Série Lobos II - O Clã da Lua
9 Nona Caçada: Bokuyaku no han'i
Notas iniciais
Deixem-me explicar uma coisa antes que vocês achem que é normal se atirar para o desconhecido seguindo um lobo e pelas ordens dos ventos: não façam isso, machuca.
Não, não estou sendo exagerado. Eu nunca tinha ouvido falar nos lugares que o vento (Ridículo, eu sei) indicara, mas a confiança de Issa me assustou quando ele parou sentado – depois de quase três dias de viagens a pé – em frente a um caminho estreito, ladeado por árvores gigantescas e muito escuro. O cheiro do lugar era medonho – e não por ser ruim, mas porque cheirava a algo que nunca fora tocado por humanos (e isso nunca era bom).
— Você quer que eu entre aí? — perguntei olhando para meu melhor amigo. Ele roçou em minhas pernas e abanou o rabo, com a língua de fora. — É, pelo jeito quer.
Quando coloquei o primeiro pé na terra úmida, Issa uivou e foi como se o vento soprasse vindo de dentro do lugar. Novamente os pelos de meu corpo se arrepiaram e quanto mais andava mais barulhos esquisitos corriam por todos os lados. Decidindo que estava muito exposto como humano, deixei que meu corpo voltasse a sua forma original e mais confortável: o enorme lobo bronze.
A floresta era tão densa que eu não conseguia enxergar nada do Sol, as copas das árvores transformavam o dia em noite. Não pude contar por quanto tempo caminhei, mas cheguei a conclusão de que aquela deveria ser a tal cordilheira do esquecimento.
Aprendam, nomes tem poder. Eu deveria ter previsto que algo relacionado a esquecimento seria abandonado e destituído de qualquer pista e acontecimento importante que pudesse me ajudar.
Minhas patas afundavam levemente na terra molhada; pelo focinho podia sentir que esfriava cada vez mais e agradeci pela camada grossa de pelos que cobriam minha pele. Por mais incrível que pareça, o cheiro começava a se tornar algo reconfortante – saber que não havia humanos ali pode ser muito melhor do que eu esperava. A hora passava e não havia nenhum sinal de nada. Fiquei imaginando se algo acontecera ou se estava no lugar certo, mas meu corpo começou a pesar e deitei-me embaixo de uma árvore qualquer, com Issa em minhas patas.
Querem mais um trecho vergonhoso das minhas aventuras? Eu passei dois dias caminhando, sem destino certo, e acabei recuando quase aos instintos mais animalescos que vocês podem imaginar. Perdi minha mochila; caçava animais de todos os tamanhos e protegia um pequeno território que marcara como meu. Minha mente ficou em branco por dias e eu esquecera completamente que eu era ou o que buscava.
Reduzi-me a um animal quase inconsciente e mesmo que Issa tentasse chamar-me para continuar meu caminho, eu não o escutava mais. Vou lhes contar, foi uma sensação libertadora na hora, mas minhas lembranças desse momento são péssimas.
Foi em uma manhã, onde o Sol estava tão forte que conseguia passar a folhagem densa da floresta, que encontrei o homem sorridente. Sabe quando você sente que algo está errado e não sabe o quê? Então, foi exatamente isso que meu cérebro captou ao vê-lo, mas, como não me oferecia perigo, eu o ignorei e segui meu caminho.
O homem apareceu diversas vezes para mim, mas foi apenas na décima que eu finalmente parei para prestar atenção no que ele poderia fazer. Sorria gentil e acenou para mim, como se me conhecesse. Hesitei tanto tempo que ele mesmo se aproximou e parou a minha frente. Rosnei, avisando para que se afastasse, meus pelos se eriçaram como outro aviso, contudo, ele apenas se abaixou e tocou no espaço entre minhas orelhas, dizendo.
— Está na hora de voltar, não acha, Katsuo?
Ouvir aquele nome, depois de tanto tempo, foi como levar um tapa com muita força em meu focinho. Sacudi-me para trás, mas, contra a minha vontade, meu corpo se transformou, dolorosamente, em um humano novamente.
— Precisamos conversar — decretou me encarando ainda sorrindo.
***
— Eu não consi... consigo acreditar... nisso — murmurou olhando para as mãos humanas que eu estendia em frente aos meus olhos.
Um pouco depois de ser puxado de volta para a verdadeira realidade de minha vida, eu ainda me comportei como um lobo por dez minutos antes de conseguir recuperar as memórias que me foram roubadas. O homem sentou-se a minha frente, esperando pacientemente até que eu me recompusesse. Issa estava enrolado em minhas pernas.
— Acha que pode me escutar agora? — perguntou calmo.
— Quem é você? — perguntei lentamente. Voltar a falar depois de muitos dias era dificílimo. — Como sabia...? — Sem contar as palavras das quais eu não me lembrava.
— Ah! Que bom que está se recuperando! — exclamou parecendo uma criança feliz. — Sabe, eu detesto esse lugar, meu irmão criou ele justamente para acabar com a vida de desavisados e das pessoas que ele não gostava.
— Seu irmão? — murmurei ainda mais confuso. Minha voz estava rouca e arranhava minha garganta a cada vez que tentava falar alguma coisa com mais de duas sílabas.
— Ó, sim! Susanoo, conhece? — comentou com um leve dar de ombros. — Ele é realmente muito vingativo.
— Espera, quem é você? — perguntei deixando que minha boca cair aberta.
— Fiquei ofendido agora — avisou sem realmente aparentar o que dizia. — Pensei que tivesse me reconhecido! Vou te dar uma última chance, tente adivinhar!
Encarei-o durante dois segundos, tentando decidir se ele estava zombando de mim ou não. Porém, seu olhar cheio de expectativa mostrava que não estava brincando, realmente queria que eu adivinhasse.
— Eu não faço a menor ideia de quem você seja... — respondi hesitante. Não queria ofendê-lo, porque poderia ser um louco que queria lhe matar. — Mas ainda não terminei de recuperar todas as minhas memórias, então...
— Hnf! Toshio Katsuo, Hogosha da princesa Tsukiko Ailee — começou fazendo com que minha boca abrisse ainda mais. Minha mandíbula doía pela posição em que estava. — É uma grande decepção que não se lembre do senhor de seu clã. Tsukuyomi.
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