São Paulo S/A
1 Saco de Ossos
Notas iniciais
—Sua vez, Daria. — sorriu o médico.
—Bom dia, pessoal.
—Bom dia, Amanda! — todos falam em coro.
—Eu tive um ótimo começo dia. — sorri orgulhosa dos meus feitos. — Consegui voltar a tomar café da manhã, fiz isso hoje e me sinto muito bem!
E todos bateram palmas.
Eu sei, é complicado não achar essa cena um tanto ridícula. É que vendo de fora assim parece uma reunião dos alcoólicos anônimos, mas na verdade é um belo momento de superação. Terapia em grupo. Eu relutei muito, mas muito mesmo em aceitar fazer parte disso, já que mal conseguia falar dos meus problemas a sós com o psicólogo, mas no fim acabei cedendo. Pelos meus pais, que se sentiam exaustos pelos meus transtornos. Eu também estava. Eles ficaram radiantes quando concordei em participar do grupo; o administrador de tudo é o Dr Arnold. Quando o conheci ele disse que eu podia o chamar de cabeça de bigorna, em referencia ao famoso desenho da nickelodeon. Quando eu não esbocei sequer uma reação decente (eu estava bem deprimida na época, vale ressaltar) ele abriu um sorriso amarelo e começou a me chamar de Daria, e acabou pegando no grupo. Dr Arnold é um grande fã de desenhos animados e todos parecem gostar muito dele, inclusive eu, um pouquinho.
E, bem, estou nisso há uns dois meses, mais ou menos; não é exatamente a melhor coisa do mundo, mas também não chega a ser a pior. É médio. Me ajudou ? Um pouco, talvez. Eu era de longe a mais "saudável" da turma. A mais gordinha por assim dizer, e olha que estou cinco quilos abaixo do que deveria estar. Antes eram uns dez. Eu tenho evoluído continuamente, aos poucos. Agora posso dizer que minha magreza está até socialmente aceitável de novo. Eu me sinto bem em relação a essa melhora; claro que, em certas ocasiões, sinto uma angustia enorme por ter comido algo diferente, tipo um pedaço de pão (que sempre foi uma coisa proibida para mim) e sinto que vou surtar seriamente, mas sigo os passos do Dr Arnold e falo com alguém de confiança, geralmente Aimée ou minha mãe.
Falei mais um pouco sobre as coisas que fiz hoje cedo e sentei novamente na cadeira desconfortável. Estávamos em roda, e ao meu lado Clarisse esboçou um sorriso e murmurou um "Parabéns, Daria!". Ela parecia mais magra do que nunca, quase prestes a ser entubada; falhas eram visíveis em seu cabelo escuro e liso. Retribui o gesto e acariciei de leve seu ombro. Certo dia ela me disse que sabia que era um caso perdido, eu nunca esqueci isso, principalmente porque nesse mesmo certo dia dividíamos o mesmo peso. Acho que foi o meu balde de água fria, depois disso acordei pra vida.
Eu não sou um caso perdido.
Tudo bem que ainda cuspo comida escondido as vezes, mas estou fazendo isso cada vez menos. E apenas com coisas não muito nutritivas, afinal, por que eu iria querer batata frita no meu estômago ? É um complicado processo de melhora.
Todos tiveram sua vez de falar, e os que escutavam sempre batiam palmas. "Incentivo é tudo, meus jovens, e apoio não faltará para vocês" Dr Arnold sempre falava isso com uma empolgação tão contagiante que chegava a ficar rosa. Quando a terapia grupal acabou, todos se levantaram muito lentamente, para não escurecer a visão, e passamos reto da mesa de coockies que sempre fica as moscas perto da porta. No máximo tomamos um copo de água.
Me despedi de meus colegas e segui para o estacionamento, onde meu pai me esperava; quando ele me viu, acenou freneticamente, com um sorriso colgate no rosto. Bom, nem precisava disso, é bem difícil não reconhece-lo, afinal, sua aparência é bem... marcante. Ele é um russo de quase dois metros e muito excêntrico, diga-se de passagem. Estava encostado no carro, que era grande pra que ele não ficasse muito desconfortável (nosso antigo carro era bem menor, e meu pai ficava com os joelhos quase no nariz). "Brasileiros son pequenos" ele sempre diz, convencido. Está aqui há mais de vinte anos, mas se recusa a perder o sotaque.
Ele me convence a parar pra comer algo em uma padaria. Isso ainda é um pouco tenso para mim, comer em lugares públicos, mas como quero realmente tentar, mostro pra ele que está tudo ok. Porém só o que peço é uma salada de frutas, sem calda nem nada. Ele analisa meu pedido, fazendo uma leve careta em seguida.
—Muito saudável. — resmunga, dando uma mordida em sua pizza, que está pingando óleo.
—É um estilo de vida natural, pai. Ajuda o planeta, ajuda meu corpo. — dei uma mordida em um morango, que estava docinho. — Bom mesmo é comer essa coisa gordurosa as dez da manhã, não é mesmo...
—Mas é clarrrro — colocou a fatia perto da minha cara. — Olhe que beleza de pedaço, Pérrrrola — esse é o apelido carinhoso que ele usa comigo, porque pérolas sao raras, preciosas e belas. — Nenhum pizza é como a de São Paulo!
—Não, muito obrigada. — me inclinei para trás, antes que pingasse gordura no meu rosto. — Fico com as frutas.
Ele deu de ombros, "Azarrr o seu".
Quando terminamos ainda comprou um sorvete, para fechar com chave de ouro, como ele diz e um chocolate meio amargo para minha mãe que é o seu favorito. Quando saímos da padaria, uma rajada de vento bateu com força, jogando meus cabelos para todas direções. Estamos no ápice do inverno e está até que bem intenso. Eu usava uma blusa de frio bem pesada e botas quentinhas. Bom, nós temos frio aqui, mas esse ano ta demais, as temperaturas muito abaixo do normal, nenhum meteorologista sabe explicar o porquê. Meu pai, sem se sentir nem um pouco afetado, exibia os braços pálidos em uma blusa de manga curta.
Nós moramos na Vila Mariana, local inclusive onde nasci também. Gosto do meu bairro, é arborizado e agradável, as vezes até ando de bicicleta por ai. A clinica onde me consulto é na rua Frei Caneca, na Consolação, não é muito longe de casa, mas gosto quando meu pai me leva, porque posso tirar um cochilo no caminho. Inclusive foi o que fiz. Eu me consulto a sós com o psicólogo segunda e quarta, sexta é a terapia em grupo.
É uma bela rotina, já que estou de férias.
Um solavanco do carro me faz acordar bruscamente; em seguida meu pai xinga muito em russo e depois berra um "malditos motoqueiros" vermelho de raiva. Ele realmente odeia motoqueiros, diz que são encrenqueiros por natureza. Se eu não tivesse de cinto teria quase voado pra fora! Esfreguei os olhos e notei que já estávamos na nossa rua. Ele estacionou em frente ao sobrado onde moramos e abriu a garagem com o controle. Ele ainda reclamava quando entramos em casa. Minha mãe abriu um sorriso meigo ao nos ver.
—Nikolai, Mandinha! — nos cumprimentou. Estava com uma câmera no pescoço e parecia mais estilosa do que nunca, com uma bela jaqueta de couro. — Vocês demoraram.
-Paramos pra comerrr, querida — meu pai da um beijinho na testa da minha mãe e observa o preparo de ovos mexidos, provavelmente para meu irmão. — Meu deus, mas você no cozinha direito, vai estragarr minhas panelas de teflon! Deixa que faço.
Ele a expulsou e começou a adicionar vários temperos, enquanto ela me lançava um olhar engraçado, com um meio sorriso. Eu explico. As coisas aqui em casa são meio do avesso. Minha mãe, Alessandra, é uma fotografa de revista de decoração, sai muito, tem uma vida agitada. Meu pai? Fica em casa cuidando de mim e do meu irmão. Ou ficava, pelo menos, já que não somos mais crianças, mas ele é o dono de casa, e parece muito feliz com isso. Sempre que alguma visita chega, ele mostra orgulhoso a hortinha que fez no nosso quintal ou as plantas muito bem cuidadas espalhadas por todos os cômodos. E ele cozinha muito bem.
—Bom dia, saco de ossos. — resmunga meu irmão, esfregando os olhos. O inútil acabou de acordar. Minha mãe passa e lhe dá um belo tapa na cabeça, detesta quando ele me chama por esse apelido.
—Oi, Sergei.
Esse não é bem o nome dele, é Arthur, mas o chamo assim porque minha mãe me contou que quando o rebento 2 nasceu eles tinham planos de o nomear assim. Foi o suficiente para eu zuar dele eternamente. Sergei é exatamente cinco anos mais novo que eu. Ele tem 15, mas vai fazer 16 em agosto, é leonino. (eu fiz 21 em junho, recentemente, felizmente geminiana). É a cópia xerocada de meu pai, tão alto, de cabelos castanhos claros e olhos verdes vividos quanto ele. É o terror das menininhas do ensino médio. Ele sentou no balcão da cozinha e se serviu dos ovos mexidos que meu pai fez. Sergei fez sinal de joinha, aprovando a refeição.
Logo em seguida minha mãe anunciou que estava saindo para levar minha avó na hidroginástica e em seguida iria para o estúdio. Ela e meus dois tios dividem os cuidados com ela. Depois que meu avô morreu, minha nona simplesmente se libertou, já que eles não tinham o melhor dos casamentos. Bom pra ela, uma italiana muito ativa, moradora da Mooca e melhor cozinheira do mundo nas horas vagas. Nenhuma comida é como a dela e, infelizmente, por isso deixei um pouco de ir lá. Eu não podia cair em tentação assim. Quem sabe passo lá essa semana...
Meu irmão iria para a escola logo logo (amém a isso, Arthur não da paz 90% do tempo em que estamos juntos), e no fim só sobraria eu e meu pai.
Talvez eu ficasse cochilando no sofá o dia inteiro com meu gato, Lenin, no colo...
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