TOC
5 5- Mein Gott!
É sexta-feira, dia da festa de Dot. Acordo mais cedo que o costume para maquiar aquele hematoma medonho na minha testa, bem entre minhas sobrancelhas. Pelo menos não estava tão roxo assim, nem inchado. Com um pouco de base, mal dava para vê-lo.
Termino minha arrumação e espero Danny na porta de casa. O sistema de caronas era estranho, quem mandasse um “te pego aí às 7.40” primeiro seria o motorista. Ele não demora, e logo estou dentro do carro dele. Rumamos para a escola.
— Então, eu te busco às sete e meia hoje de noite, certo? — pergunta. O olho de canto de olho e respondo que sim.
— Você não quer ir comigo no shopping de tarde? Depois você me deixa em casa e se arruma na sua e me busca de novo. Eu ainda tenho que comprar o presente…
— Pode ser. Eu também tenho que comprar o presente. Você estudou?
— Para o presente? Não.
— Não. Para a prova de hoje.
— O quê? Como assim prova? Prova de quê?
— Prova de biologia. Que ela avisou semanas atrás. E ontem.
— Acho que me distraí. Meu deus. E agora?
— Calma. Não deve ser nada muito difícil…
Revirei os olhos para Danny e abri a mochila, procurando o livro de biologia. Só achei o caderno. Peguei este e me contorci no banco para alcançar a mochila de Danny. Abri e peguei seu livro. Li os capítulos freneticamente durante os quinze minutos no carro. Sabia que ele duvidava da minha capacidade de reter tanta coisa em tão pouco tempo.
— Coloca a cabeça no livro e tenta aprender alguma coisa por osmose— ele enfatiza “osmose”. Estou tão nervosa que nem entendo direito o que ele fala.
— Vai cair osmose?
— Vai.
Suspiro e reviro o livro em busca da osmose. Eu queria poder aprender por osmose naquele segundo. Chegamos na escola e eu continuo lendo o livro nos dois períodos que antecedem a prova.
Chegado o maldito horário, a professora sai batendo os cadernos de prova nas classes como um carrasco senil. Ela entrega aquilo para mim e finalmente ativa o temporizador. Vou lendo e respondendo as questões com certeza de que estava tudo errado. Sou uma das últimas a entregar. As notas sairiam depois do almoço, entregues na sala.
Encontro Danny do lado de fora da sala de aula, me esperando. Ele beija o alto da minha cabeça e me abraça. Vamos juntos para o almoço e comemos com Dorothea, Josh, Doug, Alicia e Amanda. Dotty está muito empolgada para a festa, então é sobre isso que se fala na mesa. Dorothea tinha longos cabelos loiros escuros e olhos verdes grandes e brilhantes, e não era à toa que era considerada a menina mais bonita da escola, seguida de Amanda, a ruiva de olhos verdes azulados, e Alicia, que tinha os cabelos cor de mogno e os olhos escuros, contrastando com a pele clara. Josh era namorado de Amanda e Douglas o de Alicia. Dotty namorava um garoto um ano mais velho, Michael. Era um namoro todo enrolado, mas eles ficavam bem juntos. Todos elas namoravam, mas terminavam os namoros depois de um mês, mais ou menos. O resto da “gangue popular” tinha o status que mais mudava, por exemplo, Alicia namorou com praticamente toda a escola.
Mabel Hart também fazia parte da turminha popular. Conhecida por ser uma garota fácil. Dava para quase qualquer macho e pagava boquete para qualquer um que quisesse. E ela geralmente pedia algo em troca.
Meu namoro era o que mais durava até então, e eu esperava que continuasse assim. Eu sabia que Mabel estava tentando roubar Danny de mim, mas acreditava que ele não era dessas coisas.
Fico perdida em devaneios e quando percebo, já temos que voltar para a aula. Fico ansiosa para saber a minha nota, e quando ela chega, fico aliviada. Oito. Não é ideal, mas é mais que a média, e para quem não estudou eu fui até bem. Viro para trás.
— Quanto?
— Nove e nove. E você?
— Oito. — respondo, sorrindo. Pego a prova da mão dele.- meia questão?
— Pois é. Osmose, né…
Rio do comentário. A questão era sobre osmose mesmo.
Depois disso, a aula passa voando. Saímos tarde do colégio, então vamos para o shopping de uniforme e mochila mesmo. Danny deixa a dele no carro e eu levo a minha, que tem a minha carteira.
Decido comprar um vestido para ela. Achei bonito e lembrava da personalidade da menina, leve e solto. Danny compra um vale de uma loja de calçados, sugestão minha, pois eles não são muito próximos. Compramos sorvete e Danny me deixa em casa para me arrumar. Coloco um vestido curto de mangas longas junto com botas até os joelhos de salto, poque está frio e eu não quero usar meia-calça e jaqueta. Ainda estou me maquiando quando ouço a voz da minha mãe lá embaixo.
— Oh, Daniel, meu querido, há quanto tempo? Como vai, meu bem?
— Muito bem, senhora Vogelmann. E a senhora?
— Ótima, querido. E como vai Louise, Liza e Alice?
— Estão todas bem.
— Fico feliz em ouvir. Lily, tem alguém aqui esperando por você, amor!
— Já estou indo, mama.
Me apresso e estou quase pronta quanto recebo uma mensagem de Dorothea.
Dotty: Meu deus, L, você não vai acreditar no que eu fiquei sabendo sobre a Anne. Sua mãe também deve saber, mas enfim. Vem logo que eu quero falar com você!
Não respondo e desço, encontrando Danny, todo arrumado, de camisa e calça escura, inclusive paletó, e minha mãe, de roupão e pantufa, sentados no sofá da sala conversando e vendo televisão.
— Mama!- digo, atrás deles, os fazendo pular de susto e me olhar com cara de reprovação; sorrio minimamente.
— Oi, Lily!- diz Danny, sorrindo para mim.
— Oi Danny!- Respondo e me viro para a minha mãe. — O que houve com a Lise?
— Ah, sim, esqueci de contar. Falei com Diana estes dias e ela me contou que falou com Bernadette e que esta estava desesperada.
— Bernadette a mãe de Annelise?
— Óbvio, e Diana mãe de Dorothea. Enfim, ela estava devastada pois, aparentemente, Annelise engravidou do namorado, um tal de Jasper.
— Annelise? Annelise Bellaville?
— Quem mais seria, Lilliana?
— Mein Gott.
— Ja. Und das schlimmste ist, dass sie siebzehn ist.
— Acho que é melhor irmos, sim? Danny, vamos? Amanhã conversamos mais sobre isso, mama.
— Divirtam-se!
Saímos e entramos no carro de Danny. Vamos até a casa imensa de Dorothea. A festa era sempre lá, pois o jardim dos fundos era gigante. Piso na grama fofa do quintal e vejo a estrutura montada atrás da casa. Um grande palco iluminado por luzes coloridas que cruzavam o céu pelos canhões de luz. A música já tocava alta. Seguro a mão de Danny e entramos na “Área VIP”, que seria a parte de dentro da casa, a varanda fechada. Nos entregam pulseirinhas e nós sentamos em um grande pufe roxo.
Não podendo ser diferente, logo a Área VIP é desfeita. Dot vem falar comigo sobre Lise, e fofocamos sobre isso por um tempão, apavoradas. Como era possível que nossa melhor amiga, a mais nova de nós, estivesse grávida? Pelo canto do olho, vi Mabel se aproximar de Danny, sozinho ali no pufe. Ela vestia um minivestido preto colado e sandálias de salto. Ela chegou realmente bem perto, mas não foi falar com ele. Continuei prestando atenção na Dot, ainda olhando de soslaio para Mabel. Por isso, notei quando ela se aproximou dele, e sentou de pernas cruzadas bem do seu lado, no banquinho. Os dois começaram a conversar sem ter nem ideia da minha observação. Ele estava mesmo dando papo para aquela cachorra? Continuo os encarando, esquecendo de Dot.
— O que você acha, Lil? -indaga ela, e estalando os dedos na minha cara- Lily?
— Desculpa, Dotty- volto os olhos para seu rosto- O que dizia?
— Nada importante- ela segue meu olhar – ah, é. Ela veio. Sinto muito, Lily. Ela está meio perto, não concorda?
— Perto demais, na minha opinião. O que acha que eu devo fazer?
— Vai lá. Daqui a exato um minuto serão os parabéns. Depois, a pista será oficialmente aberta. Cantem, depois dancem juntos pelo resto da festa. Trinta segundos, tenho que ir.
Dizendo isso, ela some na multidão. Me aproximo de Danny e sento ao seu lado no pufe, informando que logo cantaríamos os parabéns. Mabel vai embora logo que eu chego. Vadia.
Como prometido, logo cantamos os parabéns e a pista é aberta com as últimas músicas do momento. Eu danço e Danny meio que dança também nas músicas agitadas e juntos nas mais lentas.
— Agora – grita Dorothea no microfone, Michael ao seu lado. Eu já sabia o que ela diria mesmo antes de ser dito- É o minuto do beijo! Começa no três. Um…
O minuto do beijo é uma tradição nas festas de Dot. O esquema era o seguinte: você achava alguém e simplesmente beijava a pessoa por um minuto, sem descolar os lábios.
— Dois…
Me viro para Danny e coloco os braços ao redor de seu pescoço. Fico na pontinha dos pés. Ele segura minha cintura para ajudar e cola nossos corpos.
— Três! Agora!
Danny junta nossos lábios em um beijo deliciosamente longo. Beijo mesmo, com direito a língua. É tão bom que, quando Dot anuncia o fim do minuto, eu não quero parar. E quase não paro, mas por educação…
O tempo passa, mas a festa só melhora. Eu continuo dançando, mas Danny resolve sentar no pufe roxo e me esperar. Concordo e vou dançar com Dot, Amanda e Alicia, um quarteto comprometido que estava chamando muita atenção. Não nos importávamos. Volta e meia, eu ia ver Danny, que estava sempre no mesmo lugar, às vezes falando com algum conhecido aleatório. Mas ele não era muito de falar. Até que eu não o encontrei. Pensei que ele estaria no banheiro, necessidades básicas, afinal de contas, e voltei para as meninas.
Sete minutos depois, fui falar com ele, mas mais uma vez ele não estava ali. “Será que está bem?” pensei. Saí batendo nas portas de todos os banheiros da casa, que eram muitos. Mas ele não estava em nenhum deles. Estava eu sozinha, no terceiro andar daquela mansão. Em um segundo de nostalgia, entrei no último cômodo à direita no corredor contrário aos das suítes. Abri a porta devagar, e lá estava ele.
O quarto amarelo-esverdeado claro, uma cor única no mundo, da qual nunca chegamos a um consenso entre verde e amarelo. O papel de parede daquela cor, estampado com listras, muito pouco danificado pelo tempo. O carpete bege que agora estava limpo, mas costumava ser imundo.
Aquele era o quarto mais legal da mansão dos Mc.Cullen. O quarto onde eu, Dorothea, Annelise e Andrea brincávamos quase todo dia depois da aula; vi a casa de bonecas gigante em um canto, rodeada de Barbies e outros bebês de plástico. A coleção de jogos de tabuleiro. Sento na janela basculante, que formava um sofá. Vi a agitação lá embaixo, comparando com a calmaria daquele quarto de criança nunca mais utilizado.
Notei uma silhueta sinistra na porta e quase que berro. A senhora Mc.Cullen me olha, melancólica, só de pijama e roupão.
— Lily, querida! Que susto que você me dá! Achei que era um daqueles casais adolescentes tarados invadindo o quarto das minhas bebês.
— Perdão, senhora Mc.Cullen. Já estou saindo. Não queria acordá-la.
— Imagine, meu bem. Não me acordou, eu estava no banho. Pode ficar aqui se quiser, só não traga mais ninguém no terceiro andar, certo? O sr. Mc.Cullen e eu teremos uma reunião amanhã cedo. Boa noite, Lily. Apague a luz quando sair e feche a porta, por favor.
— Certo. Boa noite, senhora Mc.Cullen, é sempre um prazer vê-la.
— Igualmente, meu amor. Pode aparecer sempre que quiser, você sabe, né. Boa noite, querida.
Ela se afasta me deixando sozinha de novo. Lembro que ainda tinha que encontrar Daniel. Levanto, apago a luz e fecho a porta do cômodo, só parando para olhar o quadro de fotos de nós quatro na infância, gargalhando juntas em várias situações.
Desço escada abaixo na ponta dos pés das botas, o mais silenciosamente possível. Volto ao pufe, vazio. Tento ligar para ele, nada. Pergunto para Savanah se ela o viu, e a menina ao lado dela aponta para as escadarias.
Subo mais uma vez até o segundo andar e vou abrindo as portas dos quartos de hóspedes, mas várias estão trancadas, e as que não estão me levavam a um quarto vazio. Abro milhares de portas até que uma se abre, e vejo um casal lá dentro. Danny e Mabel. Danny estava sentado na cama e Mabel no seu colo, com o vestido meio aberto. Não consigo acreditar naquela cena. Danny parece meio desconfortável, mas não a empurra, e eu não consigo ouvir o que dizem por causa das batidas do meu coração ecoando em meus ouvidos e me deixando surda. Eles não me notam ali. Observo até que Mabel se joga nele e beija sua boca com força. Fecho a fresta da porta o mais forte que consigo e viro as costas, já chorando. Como ele pode fazer isso comigo? Começo a andar para longe, mas as botas de salto não me ajudam. Alguém abre a porta atrás de mim, e não viro para descobrir quem foi.
— Lily – Ouço a voz de Daniel. Não paro. — espera aí. Não é o que você está pensando, eu juro, ela é louca!
Escuto sua voz tremer, mas continuo andando, agora ainda mais rápido.
— Lily, você tem que me deixar explicar, por favor. — ele segura meu cotovelo e me faz girar, ficando de frente para ele- me deixa explicar.
— Você não vai explicar nada! Eu não quero ouvir. — grito, me afastando- você sabia o que essa vagabunda queria e ficou dando papo para ela!
— Não foi bem assim, Lil, me deixa explicar!
— Cala a boca! Deu, eu não quero saber. Vai explicar o que você quiser para a sua nova cachorra.
— Lily! Tudo bem, nós podemos conversar amanhã, quando estiver mais clama.
— Mais calma uma ova!
— Ah, por favor, Lily. Tudo bem. Segunda eu passo para te buscar e a gente fala sobre isso.
— Você ainda não entendeu, né? — falei, a voz baixa e calma, ainda não acreditando que diria aquelas palavras – eu não quero mais suas caronas, não quero mais que você fale comigo, não quero nem mesmo olhar na sua cara. Agora some daqui, por que eu não quero ver nem a sua sombra, muito menos ouvir a sua voz.
Dizendo isso, viro de costas para ele, ainda incrédula daquilo tudo. Sinto as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e penso em como eu vou ir para casa sem carro nem carona. Subo mais uma vez para o terceiro andar. Me infiltro no quarto branco e lilás de Dot e entro no banheiro. Sei que ela não vai se importar, então lavo o rosto e refaço toda a minha maquiagem com os produtos dela. Deixo um bilhetinho sobre a penteadeira informando o “roubo” e vou para o último cômodo à direita no corredor. Sento na janela e fico olhando lá para baixo, pensando em como eu estaria me divertindo se eu não tivesse aberto aquela última porta. Ligo para o serviço de motoristas, encolhida no sofá. Eles demorariam quinze minutos. Espero mais sete minutos e desço, me despeço de Dot e das meninas e vou para o portão esperar o carro, que logo chega. Entro no meu quarto, tiro a roupa e a maquiagem e deito na cama, chorando.
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