Série - Pacto

4 Coquetel de Sangue


No início do mês de Agosto o frio de Dourados era um verdadeiro horror. As temperaturas chegaram a cair abaixo de zero, e as lojas eram saqueadas por clientes procurando por luvas, gorros de lã, sobretudos, e cachecóis.

Eu e minha família estávamos mais do que bem instalados na casa nova. E acho que fiz tempestade em copo d'água, porque o lugar era fabuloso. E de acordo com papai, ele ia fazer um financiamento, pra comprá-la!

Eu saltitei de alegria!

A casa era mesmo maior, mesmo que não fosse de dois andares. O jardim dos fundos era amplo, e havia bancos de mármore com uma pequena fonte.

Meu quarto era magnifico, com suas paredes decoradas com papel de parede bege, onde flores e ramos dourados se sobressaiam. Eu tinha um banheiro só pra mim, com uma banheira de verdade! Como nos filmes!

Tomei meu primeiro banho lá às oito da noite de sábado. Pro maldito coquetel para o qual Alexandra iria me arrastar. É, o coquetel na casa do Jacques e irmãos e irmãs.

Sim, ele tinha irmãs, e todas estudavam na escola do meu irmão. Que até estava caidinho por uma delas, o que causou um furdunço em casa, já que meus pais deixaram claro que ele tinha que se focar nas notas e em sua futura faculdade, não gastar tempo e energia com namoricos.

Eu concordava, mas também podia entender o Jefferson. Eu tinha visto a garota no portão com ele, pegando dever de casa atrasado. Ela era loura, um palmo mais baixa que ele, com um cabelo louro brilhante quase na cintura e olhos cor de jade incríveis. Senhor, me responda, que garoto de dezessete anos resiste a isso?

Mas voltando ao ponto. Alexandra e meus pais tinham também vencido, em sua guerra silenciosa. Eu ia ter uma porcaria de festa em Setembro. E eu digo: que saco. Saco. Saco. Saco.

Saí de dentro da banheira e me enrolei na minha toalha da Minie. O som no meu quarto estava tocando Thriller, do Michael Jackson. E sinceramente tava bem apropriado pra noite que fazia. Nublada, fria, com um vento ululante. Só faltava uivar de lobos.

Encarei meu vestido em cima da cama. Tinha sido um presente da Alexandra, o qual eu não havia usado ainda, tanto por não ter lugar onde usá-lo, como pelo modelo me deixar bem constrangida.

Ele era preto, com um decote discreto na frente, mas na parte de trás ele descia pelas costas, ultrapassando a cintura. As alças tinham dois broches de strass em forma de lírio, e o tecido se estendia da saia até abaixo dos joelhos numa cascata de seda. Seda, no Inverno. Eu sei. Mas eu não tinha outra coisa pra vestir.

Tirei minha lingerie de dentro da gaveta e joguei por cima do vestido: vestido preto, renda preta. Vesti o roupão e fui secar os cabelos.

O barulho do secador abafou o ruído dos passos da minha mãe dentro do quarto.

Trouxe o casaco! — ela disse em voz alta, me dando um susto que quase fez o secador voar da minha mão.

Mãe! Quer me matar?! — coloquei a mão no peito.

Ela revirou os olhos pra mim.

Talvez você escutasse eu entrando se baixasse o volume do aparelho de som – ela apontou minha escrivaninha, onde agora estava tocando The Strockes – É esse que vai usar?

É, esse mesmo.

Não está meio frio pra mostrar as costas? — ela tocou na seda fina.

Sim, e é por isso que te pedi o casaco. Ainda bem que é só atravessar a rua e estou entre quatro paredes de novo. Você e papai não vão mesmo?

Não, temos muitas provas e trabalhos pra corrigir, e não podemos atrasar com isso. Diga aos D'Crécy que agradecemos o convite.

Tudo bem. Pode me passar as meias finas?

Em meia hora eu estava pronta. Na hora em que calcei os sapatos, a campainha tocou. Corri direto pro hall de entrada, passando pela cozinha, dando tchaus apressados pra meus pais e irmão, que assistiam o noticiário. Pelo que vi na tela era o mesmo caso que passara no jornal do almoço. Um garoto tinha sido encontrado morto, com ferimentos estranhos no pescoço, jogado numa lixeira próxima ao Santa Rita ,escola do Jefferson, o que deixou meus pais preocupados, porque a vítima era estudante da Escola Militar, a umas duas quadras de onde meu irmão estudava.

Como sempre Jeffe disse que eles estavam exagerando. Eu procurei esquecer os detalhes da história arrepiante, detesto ver notícias de assassinato na TV, faz meu estômago revirar. Me centrei no meu compromisso.

Abri a porta e ali estava a morena mais fabulosa de Dourados. Ou pelo menos uma delas. Alexandra estava com um vestido vermelho de cetim, todo drapeado no busto, e no colo, um pingente em forma de cruz afundava pra dentro do decote quadrado. E o sobretudo preto e aberto, dava um contraste fantástico.

Ao lado dela, de terno, muito elegante e mesmo assim não parecendo a vontade, estava Átila. Ele tinha voltado a aparecer às tardes, disse que estivera muito ocupado, fazendo uma pesquisa importante pro seu projeto de Engenharia. Mas meu sexto sentido soou os alarmes, me alertando que havia mais por baixo do pano.

Bem, você certamente vai chamar mais atenção que eu! — riu Alê, e apontou meu vestido – Ele é fabuloso, e graças a Deus você teve a consideração de usá-lo!

Revirei os olhos e abanei a cabeça, rindo.

Não tinha outro! Mas o seu... é de morrer! — dei uma encarada em Átila, que franziu – E você está um lord.

Ele bufou.

Tá bom. Vamos indo, quero entrar de uma vez num lugar quente.

Nós três atravessamos a rua. E duas casas depois, chegamos nos portões abertos da mansão, renovada e concertada dos D'Crécy.

Estava tudo maravilhosamente iluminado, e deixamos os casacos no hall de entrada, em cima de um divã de veludo preto, onde todos os tipos de tecido se misturavam.

É, os D'Crécy eram ricos. Uns dois quadros de Monet e os candelabros de cristal acima da minha cabeça atestavam isso. Fomos guiados até o salão por uma música suave.

Era um espaço grande, iluminado pelos mesmos candelabros de cristal que vi no corredor, e a mobília era antiga e requintada. Como meu pai diria: “ O dinheiro velho tem muito mais classe!”. É, pai, você estava certo. Megaaaaa certo.

Então de repente um homem com um terno com cara de Marc Jacobs voou pra cima de nós. Quero dizer, pra cima de Alê, mais exatamente.

Alexandra, que maravilha tê-la aqui! Seus pais não virão? — ele beijou a mão dela, num floreio. Hum, galante. Galante, galante. Como as palavras educadas de Jacques pra mim. Bom, mesma família. Deve ser genético. Assim como a beleza.

Este homem de terno era enorme, até mais do que Jacques ou Marc. Mas sua estrutura não ameaçava, era só...elegante. Os cabelos negros puxados para trás com as têmporas raiadas de branco, acentuavam um rosto de traços fortes e aristocráticos, os olhos azuis como contas. Tinha um sorriso, hum, envolvente, era essa a palavra. Não sei por que cargas d'água me lembrei de Lord Byron ao olhar pra ele, e com um susto do Drácula, do Bram Stocker. Mas alôu, nem o Drácula era tão...charme. Depois de ouvir Alexandra explicar que os pais tinham viajado, ele se voltou pra mim e Átila.

Olá, você deve ser Elisabete, oui? — ele apertou minha mão com gentileza, e sorriu, fazendo as linhas de expressão nos cantos dos olhos enrugarem e declararem porque ele as tinha. O homem devia sorrir sempre.

Sim, sou. E antes que pergunte, meus pais não vieram devido a grande quantidade de trabalho. Mas agradecem o convite – os D'Crécy tinham convidado grande parte dos vizinhos pro coquetel.

Entendo, a profissão deles sempre exige um serviço extra. Mas lhes diga que sempre serão bem vindos.

Claro, vou dizer – eu dei um sorriso e ele passou pra Átila, que não pareceu muito à vontade com seu aperto de mão vigoroso. Na verdade o olhar dele deu um brilho de raiva. Credo. O que ele tinha? Ninguém em sã consciência poderia ter raiva de Julian D'Crécy, pai de todos aqueles rapazes e moças bonitas. E tão polido e elegante.

Que bom vê-la novamente.

Quase dei um pulo, tal era minha distração mental. Eu saí dos devaneios pra dar de cara com o Jac Cicatriz na minha frente. Que aliás, não usava terno, somente uma camisa branca chique, e uma calça chique, com um relógio chique, e sapatos chiques. Provavelmente tudo Jacobs, como o pai.

Ahm, bom te ver também... — pisquei confusa ao encará-lo. Os cabelos claros estavam jogados de qualquer jeito e a barba por fazer, o que o deixava parecendo mais homem do que já era. Testosterona de cima a baixo. E de novo tive aquela imagem doida dele com uma espada na mão. Pisquei de novo.

O que achou da casa? Fizemos uma boa compra? — ele fez um gesto discreto pro salão cheio de convidados.

Ótima! — Alexandra respondeu, e ele riu – Como vai, Jacques?

Bem, muito bem – ele respondeu, enquanto o pai passava por nós, arrastando um relutante Átila, tagarelando sobre quadros. Achei estranho meu amigo estar tão desconfortável, ele adorava arte – E você?

Poderia ficar mais feliz se você me desse uma pequena informação.

Dei uma cotovelada nela. Que coisa, aquilo lá era hora de tentar arrancar informações sobre o Marc? Era só ela atravessar a sala, ele estava do outro lado, conversando com outros dois rapazes.

Como quiser – Jacques inclinou a cabeça solidário.

Marc está solteiro, não? — ela olhava pra ele. Claro, que burra eu sou, ela já o tinha visto antes de mim.

Supõem-se – ele riu, divertido, dando uma olhadela de canto pra mim.

Ótimo, diga a ele que estou muito interessada em saber como foi reformar a casa e deixá-la parecendo um palácio de novo.

Segurei o riso. Alê era uma raposa. Ela podia perguntar pro cara à nossa frente como tinha sido a reforma da casa!

Sugiro que você mesma vá dar início a conversa antes que outra garota tenha a mesma ideia – ele sorriu, o tom conspirador.

Obrigada – Alê piscou um olho, deu um tchauzinho pra nós e vazou pro lado do grandalhão.

Ok. Valeu mesmo Alexandra, o que eu ia ficar fazendo com Jacques D'Crécy na minha frente?

Quer beber alguma coisa? — ele ofereceu, parando um garçom que ia passando.

Ahm...Acho que seria uma boa – melhor manter a boca ocupada, pra evitar constrangimentos. Jacques apanhou uma das taças de champanhe da bandeja e colocou na minha mão – Então... como está indo seu projeto da faculdade?

Ai, eu ia me matar. Que pergunta imbecil. O cara era um gênio, nosso professor de História Medieval babava nas coisas que ele escrevia. Na verdade, todos babavam pra ele.

Mas Jacques ignorou minha falta de criatividade evidente.

Vai bem, quase no fim, o que lamento, não gosto de ficar sem fazer nada – ele disse, colocando a mão desocupada dentro do bolso da calça – E o seu?

Ah... — abri a boca, tentando achar as palavras, que pareciam ter ido dar um passeio sem hora pra voltar – Sinceramente, me dando dor de cabeça – beberiquei um gole do champanhe, percebendo que a resposta fora sincera. A tal da guerra estava me dando nos nervos.

Jacques enrugou a testa de leve, parecendo interessado.

Guerra das Duas Rosas?

O encarei, surpresa.

Como você sabe? — dei uma risada nervosa, afinal, o cara não era do tipo perguntador, só ficava no fundo da sala, parecendo sempre entediado.

Vi em cima da sua carteira esses dias – ele ergueu a mão no instante que abri a boca pra falar, com alguma indignação, que se ele queria ler, era só ter pedido – Desculpe-me, eu deveria ter pedido, foi uma grosseria.

Bom... — encolhi os ombros, me sentindo uma idiota. Às vezes sou mesmo filha dos meus pais, um exagero por pouca coisa – Deixa pra lá, não faz mal, não ligo. O que você achou, se chegou a ler?

Muito bom, você tem um ritmo de escrita ótimo, é direta. Não fica apenas enchendo linhas – ele colocou a mão no queixo, enquanto eu sentia meu rosto queimar – Por quê você escolheu essa guerra? Há tantas outras mais famosas, e mais sangrentas, diga-se de passagem...

Hum. Ele era bom em me deixar confusa. Franzi o rosto, apertando a taça na minha mão. Eu nunca tinha realmente pensado o por quê da escolha do meu tema. Sério. Só peguei uma guerra de família muito boa e trabalhei isso.

O encarei, sem saber o que dizer mais uma vez. Jacques só me encarava de volta, as luzes fazendo com que seus olhos ficassem mais claros. E curiosos. Novidade, hem, pra quem parecia morrer de tédio o tempo todo.

Eu... eu... — ainda tentei achar alguma explicação – Sabe, não sei. Só... caiu no meu colo. E segui com isso.

E gosta? — ele tombou um pouco a cabeça de lado, com uma expressão de análise.

Sim, gosto! — exclamei sem poder conter um riso – Isso soa estranho? Não saber porque escolheu certo tema pra pesquisar e amá-lo?

Jacques abanou a cabeça cor de ouro velho e sorriu.

Não, não vejo nada de estranho nisso...

Tudo que fiz foi manter meu próprio sorriso nos lábios e admirar a boca dele distorcida naquele sorriso sensual e fervilhante do primeiro dia que o vi.

Mas depois pisquei, e virei o rosto pro outro lado, querendo, sabe, me afogar dentro da taça, naquele champanhe borbulhante.

Átila tinha achado um grupo no qual parecia se encaixar, acho que até eram colegas de faculdade nossos. Mesmo assim, aquele olhar estranho de suspeita não deixara de brilhar. Caramba, eu tinha que perguntar pra ele o que estava acontecendo.

Mas então a luz baixou de repente, e o espaço amplo, no meio do sala, virou uma espécie de pista de dança, ao som da música que começou a tocar...

Hem?

Achamos que seria uma excelente ideia contratar um dj pra animar. Não queremos deixar os convidados entediados.

Não olhei pra ele. Sei que não estava mais sorrindo, mas … mesmo assim.

Comentário interessante... — murmurei. E soube no mesmo instante que devia ter ficado de boca fechada. Que droga.

Não entendo por que seria – senti que ele estava com os olhões castanhos no meu rosto – Talvez você possa me explicar...

Por que eu realmente não calo minha boca? POR QUÊ? É, eu sei, porque sou uma retardada.

Bom, ahm... — palavrasssss? Onde vocês foram??? — É que... tá legal – não tinha como escapar mais mesmo, melhor cavar a cova e se enterrar de uma vez – Só é interessante você dizer que não quer saber de deixar ninguém entediado, quando parece sempre estar achando tudo...

Monótono – ele riu a resposta – Bem, pra mim, na maior parte das vezes é.

Decidi encarar. Afinal, ele estava longe de ser a Medusa, não ia me petrificar com um olhar, ou me matar, como um Basilisco.

Agora eu é que preciso de uma resposta racional pra isso – falei, não entendendo como um cara bonito, rico e obviamente inteligente podia achar a vida um porre. Nem quando a minha ficava sem pé nem cabeça, eu desistia dela.

Os olhos lindos e castanhos dele se toldaram numa sombra. Aquilo fez minha pele se arrepiar.

A resposta pode ser um pouco... complicada – as sombras se voltaram pra pista, onde vi Alê e Marc, se agitando ao dançar e rindo um pro outro. Átila agora realmente estava parecendo insano, e a causa disso era a mesma cena que eu estava vendo. Meu Deus, qual era o problema dele? Nunca vi ele observar ninguém daquele jeito, com... ódio mortal. Uma coisa gelada, que eu podia sentir à distância.

Devolvi minha taça a bandeja de um outro garçom que ia passando. Eu tinha que falar com o huno. Ele estava começando a me preocupar, e mais do que isso, a assustar.

Mas mal dei uns dois passos e uma mão fria segurou meu pulso. Com gentileza, mas firme.

Algum problema?

Pisquei atordoada, olhando a mão dele na minha pele, enquanto meu rosto esquentava inexplicavelmente.

Não, eu só... — de novo as palavras fugiram, no segundo que ergui o rosto pra ele – Só...

Está um pouco enfadada, quem sabe? — ele arriscou, em tom brincalhão, me soltando. Minha respiração suspendeu. Jacques tinha um sorriso inteiro, convidativo e sinuoso, decorando seu rosto branco como a neve, e os olhos reluziam intensamente, como o piscar de estrelas, e sua cicatriz se elevava ainda mais pálida que sua pele, me avisando da força do seu dono... seu perigo.

Ahhhh, o perigo estava ali, em cada linha dura do rosto dele, como tinha estado quando me defendeu do Alan.

Eu não... estou enfadada – respondi lentamente, me esforçando pra segurar o queixo na mandíbula. Porque se eu fizesse isso temia babar, literalmente. Tá que ele era o maior esquisito na faculdade, mas ali, bom...

Então acho que posso convidá-la pra dançar, não posso? — Jacques deu um passo na minha direção, a mão estendida. Era grande, de dedos longos e eu sabia que era macia, meu pulso ardendo, era um lembrete.

Eu estava dividida. Uma parte de mim gritava pra só... sair daquela casa e nunca mais voltar. Mas a outra... devorava o rosto de traço agressivo do Jacques, se perguntando como seria dançar com ele...

Está bem – respondi, me rendendo – Mas já vou avisando, talvez eu tropece nos seus pés! — eu dei uma risada, uma animação súbita tomando conta de mim.

Quando o par sou eu, nenhuma mulher jamais tropeça – Jacques me puxou devagar, e envolveu o braço na minha cintura.

Em ocasiões normais eu teria me irritado com a arrogância, mas aquela não era uma ocasião normal. Porque nunca um cara daqueles tinha me convidado pra dançar. Então me limitei a revirar os olhos e dar um risinho fungado.

Ele tomou isso como um desafio.

Muito bem, mademoiselle – ele acentuou o francês – Vou lhe mostrar o que é dançar comigo.

Mas Jacques... — olhei ao redor, todos estavam dançando ao ritmo irresistível de Lady Gaga. E cá pra nós, sabemos que não é valsa — É Lady Gaga. E as músicas dela não são pra dançar junto, a não ser talvez Paparazzi. Mas tenho minhas dúvidas – uma das mãos me puxou pra junto dele. Senti um calafrio, que percorreu minha espinha de cima a baixo, num fluxo quente e gelado. Alerta e prazer. Franzi o rosto. Agora, qual era o meu problema?

Então vamos tirá-las – ele me apertou mais, segurando minha mão na sua, colocando a outra em seu pescoço – Essa não é sua música?

Apurei os ouvidos. Aí, era mesmo Paparazzi.

É ela mesmo – confirmei, notando que não eram só suas mãos que eram frias. O corpo todo era, mesmo com tecido separando um contato maior entre nossas peles. Ah, tá, que coisa chata, admito, tinha pouco tecido, afinal minhas costas estavam praticamente peladas, embora meus peitos estivessem bem seguros em alguns metros de seda. E a camisa dele era de tecido delicado e fino, por isso dava pra notar muito bem.

Chegou a hora, Elisa – senti o hálito quente bater no meu rosto, de tão próximos que estávamos.

Assenti, só esperando pelo primeiro passo.

E sabe, ele tinha razão em dizer que mulher nenhuma tropeçava com ele. O cara era um dançarino legítimo!

Eu não dei um mísero passo em falso. E Paparazzi deu mesmo pra dançar mais devagar!

E soltar minha língua, de tão à vontade que fiquei nos braços do Jacques, apesar daquela pontadinha irritante de alerta que cutucava minha consciência e meu corpo.

Você é bem quieto na maior parte do tempo – comentei casual – Me surpreendeu você ser tão diferente hoje.

Acontece – Jacques encolheu os ombros – Não sou muito sociável, ao contrário de Marc e Hugo. Prefiro me manter...

Incógnita? — arrisquei, virando a cabeça pra ele – É muito bom nisso, às vezes acho que ninguém te nota na sala.

É um dom – ele piscou um olho pra mim – Mas acho que isso incomoda minha família...

Por quê? — eu estava genuinamente curiosa, alguma coisa na expressão dos olhos dele traiam aquela diversão que ostentava ao falar.

Quando você se socializa tudo vem mais fácil, não é? — a indagação fez seus lábios se entortarem de sarcasmo. Meu corpo se tencionou um pouco, desperto.

Humm, depende, nem sempre os outros querem socialização! — deu uma risada, o que o fez rir também ,quebrando a tensão. O riso dele era alegre, e as íris castanhas rutilavam satisfação.

Você está completamente certa – giramos com graça, e paramos embaixo de um dos lindos lustres que pareciam estar em todo lugar – Olá, irmãzinha.

Ele me rodopiou, então por sobre seu ombro vi a garota por quem meu irmão estava levando broncas.

Boa noite, Jacques– cumprimentou polidamente – Boa noite, Elisabete – ela vestia apenas um tubinho preto e um bolero branco de rendas. Parecia ter saído de um conto de fadas. Os cabelos dourados desciam pelas costas, o rosado das bochechas era delicado, e os cílios grossos emolduravam seus olhos da cor de jade.

Entendi meu irmão. Absolutamente.

Boa noite, Alienor – respondi, me lembrando quantas vezes Jeffe tinha repetido o nome dela pela casa – Como vai?

Bem, ao contrário de Amelie – ela encarou Jacques com expressão incisiva e misteriosa – Acho que precisamos de sua ajuda.

O que sua irmã tem? — indaguei, enquanto ele enrugava a testa, obviamente irritado. Isso me espantou. Que irmão fica assim quando uma irmã precisa claramente de ajuda?

Nada com que você deva se preocupar – resmungou, dando um suspiro entre cansado e impaciente – Subo em um segundo Alienor, só preciso arrumar um outro par pra minha convidada...

Alienor ergueu as sobrancelhas, numa pergunta clara. Que não foi respondida, porque Jacques me girou pra adiante, nos fazendo parar ao largo da pista, perto de um grupo de rapazes. Hugo estava entre eles. Ele sorriu calidamente ao nos ver.

Belo par, Jacques– ele piscou um dos olhos cor de gelo pra mim.

Jacques fitou meu rosto com cuidado. Ele estava impenetrável, como em todas as aulas, e não pude decifrar nada por trás daquelas íris. Senti uma certa decepção de perder o rapaz comunicativo e espontâneo de minutos atrás. E também meu senso de segurança. Já não me sentia mais à vontade em ficar perto do corpo dele, nem de ter suas mãos geladas nas minhas costas nuas. Queria que me soltasse, e que levasse o estranho da faculdade pra longe de mim.

Por isso não quero que ela fique parada, é um desperdício – uma chama relampejou por um segundo em seus olhos e depois desapareceu. Me deixando de qualquer forma, um calor absurdo no rosto.

Não é de bom tom deixar um convidado sem graça – comentei não conseguindo manter a cara séria ao observar o sorriso gentil de Hugo.

Perdoe-me – pediu Jacques – Hugo, pode tomar meu lugar na pista?

Ele baixou a cabeça louro-cinza, prateada na iluminação ambiente, na minha direção numa semi-mesura.

Meu rosto entrou em combustão.

O que eu disse sobre não deixar convidados sem graça? — coloquei as mãos na cintura.

Oh, desculpe – riu Hugo – Então? Aceita trocar um Fred Staire por um... arremedo?

Vamos testar isso – aceitei a mão estendida. Fria. Como do irmão. Qual era o problema deles? Pressão baixíssima? Credo – Obrigada, Jacques, você é ótimo!

Ele acenou a cabeça, distante.

Por nada, mademoiselle. Hugo, vou resolver um problema com Amelie. Não sei quanto tempo vou demorar.

O rosto alinhado e suave se trastornou numa máscara de preocupação intensa.

De novo?

Aparentemente... — Jacques encolheu os ombros – Vou tentar resolver.

Por favor – a voz de Hugo era implorativa.

Jacques deu nos ombros novamente. A frieza me deixou desconfortável.

Faça Elisa aproveitar o que ainda resta de tempo de festa – ele deu um rápido aceno de cabeça pra nós dois e praticamente se desmaterializou.

Hugo rapidamente nos fez voltar pra pista, andando com agilidade, e num instante eu já estava dançando de novo.

Sério, o que a irmã de vocês tem? — questionei, dessa vez esperando por uma resposta menos vaga – Você me pareceu preocupado.

Não é nada com que deva se preocupar – Hugo fez um muxoxo – Ela vai ficar bem, só precisa do Jacques. Ele tem o dom de acalmá-la.

Mas é algum problema sério? Porque....

Então ele parou e me encarou agudamente com suas duas pedras azuis-claríssimas.

Esqueça, Elisabete, não vamos te colocar dentro de um problema familiar. Nosso dever é fazer com que você se divirta.

Pisquei, engolindo seco. Ele sorria, e pela primeira vez notei uma diferença.

Parecia um esgar, como de um lobo, predador e faminto.

A sensação primitiva de medo chicoteou meu coração, fazendo ele bater mais forte. Não sei se surtei ou não, mas me pareceu que meu acompanhante percebeu minha pulsação cardíaca.

O sorriso de lábios vermelhos como sangue abrandou e se tornou gentil como aquele que me cumprimentava pelos corredores e escadas da faculdade.

Ou talvez eu tenha mesmo uma imaginação fora de série.

Você dança muito bem, espero não ser muito lento pra seu ritmo.

Abanei a cabeça, dessa vez não conseguindo me manter despreocupada e divertida. Queria ir pra casa, ou achar Alê ou Átila. Mas ao dar uma olhada pro lado, vi que minha amiga estava agarrada numa dança com Marc e o huno... tinha evaporado!

Nos vinte minutos seguintes consegui manter uma conversa com Hugo, sem parecer que eu estava morrendo pra sair dali e ir me enrolar na minha cama.

Só que fomos interrompidos de forma brusca e assustadora por um grito que vinha da direção dos jardins, e ecoou dentro da sala, acima da música.

***

Os convidados se empurravam diante das portas de vidro que davam pro maravilhoso jardim dos fundos, pra ver o garoto em cima de um dos bancos de mármore, com a camisa azul estraçalhada, e o sangue pingando do pescoço pro chão, ensopando os ladrilhos e os mosaicos de pedra branca e preta, invadindo a beirada da grama verde e bem cortada.

Chame uma ambulância rápido, Isabelle! — mandou Julian D'Crécy à uma mulher de vestido rosa-claro, quase pálido, com os cabelos presos num coque alto, e um colar de pérolas simples, decorando o belo pescoço que estava parada perto dele, com as mãos no peito.

Ela subiu correndo as escadas, onde o pessoal abriu passagem instantânea. Os olhos castanho-claro tinham uma expressão tumular, como se o Apocalipse acabasse de ter início.

Eu não sabia o que fazer, se desmaiava ou vomitava, como meu estômago pedia. Hugo se debateu entre convidados e retornou pro seu posto ao meu lado em um dos degraus.

Seu casaco, Elisa, não vou poder ficar aqui com você agora, está bem? Minha mãe está em pânico! — ele parecia um raio, a voz, os gestos o relampejar dos olhos claros – Volte pra casa – foi a ordem em tom educado, mas firme.

Tenho que procurar meus amigos antes...

Mas ele já não estava mais ali. Tinha desaparecido como fumaça.

Não precisa se preocupar com isso – Alexandra apareceu do meu lado, tirando os cabelos emaranhados do rosto – Já estou aqui.

Onde está Marc? — perguntei mecanicamente, tinha muita dificuldade de falar.

O que você acha que ele está fazendo? — Alê me olhou incrédula – Ajudando a família a tirar o morto daqui! Estão todos assustados! — ela revistou os rostos ao nosso redor com a vista apressada – Onde foi que o huno se enfiou?

Abanei a cabeça. Eu não sabia. Tudo que eu sabia era da pontada em meu estômago, enquanto meus olhos ainda focavam as gotas de sangue lavando os ladrilhos. Toc, toc, toc... O garoto morrera de boca aberta, e os olhos tinham expressão horrorizada, como se vissem demônios.

Não saia daqui, vou procurar Átila – Alê também observava, com o rosto branco como papel, o morto e sua careta de pavor – Minha nossa... o que ele pode ter visto antes de morrer?

Era mais uma pergunta pra si mesma do que pra mim. De qualquer maneira, eu seria incapaz de dar um palpite.

A ambulância chegou antes que ela voltasse, e os paramédicos correram na direção onde o dono da casa ainda estava perto do corpo. Eles não podiam fazer mais nada. Só ensacaram o garoto dentro daquela lona de plástico e o retiraram do jardim. Julian foi atrás deles e praticamente todos que se encontravam ali nas escadas entraram pra dentro de volta, cochichando nervosos e amedrontados.

Ouvi uma mulher dizer ao que parecia ser o marido que precisava urgente ir ao banheiro. Vomitar, aposto. Eu queria fazer o mesmo, já sentia até mesmo a bílis perto da minha garganta, empurrando, querendo sair.

Sentei num degrau, colocando a cabeça entre os joelhos. Parecia que o dj não parara de tocar. Só que não era mais música eletrônica. E sim uma sinfonia que eu escutava desde criança, porque meu pai adorava, Sinfonia Nº 40, de Mozart. Quando eu era pequena ele costumava colocar o cd e rodar essa melodia até eu dormir.

Meu enjôo suavizou um pouco, as notas dramáticas tendo efeito calmante no meu coração acelerado.

Uma garoa fina tinha começado a cair, resfriando minha temperatura, que com certeza estava muito alta, pois podia sentir o suor na minha testa e mãos.

Não liguei pro frio, eu estava gostando dele no momento, quando começasse a me incomodar vestiria o casaco.

Eu nunca tinha visto a morte ao vivo. Nos jornais as coisas parecem distantes, como se nunca fossem chegar a você, como o garoto da Escola Militar. Mas isto era diferente. Eu vira um cara obviamente assassinado de maneira brutal na minha frente, ao vivo e em cores. E eu queria muito ir pra casa, só que minhas pernas ainda não estavam fortes o suficiente pra me sustentar, então continuei enrolada no meu degrau. E Alexandra não voltava nunca com Átila. Se é que ele seria encontrado. Se tinha alguém com habilidade pra desaparecer era o huno.

Estava pensando nas fugas dele na época da escola quando meus olhos esbarraram num objeto que tinha fugido a atenção das outras pessoas na cena do crime. Caído ao lado do banco onde o morto estivera, havia uma correntinha fina de ouro, e graças a localização visual ótima onde eu me encontrava pude ver o pingente, e reconheci o material, porque tinha uma amiga cheia da grana. Era um coração, esculpido em rubi. Tão vermelho quanto o sangue que o sujava.

Foi isso que me fez levantar. Claro que a polícia estaria ali em questão de minutos. Melhor deixar eles lidarem com aquela pista óbvia. Não tava afim de ser interrogada.

Vesti meu sobretudo de gola e punhos de pele e estava subindo a escadaria quando ouvi um som de passos leves e um rumorejar de folhagens.

Minha cabeça virou automaticamente pra trás.

Pregado nas minhas retinas só ficou o vislumbre de uma sombra alta e grande e um brilho vermelho que a seguia, se afastando com pressa entre as árvores, até se fundirem com a escuridão.

Como um presságio, um tremor de medo passou pelo meu corpo, quando meus olhos correram pro banco ensanguentado... e não havia mais corrente alguma ao lado dele.

Notas finais
Heheheh, por enqnto é só isso, ;) Aguardem...