TERCEIRO SET

3 Capítulo 02: Eu Quero Ser como Você


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O refeitório do Matero era maior do que Maurício imaginava.

Mesas longas dividiam o salão em corredores largos, enquanto paredes de vidro deixavam entrar a luz do começo da tarde. O ambiente misturava vozes, bandejas, talheres e o cheiro da comida recém-servida. Em um canto, atletas do basquete disputavam quem conseguia empilhar mais copos sobre a mesa. Perto da janela, duas jogadoras do futebol analisavam um tablet entre uma garfada e outra.

Era barulhento. Mas havia uma ordem invisível naquele caos, cada grupo parecia saber exatamente onde pertencia.

Maurício não.

Entrou devagar, segurando a bandeja com mais força do que precisava. Os olhos percorriam o salão sem realmente procurar a comida. Procuravam um lugar onde pudesse simplesmente existir sem chamar atenção.

Foi quando ouviu uma voz atravessar o refeitório.

— Ô, Maurício!

Lucas acenava de uma mesa no centro do salão. Ao lado dele estavam dois rapazes que Maurício ainda não conhecia.

— Aqui!

Maurício sorriu pela primeira vez desde que deixou Felipe no corredor. Atravessou o salão.

— Achei que você tinha se perdido.

— Quase isso.

Lucas riu e puxou uma cadeira.

— Senta aí.

Assim que Maurício acomodou a bandeja, Lucas começou as apresentações.

— Esses dois me adotaram faz uns quinze minutos.

O rapaz sentado à esquerda abriu um sorriso largo antes mesmo que Lucas terminasse a frase.

— Gabriel Roman.

Estendeu a mão sobre a mesa.

— Levantador.

— Maurício.

— Eu sei.

Gabriel apertou sua mão com naturalidade.

— Bem-vindo.

O outro rapaz demorou um pouco mais para levantar os olhos do prato. Tinha os cabelos levemente bagunçados, postura relaxada e um jeito quase elegante até para segurar o garfo.

— Fernando Vetor.

Apertou sua mão rapidamente.

— Também levantador.

Depois voltou a comer como se aquilo encerrasse o protocolo. O silêncio durou menos de três segundos. Fernando largou os talheres.

— Então... — Olhou diretamente para Maurício. — O que você achou do clube?

Maurício ainda pensava na conversa com Felipe.

— É... diferente do que eu imaginava.

Fernando sorriu.

— Grande, né?

Sem esperar resposta, apontou o garfo para o teto.

— Esse prédio foi reformado há três anos. A academia nova fui eu quem inaugurou.

Lucas arqueou uma sobrancelha.

— Você inaugurou?

— Primeiro atleta a treinar lá, então...

Gabriel deu uma risada baixa. Fernando continuou, completamente sério.

— Também fui o primeiro a usar o vestiário novo.

Lucas começou a rir.

— Isso é uma conquista agora?

Fernando deu de ombros.

— Tudo é pioneirismo se você for maluco o suficiente.

Gabriel balançou a cabeça.

— Não escuta metade do que ele fala.

As risadas aliviaram alguma coisa dentro de Maurício. Pela primeira vez desde que chegou ao Matero, a conversa não exigia cuidado.

Gabriel apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— E aí? Como tá sendo esse primeiro dia?

Maurício girou lentamente o copo entre as mãos.

— De grandes emoções, eu diria.

Gabriel observou seu rosto por um instante. Então sorriu de canto.

— Não sobreviveu ao ritual de iniciação com o Felipe?

Maurício ergueu os olhos, surpreso. Acabou sorrindo também, sem graça. Fernando soltou uma risada curta.

— Relaxa. — Apontou discretamente o garfo na direção de Maurício. — Ele não discrimina ninguém.

Fez uma pausa teatral antes de concluir:

— É igualmente chato com todo mundo.

A mesa inteira riu, incluindo Maurício. E naquele instante a lembrança da conversa no corredor pareceu perder um pouco do peso que carregava.

O almoço terminou entre histórias que Maurício já não conseguia distinguir se eram verdadeiras ou aumentadas por Fernando. Em algum momento, Lucas já ria antes mesmo do final das frases.

— Eu tô falando sério. — Fernando apoiou o copo sobre a mesa. — O fisioterapeuta disse que eu tinha a melhor postura do elenco inteiro.

Gabriel ergueu uma sobrancelha.

— Ele disse que você precisava parar de dormir torto.

— É praticamente um elogio.

Lucas balançou a cabeça.

— Impressionante como eu sinto que não deveria confiar em nenhum ponto de vista seus sobre qualquer história.

Fernando sorriu satisfeito.

— É um talento.

As bandejas começaram a ser empilhadas. O movimento do refeitório diminuía aos poucos, enquanto atletas voltavam para treinos, reuniões ou avaliações. Gabriel levantou-se primeiro.

— Bora. Ainda temos que mostrar o resto do clube pros calouros.

Fernando fez uma expressão ofendida.

— "Mostrar"? Isso aqui é praticamente uma visita guiada.

— Você vai cobrar ingresso?

— Se continuar vindo tanta gente me conhecer, talvez.

Gabriel apenas riu. Os quatro deixaram o restaurante. O corredor principal estava mais cheio do que pela manhã. Uma equipe da base do futebol atravessou correndo depois de ouvir o apito de um preparador físico.

Duas atletas do basquete discutiam uma jogada desenhando setas invisíveis no ar. Funcionários da manutenção trocavam uma luminária perto da entrada do ginásio. O clube respirava.

Gabriel caminhava sem pressa, cumprimentava praticamente todo mundo. Sabia o nome dos seguranças. Perguntava pela filha da moça da limpeza, parava para ouvir um comentário de um fisioterapeuta antes de seguir andando.

Lucas percebeu.

— Você conhece todo mundo daqui?

Gabriel sorriu.

— Depois de sete anos... É difícil não conhecer.

Fernando apontou para ele com o polegar.

— Esse aí conversa até com os armários do vestiário.

— Uai, culpe a minha mãe pelo meu carisma.

Lucas riu. Maurício apenas observava. Era curioso perceber como Gabriel parecia pertencer àquele lugar sem precisar provar nada. Fernando era o contrário, parecia precisar anunciar a própria presença a cada cinco minutos. E funcionava, as pessoas sempre sorriam com ele.

Gabriel olhou para Maurício.

— Tá mais tranquilo?

Maurício assentiu.

— Acho que sim.

— O primeiro dia costuma ser uma pancada.

— O meu foi tranquilo.

Fernando respondeu imediatamente.

Gabriel olhou para ele.

— Você chorou porque esqueceu o travesseiro.

Fernando fez uma careta.

— Eu tinha dezoito anos.

Lucas começou a rir.

— Você chorou por causa de um travesseiro?

Fernando cruzou os braços.

— Não era um travesseiro qualquer, foi a Laura que havia me dado aquele travesseiro. A gente tinha acabado de começar a namorar na época.

Gabriel passou a mão no rosto, vencido pela própria risada.


— Pouco tempo depois ela se casou comigo.

Até Maurício riu.

— Como assim?


— Longa história, depois a gente conta pra vocês.

A tensão que carregava desde a conversa com Felipe parecia finalmente começar a se dissolver. Seguiram por uma alameda cercada por árvores até um conjunto de edifícios baixos, todos tinham a mesma arquitetura.

Concreto aparente.

Varandas estreitas.

Janelas grandes.

Nada luxuoso, mas tudo muito bem cuidado. Gabriel apontou para os prédios.

— Aqui ficam os alojamentos dos atletas.

Fernando completou:

— Veteranos, base e contratados. Cada um em um bloco diferente.

Lucas olhou ao redor.

— Então vocês moram aqui também?

— Nem todos. Geralmente os novatos, quem é de outra cidade, mas quem tem mais tempo acaba morando fora pra ter mais privacidade. Existem alguns apartamentos mais completos do clube nas proximidades, que eles cedem a alguns atletas, outros já conseguem comprar seus próprios apartamentos quando o salário melhora. — Gabriel respondeu. — Só em véspera de jogo importante que a gente é obrigado a ficar concentrado aqui. Facilita as viagens.

Maurício acompanhou a frase em silêncio. Aquele clube não era apenas um lugar para treinar, era onde aquelas pessoas construíam a própria vida.

Gabriel colocou as mãos nos bolsos.

— E como eles decidem quem fica no alojamento ou é contemplado com um apê? — Lucas parecia curioso.

— Bom... Se você for uma promessa do futebol que pode trazer milhões ao clube, facilita bastante. — Riu sem achar tanta graça. — Mas vamos passar na administração e descobrir o futuro de vocês.

Os quatro retomaram a caminhada. Sem perceber, Maurício já não andava alguns passos atrás dos outros. Agora caminhava ao lado deles, como se, pouco a pouco, o Matero começasse a abrir espaço para que ele também encontrasse um lugar ali.

A administração ocupava um prédio baixo, separado dos ginásios por um pequeno jardim. O corredor era silencioso, bem diferente do restante do clube.

Uma placa na parede indicava:

Alojamentos — Registro de Atletas

Gabriel empurrou a porta.

— Boa tarde, dona Célia.

A mulher atrás do balcão nem precisou levantar os olhos dos papéis.

— Boa tarde, Gabriel. Já trouxe mais dois pra dar trabalho?

— Dessa vez eu juro que são comportados.

Fernando apontou discretamente para Lucas.

— Esse aí eu não garanto.

Lucas arregalou os olhos.

— Mas eu acabei de chegar!

— Justamente.

A senhora sorriu enquanto procurava duas pastas em um arquivo metálico.

— Lucas Pequeno...

Retirou um envelope.

— Maurício Oliveira...

Outro envelope.

Empurrou ambos sobre o balcão.

— Chaves, cartão de acesso, regulamento do condomínio e a planta do bloco.

Lucas abriu imediatamente o envelope.

— Nossa...

Maurício fez o mesmo.

Uma chave. Um cartão azul-marinho com o escudo do Matero e um pequeno papel plastificado.

Bloco C — Apartamento 214

Lucas levantou os olhos.

— Espera...

Olhou para Maurício.

— Duzentos e quatorze?

Maurício conferiu novamente.

Sorriu.

— Também.

Fernando bateu palmas uma única vez.

— Pronto. Agora vocês já têm um casamento arranjado.

Lucas começou a rir.

— Pelo menos eu já sei que ele não ronca.

Maurício respondeu no mesmo tom.

— Você acabou de me conhecer.

— Verdade. Então ainda existe esperança.

Gabriel balançou a cabeça.

— Não escutem nada do Fernando durante a primeira semana.

— Só durante a primeira?

— Depois vocês entendem o porquê por vocês mesmos.

Dona Célia retirou os óculos.

— Algumas regras. Nada de visitas depois das dez. Nada de som alto. Nada de fumaça nos quartos.

Fernando levantou discretamente a mão.

— Nem a natural?

Ela nem deixou terminar.

— Fernando.

— Tá bom.

Gabriel cochichou para Maurício.

— No primeiro ano ele invocou que era Rastafari, ele ficou horrível de dread.

— Meus dreads eram icônicos, tá.

Fernando corrigiu.

— Nando, você ficou dois anos sem pegar ninguém.

Até dona Célia sorriu antes de voltar aos papéis.

Gabriel pegou o endereço do condomínio.

— O bloco de vocês fica perto da academia.

Lucas observava o mapa como quem tentava decorar um labirinto. Maurício guardou lentamente o cartão de acesso na carteira.

— Ainda não acredito que vocês ficaram com um apartamento. Eu morei no alojamento por quase dois anos.

— Vamos fingir que não te confiaram um apartamento porque era melhor ficarem de olho em você 24hrs por dia. — Gabriel interrompeu.

— Não liga pra ele, meninos. Desde que se casou com minha ex ele não larga do meu pé.

— Ele nunca supera a dor de cotovelo. — Bagunçou levemente o cabelo de Fernando enquanto ria. — Mas é bem raro darem apartamentos a novatos do vôlei.

— Isso é bom, né? — Maurício queria ter certeza antes de comemorar.

— A boa notícia é que eles têm altas expectativas em vocês. — Fernando fez uma pausa. — A má notícia é que eles têm altas expectativas em vocês.

Quando deixaram o prédio administrativo, Fernando consultou o relógio.

— Tenho fisioterapia em quinze minutos.

Gabriel fez uma careta.

— Eu preciso ir pra musculação.

Olhou para os dois novatos.

— Conseguem achar o apartamento sozinhos?

Lucas ergueu o celular.

— Mandaram a localização por mensagem. Se esse negócio estiver certo... Acho que sim.

Fernando sorriu.

Os quatro seguiram juntos pela alameda. Na primeira bifurcação, Fernando entrou por um caminho. Levantou a mão em despedida.

— Até amanhã, calouros.

Poucos metros depois foi a vez de Gabriel. Antes de sair, olhou para Maurício por um instante. Como se percebesse alguma coisa que os outros não viam.

— Ei.

Maurício levantou a cabeça.

— O primeiro dia nunca parece o lugar onde a gente vai passar os próximos anos. — Fez um pequeno sorriso. — Curte o Matero um pouco também.

Maurício observou Gabriel se afastar, depois olhou para Lucas. Os dois estavam sozinhos pela primeira vez desde que haviam chegado ao clube. Lucas ergueu o celular novamente.

— Então... O condomínio 214 fica pra esquerda ou pra direita?

Maurício pegou o aparelho da mão dele. Os dois ficaram alguns segundos tentando entender o trajeto. Então começaram a rir.

Talvez morar juntos começasse exatamente assim: sem saber para onde ir.

O condomínio ficava alguns minutos afastado do centro esportivo. Os prédios eram altos, organizados em torno de um jardim interno onde algumas bicicletas permaneciam apoiadas sem corrente, crianças corriam como se ninguém ali se preocupasse muito com isso.

Lucas olhou em volta.

— Achei que seria bem menor.

— Eu também. Mas pelo que disseram, não é um condomínio do clube, somente alguns apartamentos, o restante é residencial comum.

Seguiram as placas até o bloco C.

O elevador demorou tanto que acabaram escolhendo a escada. No segundo andar, Lucas conferiu novamente o número da porta.

— Duzentos e quarenta e um?

— Duzentos e quartoze.

Maurício tirou a chave do bolso. Por um instante, os dois apenas ficaram olhando para a fechadura. Lucas sorriu.

— Quer fazer as honras?

Maurício respirou fundo e girou a chave.

O apartamento era simples. Uma sala pequena integrada à cozinha, dois quartos, um banheiro. Uma varanda estreita voltada para as quadras externas. Ainda havia cheiro de tinta.

Sobre a bancada da cozinha, duas caixas de papelão. Cada uma trazia uma etiqueta.

Bem-vindos ao Matero.

Lucas foi o primeiro a abrir. Dentro havia algumas panelas, pratos, copos, talheres e um manual encadernado.

— Eles entregam kit sobrevivência?

Maurício abriu a outra caixa. Produtos de limpeza, um jogo de toalhas, duas roupas de cama embaladas.

— Acho que sim.

Lucas caminhou até a geladeira.

Abriu.

Ficou em silêncio.

Depois olhou para Maurício.

— Ela vem... vazia.

— Acho que é assim que funciona uma geladeira.

Lucas fez uma expressão séria.

— Eu tava torcendo pra existir um programa de alimentação espontânea.

Maurício riu.

— Se a gente tivesse no alojamento não iria precisar cozinhar.

Lucas fechou a porta da geladeira lentamente.

— Cozinhar? Eu não sei nem como ligar o fogão.

Maurício pensou alguns segundos.

— Nem um ovo você sabe fritar?

Lucas assentiu.

— Isso eu sei. Só não a ponto de oferecer a outro ser humano.

Os dois ficaram em silêncio.

Depois começaram a rir.

— Sua sorte é que eu aprendi com a minha mãe. Mas você fica com a limpeza.

— Justo.

Escolheram os quartos sem qualquer discussão. Lucas ficou com o da esquerda simplesmente porque entrou primeiro. Maurício ocupou o outro. Enquanto desfazia parte da mala, ouviu Lucas gritar da sala.

— Maurício!

— O quê?

— A internet tem senha.

— E?

— Qual é?

— Não sei, tenta olha no fundo do roteador.

— Achei... é Matero123. Bastante original.

Maurício balançou a cabeça sorrindo. Pouco depois, levou a última caixa para o quarto, a janela dava para uma parte do complexo esportivo. De onde estava, conseguia enxergar o topo do ginásio principal. Atletas caminhavam entre os prédios. Funcionários atravessavam a alameda. A rotina seguia.

Apoiou os braços no parapeito. Naquela manhã, o Matero ainda parecia grande demais. Agora, pela primeira vez, começava a parecer habitável. Atrás dele, Lucas apareceu segurando duas canecas que encontrou em um armário.

— Café?

Maurício olhou para as canecas.

— Tem café?

Lucas sorriu.

— Não. Mas agora a gente tem duas canecas. É um começo.

Maurício pegou uma delas e sorriu novamente. Talvez fosse mesmo.

— Ei... Se quiser falar sobre o que rolou quando eu deixei vocês dois sozinhos... — Deu de ombros. — Fica à vontade.

Maurício demorou alguns segundos para responder. Continuava passando os dedos cobre a caneca vazia.

— Ah... — Suspirou. — Não vale a pena.

Lucas permaneceu em silêncio. Maurício sorriu de canto.

— Foi um papo estranho.

Lucas encostou no guarda-corpo da varanda, o sol de fim de tarde esquentava sua pele.

— Estranho ruim?

Maurício pensou. Era difícil responder, não tinha sido uma discussão, não tinha sido uma briga, tão pouco tinha sido exatamente uma conversa.

— Não sei. Foi só... esquisito.

Lucas assentiu devagar. Como se aquela resposta fosse suficiente.

— É... Talvez ele só era diferente da versão que você idealizava. Ele ser um atleta excelente, um líder, não faz dele uma pessoa excepcional.

Fez uma pequena pausa.

— Ou também podia estar num dia ruim. Hoje o dia foi incrível só pra gente, que acabou de chegar. Pra quem tá aqui há anos não deve ser nada demais.

Maurício levantou os olhos.

Lucas sorriu.

— Ou talvez eu só esteja falando difícil porque ainda não almocei direito.

Os dois riram. O assunto morreu ali, sem insistência. Lucas abriu novamente a geladeira. Ficou alguns segundos olhando para o vazio absoluto, depois fechou a porta.

— Acho que antes de qualquer coisa... — Pegou o celular no bolso. — A gente devia ir no mercado.

Maurício olhou para a cozinha.

Duas panelas.

Quatro pratos.

Nenhum alimento.

Sorriu.

— Acho que você tem razão. Caso contrário, vamos gastar nosso primeiro salário todo em delivery e a gente nem recebeu ainda.

— Ótimo.

Lucas já caminhava em direção à porta, voltou duas vezes para conferir se havia trancado a porta. Maurício o acompanhou rindo, sentindo a ansiedade sair de seu corpo pela primeira vez desde que saiu de casa.

O mercado ficava a poucas quadras do condomínio. Foram a pé. A lista de compras durou menos de dois minutos.

— Arroz.

— Feijão.

— Macarrão.

— Ovo.

Lucas levantou a cabeça.

— Você percebeu que nossa dieta parece a de dois universitários fudidos?

— A gente acabou de virar praticamente isso. A única diferença é que a gente não paga aluguel.

Lucas deu de ombros.

— Justo.

Empurravam o carrinho devagar pelos corredores. Maurício comparava preços, lia rótulos, pegava um produto, voltava para o outro. Lucas observou a cena por alguns segundos.

— Você faz compra igual minha mãe.

— Isso é um elogio?

— É uma constatação.

Pegou um pacote qualquer da prateleira.

— Esse aqui.

Maurício olhou o preço.

— Esse custa quase o dobro.

Lucas devolveu lentamente.

— Eu definitivamente não sobreviveria sozinho.

Passaram pela seção de laticínios. Uma placa enorme anunciava:

LEVE 18, PAGUE 15

Lucas parou imediatamente.

— Maurício.

— Hum?

— Economia.

Maurício continuou andando. Cinco segundos depois percebeu que o carrinho havia parado. Virou-se. Lucas colocava caixas de leite uma atrás da outra.

— O que você tá fazendo?

— Aproveitando uma oportunidade.

— Lucas... A gente mora em duas pessoas.

— Exatamente.

— Dezoito caixas?

— Mas olha o desconto.

Maurício apoiou as mãos no carrinho.

— Você faz ideia de quanto pesa dezoito caixas de leite?

Lucas parou, olhou para o carrinho, depois para Maurício, depois novamente para o carrinho.

— Eu realmente não pensei nessa parte.

Maurício começou a rir.

— Pode colocar.

— Sério?

— Depois a gente descobre como leva.

Lucas sorriu satisfeito.

— Sabia que você ia entender a visão.

Pouco depois seguiram para a fila do caixa. Enquanto esperavam, Lucas congelou por um instante. Abaixou um pouco a voz.

— Amigo...

Maurício continuava olhando o celular.

— Hum?

— Não olha agora...

Naturalmente, Maurício olhou.

Lucas fechou os olhos por um segundo.

— Eu falei pra não olhar.

Maurício já o tinha visto. Felipe. Na seção de frios. Escolhia algumas bandejas de queijo como qualquer outra pessoa faria numa quarta-feira à tarde.

Vestia uma camiseta preta simples, boné. Nenhum sinal do capitão do Matero. Parecia apenas mais um civil fazendo compras.

Maurício desviou o olhar imediatamente.

— Vamos terminar logo isso.

Lucas percebeu a mudança no tom. Não insistiu. Alguns minutos depois, empurravam o carrinho em direção à saída. Maurício respirou aliviado. Talvez conseguisse ir embora sem precisar...

— Boa tarde.

A voz surgiu ao lado.

Felipe.

Segurava apenas uma sacola. Olhou primeiro para Lucas, depois para Maurício.

— Tudo bem?

Lucas sorriu educadamente.

— Boa tarde.

Maurício apenas fez um leve aceno com a cabeça, continuou andando. Felipe permaneceu parado por um instante, depois seguiu seu caminho como se nada tivesse acontecido.

Nenhum comentário.

Nenhuma reação.

No estacionamento, Lucas finalmente encarou o problema. Olhou para o carrinho, depois para as dezoito caixas de leite.

— Talvez... A promoção tenha sido ambiciosa.

Maurício cruzou os braços.

— Talvez?

Lucas abriu o aplicativo.

— Quinze minutos.

— Tudo isso?

— Horário de pico.

Suspirou.

— E aparentemente nenhum motorista quer transportar um pequeno supermercado.

Maurício começou a retirar algumas sacolas do carrinho.

— Se precisar, a gente faz duas viagens.

— Ou quatro.

Uma voz interrompeu os dois.

— Vocês moram perto daqui?

Felipe. Já guardava suas compras no porta-malas. Lucas respondeu antes mesmo de pensar.

— No condomínio Lambari II.

— Conheço.

Fechou o porta-malas.

— Se quiserem, eu levo vocês.

Maurício abriu a boca.

— Não precisa...

— Perfeito! — respondeu Lucas.

Maurício virou lentamente para ele. Lucas sorriu sem graça.

— O aplicativo ia demorar.

Felipe apenas destravou o carro.

— Coloca as compras aí atrás.

As dezoito caixas de leite ocuparam quase metade do porta-malas. Lucas ajudava. Maurício permanecia parado por alguns segundos antes de finalmente pegar as últimas sacolas.

O trajeto começou em absoluto silêncio. Lucas, sentado no banco de trás ao lado das compras, não resistiu por muito tempo.

— A pré-temporada começa segunda, né?

Felipe assentiu, mantendo os olhos na avenida.

— Se ninguém morrer nos exames físicos.

Lucas riu.

— Ouvi dizer que o seu pai pega pesado.

Felipe corrigiu:

— O treinador pega.

Lucas percebeu que tocou em um ponto sensível. Mais alguns segundos de silêncio.

— O Fernando comentou que vocês vão fazer um amistoso no fim do mês.

— Se o time estiver pronto.

— E vai estar?

Felipe deu um pequeno sorriso.

— Espero que sim.

Maurício observava a cidade pela janela. Não participou da conversa uma única vez. Quando o carro entrou na rua do condomínio, ele falou pela primeira vez.

— Pode deixar a gente aqui na portaria mesmo.

Felipe nem respondeu, cumprimentou o porteiro ao passar.

— Boa noite, seu Antônio.

O senhor sorriu imediatamente.

— Boa noite, Felipe. Sua gripe melhorou?

— Melhorou, graças a Deus.

— Que bom. Aquele chá que te passei é ótimo mesmo.

— Com certeza.

Maurício franziu discretamente a testa, Felipe conhecia o porteiro pelo nome. E o porteiro conhecia a rotina dele.

O carro continuou. Entrou na área interna do condomínio, parou exatamente em frente ao bloco C. Lucas olhou para Maurício, depois para Felipe.

— Ué... Você mora aqui também?

Felipe desligou o motor.

— Moro.

Maurício saiu rapidamente do carro.

— Não precisava se incomodar.

Felipe pegou sua única sacola.

— Não foi incômodo.

Apontou discretamente para o prédio ao lado.

— Meu bloco é aquele.

Lucas acompanhou o gesto. O bloco D. Separado do deles apenas por uma pequena alameda.

— Então... somos vizinhos?

Felipe sorriu de leve.

— Pelo visto.

Desejou boa noite e entrou no prédio. Os dois ficaram parados por alguns segundos. Lucas foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Bom... Pelo menos agora a gente sabe quem chamar quando comprar dezoito caixas de leite de novo.

Maurício soltou uma risada curta.

— Prefiro queimar na fogueira antes de pedir um favor a ele.

Mas seu olhar continuava preso ao bloco ao lado. Naquela manhã, Felipe parecia distante demais para ser alcançado. Agora, descobriu que bastava atravessar uma calçada para encontrá-lo.

E, por algum motivo, ainda não sabia dizer se aquilo era uma boa ou uma péssima notícia.

🏐

Fim do capítulo.

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Nos vemos quarta-feira, na próxima partida.

— Henrique Bravi