TRÊS linhas

3 Um cidadezinha em explosão


_Onde o vovô Mario foi? – Mandy perguntou enquanto entrava em casa junto com Ricky.

_Provavelmente está na cozinha preparando um almoço delicioso.

_Ele trabalha sozinho aqui?

_Uhum... No início tínhamos uma governanta, mas ela acabou indo embora e como há apenas nós três não deve ser muito difícil.

Os dois foram para a sala de jantar juntos e Ricky estava certo, Mário estava lá colocando a mesa do almoço.

_Vi os dois se divertindo no jardim. – Ele disse.

_Ela é péssima com pipas. – O menino falou.

_Não sou nada, é minha primeira vez, dê um desconto. – A garota falou.

Os dois riram.

_Vão se lavar para almoçar e Ricky chame o Yuri hm.

Os dois concordaram e apostaram corrida até o banheiro, Ricky chegou primeiro, lavou as mãos, mostrou a língua para Mandy e foi até o quarto de Yuri, bateu três vezes antes de entrar e assim que teve permissão encontrou o menino sentado em sua cama, lendo, como de costume.

_Tio Mário está nos chamando para o almoço.

Yuri olhou para ele e respondeu seco:

_Estou indo...

_Hm... – Ricky disse enquanto se aproximava da cama do companheiro. – Yuri, você teve algum problema com a Mandy não é?

Yuri deu de ombros e respondeu:

_Ela entrou no meu quarto sem permissão e eu a coloquei para fora.

_Entendi... Ela ficou bem assustada.

Yuri fechou o livro com força e se levantou:

_Quantos anos ela tem? Seis?

_Acho que dez.

_Então, se ela veio pra cá agora já deve ter passado por coisas bem piores do que ser expulsa do quarto de alguém, eu não vou ficar tratando ela igual a um bebê só por que é menina.

_Não estou falando para você tratar ela igual a um bebê, mas ela é nova aqui; e estava com a família até pouco tempo...

Os dois ficaram em silêncio, a palavra ‘família’ sempre foi um tabu dentro da mansão. Yuri apenas suspirou e saiu do quarto, Ricky suspirou também e desceu logo em seguida.

Chegaram quase juntos a sala de jantar, Mandy e Mário já estavam com seus pratos prontos.

_Estávamos apenas esperando vocês dois. – Mário disse.

Ricky sorriu, mas Yuri continuou sério, os dois arrumaram seus pratos, Mário tinha feito um delicioso arroz com legumes e carne.

Mandy entonou a voz em uma oração deixando os outros três surpresos, não tinham o costume de fazer uma oração antes da comida; mesmo assim Mário a seguiu e os dois terminaram juntos.

Mandy começou a comer devagar, ninguém falou nada durante o almoço, apenas quando terminaram é que Mário quebrou o silêncio.

_Yuri, você sabia que a Mandy é uma excelente pianista?

Yuri levantou o rosto para o mais velho, depois olhou para a menina e disse baixo:

_Não, eu não sabia.

_Mostre a ela o seu piano, quem sabe vocês não tocam algo juntos para nós qualquer dia desses.

Ricky fez uma careta e disse:

_Se ela for tão boa quanto é soltando pipa acho que será perda de tempo.

_No piano eu sou boa de verdade. – A menina disse. – Mas não precisa me deixar tocar, se não quiser. – Ela olhou para Yuri nesse momento, o menino suspirou e fez um movimento com a cabeça para que ela o seguisse.

Ele levantou e subiu para seu quarto.

_Ele é um menino bom, porém de poucas palavras. – Mário disse.

Mandy sorriu largo e logo foi atrás do garoto, a porta de seu quarto estava aberta então ela deduziu que podia entrar.

_Com licença. – Disse enquanto entrava, estava receosa por conta da última visita que tinha feito ao quarto de Yuri.

_Se sente aqui. – Ele deu espaço para a menina se sentar ao seu lado, ela sentou e olhou para o piano maravilhada, era muito parecido com o que tinha em sua casa. – O que sabe tocar? – Ele perguntou.

_Sei qualquer música. – Ela disse, e ele riu. – É verdade. – A menina insistiu. – Mas tem uma que eu compus com meu pai, é a minha preferida, você quer ouvir?

_Hm... – O menino murmurou, ficou sério e concordou com a cabeça. – Pode tocar o que você quiser.

Mandy sorriu e começou a tocar, a melodia era linda e Yuri se surpreendeu com a forma que ela tocava, seus dedos leves tratavam o piano como um amigo e com os olhos fechados a menina parecia viajar enquanto tocava. Ele não conseguia tirar os olhos dela e até mesmo Ricky e Mário subiram para o quarto de Yuri a fim de conferir quem estava tocando tal melodia fantástica.

Assim que terminou, Mandy ouviu uma pessoa batendo palmas, era Mário que sorria contente, entrou no quarto dizendo:

_Nunca ouvi essa música, é linda...

_Eu fiz com meu pai, é mais dele do que minha na verdade. – Ela disse.

_Ah, seu pai é um artista então. – Mário falou.

Mandy concordou com a cabeça.

_Yuri sabia que ele é seu xará? – Mário disse, Yuri arregalou os olhos e virou o rosto para Mandy.

_É verdade. – A menina disse. – Meu pai é seu xará, e também é apaixonado por piano, que coincidência não é?

Yuri não respondeu, apena olhou para as teclas do piano e perguntou:

_Você pode me ensinar a tocar ela?

Mandy ficou muito feliz com o pedido, percebeu que o Yuri rude de mais cedo não era o verdadeiro, é claro que ela o ensinou a tocar, não apenas essa, mas muitas outras músicas, Yuri tinha chego muito cedo há mansão, a guerra interrompeu suas aulas de piano, na verdade a guerra interrompeu sua vida, separou sua família e levou embora seu sorriso, tocar com Mandy despertou novamente algo que ele não sentia a muito tempo, e eles tocaram por horas e horas, Ricky acabou adormecendo enquanto ouvia cada uma das melodia.

_Está na hora de jantar. – Mario disse, enquanto entrava no quarto.

As crianças pararam de tocar, Mandy olhou para a cama e riu ao ver Ricky dormindo.

_Acho que ele não gostou muito das músicas.

_Esse menino... – Yuri disse enquanto levantava e colocava as mãos na cintura. – Hey Ricky... Ricky. – Repetiu enquanto sacudia o mais novo.

_Hm? O que? Onde? – Ricky repetiu assustado, os outros três riram.

_Está na hora da comida e quem chegar por último vai ter que varrer a casa toda sozinho amanhã.

Yuri correu ao dizer aquilo, Mandy estava rindo, mas quando viu Ricky sair em disparada viu que eles estavam falando sério, ela pensou que não poderia ser incluída naquela aposta, afinal ela não sabia nada sobre as brincadeiras ou as regras de limpeza da casa ainda, mais quando chegou por último na sala de jantar e ouviu dos meninos:

‘Mandy vai varrer a casa toda sozinha amanhã!!!!!’

Ela fez uma cara feia e se sentou ao lado de Ricky, dizendo:

_Não é justo, eu não sabia que estava na brincadeira.

_Mas é assim que funciona por aqui. – Ricky disse em tom de risada.

_Tudo bem. – Yuri falou. – Eu ajudo você.

Mandy sorriu e corou um pouco, assim que notou Ricky disse:

_IIIIIIIIIIIIIIIIIH Não me digam que estão de namorinho já!!!!

Yuri ficou sério e jogou um tomatinho na testa do mais novo.

_Deixa de bobeira. – Ele disse.

Mandy queria rir, mas preferiu ficar séria antes que fosse mal interpretada.

Os dias na mansão se passaram dessa forma, as esperança de voltar para casa iam diminuindo, a saudade ia aumentando assim como os laços que eles iam criando uns com os outros, dessa mesma forma se passaram as semanas, os meses e até mesmo os anos, a guerra parecia não ter fim.

Mandy que era boa em costura e crochê pediu que Mario trouxesse para ela lã e linha da pequena cidade mais próxima, Kaimã.

_Tem certeza que só isso? – O senhor perguntou.

_Sim, nesse natal vocês terão os gorros mais lindos de todo país. – A menina disse animada, o senhor concordou e selou sua testa.

_Cuide dos meninos enquanto eu estiver fora. – Ele pediu.

_Pode deixar. – Ela bateu continência, e os dois riram. Depois ficou na porta vendo o vô se distanciar, sentiu algo no coração, se ela soubesse que seria a última vez que o veria teria corrido e pedido mais um abraço, mas como poderia saber? Ninguém sabia que a pequena cidade de Kaimã estaria tão desprotegida naquela tarde.

–

_O que está fazendo? – Mandy perguntou enquanto entrava no quarto de Yuri.

_Lendo. – Ele respondeu sem tirar os olhos do livro.

_É interessante? – A menina ficou nas pontas do pé querendo ver o conteúdo.

_É sobre mistério Mandy. – Ele disse, fechou o livro e olhou pra ela.

_Hm... deve ser muito bom. – A menina sorriu enquanto cruzava os braços.

Ele não disse nada, apenas continuou olhando pra ela.

_O que foi? – A menina perguntou.

_Seu cabelo. – Ele disse, levantou-se e tocou o cabelo da menina. – Ele está tão cumprido.

Mandy corou, seu cabelo realmente estava enorme, batia na cintura e mesmo sem os cosméticos certos para cuidar deles os fios continuavam brilhantes.

_Também, são dois anos sem cortar.

_Dois anos que nos conhecemos. – Ele riu baixo. – Você tinha dez e eu tinha doze.

_Sim, agora eu tenho doze e você quatorze.

Ele riu e concordou com a cabeça, continuou tocando os fios dela até chegar com as mãos em seu rosto, trouxe a menina para mais perto de si e a abraçou, alisou seu rosto, ia tocar seus lábios, ia beijá-la pela primeira vez, criou coragem para fazer isso, mas foi interrompido, na verdade foram interrompidos por um estrondo, um barulho horripilante, vinha de longe porém era devastador. Yuri notou o espanto nos olhos dela.

_Yuri...

_Fique calma, fique aqui.

O menino correu até a janela, o clarão e a fumaça, um novo barulho, Yuri sabia do que se tratava, teve certeza ao ver cinco aviões voarem tão baixo sobre a mansão.

_Mandy onde ... onde está o Ricky? – Ele perguntou, havia medo em sua voz.

_Ele foi andar de bicicleta. – O temos na voz da menina era visível.

_Você se lembra de quando treinamos caso fossemos atingidos pela guerra? – Yuri disse se voltando para a menina.

_Yuri... O que você quer dizer?

_Vá ao porão, fique quieta lá, com a porta bem fechada, está me ouvindo.

_Yuri... – Ela disse, seguiu o menino pelo corredor até chegar a porta da frente.

_Estão atacando Kaimã. – Ele voltou o corpo para ela e disse desesperado, ela imaginava que era isso que estava acontecendo, mas ter a certeza fez seu coração palpitar. – Faça o que eu mandei!!! Não abra a porta, até que voltemos.

Mandy concordou e fez o que ele pediu.

Assim que saiu da casa Yuri viu a nuvem de fumaça e poeira que se aproximava, mais uma bomba, essa foi terrivelmente estrondosa, fez o menino se jogar no chão e tapar os próprios ouvidos.

‘Rickyyyy!!!!!!!!!!!’ – Ele chamou em desespero, levantou e correu para a estrada, nem sinal do mais novo. – ‘Que droga Ricky!!!’ – Sentia o coração acelerar e a vontade de chorar só aumentava, não era só com Ricky que ele estava preocupado, sabia que Mário tinha ido para a cidade comprar coisas de natal.

Olhou para casa, não queria deixar Mandy sozinha, mas também não queria desistir de encontrar o Ricky.

Continuou correndo e se sentiu aliviado quando viu o amigo correndo desesperado.

_Yuriiii!!!!!! – Ricky gritava. – Estão bombardeando a cidade.

_Eu sei vem, a Mandy já está no abrigo!!! – Ricky saiu da bicicleta e a deixou ali mesmo, saiu correndo e os dois juntos entraram na casa, as portas ficaram abertas e quando Mandy ouviu as batidas na porta parou sua oração e a abriu.

_Estão bem... – A menina disse, puxou Ricky pra si e o abraçou forte enquanto chorava desesperadamente. – Ricky o vô, ele está lá...

Ricky olhou para Yuri, o mais velho terminava de fechar a porta.

_Venha Mandy. – Ele puxou a menina pela cintura e juntos os três foram para o canto mais fundo do porão, ficaram lá sentados, juntos. Abraçados.

A menina não parava de chorar e quanto mais os estrondos se aproximavam mais medo eles sentiam.

_Por que estão atacando essa área do país Yuri? – Ricky perguntou.

_Eu não sei Ricky... eu não sei.

Os resultados do ataque foram terríveis, a pequena cidade de Kaimã ficou irreconhecível, por sorte a Mansão não foi atingida, por sorte os três saíram vivos do ataque, por sorte uma semana depois a guerra acabou.

–

_Você está bem? – Yuri perguntou enquanto Mandy apenas olhava pela janela da sala. A menina usava o único vestido preto que tinha, os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo no topo da cabeça, os braços abraçavam o próprio corpo.

_O que será de nós agora Yuri? – Ele perguntou sem tirar os olhos do jardim.

O menino não respondeu, quem respondeu foi Ricky que tinha acabado de entrar na sala.

_Vamos continuar juntos.

Mandy olhou para eles, e Ricky disse:

_Pelo visto não temos ninguém além de nós mesmos não é?

‘Cuide dos meninos’ – Foi a última coisa que ela ouviu de Mário e ela prometeu que cuidaria.

_Está certo. – Mandy disse, se aproximou e abraçou os dois. – Vamos ficar juntos, e eu vou cuidar de vocês.

Yuri sorriu fraco, olhou para Ricky de canto e este sorriu também, os dois apertaram a menina em um big abraço e prometeram cuidar um dos outros, para sempre.

Para sempre.

E sempre.

Notas finais
Oii pessoal :) Espero que estejam gostando. Deixem comentários para me animar a escrever ^-^ Beijoooooos Mari