Série Pacto - Conspiração
25 Cheque Mate
Notas iniciais
Marc estava com Alexandra na pista de dança, era um delicioso rock dos anos cinquenta que tocava, e foram os anos nos quais ele mais se divertiu. E era bom estar com alguém que se divertia tanto quanto ele. Quando a viu em seu vestido sentiu-se extremamente afortunado. Quando, um amaldiçoado, poderia ter tamanha beleza em suas mãos? Tinham lhe oferecido uma dádiva. Devil in Desguise terminou, e seu par o fitou com os olhos grandes e escuros.
- Podemos descansar um pouco? Meus pés estão me matando! — Alê gritou, acima de My Chemical Romance que se iniciava.
- Claro! — ele respondeu, procurando achar uma brecha de saída no meio dos corpos que se retorciam – Venha! — a puxou pela mão, cuidando pra que não tropeçasse em ninguém e se machucasse. Estava perigoso com aquele salto agulha das sandálias. Acharam uma mesa vazia próxima, um milagre, devido a quantidade de gente.
- Minha nossa, não sei como Elisabete não te estrangulou, esta festa de aniversário está parecendo um baile de casamento – disse, tirando a máscara suada de vermelho. Era bom estar na penumbra do clube, ninguém iria notar. Se abanando com as mãos, ela lhe sorriu, ardilosa.
- Ela jamais ia recusar, não com seus pais envolvidos.
- E se fosse somente você apoiando?
- Eu ainda daria um jeito – ela piscou um olho e baixou as mãos no tule do vestido.
- Garota malvada – Marc retribuiu a piscadela e lhe deu um chute de leve por debaixo da mesa. Ela devolveu-o certeiro em sua canela, com a mesma falta de força.
- Vou buscar uma garrafa de água, caso contrário vou desintegrar e só levará meus restos mortais pra casa. Não saia daqui – ela bufou quando se ergueu da cadeira, fazendo a saia do vestido rodopiar com agilidade. Ela parecia a versão moderna de Cinderela, toda em rosa, os fabulosos cabelos de ébano agora soltos, caindo pelas costas. Marc admirou-a caminhar com cuidado entre as pessoas, ainda assim muito graciosa. Deslumbrante como uma pedra de ônix, assim era Alexandra, se fosse compará-la a uma pedra preciosa. No momento em que o tule rosa desapareceu, sentiu algo mexer no bolso interno de sua jaqueta de veludo. Mensagem de Amelie:
MARC, SOCORRO, POR FAVOR, ESTÃO NOS ATACANDO FORA DO CLUBE!!!!!!!!!!!!!
Ah, merda, pensou, levantando de um pulo e correndo e atropelando as pessoas, que exclamavam indignadas ou xingavam. Não se importou, era de sua irmãs e irmãos de que se tratava, havia um “nos” bem claro na mensagem. Tentando não correr mais rápido que o permitido, chegou à saída do clube e desceu até a área de entrada. Tinha muita gente, mas não havia sinal nem de Amelie ou Alienor, ou de Jacques ou Hugo. Teve um leve susto quando este apareceu ao seu lado, com o celular nas mãos.
- Onde está Jacques? — perguntou de maneira mecânica, mas Marc percebia a angústia no fundo de suas palavras.
- Tenho certeza de que está com Elisabete – respondeu, farejando o ar e tentando detectar a fragrância de Alienor e Amelie em meio a tantos cheiros. Agora não havia dúvidas de que as encurraladas eram as duas – Hora de chamá-lo. Nossas irmãs estão em risco.
As mensagens foram digitadas e enviadas. Não havia se passado nem um minuto quando um Jacques emaranhado trombou nas costas dos dois. Marc confirmou suas suspeitas. O irmão tinha a aparência de quem saíra de um lugar ótimo demais pra ser deixado, mas havia temor em seus olhos, o que dizia claramente que a mensagem dele e de Hugo não fora a primeira recebida.
- Comecem a farejar – ordenou, como o bom irmão mais velho – Elas não podem estar longe. Cada um seguiu numa direção diferente até pararem na borda do meio-fio. Marc se entreolhou com os outros dois. O cheiro de Alienor era intenso e doce, lembrava de maçãs, o de Amelie era suave e pentrante como sua flor preferida, a rosa.
- Os cheiros vão na mesma direção. Elas estão juntas – disse, e assim como os irmãos, notou que a rua era a menos iluminada, devido a dois dos postes estarem com os focos quebrados – Isso não é bom.
- Tem alguém nos olhando? — Hugo questionou, enquanto andavam pela calçada ao lado do clube, onde os cheiros iam se concentrando. Quem respondeu foi Jacques:
- Não.
- Então é hora de correr – anunciou ele, e se adiantou na frente dos dois. Marc e Jacques chegaram ao local um segundo antes dele. E com um solavanco desagradável no estômago Marc percebeu que havia sangue pelo chão.
- Merda! — xingou – É o sangue da Amelie, estão sentindo o cheiro?
- Porra, estou sentindo muito bem! — gritou Hugo, seu rosto contorcendo de fúria.
- E não há cheiro mais adiante – sussurrou, Jacques, num tom tão cortante que Marc olhou pra ele automaticamente. Não gostou da expressão em seus olhos castanhos.
- Jacques, o que... — Elas foram levadas!! — antes que percebesse deu um passo atrás, sua natureza dando o alerta do perigo, Jacques era mais velho, e portanto mais forte, o que equivalia a mais assustador.
– Levadas, mas por quem???
- Jean – respondeu Hugo, como se a resposta fosse óbvia. Marc ergueu os sobrolhos ceticamente pra ele.
- É claro, ele iria mesmo assinar seu tratado de morte, com certeza, Hugo. Não, não foi ele. Não conseguiria pegar as duas sozinho.
- Então o que sugere, guerreiro? — o irmão mais novo desafiou, as íris muito claras de seus olhos relampejando com a petulância.
- Sei que vai parecer insano, mas acho que teremos de pensar em quem seria capaz de raptar nossas irmãs e enfrentar o risco de nos enfurecer. — Não consigo pensar em alguém maluco suficiente – comentou Jacques, com as rugas da testa profundas, com o esforço de puxar dados da memória. Então Marc ouviu um barulho contido do seu lado direito. Ele e Jacques ergueram os olhos e os direcionaram para Hugo. Ele parecia aterrorizado, seu rosto pintado com a máscara do pânico.
- Eu sei quem seria capaz de fazer tal coisa – seu olhar era frio e límpido, como se a ameaça estivesse presente entre eles. Só havia um nome para a atitude dele.
- Não – crocitou – Não poderiam.
- Eles prometeram vingança – lembrou Hugo. Era verdade. Mas Marc não achou que eles fossem cumprir a palavra, vampiros eram volúveis.
- Stuart – murmurou Jacques, seus olhos se desfocando, perdido em lembranças. A roda da fortuna girou no exato momento da pronúncia do nome dos inimigos. Um zumbido se ouviu e Jacques caiu pra frente, gritando, e esguichando sangue. Marc não teve tempo de ajudá-lo a ficar em pé, ou olhar pros lados, ver de onde veio a flecha respladecente de prata, que furou seu irmão mais velho, atravessando-lhe o peito, onde a ponta aparecia. Porra!
- Hugo, se abaixe! — berrou, mas era tarde demais pra ele. Não houve zunido, mas um barulho sinistro de crack! , e Hugo dava um berro de machucar os ouvidos, enquanto duas outras flechas cruzavam pelos ossos de seus joelhos, fazendo-o despencar de rosto e desmaiar de imediato, um rio escarlate se formando ao redor de suas pernas. Jacques ainda estava consciente, mas não por muito tempo.
- Fu...ja... — gorgolejou, cuspindo sangue da boca, ele escorria também de seus olhos e nariz, manchando seu rosto. Marc acenou que não. Ele não podia deixá-los. E no segundo seguinte isso se tornou impraticável.
- Olá, Marc, é um prazer revê-lo – sua pele arrepiou-se e a voz de William Stuart o fez pensar em tempos que ele queria ter esquecido – Vire-se pra mim, quero ver seu rosto. Ele não tinha opção. Não mesmo.
O rosto de Peter assomou a sua frente, como um fantasma. Embora não conhecesse a moça que o acompanhava. Ela tinha um rosto doce e sua mão tremia de leve ao segurar uma arma. Peter tinha uma besta nas mãos, das modernas e potentes, mãos enluvadas e uma aljava com grandes flechas grossas prateadas. Sorriu pra ele.
- A quanto tempo, não, Marc?
- Sim, muito tempo – respondeu, corajosamente. Poderia estar na pior agora, mas não justificava agir como um rato assustado. Girou, e encarava os olhos intensamente verdes de William. Ainda poderoso, sentia-se no ar ao seu redor. Ele estava de arco e flecha, todas finas e letais, com as pontas de prata.
- Você ainda tem flechas, William – comentou tranquilamente, como se estivesse de volta aos campos de batalha em Azincourt.
- Eu sei, e pretendo usar apenas mais uma. Ou duas se for o caso. Depende de você – respondeu Will com a mesma calma.
- E se eu for de boa vontade? William riu, e abanou a cabeça com energia.
- Não, meu caro, lembro-me de como era bom com uma espada, punhos e dentes. Não posso levá-lo intacto. O menos prejudicado será Jacques. Ele nos fará um favorzinho. E é estranho que já não esteja reagindo Marc. Ele encolheu os ombros.
- Como disse, era bom com espada, punhos e dentes. Mas sou apenas um, e tenho três adversários, sei ponderar minhas chances – o que sentia era vontade de arrancar a cabeça de todos eles, jogá-las numa pira e fazer uma dança da vitória ao redor, mas sabia que não era boa ideia, não com seus irmão incapacitados. Tinha a impressão que Hugo nunca mais voltaria a acordar, e Jacques estava tão grogue e machucado que não resistiria muito tempo mais. Somente isso era motivo para manter o demônio enfurecido e com sede de sangue preso dentro de si. Não era momento pra imprudências – Faça como lhe agradar.
- Agradeço sua cooperação, sempre admirei sua honra e coragem, Marc – William estava com o arco preparado. O vento sibilou quando as flechas lhe atravessaram o estômago e nuca. Peter também atirara. Marc engasgou, engulhou, sentindo o sangue borbulhar dentro dele e subir em sua garganta. Tossiu, e a dor foi excruciante, pior do que qualquer outra, queimava tanto que seus olhos se toldaram de vermelho, sangrando como todo o resto. Viu o líquido escorrendo pelo veludo de sua roupa, descendo de sua barriga até encontrar suas coxas. Suas mãos já não podiam contê-lo, ele não conseguia mais suportar a tortura de prata. Ouviu um ruído sair de sua garganta, e sua cabeça começou a queimar tanto quando nas partes atingidas pelas flechas. O som de seu corpo despencanco foi o último que captou antes de cair no lago negro da inconsciência.
A roda da fortuna marcou infortúnio. Os D'Crécy não tiveram ajuda de sua sorte. Ela agora estava com os Stuart.
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