Série Lobos II - O Clã da Lua
18 Décima Oitava Caçada: O Tempo que Não Passa
Notas iniciais
Fomos acompanhados por Katsuo até a entrada da Hikari no Mori (Floresta da Luz). Meu olfato estava muito mais apurado, o que ajudava a saber as coisas que se encontravam no caminho – muito mais do que a visão embaçada.
— Por favor, traga ela de volta — pediu o Hogosha olhando para mim com tristeza. Era óbvio que ele preferia se atirar naquele caminho e não deixar que nós enfrentássemos os perigos, mas Kobayashi tinha que ser seu objetivo principal. — Vivos, de preferência.
Aquele jovem esquecia quem eu era, mas nada disso me ofendia. A verdade era que o garotinho que eu selecionara e treinara não existia mais. Katsuo crescera e tinha grande tendência a se preocupar em demasia com o que acontecia aos outros ao seu redor.
— Não se preocupe, garoto — respondi acenando para o caminho de volta. — Apenas se certifique que tudo ficará pronto para minha chegada. Entendeu?
— Sim, senhor.
Katsuo curvou a cabeça. Aquilo não parecia certo. Não depois de tudo que ele contara. Entretanto, não seria eu quem ensinaria aquilo para ele. Aquele lobo teria que aprender a não se submeter a muitas coisas muito em breve.
Dei-lhe as costas, sendo seguido de perto por Shino. O novato seria como um guarda-costas, por mais que eu acreditasse que poderia me defender muito bem sozinho.
O cheiro de toda floresta adentrou minhas narinas. A faixa cobria meus olhos impedindo que a luz forte do Sol atrapalhasse ainda mais meu caminho. Os galhos e folhas que se encontravam a minha frente faziam muito barulho quando eu os pisoteava, mas nada podia ser feito. Se não pode vê-lo, não pode evitá-lo – era minha filosofia.
— Será que iremos demorar muito? — murmurou Shino. Sua voz parecia ansiosa e um pouco tremida. Aquilo era preocupante, pois se algum monstro saltasse sobre nós, eu teria que fazer o trabalho sozinho.
— Temos uma semana inteira. Não se preocupe com o tempo — respondi simples.
Aquilo não era algo que precisava ser discutido. Depois de muito discutir com Katsuo, decidíramos que o caminho mais curto até o templo era cruzar a floresta e chegar a entrada do lugar. A única coisa que poderia estragar eram os obstáculos que poderiam aparecer em nosso caminho.
Seguimos sem parar enquanto a luz do dia durou. Shino foi quem me avisou de que estava na hora do descanso, mas a temperatura que esfriava cada vez mais rápido também foi uma grande indicação do que acontecia.
Nosso caminho seguiu daquela maneira. Seguindo em frente todo o dia e dormindo três horas durante a noite. Em certo momento, obriguei o jovem a se transformar em lobo e seguimos em nossa forma original. O cheiro de perigo aumentava cada vez mais e fomos obrigados a descansar cada vez menos. Era difícil manter aquele passo, ainda mais com olhos inúteis como os meus, mas não me permiti parar. Eu ensinara Katsuo, aquele projeto de lobo, a nunca desistir e não faria aquilo naquele momento.
Enfrentamos alguns animais pequenos, que cruzaram nosso caminho e, para nossa sorte, nenhum realmente problemático apareceu. Shino, várias vezes, pediu para que parássemos e ficássemos mais que dois minutos sentados. Não tínhamos tempo e eu o impelia a continuar.
***
As sombras da noite dominavam tudo ao nosso redor.
Eu retirara a venda momentos antes, pois o pano começava a incomodar minha pele. Andávamos a horas sem parar. Minhas patas ardiam e meu focinha coçava, eu sabia que alguma coisa estava errada, mas não podia dizer o quê.
Shino rosnou. O som do vento balançando as árvores era angustiante. Havia alguma coisa a nossa volta. Contudo, nenhum barulho denunciava aquilo, apenas o vento.
De repente, uma pequena luz escapou por entre as folhagens, machucando minhas vistas. Alguma coisa estava errada. Senti meu companheiro se chocar contra meu flanco esquerdo. Ele tremia. Estava assustado. Senti meu corpo mudar e, no segundo seguinte, minha mãe humana segurava os pelos dele.
— O que você está vendo, Shino? — perguntei preocupado. — O que é que minhas vistas não conseguem captar?
Ele rosnou mais uma vez e engoli em seco. Senti a parte da frente de seu corpo se abaixar como se preparasse para atacar. A escuridão ainda nos envolvia, mas certos pontos de luz começavam a ser ainda mais constantes.
— Shino!
Os pelos começaram a sumir e percebi que minha mão se apoiava no ombro do jovem. Ele demorou um tempo para responder, completamente imóvel.
— Estamos andando em círculos — explicou com um fungado. — A noite nunca acaba, por isso nós acabamos caminhando mais do que o normal ou nos mantemos parados por muito tempo...
— Para onde devemos ir? — perguntei sério. A perspectiva de ficar perdido naquele lugar era ótimo.
— Acho que devemos seguir a luz — respondeu meu companheiro meio perdido.
— Não, vamos pelo outro lado — ordenei empurrando-o para a completa escuridão.
— Por quê?
— Estamos seguindo a luz há alguns dias. Vamos pelo outro lado.
Shino resmungou, mas assumiu sua forma lupina novamente. Minha cabeça começava a arder por causa da luz que se chocava em meus olhos. A tontura quase me derrubou, mas me mantive firme sobre minhas pernas.
— Vamos — pedi também me tornando um lobo. Era muito melhor do que ser um humano.
Aquele templo não poderia ter sido chamado de templo. O mais interessante em alcançá-lo foi o fato de perceber que, naquela parte, quase sempre estava em pôr do Sol. A luz não era tão irritante, mas ainda machucava.
— O que vamos fazer? — perguntou Shino assistindo os dois homens que estavam do lado de fora.
— Devem haver três Tsukiko aí dentro — expliquei. — E três guardas. Não deve ser difícil derrubar esses caras, então, vá em frente.
— O quê? — sussurrou irritado. — Você quer que eu faça todo o trabalho sujo?
— Quem você pensa que vai fazer? Eu? — devolvi revirando os olhos. — Vá lá, garotão. Resolva o problema.
Shino resmungou algo sobre eu ser um perfeito charlatão e poder lutar muito bem, mesmo sendo cego. Resolvi dar um desconto para o garoto, ele não sabia com quem estava lidando.
Alguns minutos mais tarde, os dois guardas estavam no chão, sangrando. E eu só sabia daquilo pelo cheiro forte de metal que estava no ar e os gritos desesperados vindo de dentro da casa.
Outro tempo depois, eu esperava do lado de fora e era quase derrubado no chão por um corpo muito pequeno.
— É tão bom te ver, Hidetaka! — exclamou a princesa animada.
Eu acenei para o resto da família – a mãe dela e a outra filha – e apontei para Shino, que esperava alguns passos afastados como demonstração de respeito.
— Vamos para casa.
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