médico disse que a recuperação está indo em um ritmo muito bom, mas parece que ainda ficará alguns dias em observação. Parece que querem se certificar de que sairá daqui andando.
Foi quando a garota percebeu que não conseguia mover as pernas. Estavam dormentes.
– Parece que as fraturas foram realmente sérias – respondeu ele, percebendo o novo e perturbado olhar que ela dirigiu para as próprias pernas enquanto tentava “reanimá-las” usando ambas as mãos. Não demorou a perceber que todos seus membros estavam envoltos em ataduras. – Não se precipite. O médico disse que os cortes ainda não se fecharam completamente... Estão mal cicatrizados.
As palavras de Henry a fizeram perceber também o quão condenado estava seu corpo. Quando tentou respirar mais fundo, sentiu outra faixa envolvendo seu tórax com muitas voltas.
Novamente olhando para o rapaz, Catherine sentiu as primeiras lágrimas surgirem.
– Está sentindo muita dor? — Perguntou ele. – Se for o caso, eu posso chamar alguém. Talvez a morfina esteja acabando... – Ao mesmo tempo em que dizia isso, Henry se virou na direção da porta, mas...
Não, não é dor. É só que... Catherine agarrou a manga do seu pijama com a mão esquerda – era a mais próxima dele e a menos dormente para ser movimentada – e tentou segurá-la firme; não queria que ele fosse embora... Não agora que ele estava ali.
– Eu... Eu... Eu sinto muito – suplicou chorando, enquanto ele se voltava novamente em sua direção.
Ele não respondeu; apenas correspondeu ao seu olhar. Logo percebeu naquelas palavras os sentimentos de arrependimento e preocupação que ela tentava expressar, mas nada disse.
Sua única ação foi largar lentamente seu corpo exausto sobre a poltrona e deixar sua cabeça pender para trás, em sinal de descanso. A mão cuja manga do pijama a garota segurava firmemente, deixou sobre a cama, próxima a ela.
Ela não sabia o que ele estava pensando, nem se já a havia perdoado. Sabia apenas que queria expressar sua gratidão àquele que novamente salvara sua vida de forma tão incondicional. Lembrou-se que, de certa forma, o sangue dele agora corria em suas veias e sentiu seu corpo aquecer-se novamente.
Por favor... Não vá a lugar algum, meu anjo.
Tomando a mão dele entre as suas e segurando-a firmemente, a garota novamente adormeceu.

Buquê de Lírios e Astromélias
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