Só Por Uma Noite...
2 Capítulo especial
Durante toda aquela semana em que Milo esteve em Paris, não teve uma única vez em que eu não tenha sonhado com nossa aventura em seu apartamento. E em todas às vezes, eu cedi à vontade de me tocar pensando nele. Confesso que essa obsessão por ele, pelo seu corpo, seu toque, seus beijos, seu amor, começou a me assustar.
É claro que os efeitos dessa louca aventura foram rapidamente notados pelas pessoas que me são mais próximas. E principalmente depois de negar amor a minha mulher. Enojei-me e broxei exatamente no momento em que vi no rosto feminino as feições e o olhar dele... No momento em que beijei sua boca e comparei com o beijo dele e foi assim que percebi o preço que eu teria que pagar por conta daquela noite.
Na reunião que definiria os planos e projetos do ano para o escritório, o afastamento do maior e mais influente cliente deveria ser o cerne central da minha questão. Mas não, naquele momento, sentado à mesa com um monte de engravatados, a única coisa que dominava a minha mente era a visão dele, completamente nu deitado em sua cama, com os braços abaixo da cabeça, sorrindo travesso enquanto observava eu me arrumava para voltar a minha vida.
– Vamos nos ver de novo? – Ele perguntou enquanto eu abotoava minha camisa.
– Claro... podemos marcar alguma coisa. Pode ser naquele bar mesmo... – Eu digo, fugindo do olhar malicioso dele. Eu tenho família, filhos, emprego, tudo! Não posso largar toda a minha vida por uma aventura, mesmo que tenha sido uma deliciosa aventura, ainda assim era apenas uma aventura! Ouço-o rir sensual, daquele jeito que me arrepia instantaneamente.
– Não é disso que falo. Perguntei se vamos transar de novo... – Eu tenho que confessar que esse jeito dele de falar as maiores sacanagens tão naturalmente me deixa encabulado. Eu me viro de modo a ficar de frente para ele e só então respondo:
– Milo... eu não acho que você mereça isso. E nem eu... – Digosinceramente aquilo que penso e o vejo se sentar, algo incomodado.
– E o que você merece? Uma vida sem prazer, sem amor, completamente sem sentido e vazia? – Ele diz e percebo um leve tom de reprovação.
– Olha... eu sei que desabafei com você, mas as coisas não são exatamente assim como eu coloquei ontem. Quer dizer, eu tenho uma família que me ama, um filho maravilhoso, uma esposa fiel e dedicada. Sei que não são perfeitos, mas nenhuma família é. Ontem... você me pegou num momento difícil, foi um dia muito difícil pra mim. – Optei por ser bem sincero com ele. Milo fica me analisando por um tempo e eu fico constrangido. Aquele olhar era estranho, parecia que ele queria me cobrar algo, mas ele sabe que não pode me cobrar nada.
– Você estava num momento difícil porque está insatisfeito com sua vida...
– Milo, por favor, eu não posso trocar a minha família por uma aventura.
– É o que você acha? Que o que tivemos aqui foi só uma aventura? – Ele pergunta seriamente e eu não respondo, eu não tenho o que responder. A verdade, como sempre, é aquilo que quero esconder de mim e de todos. – Entendo... – Ele interpreta meu silêncio como um sim, tenho certeza, e se levanta da cama sem olhar para mim. Ele vai até o banheiro e escuto o som do chuveiro ser ligado. Suspiro sentindo o clima pesado que pairava sobre nós. Apesar de não entender direito, mas acho que sinto algo parecido com o que ele está sentindo agora. Uma coisa meio de lamentação, como se tivéssemos perdendo algo que nunca tivemos. Eu o sigo e adentro ao banheiro, na tentativa de conversar e dissipar essa sensação ruim.
– Foi uma noite incrível Milo, realmente maravilhosa. Quero que saiba que eu não me arrependo de nada do que fizemos! – Eu digo me escorando na pia enquanto o olhava tomar banho pelo boxe transparente.
– Eu também não... apesar do toco que estou levando. – Elediz num tom meio brincalhão, meio melancólico.
– Eu não posso abandonar a minha família, Milo... – Eu digo tentando me explicar. Quero que ele entenda e não fique chateado comigo.
– Tudo bem Camus, eu só acho que no fundo você já a abandonou há muito tempo. E não me olhe com essa cara, você sabe exatamente do que estou falando. – Eu me calo, é claro que sei e não serei hipócrita em negar. Não, de alguma forma eu sei que não preciso ser hipócrita quando estou com ele. Eu levo as minhas a cabeça, confuso. Ele deve ter percebido isso, porque saiu do chuveiro e mesmo pelado veio até mim e me abraçou. Seu enlace foi tão forte e tão carinhoso que eu me senti seguro, protegido, fortalecido.
– Você está me molhando... – Eu digo no intuito dele me largar, mas ele me ignora completamente. Não que eu não o quisesse, é claro que eu o queria, e muito. Por mim ficaria indefinidamente em seus braços, só que esse tipo de contato estava estabelecendo um contato muito maior do que o simples tesão e isso era deveras perigoso. Ele acaricia meus cabelos e depois se volta para olhar em meus olhos.
– Eu não estou pedindo para abandonar a sua família. Não, claro que não. Você não pode e nem deve desamparar as pessoas que você ama, o seu filho, a sua família. As pessoas que te amam. Mas também não quero que você se abandone Camus, você não pode viver como se não merecesse ou não precisasse amar e se sentir amado. Não é justo com você. – Ele diz tão suavemente, tão carinhosamente que eu não consigo evitar que meus olhos fiquem marejados. É a primeira vez que vejo alguém assim, me tratar dessa forma, se preocupar comigo assim, cuidar de mim. Ele percebe minha emoção contida sobre as parcas lágrimas que molham meu rosto. Com beijos e toques suaves ele as limpa, quase me pedindo desculpas por me fazer chorar.
– Eu não posso me apaixonar por você... – Eu sussurro, expressando o meu maior medo. Ele sorri tristemente e eu tento consertar o que digo, mas ele me interrompe.
– Eu, ao contrário, já me apaixonei. Mas não se preocupe, não vou pedir para que fique. Se for pra ficar, quero que o faça inteiro e de coração. – Ele diz e eu fico em silêncio, ouvindo apenas o retumbar confuso e violento do meu coração. Ele sabe e eu sei, que tudo o que eu menos precisava aconteceu. Eu estava irremediavelmente apaixonado por Milo. Sem saber o que dizer ou fazer, acabei fazendo aquilo que meu coração pedia naquele momento e o beijei. E o fiz da forma mais apaixonada que eu consegui, porque queria mostrar pra ele que, apesar da minha falta de coragem em admitir meus sentimentos, eu não considerava aquela noite especial apenas como uma aventura. E ele entendeu muito bem o meu recado. Tanto, que me amou novamente naquela manha, de uma forma diferente daquela noite. Dessa vez, sua possessão era doce e carinhosa, seus beijos deleitosos eram quase uma reverencia a minha pele e nossa união entrelaçava mais do que nossos corpos, entrelaçava as nossas almas.
– Camus? Camus?– Era o meu colega que me chamava, e pela forma que o fazia já estava irritado pela minha desconcentração. – Em que mundo você está? – Ele reclama, percebendo que eu não estava ali. Mas uma vez naquela semana eu me perdia no trabalho apenas por me lembrar dele, dos nossos poucos momentos juntos. Eu massageio a minha nuca, tentando demonstrar um cansaço extra.
– Desculpe Herns... eu estou com dor de cabeça. – Menti e não foi a primeira vez que o fiz.
– Então vá para a casa! – Ele disse enfezado. Eu não disse nada, mas obedeci. Levantei-me e com um cumprimento discreto, deixei a sala de reunião e fui para minha sala apenas para acertar algumas coisas e poder ir embora sem problemas. Deixei tudo com minha secretária e deixei o prédio em direção ao mesmo bar em que eu o encontrei naquela noite mágica.
Entrei no bar com a ingênua esperança de encontrá-lo ali, ou quem sabe dele me encontrar. Sentei no mesmo lugar de antes, e pedi cerveja ao garçom. Não, hoje não quero me embebedar. Ao contrário, hoje mais do que nunca preciso da minha sobriedade. Preciso dela e da minha razão para me decidir, porque só assim eu vou me livrar desse fantasma em que ele se transformou.
Não que eu não quisesse. O meu coração pedia que eu largasse tudo e apostasse todas as minhas fichas nessa aventura. E fazer tudo o que eu nunca tive coragem antes, me assumir, assumir meus sentimentos, viver essa paixão que surgiu tão de repente e tão avassaladora. Mas, infelizmente, eu não sou dado a esses arroubos de loucura. Não consigo tirar os pés do chão, mesmo estando louco para voar. Não me abandonam as responsabilidades, sou um adulto e pessoas muito amadas dependem de mim, não posso abandoná-las e ir para a Grécia, simplesmente.
Na minha carteira, uma foto do meu querido filho Hyoga. Ele agora é um adolescente e uma das poucas coisas da qual me orgulho. Meu filho é carinhoso, inteligente e esforçado. E era muito apegado a mim, tinha-me como referência, tal como todo adolescente. E eu não poderia simplesmente deixá-lo com a mãe e sair pelo mundo para viver uma aventura em outro país. Não posso, não consigo e não quero. Eu o amo, amo meu filho mais que tudo. Milo teria que entender, eu tenho que entender.
Vejo no meu relógio, falta uma hora até ele pegar o avião de volta para a Grécia. Ele me ligou algumas vezes, mas eu não o atendi. Tive medo dele, na verdade, e me sinto tão miseravelmente covarde nessas horas. Tive medo de me envolver ainda mais, de me apaixonar ainda mais, de querer ir com ele ainda mais. Sei que não tenho o mínimo controle sobre isso e seria fácil me deixar levar por esse sentimento. Por isso, preferi evitá-lo durante todo esse tempo.
Imagino que ele deve ter ficado chateado comigo. E com razão. O tratei como um brinquedo sexual, embora eu tenha certeza de que no fundo ele sabe e entende meus motivos. É vã e contraditória a minha esperança de que ele apareça por aqui. Ele agora deve estar no aeroporto, para mais uma vez sumir da minha vida, para meu desespero. Por mais que eu saiba, que eu racionalmente saiba que esse é o melhor para nós dois, eu me sinto tão péssimo, de modo tão miserável que eu me sinto sufocar com a minha própria razão.
Eu precisava fazer alguma coisa ou acabaria enlouquecendo, precisava abafar esse sentimento porque ele estava me sufocando de um jeito que eu não posso suportar. Olho para o meu celular e fico pensando se devo ligar para ele. Mas se eu o fizesse, o que eu diria a ele? E como se ele pressentisse a minha vontade, vejo com espanto meu celular tocar e seu nome aparecer no visor.
Eu me sinto verdadeiramente como um adolescente agora, minhas mãos estão frias e meu coração batia descompassadamente. Nervoso, ansioso, e sem saber o que esperar dessa ligação, eu demorei um pouco para atender.
– Alô? – Por mais que eu tentasse evitar, minha voz saiu trêmula e vacilante.
– Olha Camus, sei que eu não devia estar te ligando, sei que está me evitando... mas mesmo assim eu precisava falar com você.
– Não se desculpe... eu... você pode me ligar quando quiser. – Ignoro o fato de praticamente não ter atendido todas as ligações dele posteriores àquela noite.
– Eu quero te ver... – Ele diz sem fazer rodeios.
– Pensei que estivesse voltando para a Grécia hoje...
– Sim, mas eu adiei a minha volta. Só volto amanha. – Ele explica e na sua voz percebo a sua urgência.Euhesito, estou louco para encontrá-lo, mas a minha razão me adverte que é arriscado expor tanto assim a minha sanidade. Ele deve ter percebido que eu hesitei, pois logo emendou. – Eu sei que você pensa que nós não devemos mais ficar juntos, e eu entendo que você não queira largar sua família, seu filho, tudo o que você tem para me acompanhar. Mas eu posso e, céus, como desejo largar tudo o que tenho aqui para poder estar com você. Nem que seja por pouco tempo...
– Milo... não é justo com você... você merece... – Eu tento me explicar, mas ele me interrompe.
– Eu mereço estar e lutar por quem eu amo. E eu sei, eu sinto que você também me ama. – Eu fico impressionado com a forma tão impetuosa e corajosa dele. Sorriu, ele é admirável.
– Você é incrível, sabia?! Queria eu ter essa sua coragem... – Milo riu do outro lado da linha.
– Eu quero ser feliz, Camus. Não acho errado tentar ser feliz.
– Eu também não...
– Mas vive como se fosse. Ora Camus, não estou pedindo para você abandonar as pessoas que ama... – Eu hesito mais uma vez, como sempre. – Podemos ficar um tempo, escondidos, até você perceber que sua família está bem e preparada. Eu sei até o que vai dizer... Ai Milo, você não merece essa vida... – Ele diz me imitando e eu acabo rindo. – Sim, eu não mereço, assim como a sua esposa não merece viver num casamento onde o marido dela não a ama e ainda a trai com outras mulheres, nem você merece se prender a um casamento sem amor só porque tem um filho, afinal você pode estar perto dele sem estar morando junto. Viu quantas injustiças ao seu redor? Mais uma ou menos uma não faz diferença, até porque tudo isso é temporário. – Ele disse tudo num único fôlego e eu sorrio ao perceber a tentativa desesperada dele. Não que eu quisesse isso, mas é bom sentir-se amado desse jeito. – Onde você esta Camus?
– No bar, onde nos encontramos naquela noite... – Eu digo e sei que isso foi significativo para ele, apesar de não ter dito nada num primeiro momento.
– Eu estarei aí em meia hora. – Ele declarou de repente e eu me surpreendi. Não esperava uma atitude tão impetuosa, sem bem que eu já o conhecia bem para saber que ele era assim, totalmente o contrário de mim. Mais uma razão para eu racionalmente achar essa aventura fadada ao desastre.
Mas as palavras dele surtiram efeito. Quer dizer, de certa forma estou impondo a todos uma vida de mentiras. Ao contrário do que eu pensava, não era apenas a minha vida que era uma mentira, mesmo sem querer eu estava impondo às pessoas que eu amava aquela vida de mentiras, e com os meus medos estava impedindo que elas pudessem ter uma vida plena e feliz.
– Ainda bem que me esperou... – Eu ouço sua voz inconfundível soar em meu ouvido e me assusto, mas acabo sorrindo para ele. O meu corpo reage imediatamente a sua presença e isso é absolutamente novo e assustador.
– Não passou nem dez minutos! – Eu comento olhando no relógio. Ele ri.
– Eu vim voado, quase atropelei uma senhora. – Nós rimos.
– Seu louco! – Sussurro para ele, mas nesse momento eu estava achando mais graça do que o repreendendo. Nossos olhos se encontraram e minhas certezas começam a ruir uma a uma. O que não tem remédio, remediado está, como diria minha mãe. Estou perdido, e o estou desde que o vi nesse mesmo bar, me olhando dessa mesma maneira.
– E então? – Ele pergunta, talvez querendo saber a minha resposta. Eu não digo nada, não tenho resposta para a pergunta dele. Ou pelo menos não uma que fosse definitiva.
– No seu apartamento... – Eu digo e acho que meu sorriso deve ter dito muito mais do que minhas meras palavras. Ele sorriu de volta e novamente sem cerimônia beijou meus lábios. Foi tudo tão rápido que eu não tive nem tempo de recusar. Constrangido, eu olhei para os lábios, me perguntando se alguém que conheço poderia nos ter visto. Isso, nesse exato momento, seria o pior do que poderia me acontecer.
– Desculpe, eu não consegui me segurar...
– Tudo bem... eu só peço que me dê um tempo para assimilar tudo isso.
– É claro, eu entendo perfeitamente. – Ele me sorri novamente e me toca discretamente no braço. – Vamos? – Ele me sugeriu e eu o acato, seguindo em sua frente na direção de seu carro.
É claro que eu sei que estamos agindo errado. Nesse exato momento Milo se transformou no meu amante. E isso não é exatamente uma novidade para mim, se não fosse o fato de eu estar completamente apaixonado por ele. Eu também sei que não poderia levar essa história por muito tempo, porque logo minha consciência iria pesar a esse respeito. Eu não mereço, Milo não merece, Natássia não merece uma vida de mentiras. E até que toda essa confusão se mostrou valorosa, porque me mostrou algo com que eu não tinha me preocupado. O meu sofrimento, talvez, tenha me deixado um pouco egoísta e não me permitiu ver que, ao desejar fazer o certo, eu estava fazendo o pior do que eu poderia fazer. O correto não era o melhor, que ao me preocupar com o justo eu estava sendo injusto.
Mas isso ficaria no passado, sem dúvida. Porque se a vida queria me mostrar o quão bela ela poderia ser, eu tinha a obrigação de aproveitar essa chance, por mim e por todos que me amam.
Fim!
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