TRÊS linhas
2 Bem vinda a Mansão
Chovia muito quando a carruagem negra chegou à mansão do senhor Mário Maguchi, era uma noite horrível, cheia de trovoadas e relâmpagos assustadores. O homem de capa preta foi o primeiro a sair, carregava uma mala da mesma cor de sua capa e logo atrás dele uma pequena menina apareceu, estava visivelmente assustada, usava um vestido florido e uma capa de chuva amarela por cima.
_Vamos. – O homem disse, em grave tom, dava passadas largas em direção à porta e a menina se esforçou para acompanhá-lo.
Três batidas foram o suficiente para que a porta se abrisse, do lado de dentro um senhor rechonchudo deu o ar da graça.
_Estava esperando. – Ele disse, e tossiu em seguida.
O homem e a menina entraram juntos, a cada passo que dava mais assustada ela ficava, foram caminhando lentamente até uma sala enorme. A cada trovoada ela se arrepiava, mas forçava-se a não pensar em nada.
‘Rosas, coelhos branquinhos, chocolate, bolo de cenoura’. – Ela repetia em pensamento.
_Sentem-se. – O senhor disse, a menina logo se sentou ao lado do homem, tudo em volta estava escuro e ela não conseguia ver nada além do homem a sua direita e o senhor a sua frente.
_Essa é a filha de Anne e Yuri. – O homem disse. – Seus documentos já foram enviados e acredito que esteja tudo certo para que fique aqui.
_Sim, infelizmente perdemos quase todas as nossas crianças. – O senhor disse amargamente. – Há espaço o suficiente para a jovenzinha – Ele olhou para ela, mas a menina se encolheu, estava com muito medo.
_Certo! – O homem se levantou. – Se comporte senhorita. – Disse se dirigindo a menina e foi em direção à saída, o senhor o acompanhou e ela ficou sozinha naquela sala enorme, se encolheu toda no sofá imenso, dobrou as pernas e começou a chorar baixinho, continuou em um misto de lágrimas e soluços quando sentiu alguém tocar seus ombros, levou um susto e logo gritou se afastando imediatamente do sofá.
Quando se recuperou viu que a mão pertencia a um menino, era um pouco mais alto que ela e parecia estar assustado também.
_O que está acontecendo? – O senhor perguntou enquanto entrava na sala desesperado.
_Eu só toquei no ombro dela. – O menino disse enquanto levava uma mão ao coração. – E a louca gritou, me deu um baita susto.
_Ricky! – O senhor disse indo até a menina, ele a puxou pelo ombro e sentou no sofá, a abraçou enquanto a menina ainda soluçava. – Fique calma, ele é um amigo.
_Amigo? – O menino fez uma careta e foi repreendido pelo olhar do senhor.
_Aqui todos nós cuidamos uns dos outros. – Ele virou o rosto dela para si. – Vai ficar tudo bem.
Ela não respondeu nada, mas soluçava mais lentamente, olhou em direção ao menino e sorriu fraco, ele não entendeu nada e não sorriu de volta, porém quando ouviu o barulho do trovão mais barulhento de todos correu para os braços do senhor, este por sua vez riu e disse:
_Ricky, é apenas o trovão, você sabe que ele faz isso quando está chateado.
_Mas que cara chato, nem eu faço tanto barulho quando estou chateado.
_Pois é, e olha que você é o escândalo em pessoa. – O senhor riu ao dizer isso, o menino virou os olhos e olhou para a garota, ela ria enquanto ouvia os dois.
_Acho que fizemos ela rir. – Ele disse.
_Sim. – O senhor respondeu. – Pode se sentir segura aqui pequena, é um lar com muito amor, para não sentir medo da tempestade vamos dormir juntos hoje hm, nós quatro.
‘Quatro?’ – Ela pensou, essa conta está errada, mas não disse nada, apenas concordou e seguiu os dois até o quarto do senhor.
_Amanhã irá conhecer seu quarto, eu espero que goste. – O senhor disse enquanto arrumava a cama.
_Se não gostar vai ser um problema por que terá que dormir lá de qualquer forma. – Ricky disse, foi repreendido pelo senhor mais uma vez, mas viu que a menina riu com o que disse, ficou com vontade de rir de volta, mas continuou “se fazendo de sério”.
_Vá chamar o Yuri, Ricky. – O senhor disse.
_O que? – Ricky fez uma careta. – Sabe que ele não vai querer vir.
_Ricky me obedeça pelo menos uma vez? – O homem pediu.
Ricky virou os olhos e saiu do quarto, a menina ficou curiosa sobre aquele nome, se aproximou da cama e perguntou:
_Quem é Yuri?
_Ah... – O homem disse – Yuri é o outro garotinho que mora nessa casa, sabe sente-se aqui que eu vou contar a nossa história para você.
A menina se sentou na beira da cama, estava curiosa.
_Essa casa começou a funcionar como um abrigo no início da guerra, mas muitas crianças foram deportadas para outros abrigos, acredito e espero. – Ele deu uma pausa. – Só sobraram o Ricky e o Yuri, e agora que temos você estou muito contente, uma menina sempre coloca brilho em um lar.
A garota sorriu tímida, estava agradecida pelo elogio e disse:
_Yuri é o nome do meu pai.
_Eu sei. – O senhor disse baixo. – O nosso Yuri é uma criança muito quieta, ele gosta de livros e música, é sério, ao contrário do Ricky, que é escandaloso e adora uma bagunça.
A menina riu.
_Ele não quer vir!!!! – Ricky disse enquanto tirava as pantufas e se jogava na cama. – Eu avisei, agora vamos dormir por que esse trovão chateado está me deixando mais chateado ainda.
O senhor e a menina riram juntos, Ricky olhou pra eles com uma expressão sarcástica e perguntou:
_Qual é o seu nome?
Com certeza estava se referindo a menina, já que conhecia o senhor muito bem.
_Ah, meu nome... – Ela disse. – É Mandy.
_Mandy? – O menino perguntou e logo depois soltou uma risada forçada.
_O que foi? – A menina quis saber.
_Que nome estranho.
_Pode me chamar de Park, é Mandy Park o meu nome.
_Park? Pior ainda... – O garoto continuou zombando até ser repreendido pelo senhor.
_Ricky! – Ele disse. – Por que está rindo feito um louco?
_Não estou rindo feito um louco, só achei o nome dela engraçado.
O senhor virou os olhos, sabia que aquilo era pura implicância, trovões soaram novamente o que fez o menino deitar de vez e virar para o canto, Mandy e o senhor riram baixinho ao notarem o medo do garoto.
_Seu nome é lindo. – O senhor disse antes de se deitar. – E você pode me chamar de vovô Mario, ou tio Mario, como preferir.
_Vovô Mário é mais aconchegante. – A menina sorriu.
O senhor concordou e então apagou o abajur que ainda estava aceso, os três dormiram em fim e nem ao menos ouviram toda a chateação dos trovões.
–
Mandy não foi a primeira a acordar na manhã seguinte, muito pelo contrário, quando abriu os olhos notou que estava sozinha na cama, se apressou e desceu as escadas num galope só, quando chegou há sala principal não sabia pra onde ir, afinal na noite anterior não tinha tomado conhecimento nenhum sobre o local, sendo que já era noite e tudo estava muito escuro.
‘Vovô Mario?’ – A menina foi perguntando enquanto andava pelos corredores. – ‘Ricky?’ – Se atreveu até mesmo a chamar pelo nome do menino que já considerava irritante. – ‘Que falta de sorte a minha’. – Disse para si mesma.
Continuou caminhando até entrar em uma sala de jantar, a mesa era enorme, aquela mansão era realmente como a que ela via nos filmes, o café da manhã ainda estava servido então ela calculou que não deveria ser tão tarde, sentou-se e começou a comer, pão, manteiga, frutas, achocolatado e suco, se sentiu em casa por um momento e quando olhou através da enorme janela que ficava ao lado da mesa viu que Ricky estava no jardim empinando uma pipa.
‘Encontrei um’. – Disse a si mesma. Terminou de comer e fez o mesmo caminho que fizera para chegar à sala de jantar, pois sabia que a porta da sala principal dava para o jardim, estava caminhando tranquila quando ouviu uma melodia muito bonita, parecia ser o som de um piano e como ela era apaixonada pelo instrumento decidiu procurar por aquele som.
Não foi difícil encontrá-lo, ela apenas precisou subir novamente as escadas e entrar na primeira sala no corredor que dava acesso aos quartos, abriu a porta devagar e viu um menino moreno em frente a um piano, ele estava muito concentrado e nem notou a sua presença, Mandy ficou maravilhada com a música que ele tocava, fechou a porta e encostou-se a ela enquanto observava o menino e ouvia a melodia, fechou os olhos e apenas despertou quando a música parou.
_O que está fazendo aqui? – O menino perguntou de forma ríspida.
Mandy se assustou com o jeito que ele fez tal pergunta.
_E-e-eu... – A menina não encontrava as palavras. – Eu gostei da música...
_Só por que gostou da música você invade o quarto dos outros sem permissão? – Ele tampou o piano, levantou e caminhou até ela enquanto grosseiramente ditava tais palavras.
_Eu... – Mandy não sabia como se explicar. – Me desculpe eu não...
_Você não o que? – O garoto perguntou. – Sai daqui. – Segurou em um de seus braços e colocou-a pra fora do quarto. – Não entre mais aqui sem a minha permissão!!!!
Assim que a colocou pra fora ele fechou a porta, na verdade ele bateu a porta com tanta agressividade que Mandy estremeceu.
‘Que grosso’. – Ela disse a si mesma, esfregou o braço que estava dolorido e desceu as escadas devagar, perdeu a vontade de sair então se sentou em um dos degraus e ficou pensando, pensou em sua cidade, seus amigos, sua casa, seus pais, Nutela o cachorro de chocolate e sentiu lágrimas escorrerem sobre seu rosto.
‘Quero que acabe logo essa guerra, quero voltar para casa.’ – Ela disse a si mesma, abaixou a cabeça e começou a chorar, dessa vez mais intensamente, sentiu alguém tocar seu ombro, estremeceu e levantou o rosto.
_Está chorando de novo? – Era Ricky, o menino tinha acabado de entrar e quando a viu sentada na escada soluçando foi até ela.
_Quero ir pra casa.
_Está tão ruim aqui? – Ele sentou ao seu lado.
_Não... – Ela disse baixo, enquanto enxugava o rosto. – Bom não tem como eu saber, acabei de chegar...
_Teve algum problema não é? – Ele perguntou, mas não teve resposta. – Olha a nossa a vida aqui não é a melhor do mundo, a mansão é bem grande, o jardim também, é divertido brincar, mas uma hora enjoa...
Mandy olhou pra ele:
_A quanto tempo está aqui?
_Hm... – Ele pensou. – Desde os oito, se não me engano.
Ela arregalou os olhos.
_E quantos anos você tem agora?
_Onze.
_Onze?
_Onze. – Ele riu. – Por que?
_Está aqui a quase três anos, desde que a guerra começou então.
_Sim. – Ele suspirou. – Sempre fomos apenas eu e meu pai e quando ele foi convocado você sabe, eu tive que vir para o abrigo. Assim que eu cheguei aqui tinham muitas crianças, mas a cada final de semana guardas nacionais apareciam e levavam elas, uma por vez, as vezes duas, se fossem irmãos... – Ele olhou para o chão. – Ficamos eu e o Yuri, apenas.
_Yuri é um menino de cabelo bem pretinho, com lábios carnudos?
_Sim. –Ricky riu. – Você já se encontrou com ele?
_É... O encontrei a pouco, mas ele foi rude e ignorante comigo.
_Ele é assim com todo mundo, mas com o tempo você acaba se acostumando e até começa a gostar dele.
Mandy deu de ombros.
_Não pretendo ficar muito tempo mesmo, logo a guerra termina ou meus pais mandam me buscar.
Ricky sorriu de canto, um pouco triste.
_Eu também pensava isso no início, mas meu pai nunca veio me buscar e muito menos a guarda nacional, mas não queira que a guarda venha por você. – Ele disse enquanto se levantava. – Uma vez por acaso ouvi o tio Mário dizendo que algumas das nossas crianças foram mortas ou vendidas para o país inimigo.
Mandy arregalou os olhos, sentiu o corpo estremecer.
_Meus pais nunca deixariam que fizessem isso comigo.
_Talvez essas crianças nem tenham mais pais Mandy.
Fazia sentido, e era isso mesmo que acontecia, com a família morta o estado do país apenas se desfazia das crianças, não apenas naquele abrigo, em todos os abrigos nacionais, toda semana uma criança era enviada para o país inimigo, para ser escravizada, servir como experiência ou simplesmente era morta pela guarda do próprio país.
_Quer que eu te ensine a empinar pipa? – Ele perguntou.
Mandy concordou e os dois foram para o jardim, Yuri observava da janela do quarto, negou com a cabeça enquanto via as risadas dos companheiros.
‘Como pode sorrir dessa forma?’ – O menino pensava, queria voltar para seu piano, mas ao invés de fazer isso sentou na janela e continuou observando o jardim, olhou para o céu e constatou que apesar da chuva intensa a noite o dia estava mesmo muito bonito.
Fale com o autor