Títeres

4 Pulando em Poças


Notas iniciais
Esse capítulo tem mais ação. Daqui para frente os capítulos tenderão mais para esse lado. Dedicado novamente à Escritora Gi, minha leitora certa!!
Divirtam-se

A chuva chocava-se violentamente contra a janela, mas foi a brisa quente e que soprava ritmicamente no rosto de Valentin que o acordou. Sua visão ainda estava embaçada quando percebeu que estava sendo encarado muito de perto por um par de olhos quase felinos. Eram de um verde oceânico com raios dourados no meio, quase como se o mar quisesse envolver um pequeno sol. Os orbes pertenciam ao pequeno assassino.

- 4, o que você ta fazendo aqui? – perguntou o loiro.

O menino estava deitado sobre o corpo do militar encarando-o tão de perto que respirava um hálito morno em sua face. 4 estava desnudo como Valentin o deixara na manhã anterior.

- Esperando você acordar. Você está dormindo há mais de vinte e quatro horas.

- Nossa, quanto tempo. Pode sair de cima pra eu levantar e... Owww, você tá pelado! Levanta e vai se vestir.

- Você jogou minhas roupas fora. — disse o menor se levantando.

Valentin se levantou rápido demais , o que o deixou com vertigem. Além disso, seu corpo doía por não ter mudado de posição o dia inteiro. Cambaleando, foi até o armário do quarto e pegou uma de suas camisas.

-Toma aqui, vai ficar grande mas é só até irmos comprar roupas. Eu vou cozinhar alguma coisa e, quando a chuva passar, sairmos. – Ainda meio atordoado Valentin se dirigiu para o banheiro, aonde ia fazer sua higiene.

O moreno vestiu a camisa de mangas compridas e sentou-se na cama para esperar. Realmente a camisa ficou enorme. Chegava abaixo do joelho do menor e a manga teve que ser dobrada várias vezes para não taparem as mãos do menino, formando um circulo grosso de linho ao redor dos pulsos dele.

Ao sair do banheiro, o militar foi para a pequenina cozinha preparar o desjejum. Fez apenas ovos e esquentou o pão no forno. Ainda havia algumas frutas na fruteira e ele as colocou na mesa também.

-Venha comer. – Berrou do cômodo em que se encontrava para que 4 escutasse.

Em poucos segundos o menino encontrava-se sentado do outro lado do balcão que separava a cozinha da sala.. Valentin tinha arrumado o prato de seu mais novo companheiro de casa com ovos e pão, porém orientou- a comer alguma fruta antes e o garoto obedeceu. Comeram em silêncio.

Após terminar de comer, Valentin percebeu que 4 ainda comia. Deveria estar esfomeado. O loiro chegou à conclusão que o menino era magrelo não por não ter fome, mas por ao ter a possibilidade de comer.

- Você deve ter sofrido muito com aquele gordo nojento. – Valentin sussurrou. Mas para si do que para o garoto, que, se escutou, não esboçou reação.

A essa altura a chuva já havia parado. Apesar de ser outono, os dias estavam muito quentes, era esperado que chovesse em breve. E a chuva foi forte, porém breve. Valentin levantou-se sem dizer nada e lavou seu prato.

- Me espere aqui. – Disse e saiu da residência.

Quando voltou, trinta minutos depois, 4 estava sentado no mesmo lugar. Aparentemente não havia levantado. Já tinha parado de comer, ou porque a comida acabara ou por estar satisfeito.

- Voltei e te trouxe um presentinho. – Valentin estava na porta com um embrulho. – Toma, experimenta.

4 Levantou lentamente e foi pegar o presente sem ter idéia do que era um presente. Nunca recebera nada. Ao abrir o papel fino, viu um short marrom escuro com suspensório combinando, uma camisa social branca, parecida coma que vestia, porém em tamanho menor.

-Não são roupas caras, mas como eu não sei o tamanho que você usa eu comprei só para você ter o que vestir agora. Comprei um sapato também. Anda, vista logo as roupas e vamos comprar mais. – Valentin disse sorrindo. Esperava que o garoto ficasse feliz com a surpresa mas ele não demonstrou emoção. Apenas desabotoou a camisa que usava sem o menor pudor e vestiu suas roupas novas. – Você deveria agradecer quando ganha um presente. E não troque de roupa na frente dos outros. Quando for ficar nu vá para o banheiro ou para o quarto. – continuou o loiro claramente aborrecido com a reação do menor.

-Ahh – foi o que 4 disse, como se, realmente, tivesse acabado de aprender algo novo. Por fim respondeu – Obrigado.

- Deixa pra lá, de qualquer forma pensei em um nome pra você. Que tal Luke? Era o nome do meu cavalo favorito quando eu era pequeno. Anda, vamos.

O menor acenou com a cabeça. Luke, como agora seria chamado, terminou de calçar seus sapatos e passou pela porta que Valentin mantinha aberta.

As ruas eram de paralelepípedo e, portanto, eram desniveladas. As carruagens sacudiam enquanto passavam por lá. Os dois rapazes andavam lado a lado desviando das poças qe se formaram devido à chuva de mais cedo. As ruas não estavam cheias. As poucas pessoas por lá caminhavam com pressa, temendo outra chuva. As nuvens cinzentas, por outro lado, caminhavam lentamente. Ainda era cedo, uma dez da manhã, mas o céu estava escuro. O ar estava abafado.

- Vem, as lojas daqui não são muito boas em fazer roupas. No bairro próximo as roupas têm melhor qualidade. – Valentin disse.

Os rapazes caminharam por quase uma hora. O esforço fez o loiro suar, apesar das roupas frescas, já o menino parecia que tinha acabado de deixar o apartamento. Durante o tempo não houve muita conversa. Valentin queria saber da vida do garoto, porém temia que o mesmo não estivesse preparado para falar do seu passado aparentemente sombrio e não queria chateá-lo. Porém descobriu que o menino gostava do mar e que a primeira vez que o viu fora do apartamento de Valentin, algo extremamente raro para quem morava naquela região. Em relação à comida o garoto só comia pão e bebia leite, portanto seus conhecimentos culinários eram quase nulos. Aquela manhã havia sido praticamente uma degustação.

A região têxtil não se diferenciava muito do bairro onde Valentin morava. Porem os prédios possuíam grandes vitrines e seria muito florido se estivessem na primavera. A manufatura e a produção em grande escala era algo relativamente novo. Antes as lojas só faziam roupas sobre encomenda, porém cadê vez mais lojas aderiam à nova moda. Valentin tinha bastante dinheiro: ganhava muito e gastava pouco. Por esse motivo, não se importou em gastar bastante. Os dois compraram muitas roupas para o menor. Sendo que o loiro escolheu todas. Luke não demonstrou nenhuma capacidade de escolha.

Saíram das lojas abarrotados de roupas enroladas em papeis de seda finos e delicados. Mas Luke conseguiu arrumar algumas sacolas de papel marrom um pouco mais resistentes.

- Vamos comer por aqui mesmo, quando voltarmos para perto da Bahia eu te mostro o mar, nós compramos suprimentos, porque meu apartamento já está quase sem nenhum, e eu faço o jantar, pode ser? – Perguntou o loiro. Sua pele estava rubra por causa do calor e ele estava cansado de andar tanto.

- Pode.

As nuvens já eram escassas, deixando um céu azul. Ainda tinham muitas poças pelas ruas. Valentin escolheu um bistrô vermelho com uma das paredes coberta de eras. Lá dentro era bem decorado. O restaurante não estava cheio, mas não estava vazio. Valentin escolheu um prato de sua preferência e tentou explicar para Luke que ele deveria fazer o mesmo, entretanto o menino só olhava para o cardápio.

- Você realmente não sabe tomar decisões. – resmungou o mais velho. Então acabou pedindo para o menor algo que talvez ele gostasse.

Os pratos não tardaram a chegar. Eram muito bem enfeitados porém, para Valentin o gosto não era mais do que ordinário. Luke, por outro lado, não disse nada, mas a expressão de satisfação estava estampada em sua face. Valentin sentiu-se tocado. O menino só coera pão a vida inteira. Então, o militar pediu o doce mais caro de sobremesa e deu para o menino. Era algum tipo de torta trufada de chocolate com um de creme de frutas vermelhas. O garoto adorou. Sua face enrubesceu quando o chocolate tocou seus lábios. Seus olhos verdes brilhavam intensamente e ele sorriu. Seu primeiro sorriso. Era lindo. Os dentes brancos estavam sujos de chocolate assim como os cantos da boca. Mesmo assim Valentin achou lindo. Era como se toda a pureza e inocência do mundo estivessem sendo emanadas dali. Mas durou muito pouco. Em questão de segundos a FAE sem expressão havia retornado ao corpo de Luke.

- Obrigado. – era o que o menino tinha aprendido a dizer quando recebia um presente. Valentin sorria como um bobo e apenas acenou com a cabeça.

Quando o garoto terminou de comer, o loiro pagou e lês saíram. O mais velho resolveu que carregaria toas as sacolas e assim fez, porém estava um tanto quanto atrapalhado com aquilo tudo e esqueceu seu saquinho de moedas no restaurante. Era um saco de couro e estava bem cheio. Um dos garçons saiu para entregá-lo o saco quando um homem, que saiu das sombras passou correndo entre o militar e o garçom e levou o saco.

Rapidamente Valentin deixou as compras com o garçom e, seguido por Luke, foi correndo atrás do bandido. Esse parecia o local e correu por alguns becos não demorando a despistar o militar.

- Droga, tenho que achar esse homem. Tem muito dinheiro lá. Aonde será que ele está? = O loiro bufou irritado.

Luke, estranhamente retirou os sapatos e colocou seus pés descalços em uma das poças mais próximas. Segundos depois respondeu à pergunta de Valentin.

- Pra lá uns vinte metros, andando para minha esquerda. – disse enquanto apontava para o nordeste.

Valentin achou bizarro o comportamento do garoto, mas não tinha nenhuma outra pista e não fazia idéia de onde começar a procurar, portanto seguiu as instruções a ele dadas. Suas longas pernas o distanciaram de Luke enquanto seguia por um caminho entre as ruas estreitas. Em poucos minutos o policial e seu agressor se encontraram.

Valentin saiu em uma rua perpendicular a que estava e, de costas para ele estava o bandido. Com um chute certeiro, o militar acertou o lado direito da face de seu inimigo, que cambaleou e caiu, batendo a cabeça em um poste antes de chegar ao chão. Ficou inconsciente. Valentin aproveitou a oportunidade e se agachou para pegar seu pertence a pouco furtado. Foi aí que um vulto, vindo do alto de alguma das casas desceu sobre o loiro. Valentin se virou rapidamente tentando proteger o rosto de qualquer ataque possível mas não era necessário. O militar viu uma adaga apontando para sua face, porém ela não se movia. Luke estava lá, suas mãos sangravam ao segurar na lâmina da arma para impedir seu avanço. Ouviu-se um estalar e um grito.

O menino, com movimentos rápidos e certeiros, desarmou o atacante que pulou para trás berrando. Luke estava de pé com a adaga em sua mão saudável e, em sua frente, estava o agressor olhando para seu braço inutilizado que pendia inerte. Os ossos de seu ante-braço estavam estilhaçados. Os gritos só pararam depois de um movimento rápido da lâmina na mão do menino. Um baque surdo de um cadáver caído era o último som que aquele homem faria.

Valentin estava em estado de choque. Não por ver um homem morto, ele mesmo já havia matado alguns, mas a frieza com que aquela doce criança tirara a vida de um indivíduo era assustadora. Como se Luke tivesse rasgado uma folha e não matado alguém.

O garçom do restaurante avisou a dois policiais eu estava patrulhando a área, porém eles levaram mais de dez longos minutos para achar o local onde jaziam os corpos. Minutos que Valentin temeu não acabarem. Ele sabia que o garoto ferira gravemente a própria mão para salvá-lo, mas isso não o deixava menos perigoso. Luke ficou apenas parado, fazendo companhia ao loiro até que os policiais chegaram.

Levou muito tempo para que a situação fosse explicada. Os policiais tomariam conta dos bandidos, ou o que restara deles, enquanto os outros dois rapazes iriam prestar contas para o superior de Valentin. Uma das vantagens de fazer parte de Brigada especial era que ele só respondia a um homem, o Marechal Boris.

A cena teve e ser contada várias vezes para que fosse entendida com perfeição. O marechal, entretanto, estava excitado com o que acabara de ouvir. Estava feliz que o garoto era fiel a Valentin e mais feliz por saber que suas capacidades de combate eram mais abrangentes do que se achava.

- Esse pequeno monstro fará parte da brigada agora. Ele será seu companheiro Valentin. – foi o que Boris falou sorrindo após ouvir a história. – Ele não servirá só para encontrarmos as organizações criminosas, ele combaterá os crimes nas ruas também. Enquanto isso, vou mandar uma equipe de pesquisa descobrir o que ele é.

Essas foram as palavras finais do marechal e suas palavras finais significam o final da conversa. Sem mas, sem discussão. Com todo esse alvoroço, o loiro se esqueceu completamente de mostrar o mar para seu mais novo parceiro, como havia prometido. Mas Luke não esqueceu.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Daqui pra frente entrarão mais personagens na história e a trama ficará mais intensa.
Lembrem-se, reviews para deixar um autor feliz ^^
Inté