Notas iniciais
Originalmente postada no Social Spirit, mas eu cansei das crianças daquele site e migrei para cá.

Não importa

O quanto você tenta me fazer perceber

O Quanto você me conforta e me ajuda

Há sempre aquele pouco, mas o brilho tão forte

Que de alguma forma conseguiu fazer o fogo disparar novamente

Que me queima por dentro e por fora

Quando você desmaia com mentiras

Prove que está tudo bem, resolva, corrija

Estar condenado a uma cadeira de rodas pelo resto da minha vida não vale a pena. Estar afogado em uma enchente de desgraça e dor. Aqui estou eu, escrevendo as últimas palavras do meu grande livro da vida, contendo minhas perturbações, meus sentimentos, meu eu... Eu não consigo deixar de odiar a eles, Sophie, Purnell, ambos mentiram para mim, nenhum deles sabia como eu me sinto. Eu sou realmente um homem patético. Enquanto meu corpo aleijado apodrece nessa locomotiva quebradiça, pouco posso fazer a não ser dizer as direções para um caminho que não conheço.

Minha mão continua movendo-se quase que automaticamente, traçando as letras, formando as silabas, as palavras, as sentenças, tudo continua igualmente falso, é como se as paginas houvessem sido molhadas pela inundação das minhas lágrimas. Meu pulso esquerdo ainda dói, as feridas abertas nele continuam sangrando, escondidas por mangas longas, mas não são escondidas para meu coração, eu sei que elas estão ali apenas aguardando. Enquanto o estilete fatiava a minha carne, corrompendo cada vitalidade, rasgando os tecidos, eu só podia me lamentar por ser tão fraco. Ter essa grande dependência de dor apenas me deixou com sequelas. Se eu não houvesse chorado tanto no trem naquela noite, se eu tivesse voltado mais cedo para casa; talvez esse agora pudesse ser evitado, talvez um futuro pudesse existir.

O culpado? Talvez eu que tenha ignorado as mensagens da única pessoa que se importou comigo, minha mãe, dizendo para eu voltar logo para casa. Talvez o homem que estava entorpecido e pisou no acelerador. Talvez nós dois. Independente de quem seja o culpado, minha situação é irreversível. As pessoas continuam mentindo para mim, me afogando na lamuria eterna e dando conselhos vazios, sou imune as suas palavras e consultas, não é como se uma fingida como Sophie pudesse me ajudar, ela só estava me usando para não sentir-se tão sozinha. Que estupido da minha parte, ter acreditado nas palavras falsas de uma mulher dissimulada, ter sido iludido com suas falsas promessas, eu a amava. Eu te amo Sophie... Eu te amavaSophie.

O Doutor continua me entupindo com remédios, sinto que sou uma cobaia de testes para a indústria farmacêutica, tendo que sustenta-los a partir da minha própria miséria. Tive que mudar da minha casa para um apartamento adaptado, esse não é meu lugar, não é meu lar, eu tenho que voltar para casa logo, minha mãe deve estar me esperando. Eu não pertenço a esse lugar, a esse vazio ao meu redor, a esses monstros que me atormentam e servem de companhia, preenchendo o ambiente com gritos de dor, meus lamentos internos. Não é como se eu tivesse alguma raiva de Purnell... Eu tenho ódio dele. Ódio não é o sentimento mais puro, ninguém finge odiar alguém. Ódio não te faz raivoso e descontrolado, te deixa miserável, apático e vazio. O ódio vai curar todas as feridas.

Eu cuspo no seu rosto e agradeço por mim

Já chega, já ouvi mentiras o suficiente

Os mentirosos que, junto com o fogo, estão me matando

Lenta mas seguramente ando em círculos

Lenta mas seguramente, eu morro nesta cidade cinzenta

De concreto repugnante, construído por mãos repugnantes

Construído por falsos mentirosos como você

É tão estranho olhar as fotos das pessoas com quem estudou por quase uma década, perceber que em nenhuma delas você aparece. Que você não passou de um fantasma por todo o ano letivo, que nenhum deles te entende e nunca entenderão, eles todos mentiram. Com seus sorrisos falsos, suas tentativas de aproximação eram puro interesse. Ninguém fica tanto tempo com um cara tão problemático. Sophie precisava de alguém para inflar seu ego, lhe dizer que era perfeita, que tudo estava bem, ela não precisava de mim, mas sim de qualquer um patético o suficiente para se submeter ao posto de bajulador pessoal. Mesmo depois de tudo que fiz por ela, não recebi sequer um obrigado, não é como se eu quisesse a forçar a algo, mas eu não merecia sua frieza e ignorância com os MEUS sentimentos.

Essa maldita ideia vinda do doutor para que eu escrevesse um livro, foi culpa sua Purnell! É graças a você que a merda que chamo de vida termina hoje. É por sua causa que estes pulsos estão sendo dilacerados, esse vai ser o corte final no longa-metragem de Simon Henriksson, irônico, não acha? Mas eu agradeço, profundamente, por esses remédios, essas drogas me fizeram um viciado fodido, mas me deram clareza, como sempre fizeram. As pílulas me mostraram a verdade, mostraram o quão falsos vocês dois eram, sim, Sophie, você está inclusa! Eu sai desse turbilhão de mentiras em que você me prendeu, sobrevivi ao vendaval de rejeições, eu percebi que você só precisava de uma marionete.

Esse apartamento mofado, essas cores opacas, é tudo tão nojento e imperfeito. Não sou digno o suficiente para uma vida boa, mas sou digno disso? Eu acho que não. É isso o que chamam de ciclo da vida? É pra isso que eu nasci? Para sofrer? Eu quero morrer, é por isso que essa vai ser minha última lamentação. Eu cansei de ser o idiota bonzinho para todos, de deixar que pisassem em mim. Todos os anos na escola, sendo ignorado, aguentando humilhações, trancado no banheiro todos os intervalos, sendo chutado por baixo das brechas das portas e caçoado. Comer todos os lanches sozinho em uma área sanitária tão repugnante, acostumar-se com o cheiro de produtos de limpeza no local, com o som da urina daqueles merdas caindo no mictório, com minhas lágrimas sendo ignoradas. EU ODEIO VOCÊS.

Mãe, eu te amo, mas te odeio por ter me trazido a esse mundo de merda. Pai, muito obrigado por ter sido um imbecil por boa parte da minha vida, por ter traído a mamãe, por ter feito com que ela se sentisse como eu, você nos fez sentir assim. É culpa sua também, sim, de todos vocês! Seja lá quem estiver lendo isso, você continua sendo um motivo para o que vai acontecer hoje, você continua sendo só mais um verme humano se alimentando da carcaça desse mundo, vocês são como abutres esperando pelos restos mortais dos mais fracos, vocês se alimentam da dor, vocês me dão nojo. Eu sou um cara isolado no quarto, pois sei que esse mundo é feito de dinheiro e aparência.

Enquanto vocês gastavam tempo em festas, eu estava jogando trancado no quarto. Enquanto vocês gastavam dinheiro em entorpecentes, eu estava juntando trocados para um novo estilete.Enquanto vocês riam e se divertiam no intervalo, eu me machucava no banheiro. Enquanto vocês falavam alto e me diziam coisas horríveis, eu murmurava baixo sobre como queria atirar em todos vocês. Eu queria ter tido essa arma há alguns anos atrás, queria ter atirado em cada um de vocês, visto seus olhos saltando para fora das orbitas com o impacto das balas. Talvez eu devesse ter matado quatro, ou melhor, quinhentas pessoas, talvez assim eu me sentisse melhor, talvez assim eu sentisse que realmente ofereci algo a sociedade.

Sinceramente, espero profundamente que dentro de você suas mentiras sejam verdades

Ao mesmo tempo eu rezo por mim mesmo

Depois da chuva vem o diluvio no qual todos nós seremos atraídos

Acho que é isso. Eu irei para o tumulo com mais remorso do que vocês imaginam, essa maldita folha já está se rasgando por causa da força que estou exercendo, espero que seja suficiente para perceberem que eu me odeio e quero morrer POR SUA CULPA! Vocês vão me chamar de veadinho que não tem coragem de seguir em frente, mas eu não posso seguir adiante com essa porra toda se não tenho como andar em direção aos meus objetivos. Eu não tenho sonhos. Eu me olho no espelho e vejo outro alguém. Eu nunca fui eu mesmo.

E aqui estou eu, com esse pedaço de metal contra minha cabeça, o dedo no gatilho, é minha ação final, espero que o sangue não danifique os manuscritos, quero que todos vocês leiam e saibam como eu me senti ao longo dos anos.

Carta de suicídio de Simon Henriksson

“Querido diário”. É isso. Eu acabei com minha miserável vida. Eu não podia mais aguentar essa merda. Estar aprisionado em uma cadeira de rodas pelo resto da porra da minha vida simplesmente não vale a pena. Os cirurgiões me disseram que tudo ficaria bem, eles me deram esperança, apenas para esmagarem ela nas solas de seus sapatos e assistir eu me destruindo. Eles mentiram pra mim! Eles não sabiam como eu me sentia!

Eu achei que poderia lidar com minhas emoções, controla-las, conte-las, provar que eles estavam errados, mas eu fui demasiado fraco. Eu os deixei escaparem por entre meus dedos, fora de alcance. Isso me envenenou, nublou minha mente. Eles não sabiam de nada, só podiam sentir o toque frio de suas lâminas.

Eles me deram antidepressivos. Isso me ajudou a pensar melhor, ver além do que as coisas aparentavam ser. Eu tomei uma porção extra de pílulas essa tarde, elas me mostraram o que eu deveria fazer nesse... pequeno momento de lucidez. Mostraram-me que não havia ninguém e nada que valesse a pena viver por. Mostraram-me o quão falsos o doutor e Sophie eram, como eles riam por trás de suas mascaras quando eu não estava vendo. Rindo de mim, minhas pernas, achando que eles são tão bons, que são melhores que eu. Fingindo que se importavam comigo, é tudo bobagem!

As pílulas me mostraram a verdade hoje, como sempre. Elas abriram meus olhos, me deram sabedoria, e eu agi a partir disso. Então eu tive de matar Sophie e meu doutor... meu... “mentor”, meu “conselheiro”. Heh. Eu tive que levar eles junto comigo. Eles não estão mais rindo! Como eu desejei ter levado todos comigo, mas infelizmente, minha situação torna isso impossível.

Para seja lá quem estiver lendo isso: Eu espero que meu cadáver te assombre para sempre. Divirta-se limpando meu cérebro da parede.

Vão se foder!

Notas finais
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