Só Que Não
15 Por favor, não fique magoado...
Notas iniciais
Acordei de novo na enfermaria. Peguei no nariz, e lá estava um band-aid. Pra mim, já era a manhã de outro dia.
Olhei para o lado e vi a pessoa que eu menos queria ver: Leandro. Ele ficou tão surpreso quanto eu. Meu coração começou a martelar, a respiração rápida demais...
– Branca! – disse ele.
– Hum. – resmunguei, tentando parecer normal.
– Meu Deus! Pensei que fosse ficar aqui a tarde inteira. – ele dizia isso num tom meio hostil.
Franzi o cenho e me sentei, embora sentisse a cabeça rodopiar.
– Ainda estamos na tarde do mesmo dia? – perguntei.
– Hã... sim. – ele me encarou, confuso.
Ergui as sobrancelhas e me deitei novamente.
– Sabe, eu me senti a pior pessoa quando você quebrou o nariz. Porque quem quebra o nariz naquela situação?– disse ele.
Me sentei na cama novamente. Fala sério.
– Eu fiquei em choque, mas não fiz porque quis. Quem quebra o nariz de propósito?
Uma pausa se seguiu. Ele parecia bravo. Mantinha os braços cruzados, o cenho franzido e encarava o outro lado da sala. Menino bipolar.
Respirei fundo.
– Olha, não foi nem minha culpa, e nem culpa sua. Eu fiquei... surpresa, pois isso tudo foi tão inesperado, que nem sei o que dizer.
– Ah, claro. Você queria um aviso antes? “Branca, vou me declarar pra você daqui a pouco, se prepara”. – ele revirou os olhos.
– Eu só quis dizer que realmente não esperava por isso – falei com raiva. Depois me acalmei e tornei a falar: — Olha, Leandro... por favor, por favor, não fica magoado comigo. Mas eu preciso respirar. Preciso pen... Leandro!
Ele havia saído e batido a porta com um barulhão inacreditável. Enterrei meu rosto nas mãos e comecei a chorar.
Eu nunca mais chorei desde que era criança. Sentir o gosto salgado das lágrimas era, de certa forma, bom.
Mas o motivo não era nada bom. Não mesmo.
Lembrei da chuva e peguei em meus cabelos. Estavam úmidos. Logo, eu estaria resfriada.
Uma senhora apareceu e tentei disfarçar, limpando meu rosto com as mãos. Ela chegou perto e me examinou com a vista.
– Oi, filha. – disse ela.
Acenei com a cabeça.
– Bom, eu vim dizer que você vai precisar trocar este band-aid três vezes por dia, ok? E como ficou na chuva – eu espirrei e ela sorriu –, vai precisar tomar este xarope.
Ela me mostrou um xarope e eu acenei com a cabeça de novo.
– Espero que melhore, filha. Venha me visitar se passar mal, ok? Pode ir.
Me levantei da cama e olhei meu reflexo na janela, antes de pegar o xarope e ir.
Eu estava um caco. Minhas roupas estavam normais, porém meio molhadas. Meu cabelo estava enrolado. Eu estava pálida, e o nariz mais vermelho que o normal.
Decidi ignorar tudo e fui-me embora. Eu preciso de férias de mim mesma!
Enquanto ia, me lembrei de uma música que sempre me fazia chorar, e misturada com a tristeza que sentia em relação a Leandro, comecei a chorar no jardim.
Cantarolei a música baixinho, num sussurro quase inaudível.
– Pass me that lovely little gun… my dear, my darting one… The cleaners are coming, one by one… You don’t even want to let them start…
“Passe-me essa pequena arma encantadora… meu querido, meu amor... Os limpadores estão chegando, um a um... Você nem sequer quer deixá-los começar.”
– They are knocking now upon your door... They measure the room, they know the score… They’re mopping up the butcher’s floor… Of your broken little hearts…
“Eles agora estão batendo na sua porta… Eles medem a sala, eles sabem a pontuação... Eles estão enxugando o chão de açougueiro... De seu coração um pouco quebrado.”
– O children... – minha voz tremeu violentamente, as lágrimas a jorrar.
“Ó filhos...”
– Forgive us now for what we’ve done… It started out as a bit of fun… Here, take these before we run away… The keys to the gulag…
“Perdoa-nos agora pelo o que temos feito… Ele começou como um pouco de diversão... Aqui, tome estas antes de fugir... As chaves para o gulag.”
– O children... Lift up your voice, lift up your voice... Children… Rejoice, rejoice…
“Ó filhos… Levante a sua voz, levante a sua voz… Crianças... Alegrai-vos, alegrai-vos.”
Esqueci o resto da música e decidi pular para o final.
– Hey! Little train, we all jumping on… the train that goes to the Kingdom… We’re happy, we’re having fun… And the train ain’t even left the station…
“Hey! Pequeno trem, nós estamos todos a bordo… O trem que vai para o reino... Nós estamos felizes, nós estamos nos divertindo... e o trem nem ao menos deixou a estação...”
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