Notas iniciais
Realidade ou ficção, qual você prefere?

#01: Alice.

Faz três dias.

Eu de certa forma não esperava que alguém como ela fizesse algo desse tipo, afinal foi um tanto quanto repentino.

Mas acho que nem mesmo pessoas como ela aguentariam a pressão das coisas que sofreu durante esses meses todos até agora.

Se você está se perguntando: “De quem está falando” Simplesmente responderei: Alice... Alice Reata. Porém se preferir pode chama-la de “Minha amiga de infância”.

Meu nome é Rule Samoh e moro no país insular de Alargasta, na cidade-capital de Marinaly.

Posso confirmar com convicção de que tudo que aconteceu foi real até demais e por isso decidi escrever esse relatório das aventuras que tive.

Posso não saber por onde começar, contudo tentarei explicar o máximo possível para que vocês, a próxima geração possa entender a cruel realidade por trás das coisas que denominamos: Sonhos.

Agora que estamos avisados... Poderei iniciar correto?

Tudo começou naquele dia...

Fazia dois meses desde que o pai de Alice tinha desaparecido em um misterioso acidente em seu trabalho, nenhuma prova jamais fora encontrada, nem mesmo pedaços de roupa ou os corpos.

A mãe da minha amiga sofreu bastante, todavia conseguiu aguentar a dor de tudo aquilo mesmo que fosse difícil.

As duas conseguiram recuperar-se tanto emocionalmente e financeiramente por conta da ajuda que eu e minha família demos, pois não só eu e ela éramos amigos, mas nossas mães também.

Porém... Quatro dias atrás algo terrível aconteceu.

Enquanto Alice e sua mãe passavam pela faixa da rua, um carro descontrolado e dirigido por um bêbado estava passando e com um instinto de proteção, a mulher empurrou sua filha para o lado seguro fazendo com que apenas a senhora fosse atropelada.

Não havia o que fazer os danos que foram desferidos sobre o corpo da moça não eram coisas superficiais.

Aquilo tinha sido a gota d’água pra minha amiga, ela cismou que o paraíso estava querendo lhe dar uma punição, mas a jovem não conseguia encontrar uma resposta para isso.

Nos dias que se seguiram, Alice faltou á escola. Eu entendo que a mesma estava triste, contudo eram as provas finais e depois delas estaríamos entrando em férias natalinas.

E o problema principal era o povo da nossa instituição de ensino, os mesmos pegavam pesados principalmente nesses finais de ano.

Eu estava preocupado com ela, todavia não sabia o que fazer. Poderia simplesmente ir até o apartamento dela, tocar e perguntar se a mesma está bem?

Até poderia fingir que estaria levando alguns estudos que os professores enviaram... Mas decidi ficar com a ideia inicial mesmo.

Depois que a aula chegou ao final peguei o caminho que levava até a residência da Alice, o mesmo era um prédio com dois blocos e continha seis andares cada, minha amiga morava no 4-A.

Andei até lá e toquei a campainha várias e várias vezes, porém a resposta nunca veio em troca. Decidi entrar na força, porém a porta já estava aberta, o que aumentou ainda mais meu receio.

Vasculhei o local inteiro, contudo sem sucesso. A única coisa que poderia ser visto como pista era a cama desarrumada de Alice.

Ela havia fugido? Tinha sido sequestrada? Morta? Adotada?

Essas dúvidas ecoavam e mexiam com meu cérebro sem pausa, todavia nada disso iria ajudar.

Minha amiga havia realmente desaparecido e não existia uma prova sequer para ajudar-me á encontra-la.

Após essa falha em minha missão decidi retornar para minha casa, eu morava em um bairro bem modesto, o mesmo só tinha casas e a calçada que ficava na frente das mesmas eram ótimas para passear com animais.

Roseiras enfeitavam a maioria dos muros em volta dos lares, me movimentei para dentro e subi as escadas sem falar com meus pais que apenas ignoraram.

Os mesmos sabiam do desaparecimento de Alice e pareciam ter decidido não me incomodar com isso, deixando que eu pudesse colocar meus pensamentos nos lugares adequados.

Entrei no meu quarto e deitei na cama logo após arremessar minha mochila em um dos cantos de lá.

Virei-me um pouco de lado e cerrei os punhos, pequenas lágrimas escorriam de meus olhos, eu sei que não devia chorar.

Sei que ter pensamentos negativos sobre essas coisas não ajudam, mas naquele momento não importava.

Alice não tinha feito nada de ruim, porém mesmo assim foi uma das pessoas que mais sofreu, enquanto que vários criminosos e ladrões continuam andando por ai sem nenhuma punição.

Apenas raiva não era capaz de descrever o que sentia naquele momento, porém meus pensamentos foram interrompidos ao ouvir batidas na porta.

– Filho... – Começou minha mãe. – Sei que quer ficar sozinho, mas chegou uma encomenda para você.

Suspirei e respondi:

– Tudo bem. – Disse. – Deixe na frente da porta que pegarei depois.

Minha familiar obedeceu e colocou a caixa de frente para o objeto de madeira, saindo de lá logo depois.

Levantei-me e andei até a porta, abrindo-a e puxando a caixa para dentro, fechando o quarto novamente após isso.

– De quem é essa encomenda... – Pensei enquanto tentava procurar o endereço de quem mandou, todavia em vão. – Anônimo, pelo que parece.

Não liguei muito e abri de uma vez aquilo, mas não existia nada demais ali.

Quatro tabletes de chocolate “Obsidian Star” e uma carta que estava escondida por baixo disso.

Retiro o que disse antes, a mensagem naquela carta podia explicar o porquê de enviarem essa coisa anonimamente.

Deixei de lado as outras coisas e me sentei enquanto abria o envelope e retirava o papel que estava dentro dele, me preparando para começar a lê-lo.

– Vamos lá... – Dei um último suspiro e iniciei a leitura.

“Olá.

Já deve fazer um tempo desde que nós conversamos um com o outro, não é Rule?

Se você não estiver entendo, vou explicar melhor: Sou eu, Alice.

Caso esteja lendo isso... Pode ser que eu tenha feito a pior escolha de toda a minha vida ou é uma chance de impedir que isso aconteça.

Acredito que seja a primeira, pois o pequeno tempo que isso deve demorar em chegar ai seria o tempo que precisaria para fazer tal escolha...

De qualquer forma, essas coisas que eu mandei para você são metade do que eu ganhei de uma pessoa... Nesse momento não faço a menor ideia do que eles fazem.

Mas creio que caso aconteça algo comigo... Esses doces devem ter a resposta, por isso faça o que achar melhor com eles... Analise, coma-os, o que desejar.

Era apenas isso que queria lhe falar, além de uma última coisa...

Caso eu... Você sabe... Não possa mais ver você ou qualquer outra pessoa, gostaria que agradecesse aos seus pais por terem me ajudado tanto... E Também á ti por ter sido um grande amigo até o final.

Abraços e beijos, Alice.”

Tudo estava fazendo um pouco mais de sentido após ler aquela carta, a Alice foi enganada.

Essa tal pessoa que lhe deu os chocolates deveria ser algum maluco ou psicopata e como a mesma estava em um momento instável, ela acabou por comer parte do doce, o que levou á mesma a desmaiar ou morrer.

Com essa vantagem, o maldito apenas precisou entrar no quarto dela e pegar o corpo, porém... Não tinha nenhum sinal de arrombamento na porta, então ele havia entrado pela janela?

Era difícil demais entender aquelas coisas, contudo se a minha amiga decidiu mandar metade do que ganhou daquela pessoa para mim, com certeza a mesma sabia que tinha algo de errado com isso.

Todavia ainda não havia sentido do porque ela provar essas coisas mesmo sabendo que não fará nada de bom á mesma...

Eu coloquei a mão sobre meu queixo e fechei os olhos, acho que descobri uma parte do enigma.

Não é que a Alice fosse ingênua até demais, ela queria isso. Considerando que havia perdido praticamente os únicos familiares com quem tinha contato, a mente dela não era uma das coisas mais “normais” naquele momento.

A mesma pode ter pensado que se comesse esse chocolate acabaria com sua dor de uma vez por todas e morreria, cumprindo assim todos os pecados que achava que havia feito.

Virei meu olhar levemente para a caixa onde os chocolates estavam, engoli seco e voltei a fitar a mensagem.

– Será que... A Alice realmente foi morta pelo chocolate? – Pensei enquanto amassava o papel. -... O que farei?

Naquele momento eu estava mais do que com dúvida, tinha curiosidade. Será mesmo que a Alice foi morta pelo chocolate? E Se ela ainda estiver viva? O que será que colocaram dentro desse doce? Onde estão mantendo ela presa?

Apenas ficar pensando nas perguntas não mudaria nada, eu joguei o papel de lado e me levantei na direção da porta, trancando-a com a chave.

Andei até a caixa e peguei um dos tabletes e o abri, logo após tirei um pedaço do mesmo e coloquei de volta na cabeça.

Deitei-me sobre minha cama e pude sentir o colchão macio, a minha visão estava virada para o teto onde a luminária do meu quarto estava posicionada.

Meu lugar não era tão grande, minha cama ficava colada na parede da esquerda, do lado dela tinha uma pequena escrivaninha onde guardava meus cadernos e livros e na direita existia meu guarda-roupa.

De qualquer forma, levei o pedaço do chocolate que segurava com minha mão direita até meu campo de visão para observá-lo mais uma vez.

Não parecia ter nada de diferente, mas eu sabia que não devia julgar apenas pela aparência.

Tinham colocado algo á mais nele que provavelmente é a resposta para eu entender o que aconteceu com a Alice. Desse jeito acharei uma forma de resolver esse enigma idiota.

Porém aquilo também era uma faca de dois gumes... Ao mesmo tempo em que poderia ser apenas um sonífero também poderia ser um veneno mortal que me mataria.

–... Que se dane. – Resmunguei jogando o doce para dentro da minha boca e começando a degustar do mesmo. – Hm...

Ao terminar de engoli-lo, eu observei o teto do meu quarto novamente, nada havia mudado no final.

Tudo continuava normal, meu corpo, olhos e até mesmo a boca.

– Será que apenas um pedaço é uma dose muito pequena? – Perguntei para mim mesmo.

Sai da cama e comecei a fazer meu caminho em direção da caixa para pegar outro pedaço, contudo...

No meio do caminho eu senti uma dor em meu pulmão e cai de joelhos puxando um pouco a gola de minha camisa da escola.

– O efeito demora pra funcionar... – Comecei há tossir um pouco. – Merda...

Não conseguia mais falar direito, minha boca gaguejava sem parar e eu parecia não ter mais controle sobre meu corpo direito.

Demorou pouco tempo para que os meus olhos começassem a ficar pesados, até que chegou o meu limite e acabei fechando-os por falta de força.

Aquilo era como morrer, eu só era capaz de enxergar a escuridão á minha frente, sem som e sem nenhuma luz.

O silêncio fatal que permanecia naquele nada me irritava, todavia eu não tinha como soltar minha raiva.

Um pequeno pensamento passou levemente pela minha cabeça “Então é assim que ficamos depois de morrer?”.

Mas não consegui estabelecer mais pensamentos e explicações para o porquê daquilo, uma luz começou a se aproximar de mim.

Sim, em meio á aquele vácuo imenso, algo brilhante existia. Devo ter ficado tanto tempo sem ver algo brilhando que meus olhos estavam se irritando um pouco.

No final acabei sendo engolido pela iluminação e meus globos oculares abriram de imediato.

Parecia que estava ao ar livre, pois a única coisa que meus olhos conseguiam ver ao estarem fitados para o alto eram nuvens negras que cobriam o céu completamente.

Usei meus braços e o apoio dos joelhos para me levantar. De pé novamente eu pude ter uma visão completa do lugar ao qual havia chegado:

Parecia uma cidade, porém ela estava completamente destruída. Parecia um local pós-apocalíptico, vários prédios pela metade, alguns inclinados para um lado e outros eram apenas destroços.

As ruas estavam esburacadas e cheias de plataformas que eram seguradas por um tipo de ferro que as conectava com outras partes da rua.

Não havia nenhuma cor viva ali, tudo era feito a partir de cinza, preto e branco, um cenário bem assustador.

Após observar atentamente os arredores decidi dar uma olhada em mim mesmo, a camisa social da escola que era branca agora estava cheio de manchas, por sorte o short era preto e não havia se sujado tanto.

Meus cabelos loiros estavam com algumas pedras sobre suas mechas, contudo as tirei rapidamente ao balança-lo, todavia a coisa mais estranha era o que se encontrava amarrado ao meu pescoço:

Um relógio de bolso dourado.

Eu o peguei com a mão e abri lentamente, o ponteiro maior e o menor estavam apontando apenas para um número, o três.

– O que... É Isso? – Gaguejei.

– Seu relógio de bolso, Rule. – Respondeu uma voz familiar e doce.

Meus olhos se esbugalharam por um momento e eu virei meu corpo em direção ao som das palavras e para minha surpresa, atrás de mim estava ela: Alice.

A minha amiga de infância sentada sobre um amontoado de destroços.

Seus cabelos longos e loiros eram movimentados pelo vento, a mesma também usava uma fita azul escura e seus olhos tinham um tom mais piscina.

Trajava um vestido azul com um avental na frente, suas meias chegavam até o joelho e tinham listras azuladas e brancas, por fim ela estava descalça.

A mesma não disse nada ao ver que eu a fitava com meus globos oculares lacrimejando, ela apenas inclinou a cabeça e deu um leve sorriso.

– A... Ali... Alice... – Tentei chamar o nome dela com um pouco de dificuldade. – É... Você?

–... Faz um tempo, não é Rule? – Alice não respondeu minha pergunta, mas ainda assim era possível notar a felicidade em sua face. – Achei... Que não veria mais nada do mundo real.

Eu não sabia o que falar e perguntar para ela, afinal estava bastante surpreso e feliz de tê-la encontrado mesmo achando que seria quase impossível.

Porém antes que meu cérebro pensasse em outras coisas decidi tentar pelo menos tirar algumas dúvidas sobre o que aconteceu com ela, além de procurar entender que lugar era esse.

– Alice... – Comecei chamando-a pelo nome. – Poderia responder algumas perguntas para mim? Eu gostaria de entender as coisas um pouco mais...

Minha amiga deu um pequeno pulo e pousou seus pés no chão fazendo com que o vestido balançasse um pouco, a menina virou-se para direita e começou seu caminho.

– Venha. – Pediu ela enquanto levava suas mãos para trás de sua cintura, juntando-as.

Não entendi muito bem o porquê de ela fazer isso, contudo aceitei a proposta e a segui por trás.

– Qual seria sua primeira dúvida? – Alice iniciou a conversa.

–... Que lugar é esse? – Perguntei.

– Aqui é o País das Maravilhas, um mundo que só existe nos sonhos da pessoa. – Ela respondeu.

– Sonhos? Então quer dizer que eu estou dormindo? – Deduzi.

– Hm... É um jeito de se colocar isso. – Afirmou Alice.

O jeito como ela estava me tratando era um pouco estranho, eu esperava que a minha amiga fosse daquele jeito que primeiro tentaria botar o papo em dia ou até mesmo me agarrar de tanta saudade.

Todavia não sabia o que ela tinha passado nesse mundo e nem o tempo que passou aqui.

Decidi deixar de lado e suspirei um pouco, voltando á sessão de interrogação.

– Aquele... Chocolate. O Que faz?

– O nome é Choconho, mas podemos defini-lo como se fosse um sonífero de alto nível.

– Então ele foi feito para induzir as pessoas á dormirem? Eu achei que seria algo mais... ”Perigoso”.

– Não é bem dormir. – Alice deu uma parada em seus passos. – Ele força á pessoa a descansar e a induz para o País das Maravilhas. As chances de alguém cair aqui sendo levada normalmente pelos seus sonhos são quase nulas.

Coloquei a mão sobre meu queixo e parei para pensar um pouco... Então alguém queria ter um jeito mais fácil de ser transportado para cá? Mas por quais motivos?

– Ele foi criado para nos mandar para o País das Maravilhas, então?

– Exato.

– Porém... Ainda não consigo entender o que você vê de perigoso em ser mandado para aqui, quero dizer... O cenário é um tanto quanto estranho, porém não vi nada de perigoso até agora.

Alice virou seu olhar em minha direção e com uma expressão séria falou:

– Não deveria definir as coisas apenas pelas suas primeiras impressões, Rule.

Cocei um pouco a minha cabeça, não queria que ela ficasse tão irritada quanto ao que falei, então decidi me desculpar.

– Foi mal. É que apenas não parece ser perigoso... – Reformulei a frase.

– Enfim... – Sussurrou Alice voltando á caminhar. – Algo a mais?

– Tem sim... Isso. – Avisei pegando o meu relógio de bolso e o jogando para a garota. – Você o chamou de relógio de bolso, certo?

A minha amiga virou-se e segurou o objeto, abrindo mesmo e observando seus ponteiros.

– Duas horas e meia... – Disse Alice. – Parece que na sua primeira vinda você conseguiu pouco tempo.

– Como assim? – Indaguei.

– Todas as pessoas que vem para o País das Maravilhas recebem um relógio de bolso. O mesmo serve para calcular o tempo que você ainda tem antes de acordar desse sonho e voltar para a realidade. – Explicou Alice. – É como se fosse um alarme... Além de ser o único jeito capaz de te levar de volta sem nenhum risco.

Alice o jogou de volta para mim e eu o segurei, fechando-o e guardando em meu bolso novamente.

– Então ele me avisa quanto tempo tenho antes de acordar... – Cruzei os braços. – Isso é deveras... Interessante até.

– Assustador seria uma palavra mais válida. – Sugeriu Alice.

– Bem... Agora só tenho mais uma dúvida. – Falei. – Sinceramente... Há quanto tempo você tem vindo até aqui, Alice? Pois você parece saber muito pra alguém que teoricamente só estaria aqui á três dias.

Alice abaixou a cabeça e fechou os olhos, soltou um suspiro bem pesado e voltou á olhar para mim.

– De fato... Faz mais ou menos um ano e meio que comecei á vir para cá, mas não precisei utilizar o chocolate. Em um dos meus sonhos eu simplesmente fui transportada para cá. – Disse Alice. – Aos poucos fui entendendo o que cada coisa faz e fui a nomeando... A única que eu descobri por mim mesma foi o nome do local, enquanto andava acabei encontrando uma placa á qual estava escrita “País das Maravilhas”.

– Então até o momento... Você nunca tinha usado esses chocolates para vir pra cá? – Interroguei.

– Sim, jamais. A única vez que os utilizei foi três dias atrás... Quando aquilo aconteceu. – Lamentou Alice.

–... Eu sinto muito sobre a morte da sua mãe. – Tentei consola-la um pouco, afinal mesmo estando em outro mundo, os sentimentos da minha amiga vinham em primeiro lugar do que as respostas.

– Tudo bem... Acho que o maior problema... É isso. – Alice tirou um relógio de bolso de seu vestido e o abriu em minha direção, o estranho é que os ponteiros do mesmo estavam quebrados, além de que existia uma rachadura no vidro. – Ele está quebrado... E sem isto... Sou incapaz de voltar para o mundo real.

Meus olhos esbugalharam assim que Alice terminou de falar, cerrei meus punhos um pouco e acabei dando um passo para frente:

– Como assim?! Você não é capaz de voltar? Nem com outro relógio?! – Gritei.

– Pelo que parece... Tem um limite de vezes com o qual você pode visitar o País das Maravilhas e caso ultrapasse essa linha... Torna-se incapaz de voltar. – Alice abaixou a cabeça.

–... N... Não... Isso simplesmente não pode! – Exclamei. – Tem que ter algum jeito! Você apenas... Apenas não deve ter encontrado! Eu posso te ajudar Alice! Quem sabe utilizamos o meu relógio e voltamos juntos... Ou... Ou... Qualquer outra coisa...

– Calado! – Gritou Alice.

A mesma apertou fortemente seu avental e olhou em minha direção com os olhos irritados, várias lágrimas escorriam dos globos oculares da mesma e a coloração vermelha perecia sobre suas bochechas intensamente.

– Você não sabe de nada, ok?! Eu já vi praticamente tudo nesse mundo! Quando meu pai morreu, a única coisa que me impediu de cometer suicídio foi poder vir até aqui! – Berrava Alice.

– Mas... Não podemos viver apenas nos sonhos... E a lição que eu levo disso é que serei incapaz de ir ao funeral de minha própria mãe... Visto que fui egoísta e quis morrer logo, sem pensar em como os outros se sentiriam...

–... A... – Fui incapaz de chamar o nome da mesma, eu não tinha muitas coisas para falar naquele momento, achei que seria bem melhor deixa-la extravasar um pouco.

– Não tente entender o que sinto... Não finja que sabe o que sinto... Simplesmente... Pare de vir aqui. – Pediu Alice. – Você apenas vai gastar seu tempo procurando coisas inexistentes e no final ficará preso.

Alice virou-se de costas para mim e passou o braço sobre seus olhos para limpar as lágrimas que continuavam á cair.

– O tempo de estadia pode demorar um pouco á acabar... Mas é só esperar... – Avisou Alice. – Logo poderá sair daqui, não se preocupe.

Naquele momento eu não queria ouvir mais nada sobre ela, por isso apenas comecei a andar em direção á mesma.

Depois de alguns passos pude alcança-la assim podendo ser capaz de ouvir pequenos soluços que a jovem tentava forçadamente esconder.

Levei minha mão e pousei sobre o ombro da minha amiga, fazendo com que a mesma indagasse e esbugalhasse os olhos um pouco, virando para minha direção seus globos oculares.

– Ru... Rule... – Gaguejou Alice.

– Não combina com você. – Admiti.

– Ahn... ?

– Sabe... Ser inteligente, saber das coisas e por cima de tudo... Chorar. Não parece a minha melhor amiga Alice. – Expliquei enquanto abria um leve sorriso em meu rosto.

–... – Nada veio em resposta dela, a menina apenas ficou de frente completamente e me abraçou. – Rule!

O último grito que a mesma deu pode ecoar por todo aquele mundo, eu não sabia o quanto ele era grande, contudo aquela voz deve ter sido aguda o suficiente para metade de ele ser encoberto pelo tom de Alice.

– Acalme-se... – Aos poucos retribui o abraço e fechei meus olhos para pensar um pouco. – (Posso realmente não entender o que a Alice sente ou não saber sobre nada desse mundo... Mas ainda não vou desistir. Quem quer que tenha criado esse lugar também fez outro jeito de sair daqui sem ser com os relógios...).

– Uau! Parece que lhe encontramos irmã Alice! – Exclamou uma voz.

Eu e Alice nos surpreendemos ao ouvir esse som e afastamos um do outro, ao olharmos para trás pudemos ver duas figuras:

A primeira era uma garota que parecia ser uma gêmea da minha amiga, mesmo tamanho de altura, mesma roupa e até o peso devia ser igual, a única diferença clara eram a cor dos cabelos e dos olhos que eram brancos e vermelhos.

Já a segunda eu não podia distinguir se era um homem ou mulher, a coisa estava trajando uma capa turquesa que cobria todo o seu corpo e um capuz que escondia seus cabelos, também vestia uma máscara bege que impedia seu rosto de ser visto.

A aparência dos mesmos era bastante estranha, porém o que mais me intrigava é: O que eles eram? Seriam outros humanos que também vieram aqui e conheceram a Alice?

– Eles não... – Resmungou Alice.

– O que eles fizeram á você Alice? – Perguntei preocupado.

– Nada ainda! – Respondeu a estranha menina sorrindo.

–... O que vocês querem com ela? – Interroguei-os enquanto ficava na frente de Alice.

– Apenas desejamos a energia da carta imaginária dela para alimentarmos o país das maravilhas, oras... – Explicou a garota cruzando os braços. – Algo de errado com isso?

– Carta... Imaginária? Alimentar esse mundo? – Repeti as perguntas, eu sinceramente não havia entendido nada daquilo. – O que são essas coisas?

– O que? Não me diga que ela ainda não lhe contou! – Indagou à estranha.

– Alice... Que coisas que ela falou são essas? – Perguntei.

– A carta imaginária é um objeto que você consegue após matar seu Ego dos Sonhos nesse mundo... Ela permite que você ganhe uma habilidade aleatória dependendo do naipe, mas... – Começou Alice.

– Matar seu Ego dos Sonhos significa assassinar sua própria imaginação e pensamento. – Interrompeu a jovem de cabelos brancos. – Assim que um Usuário adentra no País das Maravilhas, seus maiores sonhos tomam uma forma física que seria a representação de como o mesmo seria nesse mundo... Porém você deve saber que duas pessoas iguais são incapazes de conviver uma com a outra, não é?

–... Ou você... Ou seus sonhos... ? – Deduzi um pouco assustado.

– Exato. Contudo ninguém pode viver sem pensamentos ou imaginação, para que isso fosse aliviado, os Egos dos Sonhos se tornam Cartas Imaginárias, o que seria seu cérebro aqui. – Continuou a menina. – Caso a carta seja cortada, destruída ou qualquer outra coisa que cause um dano permanente... Isso afetará seu cérebro diretamente. Além de que se morrer aqui jamais será capaz de retornar... Ou acordar.

O que diabos eram aquelas explicações?! Aquelas pessoas sabiam mais do que a Alice, sem dúvidas... Todavia eu duvido muito que humanos saberiam tanto de outro mundo assim.

– Se esses tais Usuários ganham Ego dos Sonhos ao virem para cá, quer dizer que eu não sou um, certo? Afinal nada disso apareceu para mim. – Retruquei.

A estranha de cabelos brancos balançou sua cabeça negativamente e deu uma pequena risada, voltando á falar comigo.

– Você está muito enganado. Qualquer pessoa do mundo real que venha para o País das Maravilhas se torna um Usuário, é incapaz de fugir disso. – Explicou a garota. – O mesmo apenas não deve ter aparecido, pois ainda está analisando seus sonhos para ver qual é o mais forte e especial, para assim conseguirem formar uma aparência física para ele.

– Em outras palavras... Mais cedo ou mais tarde uma pessoa que nasceu dos meus sonhos tentará me matar... – Pensei. – Isso é totalmente sem sentido...

Fechei meus olhos por um momento, tudo que eu havia ouvido desde que cheguei naquele estranho mundo não fazia o menor sentido, estava completamente sendo um peixe fora d’água, afinal todos ali pareciam conhecer muito bem do País das Maravilhas...

Tirando a pessoa com a máscara que até agora não disse nada, o que me deixa um pouco frustrado.

Abri meus olhos novamente e olhei para a dupla, porém o estranho mascarado não estava mais ao lado da garota de cabelos brancos.

– O que? Pra... Pra onde ele foi? – Indaguei ingenuamente.

– Olhe para baixo. – Pediu a menina abrindo um sorriso malicioso.

Obedecendo a ordem dela, eu movimentei meus globos oculares para baixo, contudo antes que pudesse fitar direito acabei levando um murro no queixo que me fez ir para trás, cuspindo um pouco de sangue.

Ao tentar me recuperar, o estranho avançou um pouco e acertou um chute que me jogou um pouco longe do local onde eles estavam, acabei rolando pelo chão no meio do caminho, todavia no final caí de costas para baixo com várias partes do meu corpo sujas, sem contar que a camisa havia rasgado um pouco.

– Au... – Virei meu corpo um pouco de lado em uma tentativa de levantar-me. – Esse cara sabe como bater...

Alice por sorte havia conseguido pular para o lado antes que eu pudesse atingi-la ao ser lançado para longe.

Minha amiga observava o inimigo de máscara que estava á sua frente, a mesma cerrava seu punho direito com bastante fúria.

– Você devia ter me ouvido mais rápido... – Resmungou a maldita. – De qualquer forma, depois desses golpes do Meiske será incapaz de se levantar. Acho que isso dará tempo o bastante para seu Ego dos Sonhos aparecerem e te matar.

Como eu queria mandar aquela garota se danar, sério mesmo.

Ela não era apenas irritante, o jeito como a mesma falava as frases e como lidava com as respostas que recebia não era nada divertido.

Porém acho que eu seria incapaz de acertar um murro na cara dela, se não sou nem capaz de escapar do golpe desse tal “Meiske”.

A tentativa de me levantar não foi um completo sucesso, contudo pelo menos pude ficar de joelhos na direção onde as coisas estavam começando á acontecer.

– Provavelmente é o máximo que ele pode se mover... Enfim, Meiske termine o que viemos fazer. – Pediu a albina.

Meiske virou seu olhar em direção á Alice, eu tinha certeza sobre o que ele tentaria fazer, mas não conseguia movimentar meu corpo direito para tentar impedir aquilo.

– Droga... Meu corpo não aguenta mais se mover... – Mordi meu lábio inferior por conta daquela situação.

O oponente começou a se movimentar até Alice enquanto que a mesma tentava se afastava para trás, contudo ela acabou tocando em um dos destroços do prédio.

– Não tem mais para onde ir... – Indagou Alice.

O inimigo parou de frente para a mesma e levantou sua mão direita, começando á movimentá-la lentamente até minha amiga.

– Alice! – Exclamei com toda a força que me restava, também tentei me mover, mas acabei caindo no chão. – Merda! Dá pra fazer algo?!

Alice colocou a mão em seu vestido e tirou uma carta do mesmo, fazendo um corte no ar com a mesma logo em seguida.

Ao ver o movimento que minha amiga fez, Meiske deu um salto para trás se afastando da mesma.

– Não queria ter que usar isso... Mas parece que não tenho outra escolha... — A carta foi envolvida por um brilho amarelo e logo desapareceu da mão de Alice, fazendo com que o símbolo de uma estrela da mesma cor revelasse em sua testa. – "Palavras de Deus".

– O que é isso... ? – Meus olhos estavam perplexos com aquela cena. Alice havia usado algum tipo de magia com aquela tal Carta Imaginária?! Então a parte de conseguirmos poderes aqui... Era realmente verdade?

– Ai está... A habilidade que é capaz de mandar na realidade... Palavras de Deus. – Pensou a albina cruzando seus braços e abrindo um sorriso no canto de seus lábios. – Sim... É isso que queremos... Mostre-nos... O poder de uma divindade, minha gêmea!

Algo havia mudado bastante ali... Aquele tal de Meiske estava um pouco receoso para avançar contra Alice, enquanto que minha amiga parecia ficar cansada a cada segundo que se passava...

Mas o mais estranho era aquela garota, o sorriso em seu rosto não devia ser algo bom considerando o quanto ela é maluca, porém... O que ela estaria armando?!

Droga... São muitas coisas que eu não sei desse mundo, será que vou ser mesmo incapaz de compreender pelo menos um jeito de ajudar a Alice?

– Saia! – Gritou Alice.

Após o grito, Meiske foi arremessado por alguma força invisível para trás, fazendo o inimigo colidir fortemente com os destroços e levantar uma cortina de poeira pelo local.

– Arf... Arf... – Minha amiga tentava conter seus suspiros repentinos, mas o cansaço era muito. – Mesmo que eu tenha que usar esse poder... Se for para proteger o Rule, não me importo! Eu irei matar vocês!

– Alice... – Sussurrei para mim mesmo.

– Você é tão inútil... – Disse uma voz atrás de mim.

Ao virar-me, a visão daquele momento não foi uma das melhores coisas para mim...

Em minha frente estava outro eu, ele tinha os cabelos loiros arrumados em um corte de tigela, vestia uma roupa de príncipe azul com algumas partes douradas e uma calça branca, além de carregar consigo uma espada do lado direito de sua cintura, seus olhos eram esmeraldas assim como os meus.

– Você... Você... – Gaguejei inconformado com aquilo que havia aparecido.

– Exato... Príncipe Rule Samoh, aquele que vai salvar Alice... – O mesmo fez uma reverência. – Á seu dispor.

=== Fin. ===

Por que você aceita as palavras dela?

...

Não seria melhor ser o rei?

...

Um peão que nunca avança.

Próximo Capitulo: Honra.

Notas finais
Curiosidades que não servem para nada: > "Choconho" é junção das palavras "Chocolate" e "Sonho". > Na antiga versão dessa história, os termos do chocolate, relógio de bolso e do país das maravilhas eram alternados com "Deliverance Chocolate; Pocket Clock e Wonderland", mas devido a confusão que isso causaria, esses termos permaneceram apenas em português mesmo.