Take Care
4 Quarto Capítulo.
Notas iniciais
Emma acordou com seu despertador tocando. Quinze minutos para as onze. Hora da segunda sessão.
Enquanto se lavava no banheiro, refletiu se deveria tentar ou não se aproximar de Regina. Ela preferiu dar tempo ao tempo, começando as coisas aos poucos. Ela devia manter a relação necessária de massagista e cliente, onde o máximo de intimidade que teriam era a óbvia. Emma se dirigiu ao quarto da morena, que mexia em seu notebook silenciosamente.
"Hora da sessão, senhorita Mills." ela sorriu para a mulher na cama.
Regina sentiu o leve desconforto na boca do estômago outra vez. Fazia muito tempo que alguém havia lhe sorrido, e grande parte das gentilezas que recebia era de pessoas que agiam de falsidade ou simplesmente tinham medo dela. Ela não sentiu vontade de lhe sorrir de volta.
Mais uma vez, a sessão foi infinitamente satisfatória para Regina. Emma trabalhou suavemente em suas costas e ela se revitalizava a cada toque. Sem trocarem uma palavra até o fim do expediente, a loira carregou a mulher no colo até sua cama e saiu do quarto, lançando-lhe um sorriso fraco, fechando a porta atrás de si.
O resto da semana foi cansativo, porém significativo para ambas as partes. Regina se sentia muito melhor desde que haviam começado. Apesar de preocupada com os negócios, as dores começaram a lhe dar sossego, e ela já podia dormir algumas horas sem ser interrompida por pontadas nos ossos. Já Emma não conteve a gargalhada de felicidade quando consultou seu saldo bancário e viu que finalmente tinha fundos necessários para pagar seu carro e dar entrada no extensivo da universidade. Claro que as coisas se tornariam ainda mais cansativas e desgastantes, mas ela ainda tinha os intervalos entre as sessões de Regina e os finais de semana livres para estudar.
Apesar de felizes, as mulheres não trocaram nenhuma palavra além do necessário durante todo esse tempo.
Todas as tentativas de Emma para iniciar uma conversa foram interrompidas pela rispidez de Regina, que continuava com suas atitudes grosseiras mesmo sentindo menos dor. Emma decidiu simplesmente deixar pra lá. Em algumas semanas ela estaria livre de qualquer envolvimento com a empresária e sua vida voltaria ao normal. Ao invés disso, sua amizade com Mary Margaret parecia aumentar cada vez mais. Elas passavam o dia inteiro conversando entre as trocas de toalha e refeições. Aquilo revitalizava o trabalho de Emma, e ela não se sentia mais sozinha naquela casa gigante, e pela primeira vez, ela tinha algo parecido com uma amizade. Mary se sentia ainda mais feliz.
Oito dias após o início do tratamento, Emma estava sentada na cama em seu quarto, lendo um livro confuso sobre fisionomia humana enquanto Mary limpava a janela do cômodo lentamente. O motorista da mansão chamou por Emma na sala principal.
"Pode deixar, eu vejo o que está acontecendo." Mary lançou um sorriso para a amiga e desceu as escadas. Emma ouviu murmúrios da conversa e segundos depois, a amiga havia voltado para o quarto. "Ele precisa que você tire seu carro da entrada principal e coloque-o na garagem dos fundos."
Emma respirou fundo e fechou seu livro, correndo para trocar o carro de lugar e voltar á tempo para a sessão.
Quando entrou no quarto de Regina, a mulher estava acordada lendo um jornal. Emma não falou com ela, ligando o forno para aquecer as toalhas enquanto arregaçava as mangas de sua camisa. Ela posicionou a maca e tirou o óleo da maleta.
"Qual carro você tem, senhorita Swan?" A voz de Regina quebrou o silêncio, fazendo Emma girar em seus calcanhares e olhar para a morena com expressão de confusão no rosto.
"Um fusca." Ela respondeu.
"É barulhento." Regina deu de ombros e continuou sua leitura.
Emma riu e ajudou a mulher a se levantar da cama, pegando-a no colo. "Sabe, senhorita Mills... Acredito que daqui alguns dias a senhora já vai poder se levantar sozinha. A não ser, é claro, que prefira que eu te carregue no colo até o final do tratamento."
Regina que já estava posicionada na maca, escondeu um sorriso ao ouvir as palavras de Emma.
"Sinto lhe desapontar, Swan, mas não gosto de depender de ninguém, portanto assim que estiver melhor poderei me levantar sozinha, e espero que seja em breve, obrigada."
Emma revirou os olhos para a mulher orgulhosa deitada em sua frente e iniciou a sessão. Ela parecia cada vez melhor naquilo que fazia, como se pudesse se aperfeiçoar a cada dia. Quando terminaram, Emma ajudou Regina e correu para o banho, sem tempo para jantar, dirigindo diretamente para sua faculdade.
Emma voltou á tempo para a última sessão da semana, se apressando em lavar as mãos e o rosto enquanto tentava lembrar as páginas que devia estudar naquela noite.
Ela correu para o quarto de Regina, que parecia completamente estressada.
Emma a ajudou a se levantar sem dizer uma palavra sequer, e a mulher se balançou em seu colo, caindo de mal jeito na maca.
"Tenha cuidado, Swan!" ela gritou "Se não é capaz de me segurar então não o faça! Sua falta de delicadeza é brutal demais pra mim."
"Mas senhorita Mills..." Emma tentou se defender, mas foi novamente atacada.
"Não quero ouvir sua voz, então por favor não fale mais perto de mim."
Emma assentiu e a morena se acomodou na maca, respirando pesadamente.
Algo estava acontecendo a aquela mulher. Aquilo era crueldade demais até para Regina. A loira respirou fundo e iniciou a sessão, sem vontade alguma. Se ela tivesse de escolher um momento para abandonar tudo, seria aquele. Mas pensou sobre o extensivo que havia começado. Aquele era seu sonho, e ela teria que sobreviver a sacrifícios como aquele que quisesse realizá-lo. Ela desligou sua mente e se focou na aula incrível que havia tido na faculdade aquele dia, deixando suas mãos fazerem o trabalho que ela já estava acostumada a fazer. Regina estava inquieta quando a sessão terminou, e Emma duvidava de que ela havia relaxado o suficiente para deixar a massagem lhe fazer efeito. Ela ajudou a mulher a voltar para a cama e saiu do quarto sem lhe desejar boa noite.
A loira foi até a cozinha e pegou um saco de salgadinhos e uma maçã, se despedindo de Mary com um beijo no rosto quando subiu para seu quarto. Ela comeu enquanto estudava, seu estômago doendo sem motivo algum. De início ela pensou que era fome, mas a dor não passou mesmo depois de se alimentar, e ela decidiu que já estava tarde demais para estudar. Emma foi para o banho, deixando a água quente aliviar a tensão que ela sentia nas próprias costas.
Ela fechou os olhos e pensou naqueles dias com Regina, lembrando da história que Mary havia lhe contado em seu primeiro dia na mansão. Quando mentalizou as palavras de ofensa que a mulher lhe lançara, seu estômago apertou ainda mais. Aquela sensação era raiva. As náuseas estavam sendo causadas pelo ácido que Emma engolia cada vez que Regina lhe respondia com superioridade ou ignorância. Ela fechou o chuveiro e se deitou para dormir, ignorando os estudos. Ela se sentia completamente esgotada e cansada, mas não conseguia dormir. O jeito de Regina era absurdo a ela, algo que jamais seria compreendido. 'Ok, ela teve uma vida difícil, mas eu também tive (e ainda tenho) e não me tornei megera por isso.'
Emma rolou na cama durante horas sem saber exatamente como relaxar para conseguir pegar no sono. Os ponteiros do relógio marcavam o quão avançada a madrugada estava e isso preocupava a loira ainda mais. Em poucas horas ela deveria estar na universidade. Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho no quarto ao lado.
Um grito.
Emma se levantou rapidamente sem ter certeza se deveria correr ou se esconder. Ela pensou em Regina sozinha sem poder se mexer. Ela abriu a porta assustada procurando da onde vinham os gritos. Justamente do quarto ao lado.
Ela correu até lá sem se preocupar em calçar sapatos, sentindo o frio atingir seu corpo quente em sua regata branca e shorts de pijama. Ela abriu a porta e o quarto estava completamente escuro, podendo estar vazio se não fosse os soluços da morena na cama. A luz do corredor iluminou o cômodo parcialmente, e Emma podia ver as lágrimas no rosto da morena deitada na cama. Ela sentiu vontade de abraçá-la.
"O que aconteceu, senhorita Mills?" Emma disse tocando sua mão, Regina a recuou de imediato.
"Tive um pesadelo, nada que seja da sua conta." A morena disse soluçando. Mesmo chorando, ela empinou o nariz na defensiva.
Emma respirou fundo, toda a raiva acumulada queimando sua garganta e olhos.
"Escute aqui, senhorita Mills... Eu me levantei para me certificar de que você estivesse bem, porque ouvi alguém gritando e podia muito bem ter um assassino em sua casa. Eu poderia ter me escondido e me trancado lá, mas vim até aqui me certificar de que você estivesse bem. Eu não quero agradecimentos da sua parte, mas não quero ser menosprezada também. Se prefere ficar aqui sozinha, ótimo, isso é problema seu. Só não quero e não vou escutar grosserias da sua parte fora do meu horário de expediente." Ela se levantou da cama sem olhar para o rosto da mulher. "Tenha uma boa noite."
Emma marchou orgulhosa de seu pequeno discurso, aliviada por ter finalmente externado suas palavras. Ela saía do quarto quando a voz de Regina chamou pelo seu nome.
"Swan... Escute." A loira parou na porta sem se virar para a mulher na cama. "Me desculpe, ok? Eu não queria ter usado esse tom com você quando você só quis ser gentil. Por favor, queira me desculpar. Eu realmente estou exausta e ficar trancada nesse quarto está me deprimindo cada dia mais. Por favor, aceite minhas desculpas."
Emma se virou e viu, pela primeira vez, medo nos olhos de Regina. Toda a máscara de crueldade e maldade em seu rosto havia se dissolvido naquelas desculpas. A loira se aproximou da cama novamente, se sentando nos pés de Regina.
"Tudo bem... Me desculpe minha audácia por falar assim com a senhorita." Emma deu de ombros. "Quer falar sobre o pesadelo? Dizem que é um bom jeito de se acalmar."
Regina secou as lágrimas com as costas das mãos. "Está disposta a me escutar? Digo... Eu te tirei do seu sono."
"Eu não estava dormindo." ela tocou os pés de Regina por cima do edredom grosso, estimulando-a a falar. "Pode me contar tudo em detalhes."
A morena respirou fundo. "Todas as noites eu tenho o mesmo sonho... Não é exatamente um sonho, e sim uma lembrança: a noite do acidente. Eu vejo e re-vejo meu carro capotar e meu corpo ser lançado em todas as direções. Eu não desmaio, ao invés disso fico consciênte sentindo todas as dores. Naquele momento eu sinto como se nunca mais fosse andar ou me mexer, porque a dor que penetra em minha coluna é absurda, e eu a sinto novamente. Mas hoje... hoje foi diferente. Tinha uma sombra lá, uma sombra escura que parecia tentar tirar minha vida de mim... Eu estava tão sozinha..." Regina tremeu. "Foi horrível." Ela estava chorando.
Emma tocou sua mão novamente, e a morena não recuou dessa vez. Ela sorriu para a mulher e por um segundo pareceu iluminar todo o quarto. "Foi só um pesadelo, senhorita Mills." Emma disse em seu tom mais doce. "São apenas lembranças, já se foram, o pior já passou. O importante é que agora você está se recuperando e estou aqui para te ajudar, você não está sozinha. Essa sombra não existe, mas se ela decidir aparecer você pode me chamar e eu chuto a bunda dela."
Inacreditavelmente, Regina sorriu.
"Obrigada, Swan."
"Pode me chamar de Emma."
"Perdoe-me, mas prefiro Swan." o sorriso desapareceu de seu rosto. "Obrigada por ter se preocupado comigo e pelo reconforto, eu aprecio muito essa sua atitude." Ela disse formalmente, tirando as mãos debaixo das da loira com suavidade.
"Não há de que, senhorita Mills." Emma se levantou. "Estarei no meu quarto caso precise de algo. Tenha uma boa noite."
"Por que?" Regina perguntou.
"Por que estou lhe dando boa noite?" Emma franziu o cenho para a mulher em sua frente, completamente confusa com a pergunta.
"Por que está fazendo isso por mim? Digo, tudo o que fiz até o momento foi lhe insultar e cortar suas conversas. O que me fez merecer sua compaixão?"
"Fiz isso porque é o certo a se fazer." Emma se dirigiu até a porta do quarto. "Quando você quer que o bem seja feito, não se importa com quem irá faze-lo." Ela sorriu e tocou a maçaneta. "Tenha uma boite noite, senhorita Mills." Emma fechou a porta atrás de si, devolvendo a escuridão ao quarto de Regina.
A morena se virou com esforço, aconchegando-se entre a pilha de travesseiros em suas costas. Fechou os olhos e pensou nas palavras doces de Emma, em sua preocupação.
O sono logo pesou suas pálpebras novamente, mas antes de adormecer, Regina sorriu.
Fale com o autor