TERCEIRO SET
12 Capítulo 11: Depois
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Fernando surgiu na varanda equilibrando dois copos e uma porção de batatas fritas.
— Achei vocês!
Felipe e Maurício se afastaram no mesmo instante, rápido demais.
Os dois fingiram uma naturalidade que nenhum dos dois possuía naquele momento. Fernando olhou de um para o outro, depois para os copos, depois novamente para os dois.
— Cês tão demorando demais.
Felipe pigarreou.
— A gente só...
Maurício completou antes que ele terminasse.
— Tava conversando.
— Ah.
Fernando assentiu.
Pareceu satisfeito.
— Então bora continuar conversando lá dentro. O Lucas acabou de perder cinquenta reais na sinuca pra um senhor de sessenta e oito anos.
Maurício sorriu.
— Como você sabe a idade dele?
— Porque ele fez questão de dizer antes de ganhar.
Fernando deu meia-volta.
— Vamo!
Os dois permaneceram imóveis por mais um segundo, Felipe olhou discretamente para Maurício. Os dois riram ao mesmo tempo. Baixinho, sem conseguir esconder. Depois seguiram Fernando de volta para o bar.
A noite passou depressa, as conversas continuaram. Fernando realmente desafinou no karaokê. Gabriel fingiu não conhecer ninguém, Laura filmou tudo. Lucas prometeu nunca mais apostar dinheiro em sinuca.
Felipe e Maurício quase não conversaram, não porque não quisessem. Mas porque qualquer olhar demorava tempo demais. Qualquer sorriso parecia entregar mais do que deveria.
Era como se os dois ainda estivessem aprendendo a ocupar o mesmo espaço depois do beijo.
Já passava das nove quando começaram a se despedir. Fernando procurava desesperadamente a carteira, Gabriel procurava Fernando, Laura procurava a paciência.
Foi Lorena quem resolveu a situação. Estendeu a mão para Felipe.
— A chave.
Ele piscou.
— Pra quê?
— Porque você bebeu.
— Eu tô bem.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Felipe.
Ele respirou fundo, conhecia aquele tom. Entregou a chave sem discutir.
— Insuportável.
Lorena sorriu vitoriosa.
— Responsável.
Fernando apontou para Gabriel.
— Eu vou com ele.
— Ainda bem.
— Você não confia em mim?
— Nem um pouco.
Fernando fingiu indignação.
— Nossa amizade acabou.
— Até amanhã.
— Também.
Laura riu.
Lucas já chamava um aplicativo quando Lorena interrompeu.
— Que aplicativo o quê?
Os dois olhares se encontraram.
— Eu levo vocês.
Lucas abriu um sorriso.
— Aí sim!
— Cabe todo mundo?
— Cabe.
Lorena olhou discretamente para Felipe e Maurício. Tomou uma decisão em menos de um segundo.
— Lucas... vem na frente comigo.
— Fechou.
Lucas entrou sem questionar, Felipe abriu automaticamente a porta traseira. Maurício entrou logo depois, nenhum dos dois comentou. Apenas sentaram lado a lado.
O carro deixou o estacionamento. Durante alguns minutos... ninguém disse absolutamente nada. O rádio tocava baixo, uma música qualquer preenchia os espaços que nenhum deles parecia saber ocupar. Na frente, Lucas comentava alguma coisa sobre a partida de sinuca. Lorena respondia entre uma risada e outra.
Atrás... existia outro mundo.
Felipe mantinha o olhar perdido pela janela, Maurício observava discretamente o reflexo dele no vidro. Por alguns segundos, seus olhos se encontraram. Os dois sorriram sem motivo, desviaram imediatamente.
Cinco segundos depois... olharam outra vez.
Felipe apoiou o braço no banco. Os dedos tamborilavam distraidamente perto da mão de Maurício, tão perto que bastaria um movimento mínimo. Nenhum dos dois fazia. O silêncio deixava de ser constrangedor, era confortável. Quase bonito.
Felipe virou lentamente a cabeça. Agora olhava diretamente para Maurício. O restante do carro desaparecia pouco a pouco. A música, a conversa de Lucas, o trânsito.
Tudo parecia distante.
Maurício sentiu o coração acelerar outra vez. Felipe aproximou-se alguns centímetros, devagar. Como se perguntasse se podia. Maurício permaneceu imóvel. Os olhos começaram a fechar quase involuntariamente, conseguia sentir a respiração dele. Mais perto.
Cada vez mais perto. Os narizes estavam prestes a se encontrar quando...
— PARA O CARRO!
Lorena freou com tanta força que os quatro foram projetados para frente. Felipe levou a mão à boca. Tarde demais.
Maurício permaneceu completamente imóvel olhando para baixo.
Silêncio absoluto.
Depois olhou lentamente para os próprios tênis. Uma pequena poça se espalhava sobre eles, Felipe também olhou.
Empalideceu.
— Meu Deus...
Ninguém disse nada durante dois segundos. Até que Lucas virou o rosto e olhou para Maurício. Começou a rir.
Primeiro baixinho, depois alto. Muito alto.
Lorena tentou manter a postura, não conseguiu. Encostou a testa no volante enquanto gargalhava.
— Eu... eu juro que tentei segurar... — Disse entre uma risada e outra.
Felipe cobriu o rosto com as duas mãos.
— Eu quero morrer.
Lucas já não conseguia respirar direito.
— Cara... você... vomitou no pé dele!
Felipe soltou um gemido de puro constrangimento, suas bochechas queimavam.
— Pelo amor de Deus...
Maurício permaneceu olhando para o próprio tênis por mais alguns segundos. Então ergueu lentamente a cabeça, encontrou o olhar completamente desesperado de Felipe. Segurou a expressão séria por um instante.
Dois. Três. Depois começou a rir também. E foi justamente naquele momento... que Felipe percebeu que talvez ainda existisse esperança para ele.
Felipe entrou no apartamento em completo silêncio. Na verdade foi praticamente conduzido. Lorena segurava seu braço com firmeza enquanto ele caminhava lentamente pelo corredor.
— Eu consigo andar sozinho.
— Claro que consegue.
— Então por que você tá me segurando?
— Porque você acabou de decorar o tênis do menino com churrasco e pitadas de caipirinha com cerveja.
Felipe fechou os olhos.
— Não precisava lembrar.
Ela abriu a porta.
— Entra.
Ele obedeceu sem discutir.
Poucos minutos depois, o banheiro estava tomado pelo vapor do chuveiro. Felipe permanecia sentado na tampa fechada da privada enquanto Lorena tentava, inutilmente, domar o topete completamente destruído pela água. Ela passou shampoo pela segunda vez.
— Fica parado.
— Tô parado.
— Você acabou de mexer a cabeça.
— Foi o chão que se mexeu.
Lorena suspirou.
— Desde os quinze anos você fala isso.
Felipe soltou uma risada cansada.
— Me lembra... de nunca mais beber na vida.
Ela enxaguou o cabelo dele.
— Eu já lembrei.
— Quando?
— Na formatura do terceirão.
Felipe demorou alguns segundos. Depois abriu um sorriso.
— Nossa... eu tinha esquecido dessa.
— Pois é.
Você esquece de tempos em tempos. Ela pegou uma toalha. Começou a secar seus cabelos.
— Mas passa.
Sempre passa. Felipe apoiou a cabeça para trás.
— Espero que dessa vez passe rápido.
— Vai passar. Entre dois e cinco dias, passa.
Silêncio.
Felipe olhava para o teto, pensando. Lorena percebeu. Ela sempre percebia.
— Tá pensando no quê?
Ele respondeu imediatamente.
— No MauMau.
Lorena sorriu discretamente.
— Cadê ele, aliás?
— Tá na casa dele, do outro lado da rua.
Pequena pausa.
Felipe suspirou.
— Ele nunca mais vai olhar na minha cara.
Lorena deu uma leve batidinha na testa dele com a toalha.
— Felipe. Foi só uma gorfada.
— "Só uma gorfada"? Eu lavei o pé dele.
— Acontece. Inclusive o seu carro está imundo.
— Isso é o de menos. Pior foi o que eu fiz.
Lorena já começava a rir.
— Dramático.
Felipe passou as duas mãos pelo rosto.
— Ele nunca mais vai querer me beijar.
Silêncio. A toalha parou no ar, muito devagar... Lorena abaixou a toalha. Olhou para Felipe. Ele continuava encarando o teto, só então percebeu o que havia acabado de dizer.
Virou lentamente a cabeça. Os olhos dos dois se encontraram.
Felipe arregalou os olhos.
— Oops.
Lorena cruzou os braços.
— "Nunca mais"...
Ela fez aspas com os dedos.
— Quer dizer que já aconteceu uma primeira vez?
Felipe cobriu o rosto.
— Eu falei demais.
— Felipe.
— Não.
— FELIPE.
Ele soltou um longo suspiro. Depois afastou lentamente as mãos do rosto, Lorena já sorria daquele jeito que ele conhecia desde a adolescência. O mesmo sorriso de quem acabara de encontrar uma fofoca absolutamente irresistível.
— Então...
Ela puxou uma cadeira e sentou bem na frente dele.
— Começa do começo.
Felipe permaneceu em silêncio tentando decidir se contava ou se fingia um desmaio. Lorena inclinou a cabeça.
— Vai. Eu tenho tempo.
Ele respirou fundo. Muito fundo, depois sorriu sem conseguir evitar. Um sorriso pequeno, quase infantil.
— A gente... se beijou.
Lorena levou as duas mãos à boca. Não por choque, mas por pura felicidade.
— Felipe...
Ele riu de nervoso.
— Não faz essa cara.
— Que cara?
— Essa cara de quem já sabia.
Lorena deu de ombros.
— Eu sabia.
Felipe franziu a testa.
— Como?
Ela sorriu.
— Eu conheço você. Fez a mesma cara quando beijou o Gustavo no primeiro ano e depois ficou dando voltas pra me contar, conheço o jeito que você olha quando gosta de alguém.
Fez uma pequena pausa.
— E conheço o jeito que ele olha pra você também.
Felipe ficou completamente imóvel.
— Era tão óbvio assim?
Lorena riu.
— Pra vocês? Não. Pra quem tava olhando de fora? Muito. Vocês sumiram por um bom tempo e apareceram com olhinhos brilhando. Não foi tão complicado fazer essa sinapse.
Felipe passou a mão pelos cabelos ainda molhados.
— A gente complicou tudo, né?
Lorena balançou a cabeça lentamente.
— Não sei. Isso vai depender do que vocês vão fazer a partir disso.
O apartamento mergulhou num silêncio confortável. Felipe respirou fundo e sorriu sozinho. Por um segundo o episódio do vômito já não parecia o fim do mundo. Talvez... só mais uma história ridícula que, algum dia, eles contariam rindo.
○○○○
O despertador tocou às seis. Felipe não abriu os olhos imediatamente, a cabeça pesava, a boca estava seca. O corpo inteiro reclamava das poucas horas de sono.
— Nunca mais... — murmurou para o teto.
Virou de lado lentamente. O quarto ainda permanecia escuro, a cortina deixava passar apenas uma faixa estreita da luz da manhã. Levou alguns segundos até lembrar por que estava daquele jeito.
A cerveja.
O vinho.
O karaokê.
Fernando cantando completamente desafinado. Depois o carro. Fechou os olhos com força.
— Meu Deus... A gorfada. — Escondeu o rosto no travesseiro. — Eu vomitei no pé dele.
Ficou alguns segundos completamente imóvel, talvez desse para pedir transferência de país ou fingir que nunca existiu. Ou simplesmente nunca mais sair do apartamento.
O celular vibrou sobre a mesinha de cabeceira. Felipe esticou o braço sem muito interesse, desbloqueou a tela.
Uma mensagem. Número desconhecido, abriu.
Oi. Peguei seu número no grupo. Tá melhor?
Felipe sorriu imediatamente. Só depois viu o nome salvo logo acima.
Maurício.
Sentiu o peito aquecer. Então... ele não estava bravo.
Digitou rapidamente.
Tô sim. Desculpa pelo...
Parou. Apagou. Começou outra vez.
Prometo que nunca mais...
Apagou novamente. Bufou.
— Idiota...
Jogou o celular ao lado do travesseiro, talvez fosse melhor conversar pessoalmente. Era, precisava ser. Só então outra lembrança atravessou sua cabeça. O beijo. As testas encostadas. Os olhos fechando quase ao mesmo tempo. O gosto discreto de cerveja.
Felipe levou a mão aos próprios lábios. Sorriu outra vez, durou exatamente três segundos. Porque outra voz ocupou sua memória. A voz de Murilo.
"Não esquece do que combinamos."
Aquele sorriso diminuiu lentamente, sentou-se na cama. Olhou pela janela. O Matero já aparecia desperto ao longe. Dentro de poucas horas voltariam a ser capitão e líbero. Como se nada tivesse acontecido.
Respirou fundo.
— Vamos descobrir. — Disse para si mesmo.
Mas não sabia se aquilo o confortava ou o deixava ainda mais aflito.
○○○○
O refeitório já estava movimentado quando Felipe chegou, pegou um café e mais outro. Fernando apareceu do outro lado da mesa usando óculos escuros e segurando um copo de café tão grande que parecia um balde.
— Nem fala comigo até meio-dia.
Felipe riu.
— Tá ruim assim?
Fernando levantou lentamente os óculos. Os olhos vermelhos responderam por ele.
— Eu ouvi você cantando Roberto Carlos.
— Eu não cantei Roberto Carlos.
— Ah, você cantou. Jamais vou me esquecer de você em situação de tequila cantando esse cara sou eu apontando pro Maurício de forma esquisita.
Felipe riu envergonhado.
Fernando aproximou o copo da boca.
— Nunca mais misturo whisky com caipirinha.
— Você falou isso na festa de encerramento do campeonato paulista.
— Um dia eu sigo meus próprios conselhos. Mas feliz que você foi. — Tomou um extenso gole de café. — Você nunca sai com a gente.
— Não é bem assim. — Felipe fez um breve compilado em sua mente e percebeu que era verdade. — E a gente nunca foi amigo.
— Coisa da sua cabeça. Você ainda acha que eu tenho um problema com o fato de ter perdido o posto de capitão do time pra você? — Fernando ergueu uma sobrancelha.
— Na verdade... acho.
Fernando sorriu.
— No começo sim, porque feriu meu ego. Mas com o tempo percebi que você me fez um favor. — Tomou o último gole. — Desde então minhas horas de sono aumentaram.
Felipe sentiu um misto de alívio e frustração. Olhou discretamente ao redor do refeitório, decidiu mudar de assunto.
— Você viu o Maurício?
Fernando acompanhou seu olhar.
— Ainda não. Nem ele nem o Lucas apareceram pro café.
Felipe tentou parecer indiferente.
— Ah.
Fernando arqueou uma sobrancelha.
— Tá procurando alguém específico logo cedo?
Antes que Felipe respondesse, uma voz surgiu atrás dele.
— Minha sala. Agora.
Fernando fez uma expressão de condolências.
— Boa sorte.
Felipe apenas suspirou. Já sabia que aquele dia ainda estava longe de ficar mais simples. A sala de Murilo permanecia exatamente como sempre. Felipe entrou.
Murilo nem levantou os olhos, terminava de assinar alguns papéis.
— Fecha a porta.
Felipe obedeceu. O treinador continuou escrevendo por mais alguns segundos antes de finalmente erguer a cabeça. Seu olhar parou imediatamente no rosto do filho.
— Que cara de ressaca é essa?
Felipe respirou pelo nariz.
— Dormi pouco.
— Também deu pra beber agora?
O tom era mais de treinador do que de pai. Felipe deu de ombros.
— Foi o primeiro dia de folga em quase um mês.
Murilo encostou as costas na cadeira.
— Desde que isso não vire hábito e abaixe seu rendimento.
Silêncio. Pegou uma pasta sobre a mesa.
Abriu.
— Em uma semana viajamos pra estreia da Copa de Clubes.
Empurrou algumas folhas na direção de Felipe.
— A programação já tá fechada. Os treinos, viagens, entrevistas, eventos com patrocinadores. Nada novo pra você.
Felipe folheava os papéis quase automaticamente. Já conhecia aquele tipo de cronograma.
Murilo continuou.
— Esse ano a imprensa vai acompanhar muito mais de perto. Você sabe por quê.
Felipe assentiu.
— Sei.
— Você continua sendo a principal imagem do vôlei do Matero. Há expectativa cada mais alta pra você ser convocado pra seleção. Patrocínio ajuda. — Fez uma pequena pausa. — E isso exige algumas responsabilidades.
Felipe apenas respondeu:
— Eu sei.
Murilo permaneceu alguns segundos em silêncio como se avaliasse alguma coisa, depois falou num tom aparentemente casual.
— E... não esquece do que a gente combinou.
Felipe levantou os olhos. Os dois sabiam exatamente do que ele estava falando. Nenhum dos dois precisava dizer o nome de Maurício.
Felipe assentiu lentamente.
— Não vou esquecer. Murilo voltou aos papéis.
A conversa estava encerrada.
— Pode ir.
Felipe levantou-se, quando já alcançava a porta, ouviu a voz do pai outra vez.
— Felipe.
Ele virou apenas o suficiente para olhá-lo. Murilo demorou alguns segundos antes de concluir.
— Tá muito velho pra resolver as coisas sendo rebelde.
Felipe sustentou o olhar do pai. Por um instante, teve vontade de perguntar o que exatamente significava aquilo.
Rebelde.
Gostar de alguém? Escolher alguma coisa por si mesmo? Mas o impulso passou tão rápido quanto surgiu.
— Pode deixar.
Abriu a porta. Saiu.
O ginásio já estava tomado pelo barulho das bolas quicando quando chegou. Alguns atletas alongavam, outros conversavam perto da linha lateral. Lucas tentava convencer Fernando de que café com energético era uma combinação perfeitamente saudável.
— Isso aí é tentativa de suícidio.
— É ciência.
— É crime.
Felipe sorriu discretamente enquanto caminhava pela quadra. Seus olhos procuravam alguém. Encontraram Lucas primeiro. Depois... Maurício.
Os dois estavam próximos à rede, conversando baixinho enquanto organizavam alguns cones de treinamento.
Felipe parou por um segundo. O coração acelerou de um jeito completamente desnecessário. Respirou fundo, começou a caminhar na direção deles.
Lucas percebeu antes. Olhou para Felipe, depois para Maurício. Um sorriso quase imperceptível apareceu em seu rosto.
— Vou ali pegar água.
Disse simplesmente e saiu andando. Maurício acompanhou o amigo com os olhos. Quando voltou a olhar para frente... Felipe já estava parado diante dele.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio, nenhum parecia saber exatamente por onde começar. Foi Felipe quem respirou fundo primeiro.
— Desculpa.
Maurício ergueu uma sobrancelha.
— Pelo quê?
Felipe passou a mão pela nuca. Constrangido.
— Pelo que aconteceu ontem.
Maurício mordeu discretamente o lábio para esconder um sorriso.
— O quê exatamente?
Felipe fechou os olhos por um instante.
— Não faz isso comigo.
— Fazer o quê?
— Fingir que você não sabe.
Maurício já sorria abertamente.
— Eu só queria entender qual parte.
Felipe apontou para o chão.
— O vômito. — Maurício demorou exatamente dois segundos para responder. — Ah... Achei que você tava falando do que aconteceu antes.
Silêncio.
Felipe encarou Maurício. Maurício encarou Felipe.
Os dois começaram a rir ao mesmo tempo. Uma risada baixa, quase cúmplice. Fernando, do outro lado da quadra, interrompeu o alongamento.
— Queria aproveitar pra te agradecer pelo presente. Não tive essa oportunidade antes.
Felipe sorriu.
— Que presente?
Colocou os braços para trás e mexeu os pés como uma criança que havia aprontado.
— Agora é você que tá se fazendo de desentendido.
— Não tô sabendo de presente nenhum. — Olhou pro lado. — Mas seja lá quem te deu, deve estar muito feliz que gostou.
Fernando olhou para os dois, depois olhou para Lucas, que voltava com duas garrafas d'água.
— Ô.
Lucas acompanhou seu olhar.
— Hum?
Fernando apontou discretamente para Felipe e Maurício. Os dois ainda riam de alguma coisa que claramente só fazia sentido para eles.
— Tem alguma coisa muito estranha acontecendo ali.
Lucas observou a cena por alguns segundos. Sorriu de canto.
— Tenho um palpite
Pegou a própria garrafa, deu um gole.
— Mas acho melhor a gente fingir que não percebeu... por enquanto.
Fernando franziu a testa.
— "Por enquanto"?
Lucas apenas sorriu.
— Confia em mim.
Fernando conhecia aquele sorriso. Era exatamente a expressão que Lucas fazia antes de contar uma fofoca. E teve a impressão de que estava completamente por fora da história.
O treino terminou pouco depois do meio-dia. Murilo reuniu rapidamente o grupo no centro da quadra. Repassou os horários, falou sobre a viagem da semana seguinte. Lembrou da importância de descanso, alimentação e pontualidade. Era o mesmo discurso de sempre.
Mas, daquela vez... Felipe prestou menos atenção do que gostaria. Murilo liberou o elenco. Em poucos minutos, o ginásio voltou a esvaziar. Fernando saiu reclamando que o treino parecia mais longo quando estava de ressaca, Gabriel respondeu que isso se chamava consequência. Laura apareceu para buscar Gabriel.
Os dois seguiram discutindo qual restaurante escolheriam para o almoço.
Lucas e Maurício caminhavam lado a lado em direção ao estacionamento. Conversavam sobre qualquer coisa. Na verdade... sobre tudo, menos o beijo.
— Ei.
Os dois pararam. Felipe vinha alguns metros atrás, as chaves do carro giravam distraidamente entre os dedos. Olhou primeiro para Lucas. Depois para Maurício.
— Querem carona? Juro que botei o carro pra lavar hoje cedo.
Lucas abriu um sorriso imediatamente.
— Sempre.
Felipe riu.
— Imaginei.
Os três seguiram até o carro. Felipe destravou as portas. Lucas esperou, olhou para Maurício. Esperou mais um segundo.
Maurício, sem pensar muito... abriu a porta do passageiro e entrou, como se fizesse aquilo diariamente. Só percebeu depois que já estava sentado.
Lucas observou a cena. Sorriu discretamente antes de entrar no banco de trás.
"Interessante..."
Felipe ligou o carro. O rádio acendeu automaticamente. Uma música baixa preenchia o silêncio. Nenhum dos dois se preocupou em trocar de estação.
Os primeiros minutos transcorreram em absoluto silêncio. Não havia desconforto, havia novidade. Felipe dirigia com as duas mãos no volante, de vez em quando lançava um olhar rápido para Maurício.
Maurício fingia olhar a cidade pela janela, mas o reflexo do para-brisa o entregava. Os dois sorriam sem motivo. Lucas acompanhava tudo pelo retrovisor.
Alternava o olhar entre um e outro. Esperou. Esperou mais um pouco. Até que não resistiu.
— Vocês tão muito estranhos.
Os dois responderam ao mesmo tempo.
— Não tô.
— Não tô.
Silêncio.
Os três se encararam. Lucas começou a rir.
— Tá bom. Entendi.
Felipe também riu. Maurício abaixou a cabeça.
— Deve ser cansaço. Acho que ninguém dormiu bem essa noite.
Lucas fez uma expressão teatral.
— Claro. Muito cansados. Especialmente depois do tênis do MauMau ter exalado um aroma azedo pela casa.
Maurício pegou a primeira coisa que encontrou no console. Uma embalagem vazia de chiclete, jogou na direção de Lucas.
— Cala a boca.
— Acertou. Mas continuo certo.
Felipe balançou a cabeça, rindo sozinho. Era estranho. Os dois estavam leves, quase felizes. E isso aparecia em detalhes muito pequenos. Felipe cantarolava baixinho junto com o rádio.
Maurício batucava distraidamente os dedos na própria perna. Os silêncios já não pesavam, pareciam suficientes.
O carro entrou no condomínio. Felipe estacionou em frente ao bloco C, desligou o motor. Ninguém fez menção de sair imediatamente. Lucas foi o primeiro.
— Valeu pela carona.
— Imagina. Sempre que quiserem, só atravessar a rua.
Saiu do carro. Fechou a porta. Mas, em vez de seguir para o elevador... parou discretamente ao lado do veículo. Observando.
Maurício soltou o cinto de segurança, virou-se para Felipe. Os dois sorriram ao mesmo tempo.
— Então...
Disseram juntos.
Riram outra vez.
— Pode falar.
Felipe fez um gesto.
Maurício respirou fundo.
— Acho que...
A frase morreu antes de nascer. Felipe também não parecia encontrar palavras. O silêncio voltou. Mas agora era diferente. Nenhum dos dois sabia qual era o protocolo.
Apertavam as mãos?
Só diziam "até amanhã"?
Depois de ontem... parecia pouco.
Depois de ontem... qualquer coisa parecia pouco.
Felipe resolveu primeiro. Abriu os braços discretamente.
— Posso?
Maurício respondeu apenas aproximando-se. O abraço aconteceu meio torto, um pouco tímido. Um pouco longo demais. Nenhum dos dois sabia exatamente quando era a hora de soltar.
Quando finalmente se afastaram... continuavam sorrindo.
Felipe coçou a nuca.
— Até amanhã.
— Até.
Maurício saiu do carro, fechou a porta. Deu dois passos, voltou. Bateu levemente na janela.
Felipe abaixou o vidro.
— Hm?
Maurício sorriu.
— Obrigado... pela carona.
Felipe riu.
— Dessa vez sem incidentes.
— Bem melhor assim.
Os dois trocaram mais um sorriso. Felipe finalmente arrancou com o carro. Lucas, que assistiu absolutamente tudo encostado na parede do bloco, esperou o veículo desaparecer na esquina.
Só então olhou para Maurício. Cruzou os braços. Abriu um sorriso perigosamente conhecido.
— Maumau...
Maurício nem precisou perguntar. Sabia exatamente aquele tom. E sentiu que o momento mais difícil ainda estava por vir. Lucas esperou o carro desaparecer na esquina, só então virou lentamente para Maurício.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio. Maurício já conhecia aquela expressão. Lucas estava prestes a dizer alguma coisa, completamente direto quando queria ser.
Os dois entraram no prédio. O elevador chegou quase imediatamente, assim que as portas se fecharam, Lucas cruzou os braços. Olhou demoradamente para Maurício.
Sorriu.
— Maumau...
Maurício suspirou.
— Hum?
— Acho que você tem alguma coisa pra me contar.
Maurício manteve os olhos fixos no painel do elevador.
— Não tenho.
— Tem.
— Não.
— Tem sim.
— Lucas...
— Maurício.
Silêncio. O elevador começou a subir. Lucas não desviava o olhar. Maurício tentou mudar de assunto.
— Cê viu o Fernando cantando ontem?
— Vi.
— Foi horroroso.
— Foi.
Pequena pausa.
— Agora responde.
Maurício bufou.
— Responder o quê?
Lucas sorriu daquele jeito insuportavelmente calmo.
— Desde quando cê tá pegando o capitão do time.
Maurício quase engasgou.
— LUCAS!
No mesmo instante...As portas do elevador se abriram. Os dois congelaram. Fernando estava parado bem em frente, com o celular de Lucas na mão. Ia tocar a campainha, não precisou.
Olhou para Lucas, depois para Maurício, depois novamente para Lucas.
Silêncio.
Um silêncio enorme. Fernando levantou lentamente o celular.
— Eu vim trazer isso aqui... — Disse devagar. — Você esqueceu no vestiário.
Ninguém respondeu. Fernando continuou olhando para os dois como se tentasse decidir se realmente tinha ouvido o que imaginava. Então perguntou, muito calmamente:
— Pera aí...
Franziu a testa.
— Eu ouvi direito?
Lucas arregalou os olhos. Maurício parecia ter esquecido completamente como respirar. Os três permaneceram imóveis durante alguns segundos, até que Lucas fez a única coisa que sabia fazer quando entrava em pânico.
Sorriu.
— Então... Vai entrar?
Fernando continuou encarando os dois, depois olhou novamente para Maurício. Um sorriso muito pequeno começou a surgir no canto de sua boca.
— Rapaz... — Disse balançando a cabeça. — Acho que eu perdi alguns capítulos dessa história.
Maurício fechou os olhos.
— Eu quero morrer.
Lucas deu um tapinha nas costas do amigo.
— Relaxa. — Sorriu. — Pior que vomitar no pé dele... acho difícil ficar.
Maurício virou tão rápido que quase acertou Lucas com a mochila.
— COMO É QUE VOCÊ SABE DISSO?
Lucas arregalou os olhos. Fernando também. Silêncio.
Lucas levou as duas mãos ao rosto.
— Talvez eu tenha comentado por cima.
Maurício respirou fundo. Muito fundo, depois apontou para o elevador.
— Entra. Os dois. Agora.
Fernando olhou para Lucas. Lucas olhou para Fernando. Os dois sorriram ao mesmo tempo, Fernando entrou no apartamento ainda segurando o celular.
— Tá. Agora eu realmente quero ouvir essa história desde o começo.
Maurício olhou para o teto. Suspirou resignado. Tinha levado meses para esconder seus sentimentos. Menos de vinte e quatro horas para o Lucas começar a colocar tudo a perder. E, conhecendo Fernando... aquela conversa prometia ser tudo, menos curta.
🏐
Fim do capítulo.
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Nos vemos na próxima partida.
— Henrique Bravi
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