A noite estava fria, a lua cheia no alto do céu e o vento balançava a copa das árvores. Estava tudo quieto na Rua dos Pinheiros. Uma longa rua repleta por casinhas antigas, algumas meio largadas com a grama alta e esquecidas, com telhas e pedaços da cerca faltado, outras bem cuidadas, com a grama aparada e cercas vivas impecáveis, carros na garagem e flamingos rosas dando as boas vindas. A rua, na realidade uma viela, dava para um pântano repleto de pinheiros, além de algumas outras árvores. Ao fim da rua, no número 205, logo ao lado do pântano, separada apenas por uma cerca de madeira cheia de falhas e bastante baixa, um velho casebre pouco cuidado se erguia. Suas janelas estavam todas apagadas, exceto por uma.

Dois garotos estavam parados no meio de uma antiga sala, o mais alto tinha cabelos pretos e lisos, o corpo magro, usava uma calça jeans preta, no mesmo to da camiseta, um tênis e nada mais. Seu semblante era um misto de vontade de ficar, e a determinação por partir, ficava claro em seus pequenos olhos puxados.

– A pior parte é abandonar o passado, tudo que você ama... Que você conhece. – Eric dizia olhando ao redor, observando pela última vez a casa em que crescera.

O outro era um pouco menor, porém não tão magro. Seus cabelos cacheados caiam até a testa, quase por cima dos olhos. Usava uma camisa branca por dentro da jaqueta azul de algum time desconhecido, algo que facilmente seria remetido a uma jaqueta de basquete dos anos 50, a calça jeans rasgada no joelho e um tênis velho sujo.

– Ficar aqui está longe de ser a melhor solução para o momento, você sabe disso melhor que ninguém. – Repreendeu Theodore, que estava impaciente para sair o mais rápido possível.

– Devo levar algo? Eu... – Ele girou os calcanhares lentamente, observando uma última vez toda a sala.
As fotos nas paredes, os móveis antigos e as estátuas sob os móveis, a antiga televisão de tubo com a suas antenas logo acima, a escada para o primeiro andar onde muitas vezes ele desceu escorregando pelo corrimão, tudo tão familiar... Toda a história da sua vida seria deixada para trás em poucos minutos.

Eric respirou fundo e sem levar nada tocou no ombro de Theodore.

– Vamos, melhor sair logo antes que fique muito tarde para isso. – Disse Eric e caminhou rumo a porta de entrada da casa, a qual dava de frente para o pântano. Na soleira, Eric parou mais uma vez, por dois ou três segundos ficou pensando e voltou a andar, parando um ao lado do outro sete passos de distância da casa.
Os dois puxaram algo que tinham em seus pescoços e de dentro de suas camisas saíram dois colares, Theodore possuía um pingente de prata redondo com palavras escritas em forma de redemoinho, em alguns trechos com floreios e traços, outros trechos vazados. Eric tinha em sua mão um pingente muito parecido com o de Theodore, com diferenças apenas em onde os vazados ou floreios e desenhos ficaram. O pingente de Theodore estava preso em uma fina tira de couro enquanto a de Theodore pendia de uma fina corrente prateada. Os medalhões tinham quase o tamanho da palma da mão, porém não chegavam a ser algo muito grande e quando dentro das vestes, conseguiam passar despercebidos.

Os dois seguravam seus pingentes, os olhos fechados e concentrados. Nada aconteceu.

– Vamos lá... Qual o problema? – Theodore estava começando a ficar nervoso. Apertou os olhos e então abriu olhando para Eric ao seu lado. – Você está se concentrando direito?

– Sim, estou. Não sei o que está acontecendo, mas também queria saber.

– Vamos ter que recorrer novamente a poção, mas ela já está acabando... Então lembre-se, um gole e nada além.

– Theodore enfiou a mão no bolso da calça jeans azule tirou um vidrinho com uma rolha, dentro um líquido azul preenchia o equivalente a metade do vidro. A garrafa cabia perfeitamente na mão do rapaz, indo de um lado ao outro dela. Ele abriu a garrafa e tomou um gole, passando em seguida a garrafa para Eric que fez o mesmo e devolveu a garrafa. Ele colocou a rolha de volta na boca da garrafa e a guardou no bolso.

Os dois aos poucos começaram a ficar diferentes, como se uma luz estivesse sobre eles, porém apenas os dois podiam ver aquela cena. Sentiram algo como se um grande balde de água fosse derramado sobre eles, um leve frio e nada mais. Ficaram quietos, esperando sob o luar e com a companhia dos sons da noite, aos poucos o vento, os sapos, os grilos, tudo foi diminuindo a intensidade. O silêncio tomou conta de tudo como uma onda. Os minutos passavam devagar naquela espera, eles sabiam o que estava por vir, sabiam também que provavelmente não deveria demorar a acontecer, porém cada segundo parecia uma hora. Esperar, muitas vezes, pode parecer a coisa mais torturante do mundo.

Na rua uma luz forte e incandescente acendeu e apagou por uma fração de segundos. A espera havia acabado. Sons de passos podiam ser ouvidos, mas não pelos garotos. Um homem alto e magro utilizando um grande sobretudo preto surrado, com rasgões aqui e ali, remendos em diversos pontos, a costura caindo em outros. Por baixo do sobretudo aberto outras vestes velhas e rasgadas, estava todo de preto, da bota ao longo cabelo desgrenhado no alto da cabeça. Seu rosto trazia marcas, várias delas. Arranhões e cicatrizes em diversos lugares. Ele ergueu a mão esquerda e direcionou contra a cerca, ainda caminhando pela rua rumo a casa, um trecho da cerca se desfez em chamas, tudo que restara eram cincas. Ele entrou.

Theodore segurou a respiração quando Caça-Sombras passou a alguns passos deles e se quer olhou para o lado, rumando para a porta da casa que com um chute veio a baixo. Outras sombras surgiram vindas da rua e seis figuras entraram pelo buraco da cerca. Três pares perfeitamente idênticos, uma mulher e um homem de mãos dadas, andando de maneira cadavérica porém rápida. Mulheres com vestidos de noivas encardidos e aos farrapos. O corpo magro, as mãos cadavéricas. Ao lado de cada uma delas um homem com feições vazias, aparentemente cegos, seus olhos eram completamente brancos e eram tão magro quanto as mulheres. Vestidos de noivos, suas roupas também estavam rasgadas. Eram como espécies de zumbis, porém vivos, com vontades próprias. Sob a luz da lua pareciam caveiras com cabelo e vestidos para um casamento macabro. Caminharam para dentro da casa para o encontro com Caça-Sombras.

Luzes apagavam e acendiam pelas janelas, era tudo que conseguia ser visto do lado de fora da casa. Luzes e sombras, duplas por aqui, uma sombra alta por ali, nada além. Eric tentou se esforçar para ouvir algo, porém a mesma magia que o protegia, também impossibilitava de ouvir qualquer som que não fosse vindo de Theodore. Eric parecia assustado.

– Vamos sair daqui, agora. – Falou Theodore dando um leve puxão no braço do outro. Eles caminharam para a sua o mais rápido que conseguiram. Os dois já estavam no meio da rua quando Caça-Sombras saiu da casa, a raiva em seu olhar.

– Não tem ninguém aqui! – Vociferava furioso. – Seus imprestáveis! – Gritou para os Ishidas que estavam saindo da casa.

– Procuramos em todas as partes... Esdrasss... Nósss... – Falou um dos homens, sua voz era algo estranho, como um sussurro misturado com sibilos, chiados e algo eletrônico, além das alterações: segundos falando mais alto, para no segundo seguinte falar mais baixo. Em certos momentos era difícil de compreender se não estivesse acostumado.

– Vocês me fazem perder tempo... Eles não devem ter ido muito longe! Vieram pela rua, certo? – Ele falava e mas seu olhar estava distante, observando o pântano a sua frente, para além da cerca.

– Sss... Sim. – Respondeu a voz aguda e também estranha, era como uma versão feminina e agonizante da voz do homem que havia falado primeiro.

– Eles não devem ter ido muito longe. Dividam-se! Vão para o pântano e encontrem eles.

Os três casais saíram, sempre de mãos dadas, passando pela rua e rumando para o pântano. Entraram e se separaram, a luz da lua iluminava a copa das árvores, batia na neblina e caia nas águas, sendo rebatida de volta e refletida de modo ondulante. Andavam coo cães farejadores, seus rostos moviam-se como se estivessem cheirando o ar, buscando algum cheiro específico. Aos poucos os vestidos iam afundando na água, até restar apenas o véu sendo arrastado pelas águas que já batia na cintura. E divididos, desapareceram por entre as árvores ao longe.
– Não estamos conseguindo usar os pingentes, como vamos fazer para sair daqui? – Theodore estava começando a ficar nervoso.
– A poção faria efeito também na rede de energia?
– Seria arriscado, não?
– Não temos muitas opções nesse momento, uma hora o efeito vai passar e vamos ser rastreados pelos Ishidas. – Eric olhou para o pântano onde antes os Ishidas estavam. – Eles achariam nosso rastro rápido.

Eric tirou a fina pulseira do pulso esquerdo, Theodore segurou a pulseira com dois dedos como numa espécie de pinça enquanto Eric passava a mão por dois botões sutis que se encontravam na parte interna dela, ele apertou os botões e falou algo rapidamente. Um estalado, uma rápida luz forte e os dois desapareceram.

Esdras Caça-Sombras caminhava de volta a rua cheio de fúria por não ter encontrado nada, nem ninguém na casa. Virou-se para a casa e levantou sua mão esquerda, com algumas explosões a casa foi abraçada por chamas, por dentro e por fora. Aos poucos tudo era consumido pelo fogo. Caça-Sombras então tocou no seu braço esquerdo e uma espécie de tela holográfica apareceu no ar, um mapa com ruas em diferentes cores acima do seu braço erguido na horizontal. Ele tocou em algum ponto da tela e com um clarão e estalidos desapareceu, deixando para trás a rua dos Espinheiros, o pântano e a casa em chamas.