Série Pacto - Conspiração
22 Sangue Borbulhando (Elisabete Thomas)
Notas iniciais
- AI MEU DEUS! – eu não estava acreditando em meus olhos. — O que foi? — perguntou Jacques, com as mãos acariciando minhas costas enquanto beijava meu pescoço, deixando minha pele arrepiada. Mas eu já tinha perdido a concentração no meio do amasso, e estava estática. Ele era mesmo muito cara-de-pau.
- Eu é que pergunto – me soltei dele com gentileza – Fique aqui, eu vou...
- Não! – porcaria, ele o tinha visto, só pela sua voz eu sabia, era zangada – Eu vou tirá-lo daqui a pancadas, estou devendo isso a ele a muito tempo – ele se levantou de súbito, quase me derrubando, mas consegui me equilibrar a tempo.
- Ah, não, não, não! — eu me finquei em sua frente, e segurei seus ombros com toda a força que consegui reunir em minha altura mais baixa que a dele. Sério. Eu sou alta, mas Jacques ainda me supera – Vocês dois não vão sair rolando as escadas e serem expulsos pelos seguranças! Jacques deu uma risadinha esperta e sexy. Que fez meu cérebro derreter. Eu poderia ter virado manteiga ali mesmo. Mas consegui me controlar, eu precisava conter um vampiro enfurecido!
- Eu vou entrar de novo, sou um vampiro, esqueceu? — ele me lembrou, tentando quebrar minha resistência acariciando meus braços com os dedos. Boa tentativa, bonitão.
- Não, e mesmo assim não vou admitir que ninguém bata em ninguém na minha festa, entendeu? — eu o encarei dentro das íris castanhas, que me sustentaram até virarem-se pra cima, exasperadas.
- Está bem, inferno! Por quê Jean não desaparece? — ele sentou no pufe da mesa onde nossas bebidas já estavam esquecidas. Duas batidas de morango, nada forte, só pra fingir que fazíamos outra coisa além de ficar nos beijando, quando as pessoas passavam por ali pra tentar ver se achavam algum outro lugar vago. Mas esse era o segundo andar, e ele já estava lotado. Eu e Jacques só tínhamos aquela mesa porque a festa era minha e ela tinha sido reservada especialmente pra mim.
- Porque ele sabe que se aparecer vai te tirar do sério. E consegue, não? — eu tentei não rir dele, mas estava difícil. Seu cabelo louro estava todo bagunçado, espetado pra todo lado, seus lábios vermelho-escuro estavam um pouco inchados e sua roupa estava mais amassada do que se tivesse sido mastigada por uma vaca. E era tudo culpa minha.
- Muito engraçado – seus olhos castanhos e inteligentes se estreitaram – Acabe com ele de uma vez e volte pra cá, está bem? E se tiver algum problema... — tive certeza de que ele pediria pra eu chamá-lo, mas fui pega de surpresa pelo sorriso malicioso que me lançou — … chute a bunda dele, você é uma bruxa, afinal das contas! Me aproximei dele e o beijei no rosto.
- Sim, eu sou — pisquei e me voltei pro lado do corredor, onde Jean estava parado, nos observando com um sorriso torto e matreiro no rosto. Descalça, ergui um pouco das saias do vestido, porque seria bem capaz de tropeçar neles em minha pressa em despachar aquele vampiro idiota dali. Jean tinha o dom de aparecer nos momentos mais inoportunos. Eu já estava quase sacando a chave do quarto reservado pra mim no clube quando o vi, ali parado, em seu terno obviamente caro, e em sua máscara de penas luxuosa.
- Muito bem, desapareça, ou posso ficar muito chateada – eu pontuei minha palavras com um abanar de mão que fez o ar circular ao redor um pouco forte demais. Ouvi as pessoas murmurarem, reclamando do vento frio e fechando as cortinas das janelas.
- Só vim lhe dar parabéns, e dizer que não estou bravo por meu convite ter se extraviado no correio! – ele tinha um tom alegre, e sorria do jeito mais descarado que alguém podia sorrir.
- Ele não foi extraviado, você simplesmente não estava na lista de convidados, Jean – retruquei, rolando os olhos.
- Está bem, entrei de penetra – ele sussurrou, em tom conspirativo – Não resisto a uma boa festa, pode me perdoar?- seus olhos azuis brilharam, divertidos, enquanto ele estendia a mão pra mim. Ignorei isso e suspirei.
- Tanto faz. Fique, só, por favor, não coma ninguém daqui.
- Em que sentido? — uma sobrancelha preta se ergueu e um sorriso charmoso e ao mesmo tempo predador distendeu sua boca. Eu trinquei os dentes pra não extravasar meu temperamento ruim.
- Você sabe do que estou falando! — exclamei, irritada, uma pontada na têmpora me avisando que uma dor de cabeça viria se eu não respirasse fundo – Apenas não mate ninguém, está bem? Pra minha total perplexidade ele se curvou e quando o fez apanhou minha mão e a beijou.
- Como quiser, madame. Alguém já lhe falou que está fabulosa, nesse vestido? — Hum, na verdade já – meu rosto esquentou involuntariamente. Mas esse devia ser o efeito natural de Jean, porque algumas meninas ali perto estavam dando risadinhas e lhe dando olhares cobiçosos — Agora, pode ir andando? Ele assentiu, e vi que tinha percebido as garotas e sorriu pra elas. Achei que fossem ter uma síncope.
- Irei, mas não desacompanhado – ele se aproximou da mesa das garotas – Olá, meninas, alguém quer me acompanhar pra pista de dança? Estou me sentindo meio solitário...
Balancei a cabeça pra ele, que piscou pra mim ao passar com as três garotas, de braços dados e todos rindo. Pelo menos ele estava fora de vista. Dei a volta na cauda do meu vestido vermelho, e andei devagar até Jacques. Tive que desviar alguma latas de cerveja no chão, antes que pisasse nelas e me machucasse. Fiz uma careta. Que falta de vergonha! Tinha um monte de lixeiras pelo clube e mesmo assim jogavam latinhas no chão? Era o fim da picada.
- Você devia ter exigido que as pessoas usassem as lixeiras, Lis – sorriu Jacques, estirado preguiçosamente no pufe, com as costas apoiadas na bancada de madeira que impedia as pessoas de caírem lá pra baixo e morrerem com o crânio quebrado no meio do salão.
- Na próxima festa farei isso – tirei um dos pufes do meu caminho até ele, e subi por cima de suas pernas, colocando as minhas uma em cada lado de seu quadril. Ouvi a respiração dele prender e dei uma risadinha. Acho que finalmente, a batida, dita inocente estava começando a fazer efeitos.
- E espero que não tenhamos que esperar até a próxima festa pra fazer isso – ele me pegou pela cintura, me apertando tanto que sentia cada parte do corpo dele grudado no meu, e me beijou de um jeito ardente. Me ajeitei melhor em seu colo, meus dedos agarrando seus cabelos com força. Eu precisava dele. E precisava dele agora. Antes que meu corpo virasse cinzas, de tão alta que estava minha temperatura, apesar do toque frio dele em minhas costas,e de seus lábios gelados. Eu parecia incapaz de esfriar. O beijo ficou mais intenso e faminto em segundos, e sem perceber, fui me curvando cada vez mais sobre ele, enquanto sua boca deixava a minha e escorregava devagar e ávida no meu pescoço. Tão curvada que percebi que estava passando da amurada de madeira, e as pessoas lá embaixo podiam me ver. Era melhor sairmos dali. Antes que quebrássemos a bancada.
- Jac... — me choquei que minha voz saísse daquele modo. Estava lenta e ofegante. Mas depois não liguei mais — … a chave, vamos sair daqui... — eu gemi quando os dentes afiados dele acariciaram meu pescoço. Não só por meus sentimentos, mas porque eu sentia os dele, e eram avassaladores, de dar vertigens.
- Sim, sair... — um de seus braços se esticou por trás de mim, e ouvi um tilintar. As chaves, finalmente. Relutante, ele parou de mordiscar meu pescoço, e me erguendo com um só braço, me colocou em pé, no chão – Vamos, antes que a gente caia em cima dos seus convidados – seus olhos sempre naquele tom claro adorável de castanho, agora estavam pretos como carvão, cada veia de seu rosto e pescoço, até mesmo de suas mãos fremiam, e num turbilhão aquilo me atingiu. Ele estava no máximo de seu controle, se não corrêssemos ele não responderia por ele mesmo. Ele dizia isso em toda a enxurrada de emoções: carinho, dor, sede, fome, alegria, e desejo, um desejo tão feroz que arquejei. Pisquei, me controlando. Ele me puxou pela mão.
- Você ainda me sente? — ele murmurou, enquanto andávamos depressa na direção das escadas.
- Sim, por quê? — Geralmente é preciso manutenção – ele me amparou, segurando minha cintura, quando pisei no vestido ao descer os degraus.
- Como assim?
- Eu preciso te dar mais do meu sangue. A ligação de sangue só é duradoura com a manutenção. É estranho que ainda me sinta – ele me salvou mais uma vez de tropeçar e sair rolando
– Deve ser algo relacionado à sua magia.
- Deve ser – respondi, distraída. Eu não queria discutir nada daquilo no momento. A única coisa central dos meus pensamentos era me livrar do meu vestido. Os sapatos Jacques estava carregando. Então praticamente corremos pelo meio da pista. Atravessamos o espaço do bufê, e partimos pra direita depois do bar, onde estava o segundo ambiente. Onde a banda do clube estava tocando. Ali estava um clima mais calmo e romântico, mau dava pra ouvir a batida eletrônica da pista principal. E ali, no segundo andar com cadeiras e mesas de metal, havia um corredor que levava a uma porta. Essa porta ia levar a um corredor secreto, onde estavam os Quartos da Ressaca. De acordo com minha digníssima amiga Alexandra, havia algumas pessoas, que não aguentavam ir pra casa, então sob a quantia de trinta reais, você podia ficar ali até estar melhor, ou no mínimo poder sair andando sem tropeçar nos próprios cadarços. Mas hoje, um desses quartos não serviria pra pessoas curarem dor de cabeça. A porta de número dez apareceu em nossa frente. A mão branca e grande de Jacques estava colocando a chave na fechadura antes que eu pudesse recuperar o fôlego da corrida. Ele me pôs pra dentro do quarto com um puxão pela cintura. Ouvi a batida da porta no mesmo instante que notei estar num aposento bem escuro. Exceto por algumas nesgas de luz vindas através da persiana da única janela existente.
- Está escuro – eu dei uma risadinha, enquanto minhas mãos subiam pelo rosto dele, e depois pros olhos, sentindo os cílios fazerem cócegas nas minhas palmas. Eu podia sentir minha pulsação nas orelhas, acelerando e acelerando...
- Em alguns momentos ela é mais bem-vinda do que a luz — ele guiou minhas mãos pro nó de sua máscara, que eu desfiz, enquanto ele dava um jeito na minha – Pronto, agora posso te enxergar melhor. Não que você seja invisível...
Nós dois rimos baixo, então ouvi um som suave, e uma luz se acendeu ao nosso lado numa mesinha, ligada por Jacques. Pude ver como o quarto era, pelo menos por alguns instantes. Era bem romântico pra um aposento onde se curava ressaca. O chão era de carpete cinza-claro, e as paredes tinham um tom azul pálido, a cama era simples, com uma cabeceira bonita de metal retorcido no formato de rosas. A colcha era da mesma cor das paredes. Só que não pude absorver outros detalhes, porque havia duas mãos desfazendo os laços apertados do espartilho do meu vestido. Ele podia ter arrancado todo o tecido fora, mas ele não o fez, eu sabia que Jacques tinha adorado o vestido. E eu mesma ia lamentar vê-lo arruinado. Senti o frio nas costas quando ele baixou as alças, e os dedos frios percorrendo a pele. Depois um grunhido.
- Você só estava usando o espartilho? — ele sussurrou em minha orelha.
- Não havia necessidade de mais nada – eu sorri e toquei a mão que estava sobre meu ombro nú. Jacques não disse nada, só respirou e continuou a desfazer os laços. Quando o vestido caiu, formando um monte que parecia sangue no chão, eu me senti um pouco nervosa, porque ele não dissera nada, estava em silêncio atrás de mim. Eu iria me virar quando ele mesmo o fez.
- Você é ainda mais linda sem o vestido – ele murmurou, me envolvendo com seus braços musculosos, beijando meus olhos. Meu nervosismo virou fumaça. E fiz minha parte. A capa foi fácil de jogar pra algum canto do quarto e o blusão azul dele só tinha botões e fitilhos, e também foi embora rápido. Só restou uma camisa de linho fino, que Jacques tirou, jogando-a no chão, ao lado do meu vestido. Então tudo que havia era uma pele branca e mais músculos, nos quais eu corri os dedos, como tinha feito em seus cabelos. Eu sempre soube que ele era incrível, mas naquele momento parecia ainda melhor. Eu sentia aquele cheiro de lavanda suave, misturado ao meu próprio perfume. Olhei em seus olhos escuros.
- Jac, eu... — ele me calou com um beijo feroz, apertando minhas costas e me erguendo levemente do chão. Eu me perdi nas sensações que me tomaram de uma só vez. Não pensei em mais nada além dos lábios dele, de sua pele contra a minha, tão gélida, mas capaz de fazer a minha ficar em chamas. Senti que estava sobre a cama quando senti o corpo de Jacques sobre o meu, sua boca deslizando pelo meu pescoço e colo. Suas mãos acariciando minhas pernas. Eu não tinha visto como ele se livrara do resto da roupa e das botas de couro, muito menos do cinto com a espada. Só sabia que sua pele estava inteira sobre a minha, maravilhosamente fria e suave.
- Lis... — ele chamou, baixinho, tocando meus cabelos estendidos por todo o travesseiro.
- Hum? — eu não estava raciocinando direito, mesmo que ele tivesse parado de me beijar e estivesse me olhando. — Tem certeza de que...? — ele deixou a pergunta no ar, observando meu rosto com atenção. Eu aproximei seu rosto de volta, e o beijei no ponto que eu mais amava, e mais tinha curiosidade. A cicatriz, da têmpora até o queixo, branca e cruel. Meus lábios seguiram sua linha, até se deterem próximo de sua boca.
— Eu nunca tive tanta certeza – respondi, olhando dentro de seus olhos tão negros como sílex, agora. Devagar, um sorriso suave fez sua linda boca vermelho-escuro estender-se. Então se transformou em algo malicioso, e Jacques baixou a cabeça pra minha orelha.
- Obrigado, Lis – e então mordeu o lóbulo, me fazendo gemer e suspirar. Ele me ergueu, me colocando no colo, do mesmo modo que estávamos anteriormente no pufe. Só que não havia mais bancada, e não havia risco de acidente. E eu soube, que a decisão seria minha, não dele, Jacques estava me esperando, hoje eu estava no controle. Ergui as sobrancelhas pra ele, que me encarava com um desejo intenso, mas muito bem controlado. — Eu amo você — falei, envolvendo seu pescoço com o braços e depois encostando meu rosto no seu. Ele não esperou mais. A partir daquele momento meu mundo se resumiu em prazer, luxúria e sangue borbulhando.
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