Só Mais Uma História
7 Lembranças - Jesse
Notas iniciais
Tum, tum, tum, acordo meio sonolenta, olho para o lado e tento identificar que horas são no meu relógio de caveiras: 3h30 da madrugada. Tum, tum, escuto o barulho novamente, mas desta vez percebo que vem da porta de casa. Levanto da minha cama, calço meus sapatos e vou ver quem, pelos deuses, está atrapalhando meu sono.
Abro a porta e me deparo com a menina que conheci dias atrás, a enteada do Juiz Lenadro, amigo de minha mãe. Ela está com uma péssima aparência e suponho que se machucou, pois treme intensivamente. Começo a pensar o que uma garota com onze anos, assim como eu, estaria fazendo em minha porta essa hora da noite e ainda mais sozinha, contudo ela interrompe meus pensamentos:
— Oi, é ... Jéssica, certo?— Ela diz timidamente. — Desculpa aparecer aqui a essa hora, mas não tenho aonde ir.
— Sim, pode me chamar de Jesse mesmo. Entre, eu vou chamar minha mãe. — Antes que eu consiga ir ela segura meu braço me impedindo de avançar mais. A olho um pouco assustada e logo ela trata de se explicar:
— Por favor não, não conte a ninguém que estive aqui. Meu deus, se ele descobrir... — Sussurra essa parte mais para si do que para mim, no mesmo instante já me estuda, como se para definir se vou contar ou não. Penso rápido e examino aquela linda menina na minha frente, sinto como se já nos conhecêssemos há um século e descubro que tenho uma imensa vontade de protegê-la.
—Tudo bem, não vou contar a ninguém . Você está machucada? Quer comer alguma coisa? Precisa tomar banho? Vem! — digo a ela puxando sem esperar pelas respostas. — Vamos para o meu quarto.
Lembranças vão se desencadeando a cada segundo em que seguro a foto que tirei ano passado, da Vic me abraçando, enquanto planejávamos ir a uma festa de penetra. Sinto lágrimas escorrerem depois de muito tempo, no qual prometia não chorar pela sua felicidade. Abraço a foto com fervor e só consigo pensar em como vou achá-la antes dele. Eu preciso.
Me atrapalho toda com a comida que peguei para levar ao quarto. Tudo se esparrama pelo chão quando vejo aquela linda menina abraçando os joelhos no chão chorando baixinho. Corro até ela e pergunto com a minha voz mais carinhosa:
— Hey, não precisa chorar, o que aconteceu? Você está bem? — digo abraçando-a.
— Desculpa — ela limpa o rosto e tenta sorrir. — Minha mãe está piorando, eu escutei dos médicos que ela não irá durar mais que um ano. Fiquei tão assustada de ficar naquela casa sozinha com ele sem minha mãe para me proteger, sem pensar vim para sua casa sem ser convidada.
— Está tudo bem, você pode ficar aqui quanto tempo quiser. Quem é ele? O Juiz? Ele te bateu?
Ela jogou a cabeça para o lado desviando o olhar, me fazendo pensar que a resposta para todas as perguntas era um sim. Ando até o meu guarda-roupa e retiro um pijama e entrego–lhe. A morena me olha sem entender, mas pega e o veste. Pulo na minha cama e a chamo, enquanto ela deita e se ajeita, eu a cubro e começo a fazer cafuné cantando baixinho, enquanto a abraço.
— Você canta muito mal — ela diz rindo com a voz meio embargada. Quando pergunto se quer que eu pare, Vic balança a cabeça e abraça o travesseiro, ainda mais forte, entrando em um sono profundo.
Me recupero ao grito de Stefanie, largo o quadro na minha cama e vou descobrir por que, diabos, ela já está gritando às dez da manhã. Bom, preferia não ter ido, o negócio é o seguinte, eu não curto muito insetos e afins, uma barata voadora não é o que eu chamaria de um inseto fofo e limpo. Para piorar um pouquinho a situação a filha da mãe pousou na minha cabeça, sim, na minha cabeça e não foi surpresa para ninguém quando comecei a correr para todos os lados histérica e a infeliz não saía. Ninguém me ajudava naquela casa, minha mãe estava em cima da cadeira e a pirralha se escondia embaixo da mesa . — Pois é, somos uma família de mulheres medrosas.
— Alguém desse inferno tira essa porra de mim, rápido. — Eu gritava desesperada para me livrar da coisa nojenta grudada em mim.
Conseguimos resolver a situação quando minha mãe, a incrível e inteligente Dona Regina, jogou o sapato dela na minha cabeça.
Depois de duas horas de banho conseguimos — falo no plural porque eu fiz as duas me ajudarem a lavar meu cabelo, já que eu não ia toca-lo de forma e maneira alguma — tirar todos os vestígios esmagados da barata.
Me olho no espelho, estou com uma blusa de dar nó, vermelha, um top preto por baixo e um shorts de nylon. Ah, sem esquecer de falar com enormes olheiras, aquela confusão de manhã me fez esquecer por um momento, mas assim que voltei ao quarto e vi a foto, tudo voltou me deixando vazia. Sendo assim, decidi ir na escalada.
Quando alcançava a maçaneta da porta, como um ninja, Regina aparece perguntando aonde iria. Falo aonde e saio correndo para ela não ter chances de me proibir.
Quando eu entro ainda estou pensando em como achar a Vic e me deparo com o gato de olho azul, só que desta vez ele ficou me encarando e se exibindo, me deixando de boca aberta ao subir na pista do teto parecendo o Homem–Aranha. Só faltava eu ser a Mary Jane, brincadeira gente.
Eu conheci um instrutor novo hoje, chamado Brunão, que está me dando dicas de como subir, prendendo assim minha atenção nele. Vamos lá, é só seguir as cores Jes, não tem dificuldades nisso, auto me incentivo. Um minuto depois que desço no chão percebo que o Loiro deve ter me observado, coro rapidamente com vergonha. Me viro para o Brunão, falo que vou ao banheiro e depois talvez eu vá embora. Logo saio correndo.
Fico me perguntando se hoje a vida tirou o dia pra me sacanear, sério. Estou parada olhando o cara mijando, ele me encara assustado, pode ter certeza, eu estou mais. Com toda essa minha frescura com o menino, acabei entrando no vestiário errado. Peço desculpas e novamente saio correndo. — Acho que ando correndo mais que o Flash ultimamente. Novamente a querida vida me surpreende ao me fazer encontrar com o moleque, que foi a causa deste problema, rindo da minha cara na porta do vestiário. Engraçado é que logo depois de me zoar, teve a coragem de pedir meu nome. Sei que ajo como criancinha às vezes e essa não foi exceção, me viro e vou embora.
— Preciso descobrir a porra do endereço! — Começo a gritar, estou começando a perder a paciência com o retardado. — Esse número me ligou. — Esfrego na cara de Edgar, um hacker amigo de Vic, podemos dizer que uma pessoa um tanto obscura.
— Eu entendo, Jéssica, e eu seriamente acho que você está perdendo a noção do perigo falando desse jeito comigo. — Ele fala calmamente, mas pega o papel. — Bom que seja para a segurança de Victoria, te ligo assim que tiver o que você precisa.
Ele vai embora, me deixando sozinha naquele beco. Minha mãe vai me matar se chegar em casa e eu não estiver presente. Chamo o táxi e dou o endereço, minha cabeça pulsa o caminho inteiro. Assim que chego em casa tomo um remédio qualquer e deito-me na cama.
I’m so fancy, you already know... A nova música que Linda tinha escolhido para ser seu toque no meu celular, ecoou pelo quarto. Atendi ainda meio grogue por estar dormindo.
— O que foi? Espero que o mundo esteja acabando para você ter atrapalhado meu sono, logo depois de tanto tempo que eu não conseguia dormir! — falo mais alterada que normal.
— Ai, calma garota, quem te mordeu? Eu, hein! Bom, tenho um ótimo motivo se você quer saber. Eu consegui descolar uma festa perfeita para gente! Minha amiga Marina vai dar uma festa e me chamou, vai ser tipo a melhor festa...
— Quem? Aonde? Que horas? E você acha mesmo que minha mãe vai deixar ?
— Claro que vai, eu disse que você dormiria aqui depois e o resto te falo daqui a pouco. Fique pronta em meia hora que estou passando aí!
— Como assim você já falou com ela antes de mim? — Só que não consegui nenhuma resposta pois ela havia desligado o celular.
Realmente estava bombando a festa, não que eu fosse uma especialista, todo mundo muito animado. Assim que Linda avistou uma bela ruiva me puxou na mesma direção.
— Marinaaa! — disse ela gritando e pulando na garota. — Que saudades, sua vaca, você nem me conta que começou a namorar, fiquei sabendo pelo seu face. Ah, essa é minha amiga Jesse, Jesse essa é minha irmã perdida.
— Oi — cumprimento timidamente e percebo que não faço muita diferença ali, já que elas me ignoraram completamente.
Estava observando a festa quando um cara chegou perto se apresentando:
— Prazer, me chamo Marcus. — O cara me deu um beijo na bochecha. Não sei o porquê, mas tenho uma leve impressão de já tê–lo visto em algum lugar. — Qual é o seu nome?
— Jéssica — respondo dando um sorriso desagradável, não curto os meninos chegando em mim, porém antes que eu pudesse expressar meus sentimentos Linda apareceu do nada.
— Oi, prazer — ela disse dando um beijinho no rosto dele. — Tudo bem?! Bom, eu queria pedir um favor, essa linda garota aqui — disse segurando nos meus ombros — não conhece muito São Paulo e nem festas, posso contar com você para ajudá-la?
— Claro que pode — Ele dá um lindo sorriso e se vira para mim. — Você bebe? Fuma?
— Não fumo, bebo somente Ice e eu vi uma narguilé aqui, isso eu fumo — digo, estou precisando relaxar.
— Claro linda, vamos na cozinha pegar a Ice.
Segui ele até a enorme cozinha. Imagino de quem é a casa, ah, é mesmo, é da tal Marina. Ele me passou a Ice e eu abri e tomei tudo em um gole só, consegui registrar o sorriso que ele deu ao ver a cena, então me passou outra e seguimos para a roda onde se encontrava o narguilé.
No final eu já tinha me enturmado bem, descobri que seu nome era Marcus Alveron e tinha 17 anos, morava perto da minha casa. Tinha dois irmãos, Diana e Stevem, que eram gêmeos e tinham 18 anos. Trocamos o telefone e face, até que Linda veio me chamar para ir embora.
Antes de me desligar em sua cama, Linda me pergunta:
— Ele era um gato, vocês ficaram? Sabia que ele é lá daquela academia de escalada?
Eu congelo, então minha ficha cai, ele é o filho do promotor público que foi em casa semana passada. Minha mãe é uma grande advogada, consequentemente acabo conhecendo muitas pessoas importantes da política. Como aquele monstro.
Então adormeço.
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