Túmulo das sete almas ~Hiatus~
8 Capitulo 8
Notas iniciais
Segundo dia
7h 30min (am)
Acordei uns minutos mais cedo do que pretendia e me contive em observar o teto, de lá de fora vinham sons de passos e conversas, possivelmente meus pais já deveriam ter acordado, para variar eles ficaram se olhando torto durante todo jantar e minha sorte foi poder me distrair tentando obrigar Charles a comer. Dormimos um pouco tarde, mas agora estava eu, as sete e meia da manhã deitado na cama a toa.
Talvez meu pai estivesse lendo o jornal e comentando sobre algum caso de algum menor de idade condenado a passar anos em algum reformatório, já isso era meio comum nesse lugar que não me orgulho de chamar de cidade. Aqui a partir dos onze anos de idade você já pode ser julgado e condenado a ir para os reformatórios.
Isso era bom por um lado, jovens infratores são interceptados antes de se tornarem realmente bandidos, os casos mais simples como roubo ou pichações eram resolvidos com um ou dois meses preso. O problema era que, assim como acontece com casos envolvendo os adultos, as pessoas se enganam, respirei fundo e minha mente começou a vagar em meio a lembranças do passado.
Eu certamente não tinha mais do que doze anos quando Jessie e eu tivemos que ir visitar Charles em uma delegacia, o encontramos em uma sala cheia de policiais, nós o vimos pelo lado de fora, através de um vidro, ele estava algemado e não deixaram que nós nos aproximássemos, eu não entendia o porquê, era ridículo para mim me privarem de falar com meu melhor amigo. O que ele iria me fazer? Ele era doce na época, conseguia ser mais tímido que eu e ainda conseguia ser engraçado. Como poderiam achar que ele seria capaz de cometer algum crime? Eu me lembro de quando a mãe dele nos viu, nós corremos para abraça-la, minha intenção era enchê-la de perguntas, mas Jessie não deixou.
Naquele dia, mais tarde, eu ouvi o avô de Charles dizer algo sobre a filha não estar bem o suficiente para tomar conta de si mesma, e que ele faria uma procuração para voltar a ser seu representante legal. Ela negou é claro, mas meses depois o velho acabou conseguindo a tal procuração com o apoio da família, inclusive de Scott, a partir dai ela passou a viver na casa do velho e só podia ver Charles quando o homem deixava ou quando brigava por isso, bem esse segundo caso era o mais frequente.
A porta do meu quarto se abriu lentamente e minha mãe entrou, coloquei a mão na frente dos olhos e me forcei a sentar. Ela sorriu ao ver que eu já estava acordado.
— Vá indo para o banho, eu vou acordar ele.
— Ok! – Murmurei caçando o infeliz do meu chinelo esquerdo, ou será que era o direito? Enfim... — Cadê você seu par de jarros desengonçado?
Depois do que pareceu um século eu o achei, Graças a Deus. Segui andando de fininho e sai do quarto, depois de uma rápida espiada confirmei que meu pai realmente estava lendo o jornal.
Sorri comigo mesmo.
Como sempre um ser previsível.
Voltei a me dirigir ao banheiro e olhei para o calendário pregado a parede uma vez. — O segundo dia está só começando não é mesmo?
~ # ~
8h 20Min (am)
Quando Charles apareceu arrumado e eu terminei de colocar o tênis, nós decidimos ir de uma vez, contrariando as mil e uma tentativas da minha mãe de nos obrigar a tomar o café da manhã, claro que isso não a impediu de nos empurrar duas maçãs.
— Pai, estamos prontos! – Avisei chegando perto dele.
— Já estou indo. – Ele jogou as chaves para mim. — Me esperem no carro.
— Ok!
Nós saímos e corremos até o carro.
—Charles tem algo que quero te dizer... Sei que não é o exato momento. Mas ontem eu procurei o perfil dos outros que sumiram, não achei nada tão grandioso, pensei que pudesse haver uma ligação entre eles e tudo mais, procurei algumas fotos deles... Pareciam felizes... – Eu sorri.
—E do nada tiveram que sumir. – Charles murmurou. — Por que esse louco faz isso?
Eu olhei nos olhos dele e dei de ombros.
—Eu só queria saber mesmo quando isso vai acabar! – Murmurei com sinceridade e desanimo, encarando meu pai sair de casa e começar a andar calmamente em nossa direção.
— Vem ele ai. – Comentei e encarei Charles, que estava sério. — Não faz essa cara, pense que você vai poder ao menos se despedir.
— Que seja. – Ele murmurou antes do meu pai entrar no carro.
~ # ~
Depois de quase meia hora de viajem finalmente chegamos a casa do velho, Charles saiu do carro rapidamente, mas como não teve coragem de ir em frente meu pai acabou tendo que chamar.
O velho apareceu e abriu o portão sem muito ânimo, ele parecia ainda mais velho, o cabelo estava mais branco e parecia ainda mais cansado, quando entramos ele nem sequer ousou encarar o neto, aquilo me irritou, eu não esperava que ele o recebesse com beijos e abraços, mas pelo menos um oi.
— Se quiserem falar com a minha filha vão encontra-la no jardim. – Ele disse antes de sair andando para a cozinha.
Como meu pai resolveu ficar nos esperando na sala, eu e Charles seguimos sozinhos para o jardim, sem pressa nenhuma, era como se ele quisesse adiar a dor.
— Não consigo acreditar... Eu só queria viver com ela novamente! – Ele sussurrou com uma ou outra lágrima caindo e eu suspirei.
— Não diz isso, sua mãe pode até ir, mas eu tenho certeza que ela volta, ela é bem teimosa afinal.
Ele conseguiu sorrir.
— Verdade.
O Jardim não era tão grande, mas era algo bonito de se ver, colorido e vivo pode definir bem, pelo menos para mim aquilo era um paraíso.
A mãe dele estava sentada em um banco cinza no meio das flores, ela se destacava por causa dos cabelos loiros presos com um laço vermelho e o vestido florido, ela se levantou rapidamente quando nos viu. — Charles?
— Mãe! – Ele correu para abraça-la, estava chorando de novo, eu fui me aproximando lentamente, ver ele nesse estado fazia meu coração partir em mil pedaços. — Não pode me deixar! – Ele implorou entre lágrimas.
— Ai meu amorzinho! – Era evidente que sofria igualmente. — Eu queria muito poder viver com você, mas não se preocupe, eu ainda vou voltar pra você. Tudo bem? Confia em mim?
— Sim! – Ela sorriu e o abraçou novamente, seus olhos passaram dele para mim e eu sorri, como uma forma silenciosa de dar apoio. Os dois se afastaram e Charles teve que se sentar no banco por ter ficado tonto.
— Olá Luc! – Ela me cumprimentou com um abraço caloroso. — É bom vê-lo, onde está Jessie?
Abri a boca para responder, mas não consegui dizer, minha garganta parecia não cooperar e meus olhos se encheram de lágrimas.
— Luc? – Ela me chamou e eu a encarei. — Está tudo bem? — Neguei, esperando mil e umas perguntas, mas ela não disse mais nada sobre isso. — Charles querido, deveria ter trazido Luc mais vezes, pelo menos agora ele não vai mais tentar picotar minhas flores.
— Ei! – Reclamei e ela sorriu. — Não me julgue se eu era uma criança curiosa.
— Claro que era. Quer ser biólogo não é mesmo?
— Sim. Quero ser botânico na verdade. – Respondi sem jeito, primeiro porque essa era a profissão dela e segundo porque nem minha própria mãe tocava nesse assunto, nunca comentei sobre meu sonho na presença dos meus pais e evitava o assunto em casa.
— Vai ter bastante trabalho, mas eu sei que consegue. Charles ainda quer ser detetive? – Ela perguntou e os olhos dele brilharam. Desde pequeno ele dizia isso, no inicio pensamos que era uma fase, mas ele não largou essa ideia até hoje, o problema não era a profissão e sim se ele teria coragem de investigar algum caso.
— Sim mãe e vou ser um desses bem famosos.
— Certamente vai.
Um dos dons dela era achar incrível todas as ideias loucas do filho, eu sei que isso é coisa de mãe, mas nem todas são assim, minha mãe é um amor, mas quando começa a estudar para alguma matéria do mestrado ela meio que me ignora, vai entender.
— Mãe? – Uma voz sutil e feminina chamou de longe e eu a encarei, era Kelly, irmã mais nova de Charles, eu não a via há muito tempo, ela sem dúvidas havia crescido bastante, o cabelo estava mais longo, ainda mantinha a cor de mel, mas as pontas estavam pintadas de azul e ela usava uma franja que quase tampavam os seus olhos azuis, suas roupas eram simples e neutras, influência do avô. Mas diferente de como sempre fazia antes, ela não correu e deu um abraço animado em Charles, na verdade ela nem sequer o encarou. — Está aqui o que pediu.
Ela entregou o bilhete rapidamente e, depois de olhar para o irmão com certo receio, saiu sem dizer mais nada.
— Aqui. – A mãe dele chamou nossa atenção e entregou o bilhete ao filho, que recebeu com certo receio. — Eu deixei na sua conta no banco, é a indenização que consegui daquele jornalista enxerido que falou mal de você e aqui está a senha e o cartão. – Ela tirou ambos do bolso. — Use isso para o que precisar.
— Mãe não...
— Eles me tratam como louca, vê se pode, mas eu estou sã e sei bem o que estão querendo, não vou te deixar dependendo daquele filho ingrato que tenho. Você e Kelly são meus únicos amores, mesmo que seu avô a tenha influenciado.
Os olhos de Charles se encheram de lágrimas e a mãe dele sorriu.
— Ai meu Deus, CÉSAR? – Ela gritou alguém atrás de mim, eu o encarei, já sabendo que se tratava do meu pai, a jovem mulher correu para abraça-lo, eles eram amigos de infância e essa amizade é o motivo de eu e Charles sermos amigos também. — Quanto tempo, senti saudades seu insensível descarado!
— Perdoe-me Lucy, mas o trabalho lota minha agenda. – Ele se defendeu, sorrindo levemente. — Agora, bem, seu pai quer que comece a se preparar, vai viajar daqui a pouco.
O ânimo dela se esvaiu e, quase de modo automático, lançou um olhar ao filho e depois ao amigo. — Cuida dele pra mim? Pelo menos enquanto eu estiver fora. – Ela pediu e meu pai consentiu. Satisfeita com a resposta ela se aproximou e abraçou Charles, que já estava chorando. — Eu te amo amorzinho e juro que vou voltar logo e vamos morar juntos de novo!
— Também te amo!
Eu me aproximei do meu pai, ele permaneceu estático, eu sabia que ele não se comoveria com a minha presença, mas ainda assim coloquei a cabeça no ombro dele e ele, surpreendentemente, começou a acariciar meu cabelo com delicadeza, meus olhos marejaram.
Quando Charles começou a se afastar da mãe, ela também estava chorando e caminhou até o velho irritante.
Ela andava sem muita pressa, ainda com os olhos fixos no filho, quando o pai dela a segurou e a puxou com força para as escadas Charles chorou de vez, seus joelhos foram de encontro ao chão e ele pôs a mão no rosto para tentar controlar as lágrimas, em vão.
Eu me ajoelhei ao lado dele e o abracei, meu pai apenas nos observava.
— Vamos Charles, você tem que ser forte! – Implorei e ele me olhou nos olhos, em dúvidas. — Sua mãe vai ficar mais triste se te ver chorando assim!
—Mas... – Ele parecia prestes a entrar em desespero. —Eu não tive culpa!
—Eu sei! Mas se você se entregar nunca vai provar isso a ele! — Eu o ajudei a levantar, mesmo ele ainda estando chorando.
Começamos a andar calmamente para a saída, pronto para irmos embora, quando Kelly nos chamou.
Charles se virou no mesmo instante e a menina praticamente se jogou nos braços dele, aquilo chocou a todos, desde o dia do julgamento ela nem sequer falou mais com ele.
— Irmão! – Ela começou a falar entre lagrimas e meu amigo sorriu. — Me perdoa por ter te denunciado naquela época, eu estava confusa e com medo, achei que você tinha... – Ela balançou a cabeça. —Mas você estava me salvando, desculpa!
— Tudo bem! – Charles ainda estava sorrindo e limpou a lágrima dela com a manga da blusa. — Cuida da mamãe ok? Eu vou sentir saudade!
— Eu cuido, mas queria você conosco, te amo!
— Eu também te amo! – Ele a abraçou uma ultima vez e começou a se afastar com calma.
— Está tudo bem? – Perguntei quando ele se aproximou.
— Sei lá, só não quero ir para casa agora! – Admitiu e eu lancei um olhar de cãozinho abandonado a meu pai, ele suspirou.
— Tudo bem, mas voltem para casa antes de anoitecer, onde querem ir?
— Não sei! A uma sorveteria seria bom. – Charles comentou e eu ri. — Afogar as mágoas no sorvete, nada melhor!
— Ok! Entrem no carro, vou leva-los a uma perto de casa.
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