Tão Doce Como Seus Lábios
1 Capítulo único
Notas iniciais
Pov Jet
"Enquanto crianças somos livres. Ninguém nos julga. Não há preocupação além de como estará o tempo para brincar lá fora e a única obrigação imposta é se divertir o máximo possível. É na infância que as melhores lembranças são feitas. Principalmente aquela que nos marca por baixo da pele e dos ossos. Aquelas que farão parte do que seremos a partir do momento em que as vivemos em diante. As mais intensas são as melhores. As melhores são inesquecíveis."
— Já chega.
Estávamos no quarto do meu melhor amigo, Droy, e até minutos atrás éramos dois forasteiros em um reino distante. Nós não tínhamos muito tempo. Logo mamãe viria me buscar e os pais dele retornariam do mercado. Não tínhamos tempo algum e ele não parecia se importar. Com as bochechas ardendo, rosto ainda envolto por duas pequenas mãos e usando de uma míngua coerência, tentei parecer seguro:
— E-Eu me sinto... Estranho, fazendo... Isso.
Era verão e o calor tinha aumentado consideravelmente em questão de minutos e não precisei de relógio para saber que passava das cinco horas da tarde. As nuvens no céu provavelmente estavam pintadas de amarelo e tons de vermelho e isso só poderia significar que a maioria dos comércios estava fechando. Eu havia chegado há poucas horas. E há quanto tempo estávamos parados de frente um para o outro eu não sabia dizer. Porém, sabia exatamente de como tudo começou.
— Eu quero testar uma coisa. — Droy riu baixinho enquanto segurava um dos blocos de madeira.
— O que? — Perguntei colocando a última bandeira azul no alto da torre.
— Uma coisa que vi na televisão.
Nosso castelo de blocos estava quase pronto e logo poderíamos começar a batalha. Entretanto, depois dessas palavras meu melhor amigo se levantou me estendeu uma de suas mãos. Ficamos de pé um de frente para o outro. Droy nada disse e seus dedos ainda estavam presos aos meus. Quando seus olhos se reergueram, vieram acompanhados de sussurro:
— Feche os olhos, Jet. — Conforme a distancia diminuía entre nós, os olhos de Droy se fecharam lentamente. Eu simplesmente o acompanhei.
Aquele foi nosso primeiro beijo. Depois dele mais um, outro e novamente estávamos inclinados um em direção um do outro. Suas mãos quentes puxaram meu rosto pela quarta vez e a respiração que vinha do garoto a frente me fez estremecer. Braços se estreitaram ao meu redor e novamente meus lábios estavam cobertos. O toque foi macio e vagaroso no começo, no entanto, diferente dos beijos anteriores, os movimentos de Droy se tornaram cada vez mais acelerados. Seus dedos estavam estreitos por meus cabelos e então senti algo pedindo passagem entre meus lábios. Senti meu estômago afundar e um frio repentino subir por minhas costas quando nossas línguas se encontraram pela primeira vez, e a sensação foi inacreditável. Ao contrário de mim, meu melhor amigo movia-se com uma destreza impressionante e a adrenalina de cada encontro não se assemelhava a nada que eu já havia experimentado. Quente, úmido, fascinante e assustador, tudo ao mesmo tempo. Prendi os dedos na camisa de Droy quando meu coração acelerou e meus joelhos vacilaram. Cada parte de mim se arrepiou e por um momento senti-me como numa montanha russa, prestes a despencar.
Com os olhos fechados tudo parecia ainda mais excitante. E mesmo sem enxergar nada, notei que a luz do quarto diminuíra ao que o Sol ia se pondo. Ao contrário do que eu imaginava, não houve ansiedade ou preocupação de minha parte. Minha cabeça girava, porém o mundo agora estava nos lábios dele. Meus pensamentos presos em seu cheiro, seu calor e seus sons. E nada mais.
—Como se sente?
Só percebi que tínhamos parado quando abri os olhos e dois olhos me encaravam com um brilho. Corei e imediatamente fitei o chão.
— E-Eu não sei... Fo-
— Nojento! Nunca mais faremos isso. — A resposta de Droy contrastou com todas as minhas expectativas. Eu ainda estava corado e recuperando o fôlego quando uma de suas mãos se prendeu dolorosamente em meu braço. — Não conte a ninguém. Nunca! Prometa, Jet! — Meu melhor amigo continuou me encarando, mas o brilho de antes se transformou em algo que não compreendi. Mais agressivo e violento.
— Dói... Isso dói!
— Me prometa!
— Eu prometo! Me solte, por favor.
Droy me soltou e passou as mãos várias vezes pelos cabelos. Atravessou o quarto de um extremo ao outro e sentou-se novamente enquanto eu observava assombrado. Fiquei por um tempo estarrecido, com os olhos marejados e um resquício de frustração. Se o sigilo era o que meu amigo desejava, eu o manteria não importava qual a razão de seu descontrole.
Sentei-me onde estavam os soldadinhos de brinquedo e aos poucos fomos voltando ao ritmo da brincadeira. O rosto de Droy estava agora sereno, seus olhos ostentavam um tom achocolatado que eu nunca havia notado antes e sua pele parecia irresistivelmente macia. Ele é... Lindo. Droy sorriu ao me olhar e por alguma razão o gesto me trouxe sensações que eu não entendia. Desviei os olhos e mordi o lábio inferior, ele estava frio, diferente de antes, e uma estranha solidão tomou conta de todos os lugares onde os dedos do garoto mais a frente tocaram. Soldadinhos. Vamos brincar de soldadinhos. Tentei prender minha atenção nos pequenos homens de plástico e da janela entre aberta a brisa gelada bagunçou as cortinas. Elas rodopiaram e anunciaram noite e as estrelas. Nosso tempo tinha acabado. E naquele fim de tarde, com os tons de laranja e salmão iluminando o rosto de Droy, desejei no fundo do coração que talvez, com um pouco de sorte, mamãe se atrasasse um pouco mais.
Notas finais
E ela não sabe disso!
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Arigato Gozaimasu!
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