Só mais um clichê
3 Capítulo 2 - Dezembro de 2010
Capítulo 2
Dezembro de 2010
—Eu não acredito que você se apaixonou por uma garota de internet! – disse Rich incrédulo. Estávamos no meu quarto em um sábado a tarde. Me lembro desse diálogo como se ele tivesse acontecido ontem. Lembro também que queria não contar para Rich sobre Alex mas não me contive e acabei contando.
—O que tem? Você gosta da Jordana, eu da Alexandra
—É diferente, eu conheço a Jordana eu já conversei com ela, não foi do nada tudo que eu sinto
—Cada um tem sua forma de sentir
—Eu acho que você não sente, semana passada era Natalie e agora é essa aí
Esqueci de mencionar uma coisa, meu primeiro amor não foi Alex e sim Natalie. Natalie era uma garota do terceiro ano de cabelos escuros e olhos verdes, ficamos muito próximos até que eu estraguei tudo dizendo que era apaixonado por ela e o pior, ela ficou com Rich.
—Podemos conversar sobre o porque de eu não ter conseguido ficar com a Natalie? – eu disse olhando para Rich esperando que ele arrumasse uma boa desculpa.
—Porque a Natalie é mais velha, tá no terceiro ano e não cai nessas suas conversinhas de “te amo, você é o amor da minha vida” porque ela sabe que isso é um método de levar menininhas pra cama mais rápido, que é bem baixo até por sinal.
—Não era mentira, e quem é você pra falar de golpe baixo? Nem considera mulheres seres humanos
—Primeiro, eu considero mulheres seres humanos. Segundo, meus golpes não são baixos, quer dizer, eu não minto pra uma garota que estou apaixonado por ela pra conseguir o que eu quero, eu só faço ela rir se sentir bem..
—Ta bom – eu disse ironicamente,
Sim, esse diálogo aconteceu em junho. Mais precisamente um dia depois da descoberta da Alex. Não sei o que me deu pra contar pro Rich, mas eu contei. Eu imagino um universo alternativo onde eu nunca tivesse contado pro Rich sobre a Alex, onde a gente tivesse brigado nesse dia e nunca mais voltasse a se falar. Será que o futuro seria diferente? Será que hoje eu estaria com a Alex? Será que nós moraríamos em Nova Iorque? Será que isso teria impedido a morte do Chaves? Enfim, parei.
Como eu já tinha dito antes, Rich era apaixonado por Jordana e nessa época já conseguimos ver a sua mudança comparada com aquela primeira conversa. Sabe, tem coisas sobre a Jordana que vocês precisam saber pra entender conflitos futuros. Ela loira, loira natural mesmo, não com o cabelo descolorido. Esse cabelo é extremamente liso e longo, vai mais ou menos até a cintura. Ela nunca cortou, nunca pintou, nunca fez nada de diferente, é o mesmo cabelo desde a 5ª série. Comecei falando no cabelo porque foi algo que eu sempre achei bonito nela, faz parte da sua originalidade, a Jordana não é a Jordana sem esse monte de fios loiros que pareciam ter saído de um comercial de shampoo. Continuando a descrição, ela tem olhos cor de mar, literalmente, tem dias que parecem azuis outros que parecem verdes e ás vezes até um cinza. A Jordana também é MUITO gostosa, do tipo de adolescente que tem peitos grandes e barriga lisa, era de longe a garota mais gostosa do colégio. Mas como eu não sou de objetificar as mulheres, vou pular essa parte. Vamos pra outro fato: Ela é minúscula, sério, deve ter um metro e meio no máximo, o que combina nitidamente com sua personalidade mega delicada. Tenho certeza que com essa descrição vocês pensaram que ela seria uma vadia não é? Daquelas que se acham superior, mandam os meninos fazerem seus deveres de casa e tratam as outras meninas como se fossem empregadas. Se isso fosse uma comédia adolescente e eu quisesse apimentar a história com duas meninas brigando na piscina em uma festa, ela seria desse jeito, mas não essa história é um drama real. Enfim, pelo menos uma coisa não vai ser clichê, a Jordana. Ela era uma princesa, sério. Seu jeito de falar calmo, sua voz fina, o fato de amar a irmã mais nova mais que tudo na vida, o trabalho voluntário, era romântica, sonhava com príncipes e finais de novela. Pra terminar: Jordana era pateticamente perfeita. Me chamem de louco, mas ela nunca me atraiu justamente por isso, ela tinha tudo. Gosto de coisas reais, meninas reais, brigas reais. A Jordana estava mais pra uma boneca de porcelana que pode quebrar por qualquer queda.
De uma maneira estranha, Rich que se dizia tão diferente, superior e frio caiu no canto da sereia mais óbvia. Eu nunca entendi direito o que eles tinham, sei que durante o ensino médio inteiro nunca chegaram a ficar, mas era uma situação estranha. Por exemplo, ele puxava assunto com ela, mas ela também puxava assunto com ele. Ela não só curtia as fotos dele, como comentava e comentava MUITO. Mas quando ele a chamava pra sair, ela recusava ou se ele tentava uma maior aproximação, ela fugia. Se vocês entendem e se identificam com esse comportamento meninas, por favor, me expliquem! Minha mente masculina medíocre, não é capaz de alcançar esse intelecto. Se tratando de confusão, Jordana era fichinha comparado com a Alex.
Depois que contei para o Rich sobre a Alex começamos a ir atrás de cada passo dela. Onde estudava, quem eram suas amigas, seus hobbies, e casualmente descobrimos que ela era uma árdua frequentadora do Push. O que é Push? Uma casa de festas alternativa da Metrópole que era supostamente feita para maiores de idade, mas dominada por adolescentes. Aonde Rich ia quase todo o final de semana e eu me recusava a acompanha-lo. Porém, a partir do momento que eu descobri que poderia encontrar o amor da minha vida lá, passei a ir em todas as festas possíveis. Meus pais chegaram a estranhar meu comportamento, que justifiquei dizendo que fazia parte de uma “nova fase da minha vida” (não poderia falar a verdade, eles me achariam um lunático). Enfim, de junho a dezembro de 2010 fui em praticamente todas as festas, todos os eventos e tudo que era relacionado ao Push. E adivinhem? Sem sucesso, não vi nem sinal da Alex, ou de seu grupo de amigos. O que eu ganhei com isso? O começo do meu vício em cerveja.
O nome desse capítulo é dezembro, então é claro que em dezembro a ação vai finalmente começar a acontecer (sei que vocês não tão aguentando mais tanto lengalenga). Eu já estava perdendo minhas esperanças, estava em mais uma festa do Push. Uma festa lotada, bem lotada mesmo, mais que o normal. Eu estava virado em suor, e havia tomado algumas cervejas a mais. Lembro de estar no sofá de couro avermelhado, com a visão um pouco embaralhada por causa da bebida. Já passavam das duas da manhã. Foi quando de repente as luzes pareceram se mexer em câmera lenta, e uma luz forte e branca iluminou ela. Lembro de seu cabelo com cachos, seu short preto e sua blusa branca. Ria muito, tinha o sorriso mais lindo que eu já vi. Fiquei paralisado, não conseguia acreditar que ela era de verdade, poderia ficar naquele momento pelo resto da minha vida, só olhando para ela. Tão jovem tão cheia de vida, tão feliz, parecia que nada poderia abalar aquela alegria tão nata dela. Uma vez eu vi em um filme chamado Peixe Grande uma frase que dizia mais ou menos o seguinte “Quando ver a primeira vez o amor da tua vida o tempo para.. mas o que ninguém te avisa é que logo a seguir ele avança muito depressa pra apanhares novamente”. Foi exatamente o que aconteceu comigo, por dois segundos paralisado olhando aquela garota quase a perdi. Como eu disse, a festa estava lotada, muito lotada. Alex saiu da pista de dança com sua amiga e praticamente sumiu na multidão. Eu sem pensar saí atrás dela e Rich sem entender, foi comigo.
— O que houve cara? Tá tudo bem? – disse Rich achando que eu estava passando mal.
—É ela Rich, ela tá aqui
—QUEM?
—A Alex
Falávamos gritando tentando ouvir um ao outro, a música era muito alta. Conseguia acompanhar o cabelo loiro escuro, quase castanho de Alex ao longe e corria atropelando quem fosse para chegar até ela. Pra minha sorte, ela era mais alta do que eu imaginei, o que facilitava encontra-la no meio da multidão. Como eu já disse antes, eu tinha bebido demais naquela noite. Quando dei por mim ela já estava voltando, vindo em minha direção. Devia ter ido comprar bebida e iria voltar para pista. Fui para um canto estratégico para conseguir pelo menos falar com ela. Aos poucos ela foi se aproximando e eu não sabia o que fazer.
—RICH, PRECISO QUE VOCÊ DISTRAIA A AMIGA
—QUE AMIGA?
— A QUE TÁ COM ELA, NÃO QUERO VIRAR MOTIVO DE CHACOTA
—CARA, VOCÊ SEMPRE VAI SER MOTIVO DE CHACOTA
Ela passou por mim, eu sem pensar puxei seu braço, forçando a parar. Era a primeira vez que eu a via tão de perto, lembro de seus olhos de surpresa e sua boca semiaberta. A maquiagem já estava borrada e ela parecia tão suada e bêbada quanto eu. Mas isso de maneira alguma diminuia sua beleza. Mais uma vez eu estava travado, queria só olhar para ela. Porém, essa podeira ser minha única chance “Calma Luccas, seja racional” pensei comigo e fiz a coisa mais racional que podia fazer naquele momento.
—ALEXANDRA VEIGA, EU TE AMO! SEI TUDO SOBRE VOCÊ! JURO QUE VOU TE FAZER MUITO FELIZ!
Ela abre um sorriso simpático, tenta assimilar se ouviu certo essa baboseira. Acaricia meu rosto e fala algo que eu nunca vou esquecer.
—Gostei da sua camiseta, quem é você?
—Meu nome é Luccas, eu te acompanho a meses. Gostou da minha camisa? Eu te dou ela se namorar comigo
Ela ri, não acreditava no que estava ouvindo (nem eu acredito no que eu disse). Em uma atitude inesperada, que eu jamais imaginei que aconteceria. Alex chega bem perto de mim a ponto de sentir sua respiração, mais uma vez eu estava igual a uma pedra. Não entedia o que ela estava tentando fazer. Alex enrosca a mão em volta de meu pescoço, entrelaça seus dedos em minha nuca e me olha por alguns milésimos de segundo. Então ela encosta seus lábios aos meus. Seu hálito de destilado, eu jamais vou esquecer. Sinto sua língua aos poucos se entrelaçando a minha. Esse é um momento da minha vida que eu ficaria repetindo o replay eternamente. Meu coração batia rápido e devagar ao mesmo tempo, me arrepiei por inteiro. Não sei quanto tempo durou aquele beijo, só sei que foi pouco, poderia durar horas que eu não ia me importar. Ela se afasta de mim aos poucos e fica me olhando. Seu rosto encosta no meu pescoço e seus lábios chegam perto do meu ouvido.
—Quem sabe um dia – ela fala do jeito mais sexy do mundo.
A amiga de Alex, Mel, puxa ela rapidamente e as duas saem rindo em direção a pista. Eu estava imóvel, me perguntando se aquilo realmente tinha acontecido.Ela some na multidão, e eu encosto a mão em meus lábios e penso “ela me beijou”.
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