TODAS AS LUZES - Coletânea de Natal
7 Entre Nuvens e Estrelas - Amauri Filho
Notas iniciais

“Passageiros do vôo 458 da American Airlines com destino à Orlando, por favor, dirijam-se ao portão 3.”
A voz metálica ecoava tão fortemente pelo aeroporto que, de dentro da aeronave, Jéssica Andrade conseguiu ouvi-la. Sabia que, em breve, o portão 3 estaria lotado de passageiros esperando para embarcar. Felizmente, o interior do avião estava devidamente limpo e organizado para recebê-los. Enquanto Marco, seu colega de trabalho, corria para a parte da frente da aeronave para organizar o material necessário para as demonstrações de segurança, a jovem comissária de bordo olhou para fora da aeronave e teve uma última visão do Aeroporto do Galeão.
Com a chegada do Natal, o aeroporto era um dos poucos lugares de todo o Rio de Janeiro que não estavam decorados com as tradicionais luzes piscantes. Segundo a administração, uma decoração externa feita dessa forma poderia atrapalhar os pilotos na hora de pousarem, uma vez que as únicas luzes a eles visíveis a um raio de quinhentos metros da pista deveriam ser as que demarcavam, exatamente, os limites da própria pista. Por isso, a única decoração existente em todo o aeroporto limitava-se a uma imensa árvore ricamente decorada no saguão de entrada.
Jéssica foi despertada de seus devaneios no momento em que as primeiras vozes se tornaram audíveis, vindas do corredor metálico que levava os passageiros da área de embarque até a entrada do avião. Rapidamente, a moça ajeitou os cabelos castanhos e arrumou o apertado e desconfortável vestido azul marinho que precisaria usar pelas próximas horas. Arrumando a postura de forma a manter-se ereta, a jovem correu até a entrada da aeronave a tempo de receber uma senhora de idade, que caminhava com ajuda do filho. Exibindo um largo e falso sorriso em seu rosto excessivamente maquiado, ela disse:
–Seja bem-vinda. Espero que tenha um bom vôo.
A mulher e seu filho pareceram ignorar completamente as palavras da jovem ao adentrarem o avião e seguirem para seus assentos, na metade do corredor. Essa primeira interação logo fez Jéssica entender que se tratavam de um tipinho muito comum e alegórico de passageiros: aqueles que acham que os comissários de bordo não são pessoas, mas meros instrumentos que a companhia aérea disponibiliza para servi-los da forma que acharem necessário. E ela odiava isso. Uma vez, alguns anos antes, quando ainda fazia uma rota nacional em outra companhia, ela chegou a gritar para um desses passageiros algo como “A escravidão já acabou nesse país há mais de 120 anos! Se o senhor pedir educadamente, eu irei atendê-lo com respeito e atenção logo depois que eu atender todos os outros passageiros que requisitaram o meu serviço antes de você!” Obviamente, isso lhe rendeu uma advertência e a obrigatoriedade de se consultar com um psicólogo da empresa pelo próximo ano inteiro.
Mesmo assim, irada, ela desejou que a velha infartasse durante o vôo e que não houvesse um único médico ou enfermeiro a bordo para socorrê-la. Dessa forma, eles manteriam o corpo nos fundos do avião, longe dos outros passageiros, e ele seria descarregado apenas em Miami, quando a velha já estivesse morta a horas e não houvesse absolutamente nada que pudesse ser feito para salvar a sua vida. Por pura e simples ironia, ela ainda poderia lamentar a morte da senhora e desejar os pêsames para o filho que a acompanhava.
“Não pense assim”, ela se repreendeu ao ser tomada por um instante de lucidez e racionalidade. “Você só está furiosa por estar trabalhando hoje.”
E realmente estava. De todos os dias do ano, havia um em especial em que ela odiava ter que trabalhar. Trabalharia sem problema algum durante o seu aniversário ou durante as comemorações do Ano Novo. Mas ela se irritava exageradamente sempre que era escalada para estar em um vôo durante o Natal. De todos os dias existentes, era o único que ela não conseguia trabalhar com bom humor e precisava de todo o seu auto-controle para fingir um sorriso simpático e acolhedor aos passageiros, como o que lançara à senhora sem educação que fora a primeira a entrar no avião.
Não demorou muito para que quase duzentos e cinquenta passageiros se acomodassem em seus assentos. Sempre que via um avião tão grande como aquele com tantas pessoas, Jéssica pensava na possibilidade de uma queda. Seriam tantas mortes que a mídia sensacionalista brasileira anunciaria como uma verdadeira catástrofe! Enquanto caminhava por entre as poltronas para chegar se os cintos dos passageiros estavam afivelados e se as mesas individuais estavam em sua posição original, Jéssica precisou conter um sorriso irônico ao imaginar a comoção de caráter nacional que seria causada se um acidente aérea desas proporções fosse anunciado em pleno Natal.
Geralmente, Jéssica não pensaria esse tipo de coisa. Ela era uma moça muito simples e conhecida entre os comissários de bordo da companhia como uma pessoa muito simpática e que tornava o ambiente de trabalho muito prazeroso com algumas piadas indiscretas e com um humor ligeiramente ácido. O fato era que ter sido escalada para trabalhar no Natal, algo que já detestava, ao mesmo tempo em que começava a sentir os primeiros sintomas da irritabilidade mensal que antecediam sua menstruação não lhe fornecia ânimo algum para desempenhar suas funções. Naquele momento, Jéssica apenas queria estra no apartamento de seus pais, onde sua família toda se reunia todos os anos para comemorar o Natal. Àquela hora, provavelmente, estaria ajudando o irmão mais velho e a mãe a realizarem os últimos preparativos no peru ou estaria vendo a cara de alegria do sobrinho de apenas cinco anos ao abrir o presente que havia lhe comprado. O presente que ela teve que entregar à esposa de seu irmão pois não poderia comparecer à festa e entregá-lo pessoalmente.
Mas o principal fator que fazia Jéssica odiar trabalhar durante o Natal eram a luzes que não teria a oportunidade de admirar. Luzes pequenas piscado ao redor de uma linda árvore no canto da sala, protegendo presentes que toda a família havia depositado alí. Desde pequena, Jéssica amava as luzes. Amava se aproximar delas quando, após a meia noite, seus pais lhe autorizavam abrir seus presentes. Amava estar envolta por cores enquanto rasgava os embrulhos e descobria uma boneca novinha em folha à sua frente, esperando apenas ser retirada da caixa para que um mundo novo surgisse em sua imaginação. Desde pequena, as luzes de Natal eram, para Jéssica, parte integrante de algumas das melhores memórias da sua vida. “Mas você pode ver as luzes nos shoppings antes do Natal, filha”, dissera a sua mãe dois anos antes quando, na mesma situação, Jéssica lhe contara porque estava triste em ter que trabalhar durante o Natal. De fato, sua mãe estava certa. Mas não era a mesma coisa. Era como se, no Natal, aquelas luzes assumissem um significado completamente diferente. Era como se, no Natal, aquelas luzes fossem completamente diferentes das luzes que piscavam ao redor da árvore nos dias que precediam a festa. Porque, na noite de Natal, aquelas luzes guardavam os presentes que ela tanto amava receber.
O humor da jovem já não estava muito bom quando seu mundo pareceu desabar: a cada minuto, parecia-lhe que mil crianças atravessavam aquela porta, adentrando o avião. “Claro... Passar o fim de ano na Disney. Que idéia original”, pensou. Jéssica sempre gostou de crianças. Mas ela odiava crianças dentro do avião, principalmente no caso de viagens tão longas como aquelas. Crianças se irritavam facilmente por ficarem tanto tempo paradas e, caso não começassem a gritar e fazer um escândalo ensurdecedor e enlouquecedor, elas começavam a correr por entre as poltronas, incomodando passageiros que chamavam os comissários de bordo para fazerem o trabalho dos pais negligentes e irresponsáveis: caçar as crianças e levá-las até seus assentos.
As portas do avião foram fechadas e, em menos de cinco minutos, Jéssica e Marco se posicionaram, juntamente com mais dois comissários, ao longo dos corredores do avião para realizarem as demonstrações dos procedimentos de segurança. O fato de os passageiros nunca prestarem atenção, estando sempre olhando para o celular ou lendo alguma revista, raramente irritava a moça mas, naquela noite, ser quase completamente ignorada a deixou furiosa. Enquanto simulava a queda das máscaras de oxigênio, Jéssica localizou a senhora de idade que foi a primeira passageira a adentrar o avião e viu que ela parecia se divertir com uma revista de palavras-cruzadas. “Tomara que aconteça uma pane e você precise dessas máscaras, sua múmia decrépita”, pensou. “Quero ver só você não conseguir colocar isso nessa tua cara enrugada e horrorosa e ficar roxa até morrer sem ar.”
Ainda exibindo aquele falso sorriso no rosto, Jéssica voltou a conferir se os passageiros haviam afivelado os cintos e se tinham colocado as mesas na posição inicial antes de se dirigir para a sala dos comissários, nos fundos da aeronave, e sentar-se na sua própria poltrona no exato momento em que o avião parou de se movimentar, o que indicava que havia chegada na cabeceira da pista e estava pronto para a decolagem. Após um barulho ensurdecedor tomar conta do interior do avião, que tremia violentamente, Jéssica sentiu uma leve e temporária mudança na gravidade. Alguns instantes depois, essa sensação se normalizou e os avisos alaranjados para afivelar os cintos foram desligados. Isso significava que ela e os outros comissários deveriam, imediatamente, começar a servirem bebidas aos passageiros.
Uma vez em pé, os olhos de Jéssica miraram a janela mais próxima. Era noite e ela conseguia ver centenas de luzes abaixo dela brilhando ao redor da Baía de Guanabara. Como as luzes de Natal. Rapidamente, ela enxugou a lágrima que escorria de seu rosto e voltou-se para ajudar seus colegas a organizarem o fino carrinho de bebidas.
–Está tudo bem? – perguntou Marco, ao ver os olhos úmidos dela.
–Está – Jéssica respondeu. – O ar condicionado forte irrita o meu olho. Só isso.
Marco pareceu não se convencer com a resposta dada pela moça. Mesmo assim, ele manteve-se em silêncio e seguiu até o fim do corredor onde, um a um, perguntou para cada passageiro o que gostaria de beber.
–Chá – respondeu a idosa, ainda concentrada nas palavras-cruzadas e sem sequer olhar para Jéssica quando ela lhe perguntou o que gostaria de beber.
A jovem levantou a chaleira de metal e resistiu à tentação de cuspir no fundo do copo de isopor antes de começar a enchê-lo com chá. Ela entregou a bebida à mulher e nem sequer perguntou-lhe se ela queria açúcar o adoçante: sem nada para amenizar o sabor, aquele chá que ela servia há anos era completamente horrível e ela se divertiria em ver aquela velha maldita fazendo caretas horríveis enquanto tentava beber aquilo. Quando estava quase no fim do corredor, já terminando de servir todos os passageiros, Jéssica viu a idosa se virar e olhar para trás à sua procurava, provavelmente para pedir por um sachê de açúcar.
Quando o carrinho com as bebidas foi guardado, Jéssica correu para a janela no fundo da aeronave, deixando Marco temporariamente sozinho com a tarefa de preparar o carrinho com o jantar. Ela apenas queria olhar a baía de Guanabara uma última vez, na esperança que as luzes das casas e dos carros lhe fizessem sentir um pouquinho do prazer que ela jamais teria naquela noite. Mas a realidade a atingiu com um forte soco no peito: o Rio de Janeiro já tinha ficado para trás. Àquela altura, tudo o que ela conseguia ver eram a nuvens e a única luz existente provinha da lâmpada na ponta da asa, visível apenas quando piscava, uma vez que estava atravessando uma nuvem e era praticamente impossível ver qualquer coisa a um palmo de distância além da janela.
–Você tem certeza que está bem? – Marco voltou a perguntar. Dessa vez, havia uma certa preocupação em sua voz,
–Tenho – ela respondeu. – Quer dizer... Vai passar. Não se preocupe comigo.
[...]
“Senhores passageiros, aqui quem fala é o comandante Thomas”, uma voz metálica com um forte sotaque americano ecoou pelo interior do avião. “Nesse exato momento, estamos sobrevoando a cidade de Fortaleza. Gostaria de lhes informar que já é meia noite e, por isso, desejo a todos um feliz Natal. A American Airlines agradece a preferência.”
O interior do salão de passageiros foi tomado por gritos e pessoas desejando um feliz Natal a todos. Como de costume, na ocasião, os comissários de bordo já estavam preparados para passar pelos corredores novamente com os carrinhos e servir champanhe em taças de plástico. Exausta e irritada, Jéssica daria quase qualquer coisa para poder beber um ou dois goles também, mas não poderia fazê-lo. Ingerir bebidas alcoólicas durante serviço era, obviamente, proibido para qualquer membro da tripulação.
O estado de euforia pela anunciação da chegada do Natal durou pouco: em menos de dez minutos, os passageiros já haviam retornado ao silêncio anterior e as luzes do salão foram apagadas. A partir daquele momento, os comissários de bordo se dirigiriam até a parte dos fundos do avião e se revezariam em turnos para poderem dormir também e atender os passageiros durante a madrugada até as seis horas da manhã, quando passariam pelos corredores servindo o café. Por sorte, Jéssica seria uma das comissárias que poderiam dormir no primeiro turno. Ela se arrumou em uma das poltronas na sala dos comissários e afivelou os cintos. Tirando os sapatos, ela reclinou a poltrona e fechou os olhos pensando na champanhe deliciosa que sua família estava bebendo na cobertura de seus pais na barra da Tijuca, com uma vista incrível para a praia, e em como a presença deles faria de seu Natal um momento muito mais prazeroso.
Pensou em como estaria feliz, brincando com o seu sobrinho e no abraço forte e caloroso que ele lhe daria quando abrisse seu presente. Conversaria com seu pai sobre o livro que ele lhe dera de presente em seu aniversário, no final de setembro. Pensou no maravilhoso sorvete de chocolate com amêndoas que a sua mãe comprava todos os anos para a sobremesa após a ceia. Pensou no beijo molhado do irmão, que ele lhe dava na bochecha só para provocá-la e obrigá-la a limpar a baba com a mão. Pensou em sua cunhada conduzindo uma oração antes de começarem a comer o macio e dourado peru que só a sua mãe sabia fazer. Pensou na fogueira que fariam na areia da praia de Ipanema logo após os fogos de artifício terem cessado e nas histórias e piadas que contariam uns para os outros ao redor do fogo até o sol nascer. Pensou no abraço que seu namorado lhe daria à meia noite e em sua voz sussurrando “Feliz Natal” em seu ouvido.
Um som metálico ecoou pela sala dos comissários. Incomodada, Jéssica nem sequer abriu os olhos, acreditando que, assim, poderia voltar a dormir o mais rápido possível. Mas isso não aconteceu: alguns instantes depois, ela ouviu alguém se colocando em pé e mexendo em algumas das gavetas do local. Ela olhou para o lado para ver o que estava acontecendo e viu Marco em pé, colocando gelo em um copo plástico antes de enchê-lo com água. Provavelmente, estava atendendo ao pedido de um passageiro no meio da noite. Ele notou que estava sendo observado e sussurrou um “oi” enquanto terminava de encher o copo. Assim que Marco saiu da sala com o copo em mãos, ela olhou para o relógio digital no microondas e constatou que já eram quase duas horas da manhã. Em breve, ela teria que se levantar para fazer o seu turno. Cansada, ela fechou os olhos novamente.
Dessa vez, contudo, ela nem sequer conseguiu adormecer. Antes que isso pudesse acontecer, alguém tocou seu ombro e ela foi obrigada a atender o chamado. Marco estava parado à sua frente, segurando uma taça de plástico cujo interior estava preenchido com um líquido amarelo claro e borbulhante. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, a moça se sentou e perguntou:
–O que é isso?
–Champanhe – ele respondeu, sentando-se na poltrona ao seu lado.
–Mas é proibido.
–Se nós dois ficarmos bem quietinhos, podemos fingir que nunca aconteceu – Marco lançou-lhe uma piscadela e ela sorriu, aceitando a champanhe. – Jéssica, nós dois fazemos essa rota juntos há quase dois anos. Você é a melhor amiga que eu já fiz em qualquer trabalho que eu já tive na vida e eu arrisco dizer que te conheço relativamente bem. Eu sei quando tem alguma coisa te incomodando. Se quiser falar, sou todo ouvidos. Sinceramente, sou péssimo pra dar conselhos, mas sou bom ouvinte. Acredite.
Jéssica sorriu para ele e manteve-se em silêncio por alguns instantes após beber o primeiro gole da champanhe que Marco lhe trouxera, ponderando se desabafar com Marco poderia ou não fazê-la parecer uma pessoa mesquinha e mimada ou se ele a compreenderia. Talvez, de fato, ela fosse parecer uma menina mimada e birrenta. Mas ela queria desabafar e, já que Marco se oferecia de tão boa vontade para ouvi-la, Jéssica não iria perder a oportunidade.
–Eu queria estar em qualquer outro lugar do mundo, menos aqui – Jéssica começou. – Qualquer mesmo. Sem brincadeira. Mas eu queria que a minha família estivesse comigo. Eu queria poder dar um abraço neles, sabe? Queria só poder ter algumas horas de felicidade ao lado das pessoas que eu amo. Mas não posso. Eu preciso ficar aqui, atendendo passageiros ingratos que acham que eu sou uma escrava ou que ficam me despindo com os olhos.
Jéssica deu uma rápida pausa para beber mais um gole de champanhe.
–Sabe, quando eu decidi que eu queria ser comissária de bordo, eu queria ver o mundo – ela continou. – Eu já trabalhei em uma infinidade de rotas e já viajei para lugares lindos, dentro e fora do Brasil. Mas meus pais me avisaram que isso ia acontecer. Que eu ia ter que ficar longe das pessoas que eu amo em algumas das datas mais especiais do ano. Eles tentaram me avisar, sabe? Mas eu não liguei. E, na verdade, ainda não ligo. Não dou a mínima de passar meu aniversário a milhares de pés acima do chão e cercada por pessoas que eu nunca vi na vida e que nunca mais vou ver. Mas o Natal sempre teve um significado especial pra mim, sabe? Eu daria qualquer coisa no mundo pra estar no apartamento dos meus pais no Rio de Janeiro.
Nesse momento, ela fechou os olhos e sua mente foi assolada por centenas de imagens da cidade do Rio de Janeiro em festa, maravilhosamente decorada para o Natal. Uma decoração que ficava visível ao público por semanas mas que apenas no dia 24 de dezembro assumia um significado especial. Como as luzes na árvore no canto da sala. Piscando em diferentes cores enquanto zelavam o sorriso de uma menininha que abria seus presentes e que, secretamente, já sonhava em seu comissária de bordo.
Marco entregou um guardanapo para que Jéssica enxugasse a lágrima que começou a escorrer pelo seu rosto. Em meio aos soluços, a jovem agradeceu e enxugou o rosto antes de beber a metade restante da champanhe em um único gole. Por fim, Marco levou a mão ao bolso da calça e retirou sua carteira. Ele mexeu em seu interior até achar o que procurava: uma foto três por quatro que ele mostrou para Jéssica.
–Quem é essa? – ela perguntou, olhando para a menina na fotografia.
–O nome dela é Amanda – disse Marco. – É a minha filha.
Imediatamente, Jéssica olhou da foto para Marco e, então, para a foto de novo. De fato, a semelhança entre os traços dos rostos dos dois eram imensas. Mas não fora isso que deixou Jéssica surpresa.
–Eu não sabia que você tinha uma filha... – ela disse.
–Ela tem dois anos – ele explicou. – Antes de ela nascer, eu trabalhava em uma rota menor e, sinceramente, não queria mudar. Mas quando ela nasceu, eu percebi que eu precisaria de um salário melhor pra bancar a educação dela e acabei aceitando trabalhar em uma rota internacional. Mas, por causa disso, eu acabo ficando de três a quatro dias longe de casa toda vez que preciso viajar. E são três ou quatro dias que eu fico longe dela. E eu odeio isso. Principalmente porque eu nunca passei um Natal com ela. Nesses dois anos, eu sempre fui escalado pra trabalhar no Natal. No ano passado a minha esposa me mandou um vídeo em que ela e a Amanda me desejavam um feliz Natal. E eu tenho certeza que, quando a gente pousar em Orlando, vai ter outro vídeo desses no meu celular.
Ainda perplexa com o que estava ouvindo, Jéssica não conseguiu dizer uma só palavra.
–Sabe, eu também daria qualquer coisa no mundo pra estar no Rio numa hora dessas – ele continuou. – Não só porque eu amo aquela cidade e acho que as festas de fim de ano lá são as mais lindas do mundo. É porque eu realmente tenho vontade de me vestir de Papai Noel e entregar o presente na minha filha. Mas aí eu lembro que eu estou aqui por um motivo: pra garantir o futuro dela. Obviamente eu preferiria mil vezes estar com ela do que aqui mas, já que não é possível, eu tento ver algum ponto positivo nisso tudo.
Nesse momento, Jéssica começou a se sentir envergonhada.
–Você viu o senhor na poltrona 72? – perguntou Marco e Jéssica fez que sim com a cabeça. – Ele entrou sozinho no avião, vestindo uma camisa social e gravata. Provavelmente, está viajando a trabalho. E ele também passou o Natal longe das pessoas que ele amava. Mas isso não impediu que ele aceitasse a champanhe quando eu passei servindo e não impediu que ele brindasse com pessoas que ele não conhece e lhes desejasse um feliz Natal. Sabe, não estou dizendo que temos que gostar da nossa situação. O Natal é uma data que deve ser comemorada em família e entre amigos. Mas, infelizmente, o nosso Natal não é assim. E, por mais que eu não goste disso, prefiro aproveitar o momento da forma que posso a ficar me lamentando. Além disso, eu ainda posso mandar um vídeo pelo Whatsapp desejando feliz Natal pra minha esposa e pra minha filha quando pousarmos em Orlando, não é? Não é a mensagem perfeita, mas é o que eu posso fazer dentro dos limites do possível.
Houve um rápido instante de silêncio em que Jéssica apenas olhou para Marco. Por fim, ela o abraçou e sussurrou:
–Obrigada. De verdade. Você transformou o meu Natal. Foi o melhor presente que alguém podia ter me dado.
–Feliz Natal, Jéssica – ele disse.
–Feliz Natal, Marco – ela respondeu no momento em que sentiu outra lágrima se formar em seus olhos.
Ela se afastou e limpou a lágrima antes de calçar os sapatos e se levantar.
–Pode dormir – ela disse. – Eu assumo o final do seu turno.
–Tem certeza? – ele disse.
–Absoluta. Boa noite.
Imediatamente, Marco se arrumou na poltrona que ocupava, retirou os sapatos e inclinou o encosto.
Com apenas algumas palavras, Marco havia transformado o mau-humor de Jéssica em uma calma inexplicável. Claro que ela atribuía parte dessa calma à pequena quantidade de álcool que corria em seu corpo, mas ela não conseguia deixar de se emocionar com as palavras do amigo. De fato, o Natal é uma festa para ser comemorada com pessoas que se ama. Infelizmente, nem sempre isso é possível. Mas a distância não significa que o amor tenha acabado. Mesmo há milhares de quilômetros do Rio de Janeiro, Jéssica sabia que as pessoas unidas naquele apartamento na Barra da Tijuca a amavam tanto quanto ela os amava e que, mesmo longe uns dos outros, todos eles torciam para que estivessem em paz.
Natal... Desde criança, Jéssica escutou que essa era uma festa de renovação, perdão e amor. E nenhum desses três parâmetros tinham a distância como fator limitante. Independentemente da distância, Jéssica continuava a amá-los; independentemente da distância, Jéssica perdoava a todos pelas pequenas brigas que tiveram ao longo do ano; independentemente da distância, Jéssica queria renovar todos as suas boas lembranças com cada um deles em possíveis futuros encontros. Da mesma forma que ela tinha certeza que todos naquele apartamento a amavam, perdoavam-na e queria renovar as boas lembranças compartilhando bons momentos no futuro. A distância não interferia nos sentimentos que sentiam uns pelos outros; era apenas um fator que os impediam de manifestar esse amor pessoalmente: os votos de feliz Natal que, mentalmente, Jéssica desejava para seus familiares no Rio de Janeiro eram igualmente sinceros aos votos que fizera a Marco enquanto o abraçava instantes antes. Mas o amor não precisa ser manifestado. Precisa ser sentido. E este é o verdadeiro espírito do Natal: sentir esse amor acima de todos os empecilhos que possam surgir, mesmo quando você está há milhares de metros acima do chão, voando para longe do único lugar o qual queria estar no mundo.
Dessa vez, Jéssica não enxugou a lágrima que se formou em seu rosto. Ela avançou até a janela da sala dos comissários e observou a vista. Abaixo dela, uma mar de nuvens deslizava pelo avião. Acima, uma infinidade de estrelas piscavam para ela da mesma forma que as luzes na árvore de Natal piscavam para a garotinha que abria seus presentes e que queria ser uma comissária de bordo. E, nesse momento, ela sentiu o amor que o Natal deve proporcionar nas pessoas. O amor que ela se recusou a sentir durante todo o dia, deixando-se tomar por sentimentos de raiva e ódio para com tudo e todos que adentrassem o seu caminho. O amor que a fez se arrepender de cada gesto e pensamento grosseiro que teve ao longo do dia.
E, por causa desse arrependimento, quando a senhora idosa lhe pediu por um chá durante o café da manhã sem sequer emendar um “por favor” ou tirar os olhos da revista de palavras-cruzadas em sua mão, Jéssica entregou-lhe a bebida com um largo sorriso no rosto e pousou um sachê de açúcar e um de adoçando ao lado do copo de isopor.
[...]
Estava exausta.
Durante toda a viagem, ela dormira por apenas duas horas ao longo da madrugada. Mas isso não era motivo para que as palavras de Marco ainda ecoassem em sua cabeça, provocando-lhe uma sensação de bom humor inexplicável, considerando a dor de cabeça pulsante devido à privação de sono e ao início dos sintomas de sua tensão pré-menstruação. Um bom humor tão inexplicável que mantinha seu sorriso de comissária de bordo gravado em seu rosto maquiado até no momento em que pagou o taxista pela corrida e lhe agradeceu.
Assim que fez o check-in na recepção do hotel, um concierge a guiou para o quarto onde passaria um dia até subir em outro avião para retornar ao Rio de Janeiro. Quando, sobre o criado-mudo, ela viu um papel com senha do Wi-fi no quarto, uma forte esperança de que sua família havia se lembrado dela durante as comemorações de Natal invadiu seu coração. Uma esperança semelhante à que ela sentira na voz de Marco quando ele lhe contou que queria ver um vídeo da filha e da esposa quando pousasse em Orlando.
E, no exato momento em que o seu celular se conectou à rede, seu celular vibrou, indicando que havia notificações no Whatsapp e no Facebook. Ela inspirou fundo e abriu o aplicativo. O ar saiu de seus pulmões na forma de um suspiro de alívio quando ela viu que sua mãe havia lhe enviado uma mensagem. Mais precisamente, um vídeo. Ao fundo, fogos de artifício de inúmeras cores explodiam no céu noturno e estrelado do Rio de Janeiro. Seu pai, sua mãe, seu irmão, sua cunhada e seu sobrinho estava agrupados ao lado da janela.
A jovem comissária de bordo levou as mãos à boca para conter o choro quando, no momento seguinte, todos gritaram em coro: “Feliz Natal, Jéssica! Nós te amamos!”
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