Tão Perto. Tão Distante.
11 Billy
Enfim chegou o sábado. Me acordei essa manhã nervoso. Minha mãe já saiu a mais de uma hora. Ela veio conversar comigo antes de sair. Me levantei e fui me arrumar, as visitas na prisão são pela manhã e eu ainda tinha que ir buscar Hannah. Assim que terminei de me arrumar, desci e fui até a sala. Jenny já estava acordada.
— Bom dia irmãzinha – disse a beijando no topo da cabeça.
— Bom dia.
Me sentei ao seu lado.
— O que vai fazer hoje? – perguntei.
— Vou até a casa da Paty, minha amiga. Depois vamos pra casa da Sarah para a festa.
— Ok.
Ela me olhou por alguns segundos.
— Você vai vê-lo hoje, não é?
Suspirei.
— Sim Jenny, eu vou.
Ela concordou balançando a cabeça.
— Diga...que eu mandei um abraço. – disse ela tristemente.
Aquilo me matava. Meu pai nunca foi carinhoso com Jenny. Ele sempre foi duro com ela, até mais com ela do que comigo. Ainda bem que na época ela morava fora. Vendo ela assim, me fez perceber como é uma é uma boa menina. Apesar de tudo ainda quer a carinho daquele canalha.
Respirei fundo.
— Eu digo sim! – disse me levantando e indo para a cozinha.
Chegando lá, Eva estava preparando algumas coisas.
— Bom dia Eva.
— Bom dia Billy – disse ela se virando e sorrindo. – Sente-se, eu vou servir o café pra você.
— Valeu – me sentei e esperei.
Tomei o café em silencio, meus pensamentos estavam a mil. Eva percebeu como eu estava e não fez perguntas. Depois de tomar meu café eu me levantei e fui um pouco para o jardim. Ainda estava com tempo. Me sentei em uma cadeira perto da piscina. Fechei meus olhos e tentei dizer a mim mesmo pra manter a calma.
Alguns minutos depois estava indo em direção a casa de Hannah. Quando cheguei lá, dei um toque para o seu celular avisando que estava lhe esperando do lado de fora. Não queria entrar para ter que responder aos outros como eu estava, queria o máximo de concentração.
Em dois minutos eu vi Hannah aparecendo no portão. Suspirei. Ela iria mesmo comigo! Me senti mais seguro e tranquilo com ela comigo. Assim que me viu, ela sorriu. Sorri de volta. Ela saiu, fechou o portão e se aproximou o carro.
— Bom dia! – disse ela.
— Bom dia.
Ela abriu a porta e entrou. Logo saímos.
— Como está? – perguntou ela me olhando.
— Humm...mais ou menos.
Ela riu um pouco.
No caminho nós mal falamos. Eu estava concentrado na estrada e no que iria fazer. Hannah não me fez perguntas. Eu acho que ela percebeu que eu estava ansioso. Amo mais ela por isso.
Assim que chegamos, olhei para aquele lugar. Seguranças rodeavam o prédio com armas nas mãos. Muros enormes de concreto rodeavam o lugar. Respirei fundo e fechei os olhos. Senti a mão de Hannah nas minhas costas.
— Billy...
Me virei pra ela.
— Tudo bem. – disse sorrindo.
Sai do carro e dei mais uma olhada no prédio.
— Já tem até fila! – disse Hannah apontando para uma fila em frente a um portão.
— Bem... então vamos lá! – comecei a andar até a fila. Hannah começou a me acompanhar. – Você não vai me esperar aqui?
— Vou ficar com você na fila, depois quando você entrar eu fico. – disse ela.
Sorri agradecido e peguei sua mão. Ela não pareceu nervosa. Fomos de mãos dadas para a fila. Dez minutos depois a fila começou a andar. Era a hora de entrar.
— A gente se vê depois. – disse a ela.
— Ok. – disse ela sorrindo.
Tive vontade de beijá-la ali. Mas me segurei.
Assim que entrei, passei por uma revista. Me identifiquei e disse o nome de quem estava visitando. Me deram um crachá e eu passei para outra sala. Era no máximo três revistas até chegar a uma sala de espera. Pensei em minha mãe. Ela passava por tudo isso pra vim ver ele. Assim que cheguei à sala de espera me sentei com mais algumas pessoas e esperei. Depois de quinze minutos, me chamaram.
Atravessei uma porta automática e fui em direção ao lugar onde já havia mais pessoas ali. Elas conversavam com os presos. A sala era toda rodeada de seguranças. As pessoas conversavam em mesas separadas. Uma em frente a outra. Assim que o segurança me levou até a mesa, ele me disse pra esperar um pouco. Assim que ele saiu, me ajeitei na cadeira e respirei fundo. Em menos de um minuto o segurança estava trazendo ele. Meu pai. O homem que eu sempre queria me espelhar a um tempo atrás. Agora ele estava com uma roupa de preso e algemado. Acho que respirei fundo pela milionésima vez naquele dia. Era chegada a hora!
Assim que eles passaram pela porta, ele me viu. Ele pareceu não ter reação, só me olhou. O segurança o trouxe até minha mesa. Não me levantei quando ele se aproximou.
Assim que o segurança saiu de perto, eu não sabia o que dizer. Meu pai me observava.
— Billy... quanto tempo! – disse ele com uma voz sinistra.
O observei por alguns segundos.
— Sim... um bom tempo! – consegui dizer.
Ele balançou a cabeça concordando.
— Você parece bem! – disse ele com ar irônico.
Não consegui dizer nada. A voz dele me dava enjoo. Fechei os olhos com força e passei as mãos no rosto.
— Não esta sendo fácil pra mim vir até aqui para vê-lo. Isso aqui pra mim é um pesadelo!
Ele riu. Ele riu de um jeito debochado.
— Ninguém mandou você vir até aqui! – disse ele duramente.
Ele nunca vai mudar.
— Vim até aqui por que minha mãe me pediu.
— Sua mãe... – disse ele com desdém – Para mim ela já podia sumir de vista que não iria fazer falta. Aquela ingrata.
O olhei duramente.
— Realmente eu iria fazer questão de que ela não viesse mais mesmo! Não vale a pena. – disse irritado. Como ele ousava falar mal da minha mãe?
Ele me olhou com aquele jeito debochado.
— O que você quer aqui garoto? Veio me desafiar?
Agora fui eu que ri com ironia.
— Eu a mamãe estamos fazendo isso pela Jenny. Ela pergunta por você, e por incrível que pareça ela se preocupa com você.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Se ela se preocupa comigo, por que ela não vem aqui?
— Por que eu não deixo.
Ele fechou a cara.
— Você não tem esse direito...
— Eu tenho sim!
Ele gargalhou alto chamando a atenção dos seguranças na sala. Eu sabia que ele estava debochando da minha cara.
— Você é só um pirralho Billy! E é meu filho por mais que não queira... Mesmo aqui eu ainda sou o seu pai! Não adianta você vir aqui e tentar ser o adulto por que você é como eu garoto! Você tem o meu sangue! Você não faz mais do que a sua obrigação em me visitar! Então não me venha com lições de moral por que...
— Para! – eu disse duramente. Ele estava me matando de raiva.
— Estamos estressados! – disse ele brincando.
Aquilo foi a gota d’água. Não dava mais. Tenho que seguir meus instintos, e eles estavam me dizendo para que eu não fosse. Mas por pedido da minha mãe eu fui. Mas naquele momento eu percebi que não adiantava mais. Aquele homem não era e nem seria mais o meu pai. Eu o odiava. E não queria que minha mãe e Jenny se preocupassem com ele também. Ele nem estava para nós, a arma dele era ferir. E ele estava conseguindo.
Me levantei da cadeira fazendo um ruído chamando a atenção de todos ali. Ele me olhou.
— Já terminamos? Que rápido!
Respirei fundo e o encarei.
— Pra mim, terminou agora e para sempre – me virei pra sair mais ele segurou meu braço. Mesmo com as algemas. Senti alguns seguranças se mexerem.
— Não vire as costas para mim garoto, eu ainda não terminei.
Olhei para a sua mão segurando o meu braço e o encarei.
— Como eu disse, eu já terminei. – disse soletrando cada palavra.
— Billy, Billy! Você me decepciona!
— O que você quer?
— Quero que o meu filho se sente ali e aja como tal.
Puxei meu braço.
— Você não pode me exigir nada!
— Eu posso sim!
Me virei para encará-lo. Eu sou um palmo mais alto que ele. Por um momento parece que eu percebi ele se encolher.
— Você não é nada! – disse cerrando os dentes.
— Você é como eu Billy!
Eu ri com deboche. Bom! Acho o lado debochado sim.
— É mesmo? Então olha aonde você esta e olha onde eu estou! – o olhei bem dentro dos olhos – Eu sou livre, e você vai apodrecer aqui. Eu vou ser o que eu quiser ser. Só nunca serei como você. Não tem nada de mal você ser uma pessoa honesta e justa. Eu tive que aprender da maneira mais dolorosa possível. Mas eu aprendi! Mas você... – eu o olhei com desdém – Você nunca vai mudar! Sabe por quê? – engoli uma bola que estava na minha garganta – Por que você é uma pessoa má. Nunca deu valor a mim, a minha mãe e a Jenny. Sempre desrespeitou o tio Alex e mentiu e traiu seus próprios pais. E agora você que me exigir que eu aja como um filho preocupado? Você afasta as pessoas!
Eu nunca fui uma pessoa de chorar por qualquer coisa. Sempre tentei me manter ao máximo. Mas naquele momento eu tive vontade de sair chorando e gritando como uma criança. Esse cara acabou com qualquer esperança de vê-lo como pai.
Me recompus e o olhei de novo. Por incrível que pareça ele estava mudo.
— Adeus! – disse com a voz embargada, me virei e sai da sala.
Voltei pelos mesmos lugares que entrei. Aquele lugar estava me sufocando. Quando enfim sai na rua, consegui respirar melhor. Minha cabeça doía, mas os meus sentimentos doíam mais. Quando eu levantei a cabeça eu vi a Hannah me esperando. Não consegui segurar. Senti as lagrimas correndo pelo meu rosto.
Hannah ao me ver sorriu, mas logo ficou seria e veio em minha direção.
— Billy...
Ela percebeu que eu estava chorando. Se aproximou e me abraçou. Ela não disse nada, só se manteve abraçado. Eu não queria falar, só manter aquele momento. Precisava de um abraço mesmo.
Depois de parecer uma eternidade nos afastamos. Ela me olhou e eu percebi que estava com os olhos marejados. Eu limpei suas lagrimas e deu um beijo no seu rosto.
— Obrigado por estar aqui. – disse.
— Obrigada por confiar em mim pra vir com você – disse ela sorrindo sem jeito.
Suspirei e sorri tristemente para ela.
— Eu posso dirigir se quiser...Se me deixar dirigir esse carrão. – disse ela olhando meu carro. Consegui rir.
— Tudo bem! – disse pegando minha chave do bolso e entregando a ela – Seria bom.
Ela pegou a chave e sorriu. Fomos embora daquele lugar.
Olhei para trás vendo o prédio sumir aos poucos. Me virei no banco e fiquei em silencio. Hannah não me fez perguntas, só permaneceu dirigindo. Para mim estava certo, nunca mais quero por os pés naquele lugar. Não valia a pena. Ele não fazia questão! Minha mãe que me perdoasse, mas estava decidido!
O caminho inteiro em pensei no quanto eu fui iludido por esse homem. O quanto eu feri as pessoas por causa dele. Teria que me esforçar muito para nunca ser como ele.
Olhei para Hannah. Ela percebeu e me olhou também. Ela sorriu e eu também. Quero ser diferente. Algum dia terei minha família e vou ama-los como ele nunca amou.
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