Tórrido
3 Capítulo 2 - Dark Horse
Notas iniciais
Dançar sempre foi algo que eu amei fazer, pois nesses poucos momentos esqueço-me de tudo e de todos, sou preenchida por uma paz enorme e quase me sinto livre. Confesso que jamais pensei que a dança pudesse se transformar em uma terapia para mim, mas foi exatamente isso o que aconteceu. Sei que mesmo após três anos ainda carrego profundas cicatrizes e as levarei comigo para o resto da vida, pois o que passei jamais poderá ser esquecido, mas não há mais traumas a serem superados, apenas dolorosas lembranças que me dão uma única certeza, a de nunca mais me entregar a um homem de corpo e alma, nunca mais irei me sentir completamente vulnerável e dependente em um relacionamento, agora eu sou dona de mim mesma e não cometerei os mesmos erros do passado.
Fui criada apenas por minha mãe, Janine, uma vadia desalmada devo logo avisar, já que por puro capricho ela escondeu do meu pai minha existência. Se ela tivesse se dado ao trabalho de pelo menos ter sido uma boa mãe, eu poderia tentar compreender suas atitudes, mas Janine só pensa em si mesma e em sua carreira de megaempresária, por isso acabei sendo deixada de lado. Ao longo do tempo cresci sem ter nenhum gesto de cuidado e de carinho da mulher que se dizia minha mãe, todos os dias me perguntava o porquê das outras crianças serem amadas e cuidadas, o porquê delas possuírem o amor de ambos os pais e eu não. Na verdade eu nem sabia se tinha mesmo um pai, já que Janine nunca tocava no assunto, mas agora eu sei o porquê dela nunca ter me amado. Tudo isso me trouxe consequências, sequelas que me arrastavam ainda mais para o fundo do poço, acabei me transformando, segundo minha querida mãe, em uma rebelde sem causa. Eu queria apenas me sentir amada, ser preenchida por algo bom, por isso eu procurava de qualquer maneira suprir minha carência em busca de qualquer fonte inesgotável de amor e atenção, entretanto minhas tentativas de chamar atenção se tornaram um tanto exageradas e cometi diversas atitudes impensadas e aos dezessete anos tudo parecia estar começando a dar certo, pela primeira vez eu achei que havia encontrado a minha tão sonhada fonte de amor.
A busca desenfreada por atenção me levou a Leon , meu professor de álgebra, apesar de seu forte serem os números , ele sabia muito bem como usar as palavras para me confortar, mostrar que me entendia, Leon cuidava de mim, pelo menos era o que eu achava. Eu era uma jovem tola demais para perceber ao menos um palmo a minha frente, me vi totalmente e perdidamente apaixonada , mas eu deveria saber que homens tão perfeitos como Leon não existem, eles apenas nos levam ao fundo de um precipício, infelizmente não percebi isso a tempo. Engatamos um romance e durante seis meses tudo foi perfeito, até eu descobri que Leon era casado e tinha uma filha, a partir desse dia o meu príncipe virou um sapo. Ele não aceitou o termino do namoro e me disse coisas horríveis, dentre elas que nenhum homem iria desejar de verdade uma jovenzinha carente e problemática como eu, e que eu deveria dar graças aos céus por ter ele em minha vida. Acabei ficando presa a um relacionamento abusivo que só me fazia sofrer, já que não tinha a quem recorrer. Leon jamais me agrediu fisicamente, entretanto psicologicamente, ele acabou comigo de tal forma que nem minha mãe em todos esses anos havia me quebrado daquele jeito.
Após mais seis meses me relacionando com Leon, o velhote do meu pai finalmente descobriu minha existência. Depois de brigar com a minha mãe ele conseguiu minha guarda, foi então que me mudei para casa de Abe Mazur, troquei de escola e tive um alívio, já que o velhote fazia de tudo para recuperar o tempo perdido e me tratava como uma princesa. Minha paz, no entanto foi quebrada com uma visita repentina de Leon e suas agressões psicológicas, para minha sorte meu pai chegou e o colocou para fora. No fim minha mãe foi processada por negligência, Leon foi preso e sua licença foi cassada por ele ter se relacionado com uma aluna menor de idade.
Abe logo tratou de me colocar em uma terapia, a psicóloga decidiu que seria interessante que eu tivesse atividades em comum com ele para que pudéssemos criar um elo. A psicóloga também sugeriu a ideia de incluir atividades das quais eu gostasse. Foi ai que minha vida começou a mudar, meu pai é um homem com diversos negócios bem sucedidos e começou a me ensinar a administra-los, logo me interessei pelas suas diversas boates e casas noturnas, afinal era muito mais interessante do que discutir a bolsa de valores, e ficar em uma sala abarrotada de empresários velhos e chatos, acredite eu tentei , eles me devoravam com o olhar, eu me sentia um pedaço de carne no meio de urubus.
Com o tempo Abe viu o quanto eu me identificava com suas casas noturnas, me empenhei ao máximo em aprender sobre a administração e o funcionamento de cada uma delas, por isso Abe me deu maior apoio em assumir essa parte de seus negócios. Eu tinha carta branca para modificar, ampliar , acrescentar e mudar qualquer coisa para poder aumentar os lucro e no final o dinheiro seria em boa parte só meu. Sou muito boa no que faço devo admitir, não é atoa que a rede de boates que administro é a mais famosas e bem frequentada. Uma das melhores casas noturnas e a minha favorita, não era nada convencional, pois é uma casa de stripper. Passei noite após noite assistindo aquelas mulheres dançando, vendo como os homens babavam aos seus pés, vendo o poder que elas tinham sobre eles. Ao observar inúmeros shows e o efeito que causava nos diversos homens percebi que elas eram veneradas como deusas e tinham habilidade de sereias. As sereias são lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios, já aquelas dançarinas atraem os homens com os encantos de suas curvas e com a liberdade de seus movimentos, não por suas vozes como fazem as sereias, mas sim pela sensualidade de seus corpos que os deixavam loucos.
Certa noite decidi que queria ser como elas, me tornar não uma sereia que apenas encanta, mas sim uma Deusa que domina . Queria me sentir poderosa e desejada, ter poder sobre os homens, vê-los me venerar como uma verdadeira Deusa. Foi ai que nasceu a Afrodite, eu sabia que se eu fosse tão sexy e segura como ela, eu jamais passaria por aquele sofrimento de novo pois eu estaria no comando.
Logo eu me tornei a estrela da boate, os homens babavam aos meus pés e até os mais improváveis deles no fundo me desejavam, a prova viva disso é o russo que está sentado em um lugar com uma visão privilegiada, seus olhos me devoram, não só a meu corpo mas a minha alma e isso me desconcerta ao mesmo tempo em que me excita, esse homem me levará ao precipício mas apenas ele irá cair.
Make me your Aphrodite/ Me faça sa Afrodite
Make me your one and only/Me faça sua primeira e única
But don't make me your enemy/Mas não me faça sua inimiga
Katy Perry — Dark House
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