TERCEIRO SET

18 Capítulo 17: Relicário


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Felipe abriu a porta. Fernando estava do outro lado. Lucas, ao lado dele. Os dois chegaram juntos. Felipe olhou primeiro para um, depois para o outro.

Fernando ergueu uma sacola.

— Trouxe sobremesa.

Lucas levantou outra.

— E cerveja sem álcool.

Felipe abriu mais a porta.

— Entrem.

— Nossa — Fernando disse assim que colocou os pés na sala. — Então é aqui.

Felipe franziu a testa.

— Aqui o quê?

— A fortaleza.

— Que fortaleza?

Lucas passou por eles.

— Ele achava que você dormia pendurado de cabeça pra baixo e saía só pra treinar.

— Eu nunca falei isso.

— Falou coisa parecida.

— Não falei.

Maurício apareceu vindo da cozinha, pano de prato sobre o ombro.

— Finalmente. Vocês podem ajudar.

Fernando parou. Olhou para Maurício, depois para Felipe. Para a mesa posta, a toalha. Para as travessas. Novamente para os dois.

— Em que momento entre ontem e hoje vocês se casaram?

Maurício fechou os olhos.

— Começou.

Lucas riu.

— Eu saí de casa por uma noite.

— E olha no que deu — Fernando continuou. — Quando eu deixei vocês, tavam só se pegando escondido. Agora tem até aparelho de jantar.

— Isso é da minha mãe — Maurício respondeu.

Fernando arregalou os olhos.

— Já envolveram a família?

— Fernando.

— Tô quieto.

Não estava. Lucas olhou para Felipe com mais atenção.

— Pera.

Felipe percebeu tarde demais.

— Bela camisa, tenho uma igual. Achei que você só usava polo ou uniforme.

Maurício começou a rir.

Felipe olhou para baixo. Não se deu conta que ainda estava com a camiseta de Lucas.

— É porque essa é a sua.

— Eu procurei essa camisa mês passado.

— Problema entre vocês — Felipe respondeu, apontando para Maurício.

— Traidor.

Maurício voltou para a cozinha.

— Foi uma emergência!

— Que emergência exige roubar minha roupa?

Fernando levantou a mão.

— Eu tenho algumas teorias.

— Você não vai falar nenhuma — Felipe respondeu.

Lucas encarou o capitão por mais um segundo.

— Ficou boa em você. Mas você não tem cara de quem ouve Sabotage.

— Obrigado. Mas você se surpreenderia com o que ouço.

Fernando virou lentamente para Lucas.

Um sorriso começou a aparecer.

— Ih.

Lucas nem olhou.

— Cala a boca.

Felipe acompanhou os dois entrando na sala. Aquilo foi... estranho. Não soube explicar por quê.

A campainha tocou novamente antes que pudesse pensar. Gabriel e Laura.

Gabriel entrou olhando ao redor.

— Caralho, Sponatti. Você mora mesmo aqui.

— Não, aluguei só pro almoço.

— Eu não me acostumei com a sua versão bem humorada. Mas eu imaginava alguma coisa mais...

Ele procurou a palavra.

Laura completou:

— Psicopata?

— Minimalista.

— Você ia falar psicopata.

— Eu jamais ofenderia nosso capitão na casa dele.

Felipe apontou para a porta.

— Em que momento vocês entraram num consenso de achar que eu sou o Batman?

— Bom, se você analisar bem, você mesmo responde a sua pergunta.

Maurício apareceu novamente.

Laura abriu um sorriso.

— Precisa de ajuda?

— Finalmente alguém educado.

— Eu ofereci ajuda — Felipe reclamou.

Maurício olhou para a cebola sobre a bancada.

— Você foi afastado da função.

— Por quê? — Gabriel perguntou.

— Pra evitar que você arranque os dedos com a faca.

Fernando assentiu seriamente.

— Acontece com os melhores.

— Vocês vieram aqui só pra me humilhar?

Lucas se jogou no sofá.

— Também pela comida.

Felipe olhou para a sala. Cinco minutos. Tinham se passado cinco minutos. Uma mochila já estava no chão. Gabriel tinha deixado o casaco sobre uma poltrona, Fernando mexia nos livros da estante sem autorização. Lucas estava deitado no sofá como se morasse ali. Laura tinha desaparecido na cozinha com Maurício.

Felipe respirou fundo.

Sua casa estava sendo invadida. E, estranhamente, não se importava.

A campainha tocou pela terceira vez.

Nem precisou olhar.

— Lorena.

Abriu. Ela estava do outro lado com uma garrafa na mão e óculos escuros sobre os cabelos.

— Desculpa o atraso.

Felipe olhou para o relógio.

— Você tá quarenta minutos atrasada.

Lorena levantou a garrafa.

— Trouxe vinho.

— Isso não altera o horário.

— Altera o humor.

Entrou.

— Cadê meu anfitrião favorito?

— Eu sou o único anfitrião.

Lorena encontrou Maurício saindo da cozinha.

— Maumau!

Abriu os braços.

Maurício riu antes de abraçá-la.

— Oi.

Felipe fechou a porta.

— Por que você chama ele de Maumau?

— Porque eu gosto dele.

— E de mim?

Lorena olhou para Felipe.

— Infelizmente.

Maurício riu.

Felipe apontou para os dois.

— Já me arrependi desse almoço.

— Mentira — Lorena respondeu.

Felipe não rebateu.

Porque era.

Demoraram mais quinze minutos para finalmente sentarem. Maurício insistiu que ninguém começaria antes de tudo estar pronto. Fernando tentou roubar um pedaço, levou um tapa na mão. Gabriel tentou depois, o mesmo aconteceu.

— Vocês têm cinco anos? — Laura perguntou.

— Eu tô com fome — Gabriel se defendeu.

— Eu também — Fernando respondeu.

Lucas olhou para ele.

— Você comeu no caminho.

Maurício parou.

— No caminho?

Lucas respondeu rápido demais:

— É.

— Vocês vieram juntos?

— A gente tava no mesmo lugar.

Maurício franziu a testa.

— Ah.

Só isso. Felipe, do outro lado da mesa, olhou para Fernando que estava muito interessado na própria taça. Depois para Lucas. Felipe estreitou os olhos.

Alguma coisa. Não sabia o quê.

Maurício já tinha esquecido.

— Posso servir agora? — Gabriel perguntou.

— Pode.

— Graças a Deus.

E então começaram. Por alguns minutos, houve apenas comida. E barulho, muito barulho.

— Isso tá muito bom — Laura disse.

— Obrigado.

Gabriel apontou o garfo para Maurício.

— Você fez tudo?

— Quase.

— Eu ajudei — Felipe respondeu.

Maurício olhou para ele.

— Cortou cebola... e o dedo.

— Isso é ajudar.

— Cortou errado.

Gabriel parou de mastigar.

— Como corta cebola errado?

— Obrigado! — Felipe respondeu.

— Não fica do lado dele.

Fernando provou outra coisa.

— Se eu soubesse que beijar o capitão dava acesso a isso, tinha tentado anos atrás.

Felipe quase engasgou.

— Fernando!

Lucas abaixou o garfo.

— Você não consegue passar cinco minutos sem falar merda?

— Foi um elogio à comida.

— Não pareceu.

Lorena ergueu a taça.

— Eu achei romântico.

— Você acha tudo romântico depois de vinho — Felipe respondeu.

— Ainda tô na primeira taça.

— Isso torna pior.

Maurício ria. Felipe percebeu, talvez fosse isso que mais o surpreendesse. Não o fato de haver sete pessoas à mesa.

Mas a facilidade. Ninguém parecia preocupado em impressionar ninguém.

Fernando falava alto demais. Gabriel repetia comida. Laura tentava descobrir com Elisa, através de Maurício, como fazer uma das receitas.

Lorena já prometia trazer champagne da próxima vez. Lucas implicava com todo mundo. Maurício estava no meio. E Felipe... Felipe também estava.

Não na cabeceira.

Não observando de fora.

Ali.

Quando a conversa mudou para o jogo da véspera, Gabriel começou a reencenar um dos pontos usando os talheres.

— Aí a bola veio aqui—

— Não aponta a faca pra mim — Laura reclamou.

— Não é uma faca, é o Felipe.

— Por que eu sou a faca? — Felipe perguntou.

— Porque você tava na entrada.

Fernando pegou uma colher.

— Então eu sou quem?

— Ninguém te chamou pra demonstração.

— Eu quero participar.

— Você é essa azeitona — Lucas respondeu.

Fernando olhou para a azeitona.

— Isso é ofensivo.

Maurício riu tão alto que precisou apoiar a cabeça no ombro de Felipe. Foi automático, Felipe também não pensou. Apenas inclinou um pouco o rosto na direção dele. Só alguns segundos.

Até Maurício voltar para o próprio lugar. A conversa continuou, mas alguma coisa tinha acontecido.

Pequena.

Natural.

Ninguém ficou em silêncio.

Ninguém olhou.

Ninguém pareceu considerar estranho.

Felipe percebeu isso.

Naquela mesa, pelo menos, não precisavam calcular cada centímetro.

Foi só quando os pratos começaram a esvaziar que Felipe se lembrou do verdadeiro motivo do almoço. Maurício também, os dois trocaram um olhar.

Felipe respirou fundo.

— Gente...

Fernando colocou o garfo no prato.

— Ih.

— Não começa.

— Tô quieto.

Laura bateu no braço dele. Felipe olhou para Maurício que assentiu discretamente. Debaixo da mesa, uma mão encontrou seu joelho.

Felipe não precisava olhar para saber de quem era.

— A gente chamou vocês aqui porque precisa conversar sobre uma coisa.

Gabriel franziu a testa.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

Felipe pensou.

— Quer dizer... aconteceu.

Fernando abriu a boca.

Lucas imediatamente:

— Não.

— Eu nem falei!

— Mas ia.

Felipe quase perdeu a coragem de continuar de tanto rir.

— É sério.

A mesa sossegou. Ele passou a mão pela nuca, tinha ensaiado aquilo naquela manhã. Agora não lembrava de uma única frase.

— Eu e o Maurício...

Parou. Olhou para ele, Maurício esperava. Felipe tentou outra vez.

— A gente tá...

Outra pausa.

Fernando inclinou-se para Lucas.

— Isso vai demorar.

— Fernando — Laura repreendeu.

Maurício começou a rir.

Felipe olhou para ele.

— Quer falar?

— Eu também não sei.

— Excelente.

Lorena apoiou o queixo na mão.

— Vocês estão juntos.

Felipe virou para ela.

— Não sei.

— Vocês dormiram juntos?

Maurício arregalou os olhos.

— LORENA.

— Não perguntei detalhes!

Felipe cobriu o rosto.

— Eu sabia que chamar você era um erro.

— Felipe, eu te dei banho bêbado falando de beijo. Perdemos a formalidade faz tempo.

Gabriel olhou para ele.

— Você falou pra ela?

— Não interessa.

Laura resolveu salvar a conversa.

— Vocês não nos devem explicações, fiquem tranquilos.

Felipe abaixou as mãos.

Ela continuou:

— A gente entendeu.

Maurício sorriu, agradecido.

— É. Acho que é isso.

Felipe assentiu.

— Mas tem outra parte.

E então explicou.

A regra.

O contrato.

O cuidado que precisavam ter.

Não entrou em Murilo, não contou sobre conversas antigas. Não precisava. Apenas deixou claro que, se aquilo saísse daquela sala, poderia deixar de ser algo apenas deles.

— Principalmente dentro do clube — concluiu. — A gente precisa que ninguém comente. Nem brincando. Nem com gente que vocês confiam.

Silêncio.

Gabriel foi o primeiro.

— Claro.

Felipe olhou para ele.

— Nem precisava pedir — Laura completou.

Lucas assentiu.

— Não vai sair daqui.

Fernando ergueu a mão.

— Eu faço piada, mas não sou imbecil.

Lucas olhou para ele.

— Discutível.

— Você entendeu.

Maurício sorriu.

Lorena pegou a garrafa e completou a própria taça.

— Então pronto.

Ergueu-a.

— Segredo de família.

Felipe ficou imóvel.

Família.

A palavra bateu diferente. Talvez Lorena nem tivesse percebido.

Fernando levantou a taça.

— À família.

Gabriel acompanhou.

— E ao almoço grátis.

Laura revirou os olhos.

— Você estraga tudo.

Lucas levantou o copo, Maurício também. Felipe foi o último.

Olhou ao redor, para cada um deles. Ergueu a taça.

— À família.

Os copos se encontraram no meio da mesa. O som foi pequeno, quase insignificante. Mas alguma coisa dentro de Felipe pareceu finalmente encontrar lugar.

Duas taças de vinho depois, ninguém mais lembrava que aquele almoço tinha começado como uma reunião. Talvez Lorena lembrasse. Mas Lorena estava ocupada demais tentando convencer Gabriel de que ele seria uma pessoa muito mais interessante se aprendesse alguma coisa sobre astrologia.

— Eu já sou interessante.

— Você perguntou meu signo três vezes.

— Porque eu esqueço.

— Exatamente.

Gabriel apontou para ela.

— Isso não prova nada.

— Qual é o meu signo?

Ele ficou em silêncio.

Lorena abriu os braços.

— Meritíssimo, encerro meu caso.

Laura começou a rir.

— Eu queria defender você, Gabriel.

— Obrigado.

— Mas não dá.

— Traidora.

Na outra ponta da mesa, Fernando tentava roubar o último pedaço de sobremesa do prato de Lucas.

— Você falou que não queria.

— Eu mudei de ideia.

Lucas afastou o prato.

— Problema seu.

— Só um pedaço.

— Não.

— Lucas.

— Fernando.

— Você não vai comer tudo.

Lucas colocou uma garfada enorme na boca apenas para provocá-lo.

Fernando ficou indignado.

— Infantil.

Lucas mastigou sorrindo.

— Muito.

Felipe assistia. Só assistia.

Já tinha perdido a conta de quantas conversas aconteciam ao mesmo tempo.

Havia uma garrafa vazia sobre a mesa e outra pela metade. Pratos empilhados de qualquer jeito. Guardanapos abandonados. Migalhas sobre a toalha que Elisa emprestou com tanto cuidado.

A almofada do sofá estava no chão, o casaco de Gabriel continuava largado na poltrona. Lorena tinha deixado os sapatos perto da porta em algum momento e agora andava descalça pela sala como se estivesse na própria casa.

Fernando havia mexido na temperatura do ar-condicionado três vezes sem pedir. Lucas sabia onde estavam os copos porque Maurício tinha lhe mostrado. Laura estava recolhendo os pratos apesar das insistências de Felipe para deixar tudo ali.

Era uma bagunça.

Felipe nunca tinha visto seu apartamento daquele jeito.

— Para.

Laura olhou para ele com dois pratos nas mãos.

— O quê?

— Deixa aí.

— Felipe, a gente pode ajudar.

— Depois eu arrumo.

Fernando levantou a mão.

— Apoiado.

— Você não ia ajudar de qualquer forma — Lucas disse.

— Exatamente. Finalmente alguém me conhece.

Laura ignorou os dois.

— Pelo menos deixa eu levar pra cozinha.

— Laura.

— Tá bom.

Ela devolveu os pratos. Felipe olhou para a mesa, não queria arrumar. Não ainda. Aquilo o surpreendeu. Normalmente não suportava um copo usado fora da cozinha por muito tempo. Naquele dia, queria que ficassem.

— Foto.

Lorena levantou o celular.

Felipe imediatamente:

— Não.

— Ninguém perguntou.

— Eu tô na minha casa.

— E?

— E eu tenho direito de imagem.

— Não comigo.

Lorena se levantou.

— Todo mundo pro sofá.

Gabriel gemeu.

— Pra quê?

— Porque eu quero uma foto.

— A gente acabou de jogar ontem. Tem umas cinquenta fotos nossas.

— Eu quero uma que vocês estejam minimamente apresentáveis.

Fernando olhou para a própria roupa.

— Devia ter avisado antes.

Gabriel apontou.

— Eu falei que teria me arrumado melhor pra recepção.

— Vocês são insuportáveis — Maurício disse.

Ainda assim, levantou.

Em menos de um minuto, sete adultos descobriram que organizar sete pessoas diante da câmera de um celular era aparentemente uma operação militar.

— Fernando, sai da frente.

— Eu sou alto.

— Exatamente.

— Felipe, chega mais pro lado.

— Não tem mais lado.

— Gabriel, abaixa.

— Por quê?

— Porque você tá tampando a Laura.

— Eu não tô tampando ninguém.

— Tá sim.

Lucas já ria antes mesmo da foto existir. Lorena apoiou o celular sobre uma estante e ativou o temporizador.

— DEZ SEGUNDOS!

— Pra que gritar? — Felipe perguntou.

Ela correu.

— ABRE ESPAÇO.

— Não cabe!

— Cabe sim!

Lorena se jogou entre Laura e Gabriel no instante em que a primeira foto foi tirada.

Flash.

— Ficou horrível — Laura disse.

— Nem viu ainda.

— Eu senti.

Lorena correu até o celular.

— Ficou mesmo.

— Eu avisei.

— Outra.

Felipe fechou os olhos.

— Lorena...

— Uma boa.

— Essa frase nunca significa uma.

Na terceira tentativa, desistiram de se organizar. Fernando estava rindo de alguma coisa que Lucas tinha acabado de dizer. Gabriel olhava para Laura em vez da câmera. Lorena ainda tentava chegar ao sofá. Maurício ria.

Felipe tinha virado o rosto para ele.

Flash.

— Essa.

Lorena pegou o celular.

— Ficou boa?

Laura se aproximou.

— Deixa eu ver.

Todos começaram a olhar. Felipe ficou por último. A fotografia não estava boa, tecnicamente. Fernando tinha os olhos quase fechados, metade do corpo de Lorena parecia ainda estar em movimento. Gabriel não olhava para a câmera, Lucas estava torto no sofá. Maurício tinha a boca aberta no meio de uma risada.

E Felipe...

Felipe estava olhando para Maurício.

— Me manda — Maurício pediu.

— No grupo.

Felipe levantou os olhos.

— Que grupo?

Silêncio.

Lorena olhou para Fernando, Lucas, Gabriel e Laura.

Felipe entendeu.

— Vocês têm um grupo sem mim?

— Não — Fernando respondeu rápido demais.

— Tem sim — Laura entregou.

— Laura!

— Não vou mentir.

Felipe cruzou os braços.

— Desde quando?

Gabriel pegou o celular.

— Tecnicamente você tá nele.

— Como eu posso estar num grupo que não conheço?

— Porque a gente te adicionou ontem.

Felipe pegou o próprio telefone. Abriu o aplicativo. Havia um grupo silenciado entre as conversas.

DESBRAVADORES SEM MURILO

Ele arregalou os olhos.

— Quem colocou esse nome?

Fernando levantou a mão.

— Eu achei forte.

— E por que tá silenciado?

— Isso você que fez — Lucas respondeu.

Felipe tentou lembrar. Provavelmente tinha silenciado depois da centésima mensagem sobre alguma coisa inútil.

— Eu nem sabia que isso existia.

Fernando apontou para ele.

— Porque você não participa.

— Vocês mandaram quatrocentas mensagens desde ontem.

— Integração de equipe.

— Tem figurinha minha aqui!

Gabriel começou a rir.

— Essa é muito boa.

Felipe abriu. Era uma fotografia dele com expressão irritada durante um jogo, acompanhada da frase:

EU AVISEI UMA VEZ.

— Quem fez isso?

Ninguém respondeu.

Felipe olhou para Maurício. Maurício já estava vermelho tentando não rir.

— Foi você.

— Não tenho provas contra mim.

— Maurício.

Ele perdeu a batalha e começou a gargalhar.

— Desculpa.

— Eu abro minha casa e é assim que vocês agradecem.

Lorena pegou a garrafa.

— Agora você sabe como é ter amigos.

A frase passou quase despercebida por todos. Menos por Felipe.

Mais tarde, Fernando e Gabriel começaram uma discussão sobre qual partida da temporada anterior tinha sido a pior. Laura e Lorena conversavam perto da varanda, Lucas tinha desaparecido na cozinha atrás de mais sobremesa.

Maurício sentou ao lado de Felipe. Próximo o suficiente para que seus ombros se tocassem.

— Cansou?

Felipe negou.

— Não.

— Tá quieto.

— Tô ouvindo.

Maurício olhou para a sala.

— Eles são barulhentos.

— Muito.

— Quer que eu expulse?

Felipe sorriu.

— Não.

A resposta veio rápido. Maurício virou para ele, Felipe continuava olhando para os outros.

— Não quero.

Maurício não disse nada. Debaixo da mesa de centro, encontrou a mão dele, entrelaçou os dedos. Ninguém viu.

Ou, se viu, ninguém fez questão de mostrar.

Felipe apertou sua mão.

— Mau.

— Hm?

Felipe pensou em dizer alguma coisa. Não conseguiu. Os olhos arderam antes, piscou algumas vezes. Maurício percebeu.

Claro que percebeu.

— Ei.

— Tô bem.

— Eu não falei nada.

Felipe riu pelo nariz.

— Mas ia.

Maurício observou o rosto dele por alguns segundos. Não perguntou, não chamou atenção. Apenas aproximou um pouco mais o ombro. Felipe agradeceu em silêncio.

Porque não saberia explicar. Não era tristeza, muito pelo contrário. Talvez fosse justamente esse o problema.

Aquela sala nunca esteve tão cheia. Felipe conhecia cada objeto dentro dela. Sabia quanto custava cada móvel, em que loja comprar, onde deveria estar. Durante anos, acreditou que uma casa fosse feita dessas coisas.

Objetos escolhidos cuidadosamente e colocados nos lugares certos. Agora havia uma toalha que não era dele sobre a mesa, pratos de Elisa empilhados. Um pedaço do bolo que ela insistiu para que levassem na cozinha.

A camiseta de Lucas em seu corpo, o casaco de Gabriel sobre sua poltrona. Os sapatos de Lorena perto da porta. Laura tinha deixado uma taça no parapeito da varanda. Fernando ocupava espaço demais no sofá, Maurício segurava sua mão.

Nada naquela imagem pertencia verdadeiramente a Felipe. E, ainda assim, nunca teve tantas coisas que parecessem suas. Não porque pudesse possuí-las, porque poderia sentir falta delas. Talvez fosse esse o valor das coisas que importavam.

Não o quanto custavam.

Nem há quanto tempo estavam conosco.

Mas o vazio que deixariam se desaparecessem.

— Felipe!

Ele piscou.

Fernando olhava para ele.

— Que foi?

— Tá viajando?

— Não.

— A gente perguntou se você quer escolher o filme.

Felipe olhou ao redor.

— Qualquer um.

Todos protestaram ao mesmo tempo.

— NÃO!

Felipe começou a rir.

— Então por que perguntaram?

— Porque você tem que escolher certo — Gabriel explicou.

— Isso não faz sentido.

Maurício apertou sua mão.

— Bem-vindo à democracia.

Felipe olhou para ele. Sorriu.

Talvez sua casa nunca mais ficasse daquele jeito.

Talvez na manhã seguinte cada prato voltasse para uma caixa, cada copo para o armário, cada casaco para seu dono.

A toalha voltaria para Elisa.

A camiseta para Lucas.

As pessoas atravessariam a porta e seguiriam suas próprias vidas. Mas agora havia uma fotografia no grupo que Felipe nem sabia que tinha. Sete pessoas espremidas num sofá. Ninguém olhando para onde deveria, tudo fora do lugar. Felipe abriu a foto outra vez.

Salvou.

Algumas coisas a gente guardava porque eram bonitas, outras porque eram raras. E algumas porque, sem nenhum aviso, tinham conseguido transformar um lugar vazio em casa.

Felipe guardou o celular. Maurício continuava ao seu lado. Os amigos discutiam. A sala continuava barulhenta e ele não desejou silêncio nenhuma vez.

Seu relicário estava cheio.

🏐

Fim do capítulo.

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