TERCEIRO SET
2 Capítulo 01: São Paulo, 2026
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O ônibus diminuiu a velocidade antes de parar completamente diante dos portões do Centro de Treinamento Matero. Maurício demorou alguns segundos para perceber que já tinham chegado.
A mochila permanecia apoiada entre seus pés, exatamente como havia ficado desde sentou-se. Durante quase todo o trajeto, ela serviu de apoio para as mãos inquietas que insistiam em conferir, pela décima vez, a pasta com os documentos, o contrato, a carteira de identidade e a carta de convocação que já sabia de cor.
Agora, porém, não havia mais nada para conferir.
Era só descer.
Pela janela, observou o movimento do lado de fora.
O portão principal permanecia aberto. Funcionários atravessavam a entrada carregando caixas, bicicletas passavam pela ciclovia ao lado da avenida e um caminhão de fornecedores aguardava autorização para entrar. Dois jardineiros conversavam enquanto aparavam um canteiro de flores próximo à guarita.
Nada parecia extraordinário.
Aquilo o surpreendeu.
Por anos imaginou aquele lugar quase como um templo. Um espaço reservado aos melhores atletas do país. Imaginava uma movimentação frenética, jornalistas, câmeras, dirigentes andando depressa de um lado para outro.
Em vez disso, encontrou um clube acordando para mais uma segunda-feira. Como qualquer outro lugar.
O motorista desligou o motor.
— Chegamos.
O som destravou alguma coisa dentro dele.
Maurício respirou fundo, passou a mochila por um dos ombros e desceu.
O ar de São Paulo carregava um frio diferente naquele dia. Não era intenso, mas tinha um peso úmido que parecia permanecer sobre a pele. Ajustou automaticamente a barra da manga do casaco enquanto olhava ao redor.
À sua frente, o nome do clube ocupava uma parede inteira de concreto aparente.
MATERO DESBRAVADORES COMPLEXO ESPORTIVO
Abaixo dele, três escudos menores dividiam espaço na fachada.
Voleibol.
Basquete.
Futebol.
Sorriu sem perceber. A ficha finalmente começava a cair, Não era mais um garoto assistindo aos jogos pela televisão. Nem o líbero do subúrbio sonhando com a Superliga.
Era atleta do Matero.
Mesmo que ainda não soubesse exatamente o que isso significava. Um funcionário da portaria aproximou-se empurrando um carrinho para as malas maiores.
— Novatos do vôlei?
Maurício assentiu.
— Pode deixar as malas aqui. O administrativo já está esperando vocês.
"Vocês."
Ele olhou discretamente ao redor pela primeira vez procurando os outros convocados.
Havia poucos.
Dois rapazes conversavam perto do ônibus enquanto tentavam equilibrar malas enormes. Um deles parecia discutir com a própria mochila, que insistia em tombar para o lado. Uma garota de uniforme do basquete atravessou a entrada correndo, equilibrando um copo de café e uma pasta cheia de papéis. Logo atrás, dois jogadores do futebol passaram rindo de alguma piada que Maurício não conseguiu ouvir.
Ninguém parecia reparar nos recém-chegados. E, de repente, isso foi reconfortante.
Percebeu que, para aquelas pessoas, aquele dia era apenas mais um. O extraordinário existia apenas para quem acabava de chegar.
Atravessou o portão lentamente.
O caminho até o prédio administrativo era ladeado por árvores altas que escondiam parte das instalações do clube. Entre um espaço e outro, era possível enxergar quadras, um campo ao longe, prédios baixos revestidos por vidro e concreto e pessoas caminhando com uniformes de cores diferentes.
Tudo parecia funcionar ao mesmo tempo, como uma pequena cidade.
Sentiu o celular vibrar dentro do bolso.
Mãe ❤️
Sorriu antes mesmo de atender.
— Chegou?
A voz dela saiu ansiosa, como se tivesse passado toda a viagem esperando aquele momento.
Maurício olhou mais uma vez para o movimento do clube antes de responder.
— Cheguei.
Houve um pequeno silêncio do outro lado. Não um silêncio preocupado. Daqueles que acontecem quando uma notícia importante finalmente deixa de ser expectativa e vira realidade.
— E aí?
Ele demorou alguns segundos para encontrar uma resposta. Olhou novamente para o escudo do Matero gravado na fachada, para os atletas cruzando o pátio, para um funcionário lavando a calçada, para um jardineiro recolhendo folhas.
Depois sorriu.
— É engraçado...
— O quê?
— Eu passei tanto tempo imaginando esse lugar...
Fez uma pausa.
— ...que esqueci que ele continuava funcionando mesmo antes de eu chegar.
Ouviu a risada baixa da mãe.
— Ainda bem.
— Como assim?
— Filho... sonho bom é aquele que continua sendo vida depois que a gente realiza.
Maurício ficou alguns segundos olhando para o clube, talvez ela tivesse razão. Os sonhos não paravam quando eram alcançados e eles apenas começavam a cumprir horário. Até sonhos também tinham expediente.
Maurício guardou o celular no bolso devagar.
Ainda permaneceu alguns segundos parado diante do prédio administrativo, como se precisasse convencer o próprio corpo a voltar a andar. O frio parecia menor agora. Ou talvez fosse só a voz da mãe que ainda insistia em aquecer alguma coisa dentro dele.
Ajustou a mochila no ombro e retomou o caminho.
Foi quando ouviu um estrondo metálico atrás de si.
Virou a tempo de ver uma mala enorme tombar escada abaixo, abrindo parcialmente no último degrau. Algumas roupas escaparam pelo zíper mal fechado, seguidas por um par de tênis que decidiu continuar a descida sozinho.
— Não... não, não, não...
O dono da mala desceu correndo atrás dela, mais atrapalhado do que propriamente desesperado.
Era alto, magro, tinha os cabelos trançados completamente alinhados e carregava outra mochila pendurada apenas por uma alça, que insistia em escorregar do ombro enquanto tentava recolher tudo ao mesmo tempo.
Maurício não conseguiu evitar um sorriso.
Abaixou-se para pegar um dos tênis antes que ele alcançasse a calçada.
— Valeu! — o rapaz disse, completamente sem graça. — Juro que eu costumo parecer mais organizado.
Maurício olhou para a mala aberta, depois para a mochila torta e para uma meia solitária que continuava caída no terceiro degrau.
— Tem certeza?
O rapaz acompanhou o olhar dele.
Suspirou.
— Tá bom... talvez eu tenha exagerado um pouco.
Os dois riram.
Maurício entregou o tênis.
— Maurício.
— Lucas.
Apertaram as mãos.
Lucas voltou a fechar a mala, dessa vez sentando em cima dela para conseguir vencer o zíper.
— Primeira vez em São Paulo?
— Primeira.
— Minha também.
— Sério?
— Uhum.
Deu mais um puxão.
O zíper finalmente venceu a batalha. Lucas levantou triunfante.
— Nunca mais abro essa mala.
Deu dois passos.
Parou.
Olhou para trás.
A meia continuava no degrau.
— Esquece. Ela já escolheu morar aqui.
Maurício caiu na risada. Acabou voltando para buscá-la. Entregou-a a Lucas, que a recebeu como quem reencontra um velho amigo.
— Agora sim.
Os dois começaram a caminhar lado a lado em direção ao prédio. Durante alguns instantes, ninguém disse nada. Curiosamente, não era um silêncio constrangedor. Era o silêncio de duas pessoas tentando parecer muito mais tranquilas do que realmente estavam.
Foi Lucas quem quebrou.
— Você também tá fingindo que sabe exatamente pra onde tá indo?
Maurício sorriu.
— Tava tentando.
— Ainda bem.
Lucas soltou um longo suspiro.
— Achei que só eu tinha entrado aqui completamente perdido.
— Eu nem sei onde fica o ginásio.
— Eu também não.
— Nem o alojamento.
— Também não.
— Nem a academia.
— Também não.
Os dois riram outra vez. A tensão parecia diminuir um pouco a cada resposta. Lucas olhou discretamente ao redor enquanto caminhavam.
— Engraçado...
Maurício esperou.
— Achei que fosse encontrar um monte de gente andando de uniforme do vôlei.
Em vez disso, um grupo de jogadores do futebol passou por eles discutindo algum lance do treino da manhã. Logo atrás, duas atletas do basquete dividiam um fone de ouvido enquanto caminhavam em direção ao estacionamento.
Mais adiante, um fisioterapeuta chamava um atleta pelo nome sem que Maurício conseguisse identificar de qual modalidade ele era.
Era um fluxo constante.
Como se todos compartilhassem a mesma rotina.
— Parece uma universidade — comentou Lucas.
Maurício concordou. Não era a imagem que tinha construído durante tantos anos. Era muito maior, muito mais vivo. Muito menos solene.
Lucas voltou a falar.
— Você joga de quê?
— Líbero.
Os olhos dele se arregalaram.
— Ah...
Maurício arqueou uma sobrancelha.
— "Ah" o quê?
— Então você é o Maurício.
Ele parou de andar.
Sentiu um leve aperto no estômago.
— Como assim?
Lucas pareceu perceber tarde demais o peso daquela frase.
Coçou a nuca.
— Não, calma... não é nada demais.
Fez uma pequena careta.
— Quer dizer... é que eu assisti aquela final. Meio que seu rosto apareceu em todo canto na internet.
Maurício sustentou o olhar por um segundo. Depois sorriu de canto, não era um sorriso alegre.
Era um sorriso de quem já conhecia aquele assunto antes mesmo que ele começasse.
— Entendi.
Lucas respirou fundo.
— Desculpa.
— Pelo quê?
— Pela falta de tato.
Maurício deu de ombros.
— Relaxa.
Continuou andando.
— Eu também assisti aquela final, pelo menos até a parte em que perdi a consciência.
Lucas ficou em silêncio. Não havia nada que pudesse responder. Apenas acelerou um pouco o passo para voltar a caminhar ao lado dele. Sem perceber, naquele pequeno constrangimento, alguma coisa mudou entre os dois.
Já não eram apenas dois novatos. Eram dois rapazes tentando começar de novo. Juntos.
O prédio administrativo era silencioso de um jeito curioso. Do lado de fora, o clube parecia uma pequena cidade em movimento. Pessoas caminhavam apressadas pelos corredores, carrinhos elétricos cruzavam as alamedas e atletas de uniformes diferentes desapareciam por portas de vidro.
Ali dentro, porém, tudo acontecia em outro ritmo. O piso claro abafava o som dos passos, o ar-condicionado substituía o vento frio da manhã. Recepcionistas falavam em voz baixa, como se qualquer frase acima do necessário pudesse atrapalhar alguém trabalhando.
Uma funcionária sorriu ao vê-los se aproximar.
— Vôlei masculino?
Os dois assentiram quase ao mesmo tempo. Ela conferiu uma lista sobre a bancada.
— Podem subir para a sala de reuniões. Segundo andar. O treinador já está esperando.
Lucas lançou um olhar discreto para Maurício.
— "O treinador."
Maurício apenas respirou fundo.
O elevador parecia pequeno demais para os dois, ninguém falou durante a subida. Quando as portas se abriram, encontraram um corredor revestido por fotografias.
Não eram apenas títulos, havia imagens de atletas, equipes inteiras, jogadores comemorando, treinadores abraçando comissões técnicas. Times de futebol, basquete e vôlei.
Décadas diferentes dividiam o mesmo corredor.
Lucas diminuiu o passo.
— Caralho...
Maurício também parou diante de uma fotografia antiga.
O uniforme era diferente, o escudo também. Mas o nome permanecia o mesmo.
Matero.
Percebeu, pela primeira vez, que o clube existia muito antes de qualquer um daqueles atletas. Muito antes dele.
Uma porta ao fim do corredor estava entreaberta, uma placa discreta dizia apenas:
Reunião Técnica
Lucas olhou para Maurício.
— Bora?
Maurício respondeu com um aceno quase imperceptível, bateu duas vezes na porta.
— Pode entrar.
A voz era firme. Sem pressa ou rigidez.
A sala era simples, uma mesa oval ocupava o centro. Algumas cadeiras, um monitor preso à parede. Nada lembrava o escritório de um treinador de elite.
Murilo levantou os olhos dos papéis que organizava.
Era um homem de pouco mais de cinquenta anos, postura reta e expressão difícil de interpretar. Não havia qualquer teatralidade em seus movimentos. Apenas fechou a pasta à sua frente e fez um gesto indicando as cadeiras.
— Sentem.
Os dois obedeceram imediatamente. Murilo permaneceu alguns segundos em silêncio, observava cada um deles como quem tentava memorizar rostos. Ou talvez estivesse apenas esperando que a ansiedade diminuísse um pouco.
Quando falou, a voz continuava tranquila.
— Antes de qualquer coisa...
Fez uma pequena pausa.
— Sejam bem-vindos ao Matero.
Lucas sorriu discretamente. Maurício agradeceu com um aceno, Murilo entrelaçou os dedos sobre a mesa.
— Imagino que os dois estejam felizes por estarem aqui.
Os dois assentiram.
— É natural.
Outra pausa.
— Mas eu gostaria que esquecessem isso pelos próximos três meses.
O silêncio voltou imediatamente à sala. Murilo continuou.
— Vocês não chegaram ao time principal. Nem ao time reserva. Na verdade... — Olhou rapidamente para a ficha de cada um. — Ainda não chegaram a time nenhum.
Lucas perdeu o sorriso. Maurício sentiu as costas se endireitarem na cadeira, Murilo permaneceu exatamente no mesmo tom de voz.
— A pré-temporada serve justamente para isso. Todos os atletas contratados passam por avaliações. Técnicas, físicas e táticas. Também comportamentais. No fim desse período... Alguns permanecerão no elenco principal. Outros integrarão a equipe de desenvolvimento. E alguns... — Fez uma pausa curta. — Não permanecerão conosco.
Nenhuma palavra foi dita, nem precisava. Aquela possibilidade nunca havia sido verbalizada. Até aquele momento, Maurício imaginava que a contratação significava uma vaga.
Agora entendia que significava apenas uma oportunidade. Murilo abriu a pasta novamente.
— Quero deixar uma coisa muito clara.
Olhou primeiro para Lucas.
Depois para Maurício.
— Não me interessa de onde vocês vieram. Não me interessa o que conquistaram. Nem quanto destaque receberam antes de chegar aqui. Tudo isso ficou do lado de fora daquele portão. A partir de hoje... Vocês competem em igualdade de condições com qualquer outro atleta deste clube.
Maurício sentiu um peso estranho na frase ao mesmo tempo em que ela assustava... Também libertava.
A final da Superliga, os vídeos, as reportagens, as expectativas. Nada daquilo parecia importar ali dentro.
Murilo fechou a pasta pela segunda vez.
— Dito isso...
Finalmente permitiu um pequeno sorriso.
Quase imperceptível.
— Agora, sim. Sejam bem-vindos ao Matero.
Dessa vez, as palavras soaram diferentes. Não como uma comemoração, mas como um convite ou talvez um desafio. Murilo levantou-se.
— Vamos conhecer o resto da equipe.
Enquanto caminhava até a porta, acrescentou, quase como quem lembrava de um detalhe qualquer:
— Ah... Hoje vocês vão passar o dia acompanhando nosso capitão. Ele conhece este clube melhor do que eu.
Maurício ergueu discretamente os olhos. Não soube explicar por quê. Mas seu coração acelerou um pouco antes mesmo de ouvir o nome. Murilo abriu a porta.
— Felipe. Pode entrar.
O silêncio da sala pareceu respirar junto com Maurício.
A porta mal terminou de abrir quando um rapaz apareceu no corredor.
Vestia o agasalho roxo do clube, a mochila apoiada sobre um único ombro e um tablet na mão. Os cabelos ainda estavam úmidos, como se tivesse acabado de sair do banho, e a barba por fazer suavizava um rosto que, de outra forma, pareceria excessivamente sério.
— Você chamou?
A pergunta foi dirigida a Murilo. Só depois seus olhos atravessaram a sala.
Primeiro Lucas, depois Maurício. Foi um olhar breve e educado. Quase profissional. Mas suficiente para que Maurício sentisse um aperto estranho no peito.
Conhecia aquele rosto, mais do que gostaria de admitir. As transmissões da Superliga, as entrevistas, os vídeos de melhores momentos. As fotografias segurando troféus.
Felipe Sponatti.
Capitão do Matero.
Murilo fez um gesto para que ele entrasse.
— Preciso que acompanhe os novatos durante o restante da manhã.
Felipe entrou na sala. Cumprimentou Murilo com um discreto aceno antes de voltar a olhar para os dois.
— Lucas. Maurício.
Pronunciou os nomes naturalmente, sem consultar nenhuma ficha. Aquilo chamou a atenção de Maurício. Ele já sabia quem eles eram.
— Eles precisam resolver documentação, uniforme, exames médicos, avaliação física e conhecer o básico do clube.
Felipe assentiu.
— Tudo bem.
Murilo recolheu a própria pasta.
— Depois levem os dois para o refeitório. A comissão técnica encontra vocês lá.
Felipe respondeu apenas:
— Certo.
Murilo olhou uma última vez para os dois novatos.
— Nos vemos amanhã, na quadra.
E saiu da sala. A porta fechou devagar. O silêncio que ficou parecia diferente daquele de alguns segundos antes. Felipe apoiou a prancheta sobre a mesa.
— Bom... — Sorriu de maneira discreta. — Bem-vindos.
Lucas agradeceu imediatamente, Maurício fez o mesmo. Felipe pegou duas pastas transparentes e entregou uma para cada um.
— Aqui tem o cronograma da semana, mapa do clube, horários, regulamento interno e os acessos digitais. Vocês também recebem atualizações importantes diariamente pelo e-mail.
Desbloqueou a tela do próprio tablet.
— A documentação de vocês já está praticamente pronta. Hoje é mais conferência do que qualquer outra coisa.
Lucas observava tudo com atenção.
— É... bastante coisa.
Felipe sorriu.
— Hoje parece. Daqui duas semanas vocês fazem tudo isso sem olhar o mapa.
Saíram da sala, Felipe caminhava alguns passos à frente. Não porque estivesse com pressa, era apenas o jeito como parecia ocupar qualquer corredor. Conhecia cada porta, cumprimentava funcionários pelo nome, parava para responder rapidamente a um preparador físico.
Perguntava sobre o joelho de um atleta do basquete que cruzou o caminho. Desejava boa recuperação para uma jogadora do futebol que deixava a fisioterapia, nunca demorava mais que alguns segundos.
Mas também nunca ignorava ninguém.
Lucas se inclinou discretamente para Maurício.
— Todo mundo conhece ele.
Maurício apenas concordou. Ou talvez fosse o contrário, parecia que Felipe conhecia todo mundo.
Continuaram caminhando.
Passaram por uma academia enorme, onde atletas de diferentes modalidades dividiam aparelhos sob a supervisão dos preparadores físicos. Mais adiante, um corredor envidraçado permitia enxergar parte do ginásio principal.
A quadra estava vazia. Funcionários montavam equipamentos enquanto uma equipe de limpeza encerava o piso. Maurício diminuiu involuntariamente o passo, mesmo sem ninguém jogando, havia alguma coisa naquele lugar que prendia seu olhar.
Felipe percebeu, parou ao lado dele. Não olhou para Maurício, olhou para a quadra.
— Amanhã.
Foi tudo o que disse. Depois voltou a caminhar. A palavra ficou ecoando na cabeça de Maurício durante alguns metros.
Amanhã.
Como se aquela quadra ainda precisasse ser conquistada.
Seguiram até o setor de uniformes. Uma funcionária entregou duas caixas cuidadosamente etiquetadas. Felipe conferiu os nomes.
— Lucas. Maurício.
Entregou uma para cada um.
— Confiram tudo quando chegarem em casa. Se faltar alguma peça, avisem até sexta.
Lucas abriu a caixa ainda ali.
— Posso?
Felipe sorriu.
— Todo mundo faz isso.
Lucas retirou lentamente a camisa de treino. O tecido verde-escuro refletiu a luz do corredor.
Durante alguns segundos ele apenas ficou olhando como uma criança segurando um presente de aniversário.
— Caramba...
Felipe riu baixo.
— Eu também fiz essa cara.
Lucas levantou os olhos.
— Sério?
— No meu primeiro dia.
Lucas sorriu imediatamente. A distância entre eles pareceu diminuir, Maurício observou a cena em silêncio. Havia um Felipe ali que não aparecia nas entrevistas. Mais leve, acessível e humano.
E, por um instante, pensou em dizer alguma coisa também. Perguntar qualquer coisa, comentar sobre a quadra, uniforme ou sobre o clube. Qualquer assunto serviria, mas a oportunidade passou.
Felipe já voltava a caminhar pelos corredores. Maurício ajustou a caixa contra o peito e o seguiu. Sem perceber, começou a comparar o homem que caminhava alguns passos à sua frente com aquele que conhecia apenas da televisão.
E concluiu que eram pessoas diferentes.
A da televisão parecia inalcançável. Aquela, caminhando pelo Matero, parecia apenas alguém que pertencia àquele lugar.
Maurício ainda não sabia.
Mas descobrir como alguém conseguia parecer tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante se tornaria uma das perguntas mais difíceis da sua vida.
🏐
Fim do capítulo.
📁 Arquivo MATERO
Sabia que as bolas em quadra podem atingir altas velocidades?
Em uma partida profissional de vôlei, a bola atinge velocidades surpreendentes, fazendo desse um dos esportes com menor tempo de reação do mundo. A velocidade máxima depende muito da jogada em questão e da força do atleta, mas em níveis de elite, a bola ultrapassa facilmente os 130 km/h.
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Nos vemos já, já.
— Henrique Bravi
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