THE LAST UNIVERSE

4 O sétimo beco


“Às vezes, continuar, apenas continuar, é sobrehumano.”

Albert Camus


Coreia do Sul, 1994.

SunHee.

Três anos antes.


Um som distante fez o mundo a sua volta desaparecer e ela abrir os olhos.

SunHee sentou-se no sofá, estava arfando e a adrenalina ainda pulsava nas suas veias. Demorou alguns segundos para reconhecer onde estava: o sofá alaranjado, o caderno de desenhos largado no chão, a janela fechada com persianas brancas e a longa sala de estar. Casa. Ela estava em casa.

SunHee pôs as mãos nas bochechas e testa, estava febril e um pouco suada. Isso explicava o pesadelo medonho que acabara de ter, era só uma alucinação sem sentido assim como as que tivera nos últimos dois dias. Respirou fundo e escondeu o rosto corado nos joelhos: não estaria tão apavorada se o pai estivesse ali. Park Minju sempre a consolava da melhor maneira quando SunHee tinha pesadelos, alisava-lhe o cabelo e preparava um chá que a acalmasse, geralmente de camomila.

SunHee podia ficar o tempo que quisesse no abraço do pai até que todos os monstros fossem embora.

O peito doeu de saudade mais uma vez.

Seu pai não estava mais aqui. Havia morrido há três dias.

Infarto fulminante, disseram. Voltava para casa no carro quando seu coração resolveu parar de repente, não houve tempo de parar o automóvel que permaneceu desgovernado até bater em um poste. Os socorristas vieram rápido mas já era tarde demais, Park Minju estava morto.

O funeral não contou com muitas pessoas. Sem irmão e com pais já mortos, Minju foi cremado após dias de ritos fúnebres e suas cinzas entregue a SunHee dentro de uma urna de porcelana vermelha. Na verdade, essa era uma das únicas coisas que SunHee lembrava do funeral, a entrega das cinzas e o cheiro do incenso de sândalo. O preferido de MinJu. O aroma era tão forte que SunHee tinha certeza que ainda carregava a essência no hanbok preto, mesmo depois de lavá-lo repetidas vezes.

O som que a despertou ecoou novamente.

Não era parte do pesadelo, era a campainha, SunHee se tocou tardiamente. Ela levantou-se do sofá com esforço, todo seu corpo doía, tocar o pé nos chão gelado a enviou um arrepio desagradável. Mesmo com a janela fechada, SunHee podia notar o sol se pondo pelos feixes alaranjados que chegavam ao chão da sala, demorou um milésimo para eles desaparecerem. Sem nenhuma luz acesa, as sombras se projetaram para cobrir a casa, SunHee viu algumas dessas sombras correrem pelas paredes mais rápidas que as outras, tentando alcançá-la. Eram sem formas, se moviam feito os pequenos insetos no chão com a diferença de serem rápidas, toda vez que apareciam, SunHee podia sentir a palma da mão coçando para tocá-las, para senti-las. Cerrando os punhos, a menina caminhou até a porta, ignorando a própria vontade, como sempre fazia.

Ligou o interruptor ao lado da porta e assim houve luz, a escuridão se dissipou com um ruído e SunHee conseguiu relaxar as mãos tensionadas. Não se preocupou em olhar no olho mágico quem era a visita inesperada, abriu a porta de uma só vez e se deparou com um homem de meia idade de costas. De estatura média, o desconhecido vestia um terno preto simples e tinha pequenos cabelos brancos crescendo na nuca. Ele virou-se com um pequeno sorriso e SunHee jamais estaria preparada para quem estava diante dela.

—Park SunHee? Sou Kim Namoo, ex-patrão do seu pai. Não pude comparecer ao funeral e vim prestar minhas condolências pessoalmente. —Namoo falou calmamente, muito diferente da maneira que bradava nos discursos que SunHee assistiu pela TV. Em seguida, ele curvou-se para a menina. —Meus pêsames.

MinJu se gabava por ser motorista particular da pessoa mais influente do país e foi um fato que fugiu completamente da mente de SunHee nos últimos dias. Uma coisa era ter o pai trabalhando para o ex-presidente, outra era ter Kim Namoo parado pessoalmente na sua porta.

—Eu…hum…obrigada.— SunHee disse e desviou os olhos dele.

Seu pai queria tanto que ela conhecesse Kim Namoo…

MinJu amava o emprego porque, segundo ele, ele estava ganhando para ser amigo do ex-presidente. Chegava em casa contando das longas conversas que tinha com Namoo, dos jogos de xadrez, dos restaurantes chiques que ia a pedido do próprio e de pequenas fofocas da política interna que conseguia captar quando levava outros políticos no carro. Foram dez anos trabalhando para Namoo. Uma década que fez nutrir um sentimento de amizade genuína entre os dois que poucas pessoas sabiam, SunHee sempre achou que MinJu exagerava ao contar da convivência com o ex-presidente, mas agora, com a expressão de desolação contida no rosto de Kim Namoo fez SunHee perceber que não era um simples exagero. Era um laço real.

Ela cobriu o rosto com as mãos, lágrimas ameaçavam cair. O desejo de MinJu se realizou e ele não estava ali para presenciar.

—Eu tenho uma coisa importante para discutir com você, SunHee. —O tom de voz mudou para um mais carinhoso —Mas se não estiver disposta a conversar eu posso vir outro dia.

—Não, não. O senhor pode falar, eu só…—SunHee fungou e abriu mais a porta —Por favor, entre.

—Com licença.

Namoo caminhou plenamente ao sofá, SunHee abriu a janela da sala e apreciou a suave brisa que soprou contra seus cabelos. O ex-presidente movia os olhos por todo o ambiente discretamente, havia algumas fotos distribuídas entre a parede a cômoda, poucas eram de MinJu e a maioria mostrava SunHee crescendo: ela recém nascida em um berço vestindo roupas rosas, o primeiro dia de aula com um sorriso banguela, abrindo presentes no natal. A mais recente era dela e MinJu lado a lado com roupas tradicionais, o homem fazia sinal de V para a câmera, a menina sorria largamente. Sempre os dois.

Ah, Deus, eles não vão ter esses momentos de novo, foi o primeiro pensamento de Namoo.

Ele olhou para SunHee, estava visivelmente mais pálida e magra que a foto, as bolsas arroxeadas embaixo dos olhos revelava que não dormia bem. Como poderia? Acabava de perder a única família que tinha.

Para Namoo, ainda parecia meio inacreditável não ter mais MinJu nos seus dias. Passando os últimos dias no Reino Unido para cobrir a agenda de palestras, fazia poucas horas que havia retornado à Coreia do Sul e recebido a notícia. Bastou pisar os pés no país e não ver MinJu que Namoo soube que algo ruim havia acontecido. A primeira coisa que fez após saber da morte do amigo pela assessora foi exigir encontrar SunHee, ela se pôs contra, o lembrou dos compromissos que tinha que cumprir, disse que não era um bom momento.

“Não existe um bom momento para morrer nem para consolar. “ Foi a resposta de Namoo.

—Desculpe pela bagunça, não tive muito ânimo para arrumar nada. —SunHee cortou os devaneios de Namoo. Ela sentou-se na poltrona à sua frente.

—Não se preocupe com isso. Está aqui sozinha? Ninguém veio ver como você está?

—Não, as pessoas que conheço não vão vir me visitar. —SunHee riu sem muita emoção.

—Por que não podem ou por que não se importam?

Ela deu os ombros.

—Não sei.

—Entendo você, também tenho poucas pessoas que me visitariam numa situação assim. —SunHee encarou Namoo desconfiada, o homem riu. —É verdade.

—Pensei que tivesse muitos amigos.

—Tenho muitos conhecidos, poucos amigos. —Namoo girou o anel no dedo, sentia a parte mais difícil da conversa se aproximando. —Um desses amigos, inclusive, é muito parecido com você. Ele se chama Min Yoongi, o conheço desde de Suncha.

—Como ele pode parecer comigo?—SunHee se mexeu na poltrona.

—Ele também gosta de pintar, apesar de provavelmente não ser tão bom quanto você. MinJu me falava que poderia expor suas pinturas no Louvre e elas fariam tanto sucesso quanto as de Da Vinci. —Namoo viu SunHee revirar os olhos e dar uma risadinha. Exagerado, ela murmurou. — Yoongi também é especial de um jeito único, devo minha vida a ele. Se não fosse Yoongi, ninguém teria sobrevivido ao Massacre de Suncha.

—Eu ainda não entendo como posso ser parecida com ele.

Namoo respirou fundo antes de continuar:

—Em Suncha só havia uma saída e ela ficava no outro extremo da cidade, bem distante onde eu e Yoongi morávamos. Quando a invasão começou, foi natural corremos todos até o portão, desviamos de tiros e pisamos em mortos na esperança de escapar daquele inferno. Mas ao chegarmos no portão descobrimos que ele estava fechado por fora, tinham trancado a gente e nos deixado para morrer. —O olhar de Namoo era distante, SunHee percebeu que ainda o doía lembrar de tudo. —Não demorou para as tropas nos alcançarem e consequentemente dispararem contra nós. Meu pai foi atingido tentando me proteger, assim como a mãe de Yoongi, ela se jogou na frente dele. Eu fechei os olhos e torci para que a morte não doesse tanto, havia uma arma apontada diretamente para mim e quando tudo parecia perdido, escutei um grito.

“Tentei olhar para ver de quem era, havia dezenas de pessoas gritando de desespero mas aquele grito tinha algo diferente. Era igual a de uma besta enfurecida. Não consegui achar a pessoa porque, de repente, Suncha tremeu. O chão rachou ao meio engolindo o exército inimigo mas também derrubando o portão. Não olhei para trás quando fugi dali. Sem meu pai, sem Yoongi” Namoo voltou a olhar para SunHee “Durante anos fiquei sem explicação do que realmente havia causado a rachadura em Suncha, até reencontrar Yoongi. Foi ele. Yoongi causou o terremoto em Suncha. Como? Ele é um Primordial.”

Um silêncio recaiu sobre a sala. SunHee estava com os olhos arregalados e punhos cerrados, respirava pausadamente.

—O que você quer me dizer com isso? — Ela perguntou.

—MinJu me contou sobre você, SunHee. Sei que é uma Primordial também.

A luz tremulou piscou por um instante, Namoo olhou para a lâmpada e viu pequenas sombras a cobrirem.

—Eu não sei o que está falando. —SunHee levantou da poltrona e caminhou até a porta —Está ficando tarde, peço que se retire.

Namoo se pôs de pé.

—MinJu sabia de Yoongi, era um homem inteligente, não demorou para perceber que Yoongi não envelhecia no decorrer dos anos; nem que o terremoto de Suncha pudesse acontecer de forma natural. Ele me contou sobre você não porque quis trair sua confiança, mas sim porque queria te manter segura. O mundo não é gentil com Primordiais…

—Por favor, saia da minha casa. —SunHee interrompeu Namoo, ela abraçou o próprio corpo como se estivesse com dor, os olhos estavam se enchendo d’água.

—SunHee…

A luz tremeu de novo. Dessa vez, as sombras estavam maiores, quase deixando a sala no completo breu.

—Ele não tinha o direito de contar. —A voz de SunHee era um sussurro, ela balançou a cabeça. De repente estava sentindo aquela coceira nas mãos subir para o corpo, algo frio exigia sair dela.

Não, não, não.Fique aí. SunHee dizia para si mesma.

Ela não percebeu que as sombras de todos os cômodos da casa estavam vindo até ela, de pouco a pouco, as sombras a circulavam no chão. Estava ficando difícil de respirar.

—Você precisa se acalmar. —A voz de Namoo era distante— Respire.

SunHee balançou a cabeça.

—Saia daqui. —Ela pediu novamente, agora chorando —Eu não controlo isso.

—Respire, SunHee. Você precisa respirar.

Coreia do Sul, 1994.

Atualmente.

—Namoo, você precisa respirar. —SunHee disse ao homem desacordado nos seus braços.

A sua volta tudo é escuro e difícil de distinguir. As sombras fizeram um bom trabalho em cobrir os dois num casulo sólido e frio, SunHee consegue ouvir vozes de pessoas aleatórias na rua e o barulho do tráfego de Seul, mas não faz a menor ideia de onde esteja. São sete quadras até o Rigel, Yoongi disse, SunHee tem certeza que já passaram de três.

Um grunhido de dor escapa dos seus lábios e as sombras ao seu redor tremem. SunHee está ofegante, a dor da perna se alastra pelo quadril e queima feito brasa. A posição que está não é das melhores, o tronco está virado para o lado direito com Namoo apoiado no seu ombro e as pernas jogadas para o esquerdo, evitando que o homem faça contato com o sangue dourado que escorre da menina. É a primeira vez que SunHee sangra, sendo uma Primordial, quase nunca fica doente e feridas são cicatrizadas em um piscar de olhos, mas SunHee é rápida em descobrir que sangrar dói. Dói de uma maneira inexplicável.

Como os humanos conseguem suportar isso? SunHee pensa e logo ouve Namoo arfar, ela se desespera. O corte dele parece mais sério: da última vez que olhou, havia marcas de garras profundas que rasgaram todo o abdômen. Ela aperta as mãos sobre o corte na esperança de estancar, não houve tempo para um curativo.

—Aguente mais um pouco. —SunHee sussurra o pedido trêmulo. —Só mais um pouco.

Ela olha ao redor, desejando ter qualquer material que servisse para um curativo temporário. Não pode rasgar suas roupas pois além de curtas não há garantia que estejam limpas do próprio sangue, não pode rasgar as roupas do Namoo porque tudo o que o homem veste é uma camisa de botão simples e calça social. Mas não há nada no local, tudo o que cerca são sombras.

Uma ideia surge na sua cabeça.

SunHee afasta as mãos de Namoo e se concentra, ela sente a palma coçar e uma pequena sombra sair dela. A menina maneja o pedaço da escuridão, sólido mas não áspero, ao redor do abdômen de Namoo. O homem ofega novamente, dessa vez parecendo mais aliviado.

SunHee sorri.

—Deve servir até acharmos ajuda.

Ela faz a mesma coisa na própria perna e se deixa descansar um pouco contra a parede na escuridão. Fazer isso a deixou mais cansada que o normal. O espaço que construiu parece ficar menor a cada ofego de dor que lhe escapa, manter tudo funcionando começa a ficar desafiador.

Não, vocês vão nos levar até o Rigel! SunHee grita internamente.

—Eu preciso aguentar. —Ela diz em voz alta e a voz ecoa pela escuridão revelando o quão fraca SunHee soa.

Ela realmente vai conseguir?

Se Kim Namoo estivesse em seu lugar ele jamais pensaria em desistir. Assim como ele teve forças para sobreviver a Suncha antes e depois do Massacre, lutou por décadas para dar vozes àqueles que não tiveram a mesma sorte e praticamente ergueu o país do zero, desistir nunca passaria pela cabeça de Namoo. SunHee sente pela respiração dele que, agora, ele também tenta não desistir. SunHee engole o nó na garganta e aperta o corpo pesado do ex-presidente com mais força, ela vai conseguir. Por Namoo.



Três anos antes.

Park SunHee nasceu e viveu nas sombras. Elas eram verdadeiras hospedeiras desagradáveis na sua vida, moravam no âmago de SunHee sem nenhuma permissão prévia. Traiçoeiras e assustadoras, quantas vezes SunHee não teve que manter a guarda alta porque, um pequeno deslize, fazia com que as sombras se manifestassem instantaneamente e a assombrasse?Não tinha grito, não tinha misericórdia que as fizessem desaparecer.

Quando apareciam — e isso geralmente acontecia por causa das emoções instáveis da menina — as sombras ricocheteavam a casa inteira. Grandes, médias e pequenas, a escuridão dançava ao redor dela trazendo tanto pavor que SunHee desmaiava de medo.

Isso aconteceu mais de uma vez na infância, também foi o motivo de sua mãe sair de casa, ela não suportava as crises de SunHee. Eram sempre imprevisíveis e exaustivas, após um tempo, JiHye não se dava mais o trabalho de amparar a filha ou tirar ela do chão; acendia um cigarro e ia para fora ficar o mais distante dela.

Como JiHye iria conviver com uma anormal? Padres, pastores e feiticeiros não iriam tratá-la, SunHee estava fora dos aspectos naturais do Universo. Uma Primordial. Um monstro.

JiHye sabia das lendas, ouviu sobre a Guerra dos Homens, não demorou para ela se afastar de SunHee, por prevenção. Só Deus sabe o que essas sombras podiam fazer com ela.

Isso gerou um embate profundo com MinJun, SunHee era a menina dos seus olhos, ele jamais a temeu ou pensou em fugir. Pais são feitos para proteger seus filhos, independentemente do que eles sejam. O comportamento frio de JiHye chegou ao ponto de não alimentar SunHee e mantê-la presa no quarto até o pai chegar do trabalho, MinJun começou a notar a magreza da menina, as mãos trêmulas, os olhos assustados de passar tanto tempo sozinha com os próprios demônios.

MinJun confrontou JiHye.

"Você não está cuidando de SunHee?"

"Ela já tem idade para se cuidar sozinha. " Respondeu a mulher, tragando o cigarro.

"Ela tem onze anos, JiHye! Uma criança!"

JiHye cruzou as pernas e lançou um olhar afiado ao marido.

"Criança? " Ela deu uma risada seca "Criança nenhuma faz o que ela faz. Ela é uma aberração, não sei como parir uma coisa dessas. "

"Como é?" MinJun não acreditou nas palavras que ouviu, ele apontou para a direção do quarto de SunHee, onde ela dormia pacificamente após o pai a acalmar "Ela é o ser mais precioso que temos, você pariu uma menina doce, educada e inteligente e está destruindo ela com seu narcisismo! "

"Você vai aguentar passar a vida toda aturando os espetáculos dela, MinJun? Hum? É tão fácil falar coisas bonitas quando não é você que recebe olhares estranhos dos vizinhos, vê outras mães com crianças perfeitamente normais e volta pra casa pra encontrar uma filha rodeada de sombras! Como essa coisa não é um monstro? " JiHye se levantou e ficou centímetros do rosto de MinJun, olhando nos olhos dele, ela continuou: "Deixo passar fome pra ela morrer logo de uma vez, assim não tenho que viver com essa vergonha de ter gerado um monstro!"

MinJun, que estava com a mandíbula tensionada, deu dois passos para trás. Não confiava em si mesmo. Ele encarou JiHye por alguns segundos antes de decretar:

"Então se liberte desse fardo e saia dessa casa. Deixe SunHee comigo e vá viver a vida vazia que quer, minha filha continua sendo o ser mais importante que qualquer preocupação ou julgamento que eu tenha. "

Ao amanhecer do dia, JiHye não estava mais em casa, mas não antes de atormentar SunHee uma última vez.

" A culpa é sua" Foram as palavras escritas num pedaço de papel deixado embaixo da porta do quarto de SunHee.

"A culpa é sua" Foram as palavras que JiHye dizia no pesadelo antes de Kim Namoo aparecer em sua porta, SunHee lembrou de repente. Suas pupilas dilataram pelo ódio que a tomou, por que ela teve que nascer? Sua mãe estava certa, afinal de contas, ela era uma aberração.

Monstro. Monstro. Monstro

— Você não é um monstro.

A voz de Namoo chegou aos seus ouvidos. SunHee não percebeu que tinha caído de joelhos no chão muito menos que estava repetindo as palavras de JiHye. Ela ergueu os olhos e através da escuridão, viu Namoo,também ajoelhado, à sua frente, o homem tinha as mãos estendidas para SunHee.

— SunHee, me deixe ajudar. Venha morar comigo, você terá tudo o que precisar e tanto eu, quanto Yoongi estamos dispostos a te ajudar. — Namoo se aproximou um pouco mais dela — Ser o que é não é um mal, nem pecado.

—Então por que eu tenho culpa? —SunHee perguntou baixinho, abaixando a cabeça, continuou: —Por que viver com isso parece um fardo?

—Porque te colocaram, menina. Esse fardo não é seu. A culpa não é sua. A vida me ensinou que a nossa existência e, no seu caso, seus poderes também são aquilo que fazemos deles. Se fazemos da nossa existência miserável, somos reduzidos à mediocridade; se você faz de seus poderes uma ameaça, eles irão te ameaçar. — Namoo ergueu o queixo de SunHee com os dedos —A melhor coisa a se fazer é não dar ouvidos a essas suposições e fazer daquilo que temos o melhor que podemos. Você não é um monstro, você merece viver. Seu pai também acreditava nisso.

As últimas palavras foram o suficiente para fazer SunHee desabar em um choro compulsivo. As sombras desapareceram, a sala voltou a ficar bem iluminada. SunHee foi envolvida pelos braços de Namoo a segurando como se fosse uma criança desamparada, ele não se importou em sujar o terno de lágrimas, nem de ficar sentado ao chão com ela. SunHee chorou tudo o que tinha que chorar e quando parou, Namoo disse:

—Você está segura agora, vamos para casa.

Coreia do Sul,1994.

Atualmente

Repentinamente, SunHee se vê no chão duro e molhado.

As sombras dançam em volta das duas figuras, já não eram mais sólidas e numerosas, ao invés disso, estavam tão fracas que mal se podiam distinguir mais de três. Elas desaparecem como fumaça sob a fraca luz alaranjada do poste. SunHee pisca algumas vezes e olha para o largo corredor escuro e mal cheiroso, ao final dele pôde ver letras em néon roxo formando duas palavras:

RIGEL e SAÍDA.

O coração de SunHee dispara. Ela havia conseguido chegar.

Um misto de riso e choro saem da sua garganta, SunHee segura Namoo com força.

—Conseguimos, conseguimos.

Com cuidado, SunHee deposita Namoo no chão, os braços parecem enrijecidos por segurá-los por tanto tempo. Agora, tudo o que precisa fazer é achar Kim SeokJin o mais rápido possível; com isso, Namoo seria levado ao hospital e tratado corretamente, Yoongi iria aparecer sã e salvo e tudo seria resolvido.

Apoiando-se na lata de lixo ao lado, SunHee tenta se levantar apenas para descobrir que não consegue sentir mais as pernas.

Não pode ser.

—O quê? — SunHee olha para as pernas e vê o sangue dourado seco se destacando das listras negras que envolvem os membros inferiores. O que tinha acontecido?

A menina levanta a mão e desce com força contra a perna. Ela não sente absolutamente nada. Então, repete o movimento com as duas mãos, os sons dos tapas ecoam juntamente com grunhidos de frustração. Por que não sentia nada? Por que estava suando tanto? Para onde tinham ido suas sombras? Com um último grito, SunHee joga a cabeça para trás e chora. De novo.

Ela não vai conseguir chegar até a porta, tampouco achar Kim SeokJin e Namoo vai morrer.

Não. Namoo não pode morrer.

SunHee olha para o homem que sobreviveu ao Massacre de Suncha quando apenas era uma criança. Reconstruiu a vida do zero, lutando dia após dia para que as memórias daqueles que se foram em Suncha fossem honradas. Se tivesse em seu lugar, certamente Kim Namoo não pensaria em desistir.

SunHee se joga no chão áspero e fedorento do beco, se ela não consegue andar, ela vai se arrastar. Tomar impulso é difícil, até agora, nunca tinha se dado conta que seu corpo é tão pesado. E quente. Aquela ardência que antes corria sua perna ferida se espalha para todos os membros, mas ela não vai desistir de chegar até a porta.

Ela se arrasta pelo o que parece séculos, os braços roçam no chão e dói. Tudo dói. Dando uma olhada para trás, SunHee só consegue perceber o rastro de sangue, a visão começa a ficar embaçada, ela não enxerga com clareza o resto do beco.

—Kim SeokJin! —SunHee grita, pelo jeito que seu coração bate acelerado no peito e a atual situação do seu corpo, a possibilidade dela morrer antes mesmo de chegar até o homem se torna cada vez mais real.

—Kim SeokJin! Kim SeokJin! —Os gritos levam todo seu fôlego enquanto ela se arrasta.

Eu não posso morrer. Eu não posso morrer.

Prestes a perder a consciência, SunHee vê a porta dos fundos do Rigel se abrir, ela para por um instante. Uma figura magricela sai do clube, é apenas um menino, provavelmente um pouco mais velho que ela. O desconhecido anda de cabeça baixa e bate nos bolsos, provavelmente procurando algo, não percebendo a presença de SunHee até ela solta soltar um ofego por uma pontada especialmente forte no seu peito.

—Puta merda. —O menino solta, apavorado. Ele faz menção de correr até SunHee mas ela o interrompe com um grito.

—Não me toque!

—Mas você…

—Kim SeokJin! —Ela o interrompe novamente e dessa vez o menino fica estático.

—Eu sei quem é Kim SeokJin, eu o conheci quase agora e…Ah, meu Deus. — O menino para de falar quando SunHee vomita, é inevitável ele querer se aproximar e ajudá-la, mas isso não acontece por que ela continua dizendo:

—Kim SeokJin.

—Vou encontrar ele, por favor não morra até lá!

Contudo, o desconhecido nunca chegou a sair do lugar pois, com um pequeno flash de luz um homem alto e de ombros largos surgiu atrás dele.

—Não vai ser preciso me chamar, eu cheguei. —SeokJin disse e não perdeu tempo de ir até SunHee, se ajoelhando. —Pode descansar agora, você me encontrou.

SunHee conseguiu sorrir antes de tudo ficar escuro e desmaiar.


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