Síndrome de Gaea.
36 viva com isso.
Todos os textos que escrevi sobre você estão incompletos. É como se toda vez em que eu começasse a desenvolver uma frase sobre tudo o que presenciei, as palavras me fugissem. Mas nem nos meus piores pesadelos eu imaginei que você poderia me amaldiçoar tanto. Como se eu tivesse bebido de uma fonte de água envenenada, ainda sinto o gosto do meu sangue na ponta da minha língua toda vez que tento relaxar nos abraços de outras pessoas. Existe tanta coisas sobre nós que ninguém sabe, e nenhuma delas poderia ser considerada boa.
Eu queria que você tivesse me deixado imaginando. Deus, eu fui tão idiota. Quinze anos e bochechas rosadas, tomando decisões que estilhaçariam a minha alma. Há pedaços de mim que eu nunca mais consegui encontrar por ai. Mas eu vi você, sentado naquela biblioteca. Ou você me viu, tanto faz. Eu caminhei pra sua armadilha sem desconfiar que eu estava descendo pra conhecer meu próprio inferno. Eu me arrependo amargamente de você todo o tempo. Não consigo perdoar, é como aceitar que minha inocência foi roubada, usada e nunca vai voltar. E isso é inconcebível. Ao mesmo tempo, não consigo falar sobre o que aconteceu, seria como admitir que você usurpou até mesmo minha dignidade. Eu queria que você tivesse me traído como um canalha normal. Não me importaria de ser traída, seria tão melhor. Eu preferiria qualquer coisa a isso.
Poderia ter sido diferente. Se eu me tratasse, eu nunca teria achado sua arrogância interessante. Se eu fizesse terapia, notaria sua ausência de empatia. Se eu não fosse tão rebelde, teria ouvido meus pais e corrido pra longe de você. Poderia ter sido diferente. Eu devia ter percebido que seu interesse em alguém da minha idade não era normal. Eu devia ter premeditado que você nunca mais me deixaria em paz. Eu devia ter corrido em vez de te defendido.
Poderia, deveria, acho, e se.
Nada vai trazer de volta a pequena, ingênua e incondicional eu. É uma ferida que não para de sangrar. Eu sinto o sangue passar por ela. Às vezes é quando eu mesma a toco, mas geralmente é quando noto que nunca vou poder apagar as marcas que estão sob toda a superfície da minha alma. Tudo se mistura na minha cabeça como um filme de terror. Todo o álcool, gritos, choro, cigarro e dor. Eu lembro de pedaços de pratos pelo chão, do ódio quando eu perdia a cabeça, cuspe na sua cara, sufocando em suas mãos e dor. Eu nem sequer posso te acusar de ser o criminoso, nós sabemos: Eu fui sua cúmplice. Eu estive em pó e pedaços, mas duas mãos tinham sangue. E eu defendia você pra todos os meus amigos, mesmo que precisasse esconder marcas novamente. Eu chorava escondido no banheiro da faculdade, porquê eu precisava estar linda durante os eventos do seu trabalho.
A esnobe, mercenária e vendida eu. Quão longe eu iria pra uma vida luxuosa? Quão desesperada eu estava para provar o meu valor pra permanecer com um homem cujo eu precisava estar sempre entorpecida pra suportar? Aos dezessete anos não tomamos as melhores decisões, eu sei. Mas que merda foi que eu fiz com a minha adolescência, presa a você? Com meus vestidos sob medida e meus honorários na sua folha de pagamento, quão inútil eu fui pra limpar um chão de cozinha todo ensanguentado depois de tentar terminar com você e você se esfaquear na minha frente?
A orgulhosa, decidida e ardilosa eu. Você ia me matar, eu sei. Você queria me matar desde o começo. Eu estava tão esgotada com suas tentativas de me engravidar e me aprisionar a você, então, eu fiz. Eu lutei por mim, com toda as forças que haviam me restado. E essa é a parte que você nunca vai poder apagar de mim. Eu tenho fíbra. Você não me matou. Você pode me cercar, mas nunca me encurralar. Você pode me degradar, mas nunca vai me roubar a minha dignidade. Eu ainda estou aqui. Eu ainda estou viva. Eu continuo andando por esse mundo, com liberdade. Você não venceu, eu venci.
Viva com isso.
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