Take My Heart -Em suas mãos tudo começou
8 Capítulo 07 - Afugentando pesadelos
Notas iniciais
Afugentando pesadelos: “Um encontro no passado”
Naquela noite não houve mais conversas. Henry se rendeu ao cansado trazido pela viagem e pelas pesadas lágrimas. Bem cedo na manhã seguinte, logo após acordar, chamou Darell e deu conclusão ao assunto.
– Você tem razão – começou dizendo. Sua expressão era séria e calma, completamente diferente da noite anterior. – Agora que penso nisso, também acho que aquele quarto seja o mais adequado. Tenho certeza de que a garota vai gostar.
Darell ficou satisfeito com a decisão do amigo e confirmou que iria transferir Catherine para o quarto escolhido ainda naquela tarde.
– Dei uma olhada nela ainda agora e parece estar dormindo profundamente. Não creio que vá acordar antes das onze horas.
– Está tudo bem. Deixe-a descansar, mas acorde-a até o meio-dia para que possa almoçar conosco.
– Entendido.
Por volta das dez e meia, Catherine acordou, trocou de roupa silenciosamente, pegou seu coelho no colo e dirigiu-se até a cozinha, onde Darell já preparava o almoço.
Ele estava de costas para a porta e picava rapidamente alguns ingredientes em uma fina tábua sobre o balcão central. Ao perceber que tinha companhia, virou-se para cumprimentá-la com um sorriso.
– Bom dia, Cathie. Dormiu bem? Você parecia bem cansada ontem... – seu sorriso desapareceu aos poucos e sua voz falhou ao ver o rosto da pequena.
Largando tudo o que tinha nas mãos e limpando-as em seu avental de chefe gourmet, foi até a menina e ajoelhou-se a sua frente.
– Senhorita Catherine, o que houve? – perguntou, tomando as pequenas mãos da menina nas suas; logo percebeu que ela tremia de alto a baixo. — Você parecia estar dormindo tão bem quando fui vê-la mais cedo.
Catherine tinha os olhos vermelhos e o rosto molhado por uma torrente de lágrimas.
– Mãe... mamãe... fogo... a casa...fogo... – soluçou.
Essa não, pensou Darell. O assassinato e o incêndio. Enquanto pensava em algo que pudesse dizer, Henry surgiu pela porta e se deparou com a cena.
– O que houve?
– Ah, ela... — Darell ainda pensava no que poderia dizer para acalmar Cathie quando ela tornou a soluçar.
– Mamãe... a casa...fogo...
Para a surpresa de ambos, Henry deu alguns passos na direção da garota, parou às suas costas e colocou uma mão sobre a sua cabeça.
– Está tudo bem agora, não está?
Sem saber se estava surpresa ou um pouco assustada, Catherine ergueu a cabeça para olhá-lo em meio às lágrimas.
– Estamos com você agora, não é mesmo? Não precisa ficar assustada.
Antes que se percebesse, ela soltou as mãos do indiano e virou-se para abraçar a cintura de Henry, que não a impediu.
– Provavelmente você teve um pesadelo, não foi? – perguntou, enquanto acariciava os cabelos da menina. Ela acenou com a cabeça, confirmando. — Você não precisa ficar assim porque nada vai te acontecer. Afinal, é por isso que eu te trouxe aqui... Para te proteger.
Ao ouvir essas palavras, a pequena ergueu a cabeça novamente, agora com os olhos brilhando. Darell observava tudo com uma expressão incrédula no rosto. Antes que pudesse perceber, Catherine havia parado de chorar.
– Assim está melhor – disse Henry em aprovação. – Agora vá se lavar... Não vou permitir que venha almoçar com o rosto desse jeito.
Obedecendo imediatamente o que lhe fora mandado, Catherine desapareceu pela porta da cozinha. Henry seguiu-a com os olhos sorrindo. Depois percebeu que estava sendo encarado.
– O que foi? Que cara é essa?
Tirado de seu transe de surpresa e descrença, Darell pôs-se de pé novamente e colocou as mãos na cintura em pose de interrogatório.
– Agora estou completamente confuso... Ou você bateu com a cabeça, ou está doente ou é bipolar. Primeiro acorda e decide que concorda comigo sobre a escolha do quarto para ela e agora a consola por causa de um pesadelo... Tudo isso na mais estranha calma que ontem mesmo você não tinha.
Henry riu e passou a mão no cabelo, penteando a franja para trás com os dedos.
– Ora, não seja tão exagerado. Eu não sou o esquisito que você está me fazendo parecer.
– “O esquisito que eu estou fazendo você parecer”? Você está fazendo todo o trabalho sozinho! – devolveu Darell.
Ambos riram de suas próprias observações e da situação. Quando pararam, o jovem rapaz suspirou e disse:
– Ah, o que posso dizer... Tive uma boa noite de sono.
– “Boa”? Eu diria “ótima”! – provocou Darell.
Henry sorriu como se tivesse acabado de finalizar uma tarefa muito exaustiva e agora desfrutasse de bons resultados.
– Sonhei com ela... Um sonho bom e tranquilo.
Darell sabia a quem o amigo se referia e deu uma leve travada, precisando pensar melhor no que deveria dizer a seguir.
– Está tudo bem mesmo? – perguntou. – Geralmente você acorda abalado, às vezes até transtornado, quando sonha com ela.
– Não. Desta vez foi um bom sonho.
Darell permaneceu em silêncio, esperando que o amigo continuasse a seu próprio ritmo. Escorando-se no balcão central, Henry prosseguiu, o olhar perdido em algum lugar que o amigo jamais poderia ver.
– Eu estava em uma campina muito aberta e o céu estava tão claro que chegava a reluzir nos meus olhos em tons de branco e azul, como se eu estivesse debaixo de imensas árvores invisíveis, cujas folhas só a luz pudesse tocar. Quando olhei melhor ao meu redor, percebi que no chão havia flores lilases e beges tão claras que faziam o gramado parecer um enorme tapete branco aveludado. – Fez uma pausa. Quando continuou, um novo e leve sorriso iluminou seu rosto. – E logo adiante, bem próxima a mim, estava ela... com aquele sorriso lindo e com aquele olhar amável como o de um anjo. Ela estava com a menina bem à sua frente, envolvida em seus braços, ambas olhando para mim... ambas sorrindo. Ela me disse que essa era minha chance e que eu deveria cuidar da garota e amá-la como fiz com ela. Ela disse que confiava em mim mais que em qualquer outro para isso e que tinha certeza de que a menina me traria felicidade... Que eu deveria esperar e acreditar.
Darell permanecia em silêncio, reconhecendo as características daquela de quem Henry falava tão afetuosamente.
– Depois disso, ela se abaixou, beijou o rosto da menina e libertou-a para que ela viesse correndo para mim. Fiquei de joelhos para receber a garota e, quando tornei a olhar para frente na direção dela, ela já havia sumido. Foi então que senti uma brisa morna passar por mim e tocar meu rosto, e ouvi sua voz dizendo meu nome mais uma vez. – Henry fez uma breve pausa e suspirou. — Estou feliz porque acordei com a sensação do calor da brisa dela no meu rosto.
O almoço foi especialmente alegre. Henry contava algumas piadas que lhe ocorriam momento ou outro, fazendo todos rirem juntos; Catherine já havia se esquecido do pesadelo que a deixara tão transtornada naquela manhã – ou estava conseguindo ignorá-lo; e Darell conversava a respeito de algumas compras que poderiam fazer naquele ou nos próximos dias.
– Precisamos providenciar roupas novas para Cathie, e posso aproveitar para comprar algumas coisas que estão em falta aqui em casa – comentou animadamente.
– É uma boa ideia, de fato – concordou Henry. – Seria uma boa oportunidade para ela conhecer a cidade e ir se familiarizando com o lugar.
Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Catherine cintilaram enquanto ela batia palmas com empolgação.
Tudo estava sendo perfeitamente planejado. Todos iriam juntos à cidade para um passeio e compras. Henry confessou em particular ao amigo, logo após o almoço, que acreditava que talvez fosse uma boa oportunidade também para se entrosar com a menina e tentar sobrepor as memórias indesejáveis que a perseguiam durante a noite. Nisso ambos concordaram plenamente.
De fato, tudo já havia sido organizado para dali a um dia, mas aqueles planos seriam interrompidos por assuntos urgentes naquela mesma tarde.
As notícias vieram em forma de carta, a qual estava selada por uma cera vermelha marcada pelo mesmo emblema do broche de Henry que Catherine vira durante as viagens de trem que fizeram até ali.
Darell recebeu a carta do mensageiro e entregou-a a Henry ainda no saguão de entrada. Os dois fizeram uma troca de olhares rápida e significativa, pois naquele mesmo momento Catherine descia a escadaria na direção dos dois. Enquanto Darell ia em direção à menina, o outro deu meia-volta e atravessou o salão em direção à outra escadaria. Quando Catherine chegou ao salão, só pode ouvir os passos apressados de Henry sobre o piso revestido de mármore e vê-lo desaparecer por uma porta dupla, grande e robusta, no topo da escadaria menor. Imaginou que aquele deveria ser o cômodo do lado norte que vira pelo lado de fora quando chegou, o qual tinha um único nível, mas ainda assim deveria ser bem alto por dentro.
– Aquele é o escritório do senhor Henry – comentou Darell ao perceber a direção do olhar da pequena.
– Ele está bem? – perguntou ela, os olhos fixos na porta que acabara de se fechar.
Antes de responder, o indiano suspirou e abaixou-se à frente da menina, colocando as mãos sobre os pequeninos ombros.
– Acho que precisaremos adiar nosso passeio por hora – respondeu.
Ela, que segurava seu coelho pelas orelhas, ergueu a pelúcia até seu peito e a abraçou, olhando para o homem a sua frente.
– O que houve? – perguntou ela alguns segundos depois.
Darell olhou para a porta enquanto falava.
– Como o senhor Henry demorou muito nessa viagem, mais tempo que o normal, o escritório para o qual trabalha está convocando-o para ir até a capital para resolver algumas coisas.
– Achei que ele trabalhasse sozinho.
– De certa forma, sim. Mas mesmo assim ele tem um chefe para dar esse trabalho a ele. Como ele resolve depois é por conta própria.
– Então ele está com problemas? O chefe dele vai brigar com ele?
Darell voltou seu olhar para Cathie e perguntou:
– Por que acha isso?
– Ele vai ter problemas, não é? Ele demorou por minha causa e ele me trouxe com ele. Tudo o que aconteceu até agora, desde que ele me salvou, foi culpa minha.
O homem afagou o topo da cabeça da menina e se abaixou ao seu lado.
– Você não deve pensar nessas coisas, e também não deve tomar a culpa para si. Henry me contou tudo o que houve na viagem. E sabe de uma coisa? Vou te contar uma história, e então você vai entender que não deve deixar as coisas ruins entrarem na sua cabecinha.
– Que história é essa?
– É a minha história, e de como eu conheci o senhor Henry.
Os olhos de Cathie se arregalaram, brilhando de curiosidade.
– Conta, por favor – disse, agarrando a mão de Darell entre as suas e balançando-a para cima e para baixo.
– Certo, certo – respondeu, rindo. – Vamos até a cozinha. Vou cozinhar alguns biscoitos enquanto conversamos.
Enquanto misturava a massa cremosa com chocolate em uma bacia sobre o balcão, Darell iniciou sua narrativa. Catherine havia sentado em uma alta cadeira e apoiava o rosto sobre as mãos, inclinando-se sobre o balcão para ouvir com atenção.
– Foi há mais ou menos quatro anos... Ele era ainda mais jovem e intrometido do que é agora, se é que isso é possível – comentou, divertindo-se ao ver Cathie dar uma risadinha do comentário. – Não, é sério! No início achei que fosse arrogante e pretencioso demais para se relacionar bem com quem quer que fosse.
– Como se conheceram?
– Foi em uma de suas viagens a trabalho. Ele recebeu a tarefa de investigar certo nobre francês chamado Aury Marchand, que enriquecia em curtos espaços de tempo fazendo negociações muito suspeitas. Por acaso, eu também estava na França. Em Paris, para ser mais exato.
– Mas você não é...
– Sim, eu sou indiano, como já deve ter percebido pelos meus traços.
– Você também estava viajando?
– Não exatamente... Eu morava lá.
– Mesmo?! – Cathie ergueu um pouco a cabeça, atenta.
– Mas não é o que está pensando. Eu morava lá com minha mãe, mas não por escolha própria. E o homem suspeito que Henry deveria investigar era, por assim dizer, nosso “dono” – Darell fez uma careta de reprovação ao mencionar aquilo.
Cathie ficou confusa e deixou transparecer isso em seu rosto.
– Como posso explicar? Minha mãe era uma criada da mansão onde Aury Marchand morava e ele era seu patrão. Eu nasci naquele lugar.
Darell observou a expressão de Cathie, que permanecia muito atenta, e continuou.
– Bem, para não demorar muito em detalhes sem importância, vou avançar um pouco. Conheci Henry quando ele foi se apresentar a Marchand. Foi recebido e logo ambos se acomodaram no escritório da mansão, mas ninguém imaginava que ele fosse um jovem tão ardiloso e muito menos que tivesse vindo para derrubar o egocêntrico nobre.
– Por que o senhor di Castle ia derrubar esse homem? O que ele descobriu?
– Não sei se a senhorita acredita nessas coisas, mas este homem fez um pacto com forças obscuras, com algo tão sombrio quanto seu próprio coração. Algo não humano.
– Era uma criatura?
– Não sei bem o que era, mas sei que havia possuído seu corpo como parte de um contrato, a fim circular livremente pelas ruas.
– Que medo! – comentou a pequena, pegando o coelho que estava no colo e agarrando contra o peito.
– Henry descobriu que este homem perseguia gente que tinha muito dinheiro e que a criatura tinha o papel de dar um fim a essas pessoas. Quando desmascarou descaradamente o homem e disse que a polícia já sabia de tudo, Henry foi surpreendido pela criatura, que usou o corpo de Marchand para atacar o rapaz que havia descoberto seu segredo. Foi quando descobri que Henry também era especial.
– Como você sabe? O que você viu?
– Neste dia em especial, a esposa e o filho de Marchand estavam fora fazendo compras, acompanhados por minha mãe. Então fiquei em casa para cuidar do jardim. Quando Henry chegou, fiquei especialmente curioso e observei a conversa pela fresta de uma porta.
– Que feio, sr. Darell! – exclamou Cathie.
Darell riu.
– Sim, é feio espiar a conversa dos outros, mas não foi só a curiosidade que me fez xeretar naquele dia. Quando vi o senhor Henry entrando pelo portão principal, senti que ele podia me ajudar a ser livre de alguma forma, mesmo que eu ainda não soubesse como. Eu desejava muito a liberdade da minha mãe e minha.
– Você não tinha pai? – perguntou a menina, de forma inocente.
– Calma, já vou chegar lá. Bem, continuando – respondeu, enquanto começava a distribuir a massa de biscoito em pequenos discos numa bandeja de metal. – Quando Henry foi atacado, reagiu rapidamente, como se soubesse tudo o que ia acontecer. O brilho em seus olhos mudou e ele começou a desviar dos ataques com muita facilidade; quando chegou sua vez de revidar, conseguiu imobilizar a fera depois desta já ter destruído quase todo o escritório onde estavam conversando poucos minutos antes. Eu estava muito admirado. Quando percebi, Henry estava arrancando a besta do corpo de Marchand, de certa forma.
– O quê? O senhor Henry expulsou a criatura?
– Foi o que meus olhos me mostraram.
– Mas como?
– Eu também não sei. Quando prestei atenção em outra coisa que não fosse a cena, o lugar já estava cheio de policiais franceses. Marchand, sendo apenas um homem novamente, foi logo algemado e levado preso.
– E o que aconteceu depois?
– Aconteceu que Henry me descobriu. Ele descobriu a verdade sobre mim e sobre minha mãe.
– Que verdade?
– Minha mãe tinha uma vida feliz e maravilhosa ao lado do marido indiano quando era jovem. Mas infelizmente ele se tornou um dos alvos de negociação de Marchand, pois era um homem muito rico. Minha mãe também se tornou alvo deste homem detestável.
– Por quê?
– Porque, segundo uma história que minha mãe me contava, ela havia sido abençoada com um nome forte e poderoso, pois uma deusa teria se manifestado em seu nascimento... Uma deusa chamada Bhagyalakshmi. Minha mãe recebeu o nome de Hiranya, que significa “riqueza”, em homenagem à deusa, pois Bhagyalakshmi era a deusa da riqueza. Após seu nascimento, a família se tornou muito próspera e logo se tornou rica. Quando cresceu e precisou se casar com um homem da mesma casta, logo percebeu que seu casamento também prosperou, pois os dois se amavam apesar de toda a fortuna que os cercava.
– O que aconteceu depois?
– O que aconteceu? – uma sombra passou pelo rosto de Darell antes de responder à pergunta. – Marchand aconteceu. A besta dentro dele consumiu o nobre homem e depois minha mãe foi sequestrada, foi levada para a França para se tornar uma escrava.
– Que horror! – Cathie cobriu a boca com as orelhas do coelho.
– E isso não é tudo. Ele descobriu sobre o segredo de minha mãe e, mesmo sendo já tendo uma noiva na época, tentou possuí-la.
– E... E ele conseguiu? – a menina não queria ser indelicada, mas sentia-se muito curiosa e não conseguia evitar as perguntas.
– Sim. Infelizmente, ele conseguiu – Darell apresentou uma expressão triste e baixou a cabeça, dando uma breve pausa em sua tarefa. Depois, balançou a cabeça e recomeçou. – E nove meses depois, uma criança nasceu desta união proibida e indesejada.
A menina inclinou-se mais para frente, surpreendida com o rumo que a história seguia.
– Quem era essa criança? Ela ainda está viva?
– Sim, está viva e bem – disse, fazendo uma nova pausa, deixando a menina cheia de expectativa. – Essa criança era eu.
Cathie arquejou assustada.
– Senhor Darell! Desculpe-me!
– Está tudo bem, afinal foi isto o que Henry descobriu. Mesmo depois de preso pela morte de muitos nobres, Marchand teve ainda mais prejuízos e perdas, além de sua liberdade. Depois de revelada sua traição e seus crimes, a esposa separou-se dele e levou o filho consigo, recebendo judicialmente parte da grande fortuna acumulada pelo ex-marido.
– E o que aconteceu com você e sua mãe?
Darell deu um sorriso inicialmente triste, mas que foi se transformando em um sorriso sincero a cada detalhe que se lembrava durante sua narrativa.
– Henry lutou por mim e por minha mãe. Ele fez tudo o que podia e muito mais. Como eu disse antes, a família de Marchand recebeu apenas parte da herança. O restante da fortuna veio para nós, pois Henry conseguiu provar que eu era filho de Marchand.
– Nossa! O senhor Henry é incrível!
– Sim, ele é mesmo. Infelizmente minha mãe não pôde desfrutar da sua liberdade como eu pude... – Darell deixou a frase morrer e seu rosto transpareceu a saudade que sentia. Catherine percebeu e ficou séria.
– Por que não? Aconteceu alguma coisa?
O homem suspirou e esperou alguns segundos antes de responder.
– Ela estava muito fraca por ser mantida presa naquela casa. Sua saúde se tornou frágil demais, pois Marchand a maltratava quando ninguém estava olhando e me prendia em um porão escuro e fundo, para que eu não conseguisse pedir ajuda. Depois me ameaçava, dizendo que torturaria minha mãe e sumiria com seu corpo caso eu contasse a verdade para alguém. Como minha mãe era tudo para mim, eu ficava com ódio por não poder fazer nada além de cuidar dela o máximo que podia. Eu queria protege-la muito mais do que estava ao meu alcance com aquela idade. Eu queria justiça qualquer custo. Henry trouxe a justiça para nós, vingou nossas dores, mas já era tarde demais...
– Senhor Darell, não me diga que... – a menina iniciou a frase, mas não teve coragem para termina-la.
– A luta judicial que Henry enfrentou por nós foi um tanto longa. Demorou um pouco mais de um mês... Um mês cheio de investigações e de audiências em tribunais. Eu e minha mãe continuamos na mansão durante este período, recebendo auxílio e atenção dos demais criados, afinal todos sabiam das maldades do patrão para conosco. Henry teve dificuldades para finalizar o processo por causa da sua pouca idade; muitos desmereciam seu trabalho a ponto de ele precisar receber auxílio do seu superior. Quando finalmente tudo havia acabado, Henry veio me encontrar para avisar como eu poderia contatá-lo caso precisasse de ajuda em mais alguma coisa. Nesse momento, ele encontrou todos na mansão de luto. Eu estava consternado ao lado da cama de minha mãe, segurando sua mão.
Darell parou por um breve momento, observou o rostinho choroso de Cathie e continuou:
– Enquanto eu chorava copiosamente e dizia que tudo tinha acabado para mim, Henry colocou uma mão em meu ombro e me disse: “Ainda não acabou, então você não pode desistir. Ainda tem muito para viver e deve respeitar isso, pela sua mãe. Deve viver e honrar a memória dela, pois ela teria desejado isso”. Aquilo me fez parar de chorar e olhar para ele com atenção. Então ele me fez um convite: “Venha comigo. Se não quiser viver neste lugar que vai te assombrar para o resto da vida, pode vir morar na minha casa. Alguém que perdeu sua pessoa mais querida na vida é como um irmão para mim. Pode vir comigo se quiser, meu amigo”. Eu aceitei seu convite e trouxe minha mãe comigo para ser enterrada em um lugar que fosse digno dela; não podia levá-la de volta à Índia e meus avós também não aceitariam um neto bastardo. Henry mandou construir um belo jazigo no cemitério de Luxemburgo, onde posso visita-la livremente. Eu trouxe também minha herança maldita e a transformei em algo melhor, investindo em negócios na cidade, alguns dos quais eu sou dono. Como minha mãe era uma excelente cozinheira e me ensinou muitas coisas, decidi investir em algumas pâtisseries e em um restaurante.
Catherine estava paralisada ainda com uma expressão chorosa no rosto. Darell largou a bacia vazia sobre o balcão e levou a bandeja ao forno. Depois se virou na direção da menina e acariciou seu cabelo com uma das mãos.
– Entende agora, senhorita Catherine? Henry é um homem de boa índole e bom coração, apesar de parecer o contrário por causa de seu temperamento instável. Ele me acolheu quando tudo parecia perdido, quando eu sentia que a vida tinha acabado para mim. Agora sou seu assistente, seu cúmplice, seu confessor, seu melhor cozinheiro – Darell deu uma leve risadinha da última expressão que utilizou para aliviar a tensão de Cathie. – Sou seu mais fiel amigo. Essa é a forma como expresso minha gratidão a ele.
A menina continuava em silêncio.
– Então, não se culpe, Cathie. O que aconteceu com você e o que aconteceu comigo não foi culpa de nenhum de nós dois. Se você pensar que é um incômodo na vida do senhor Henry, ele vai acabar ficando triste, pois ele te considera especial.
– Considera? – choramingou.
– Com certeza. Se também quiser expressar sua gratidão de alguma forma e não souber como, pode me pedir ajuda e pensaremos em algo juntos. O que acha? Sei que a senhorita tem também um bom coração e que tem tudo para se tornar uma excelente dama no futuro.
– Sim! Eu quero fazer algo por ele também. Eu gosto muito do senhor Henry! Ele salvou minha vida e me trouxe para morar com ele! – Cathie se empolgou com a ideia e voltou a sorrir, um sorriso jovial e radiante. – Por favor, me ajude, senhor Darell! Eu também quero fazer algo pelo senhor Henry.
– Certo, então! – Darell ficou feliz ao vê-la animada novamente e teve uma ideia. – Enquanto esperamos até que os biscoitos fiquem prontos, porque não vem comigo? Quero lhe mostrar uma coisa.
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