Série Lobos II - O Clã da Lua
3 Terceira Caçada: Toshio
Notas iniciais
Dias haviam se passado desde que eu afastara Ailee de mim e para a minha felicidade – sintam o tom irônico – a menina insistia em me ignorar e apenas permitia que eu me aproximasse porque Hidetaka falara com ela e a explicara que eu precisava estar perto dela. Era todo o objetivo de ser o Hogosha.
Naquele dia em específico, o senhor Tsukiko decidira passar um tempo em família, com suas duas filhas e a esposa, então eu e meu pai fomos dispensados, algo que não era nada comum de acontecer. Então, aproveitei para fazer uma breve viagem para casa, depois, claro, de tentar várias vezes conversar com Ailee.
Hidetaka acompanhou-me até a saída do palácio. As cores normalmente esverdeadas estavam muito mais mortas e apagadas. Olhei para os lados pensando se aquilo seria um sinal... O que foi loucura, pois não havia um motivo para ter um sinal.
— Posso saber qual o motivo da princesa estar lhe ignorando? – finalmente perguntou meu mentor parado a porta.
Eu passara para o lado de fora do portão e já podia sentir a atmosfera diferente. Dentro do palácio era tenso e muito restrito, nunca podíamos fazer nada ou sair de nossa rotina normal; fora, no feudo, a sensação de liberdade era tanta que eu não conseguia entender o porquê de aceitar ficar trancado lá dentro.
— Você sabe muito bem o porquê – respondi com um suspiro.
Hidetaka foi o único para quem eu tivera coragem de admitir o que sentia por Ailee e pensar nisso me lembrou do porquê de eu ter escolhido ficar trancado em um lugar bastante opressor.
— Você se lembra que...
— Que não devo cruzar a linha. Sim, eu lembro, Hidetaka – respondi irritado. Não precisava que outra pessoa ficasse ressaltando algo que eu sabia muito bem. – Estou indo para a casa de minha família, fazer uma visita. Ficarei dois dias lá. Qualquer coisa que Ailee precisar, não hesite em me chamar.
A distância da minha casa até o palácio era enorme, mas eu a poderia cobrir em poucos minutos e se fosse muito urgente, segundos. Meu mentor concordou sem dizer mais nenhuma palavra. Eu carregava apenas uma mochila e quando assumi minha forma lupina, ela ficou pendurada em minhas costas. Corri na direção oposta a da entrada do palácio.
Minha casa continuava a mesma de sempre. Desde que me tornara o Hogosha eu não tivera muito tempo para visitá-la e as poucas vezes em que eu viera fora acompanhado de Ailee e Issa. A propósito, Issa, meu fiel companheiro, ficara com a princesa para garantir um pouco de segurança e companhia. Eu preferia ficar sozinho a deixá-la sozinha.
Bati na porta com firmeza, já em minha forma humana. Estava tão ansioso e meio chateado que tão tivera tempo para observar o feudo e seu desenvolvimento. Demorou apenas alguns segundos para que um lobinho, de no máximo, dez centímetros passasse pela abertura da porta, que eu usava quando era criança, e saísse correndo para longe. Dois segundos depois, meu irmão, Saki, abriu a porta em sua forma humana.
— Volte aqui, Toshio Konata! Você tem que tomar seu banho!
— Algumas coisas nunca mudam – comentei chamando sua atenção para mim.
Saki olhou para mim por dois segundos, embasbacado, e depois pulou para me abraçar. Eu já comentei que sou muito alto? Quando eu era menor, morria de medo de meu pai e meus irmãos porque era o menor e magricela. Todavia, as coisas pareciam ter mudado. Meu pai, o outro Hogosha, não era mais tão maior que eu assim e meus irmãos ficaram menores que eu.
— Katsuo! Que saudades meu irmão! – comentou se afastando. – Não acredito que o pirralho conseguiu crescer tanto.
— É, várias coisas mudaram – comentei olhando para trás. O lobinho voltara e nos observava com curiosidade. – Quem é aquele?
— Oras, maninho, não acredito que esqueceu que eu me juntei com uma loba – comentou rindo.
— Claro que não esqueci, mas o que tem...
Minha voz morreu aos pouquinhos e eu voltei a analisar o lupino que se aproximava aos poucos. Ele era bem pequeno, com o pelo exatamente da cor da forma animal de meu irmão, eu voltei a encara Saki com surpresa.
— Por Tsukuyomi, eu não imaginava que você tivera filhotes! – exclamei realmente chocado.
— Para você ver como estava em falta com a família! – respondeu-me Saki rindo. – Espere um minuto. Konata, venha aqui.
Hesitante, o lupino se aproximou ainda em sua forma original. Eu sorri ao ver a preferência de meu sobrinho por ser um lobo e senti que a frustração que sentia com relação ao feudo diminuía um pouco. Ele passou correndo por mim e se enroscou nas pernas do pai.
— Ele é igualzinho a alguém que eu conheço – sussurrou como se fosse um segredo. Minha risada saiu um pouco mais alta do que eu gostaria e me abaixei, junto a meu irmão, para ficar da altura da criança. – Konata, esse é seu tio Katsuo, o Hogosha.
Sabe o que eu tive que aprender de novo? Ser o Hogosha não fazia nenhuma diferença para a minha mãe. Além disso, descobri que meu irmão tivera uma ninhada de três lobos, que ainda estavam em fase de crescimento e pareciam comer mais do que eu jamais comera.
Minha casa continuava a mesma bagunça que sempre fora e era reconfortante estar ali, mesmo que eu não parasse de pensar em Ailee e se ela ainda estava com raiva de mim. Entretanto, eu não tinha tempo para ficar sozinho e remoer minha situação amorosa que não existia, meus sobrinhos eram agitados demais para ficarem parados por três segundos.
Konata e seus dois irmãos, Sora e Koy, gostavam de brincar de luta, o que dava para meu irmão várias dores de cabeça, já que eles quebravam as coisas da avó sem pensar duas vezes.
Meus outros três irmãos, Kai, Killa e Mei, foram morar com seus respectivos parceiros e eu não achava que os veria tão cedo, mesmo que Saki já tivesse me contado sobre tudo que eles estavam fazendo e haviam passado. Sem contar que Mei também se tornara mamãe.
Todavia, nem tudo eram rosas. No tempo em que estava ali, percebi que minha mãe estava bastante sozinha e a única coisa que lhe tirava um sorriso, tirando as palhaçadas esporádicas que eu fazia, eram seus netos. A esposa de Saki saíra para fazer algumas compras e eu aproveitei para conversar um pouco mais com meu irmão.
Estávamos sentados do lado de fora, observando enquanto mamãe brincava com Konata, Sora e Koy. Saki parecia um cão de guarda, literalmente, e seus olhos desviavam de um lado para o outro pela floresta que ficava ao redor de nossa casa.
— Desde quando é tão super protetor? – questionou recebendo um sorriso envergonhado.
— Acho que muitas coisas mudam quando nos tornamos pais – explicou com um dar de ombros.
Eu não sabia o que era aquilo, então deixei o assunto morrer. Como eu estava ressaltando bastante, minha vida amorosa era um fiasco para que eu me tornasse pai em algum futuro próximo.
— Você sabe por que a ma está tão... diferente? – perguntei resolvendo ir direto para o assunto.
Saki olhou para mim surpreso e depois desviou o olhar. De todos nós, Saki sempre fora o mais honesto e não sabia mentir, e aquele era um grande indicativo de que ele tentava esconder algo de mim. Continuei encarando-o até que ele soltou um suspiro e olhou para nossa mãe com as crianças.
— Você, melhor do que ninguém, deve entender que não é fácil sair quando se está dentro do palácio – começou com o olhar meio perdido. – Faz mais de meses que nosso pai não volta para casa e mamãe está se sentindo sozinha. Há dois dias a ouvi uivando, coisa que nunca fizera em sua vida. – Ele parou e olhou para as mãos entrelaçadas. – Nada veio em resposta. Por isso eu e minha esposa não nos importamos que ela passe tanto tempo com as crianças e você ter vindo ajudou muito a moral dela.
Posso admitir algo? Desde que eu era uma criança meu pai sempre fora meio ausente, ainda mais porque desde que eu nasci ele era o Hogosha. Sempre fora muito dedicado a seu trabalho e era um exemplo para toda a família. Entretanto, depois que eu e meus irmãos crescêramos, ele realmente parara de vir tanto e parecia gostar de ficar trancado dentro de seu quarto quando aparecia.
Minha mãe sempre fora alguém animada e não deixava que aquilo a abatesse... Bem, era o que eu pensava. Ouvindo o relato de meu irmão e as expressões que mamãe cismava em tentar esconder, eu começava a duvidar de tudo que eu acreditara quando era uma criança.
Se eu gostava de meu pai? Bem... As coisas já não eram tão simples assim.
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