Sweetheart
2 Capítulo 2
Eu paralisei. Fiquei encarando aqueles olhos por quanto tempo? Três minutos? Dez? Uma hora? Não sei. Mas quando Emma limpou a garganta, me livrei daquele torpor e me virei pra ela.
– Tenho que ir... O Andrew ta me esperando. – A encarei indignada e ela me ignorou, virando pra ele – Se importa de distrair ela um pouquinho? Eu já venho. Valeu!
Emma nem esperou uma resposta e logo já estava correndo pelo estacionamento outra vez. Deixei ela de lado e encarei o garoto na minha frente. Acho que estou parecendo um sinalizador.
– Desculpe pela Emma. Ela é meio louca. – Ri sem graça e ele sorriu.
– Sem problemas. Eu sou Daniel. Qual seu nome, princesa? – Lembrei da maneira que ele me chamou na primeira vez que nos vimos e sorri, corando.
– Catherine.
Ficamos em um silêncio constrangedor, até que ele resolveu se pronunciar.
– Sabe, eu acabei de chegar na cidade. Ainda não conheço nada aqui, e aparentemente todo mundo é muito ocupado pra me mostrar. – Ele soltou um riso baixo, olhando para os próprios pés. – Não quero parecer atrevido, mas será que você não poderia me mostrar a cidade?
Senti meu coração falhar uma batida, e corei. Meu Deus! Eu não sou tímida! O QUE ELE FEZ COMIGO?
– Claro.
Daniel abriu um sorriso enorme, e me deu um beijo no rosto. Acho que virei ruiva.
– Quando então? Pode ser hoje? – Não sei por que, mas ele me pareceu animado demais.
Concordei com um aceno de cabeça. Não quero correr o risco de vomitar. Porque é isso que vai acontecer se eu falar alguma coisa. Nesse momento, Emma apareceu. Ela tinha uma expressão transtornada no rosto.
– EU ODEIO AQUELE BABACA! – Ela parou do meu lado, respirando forte e com o rosto vermelho.
Daniel me lançou um olhar de estranheza e diversão. Retribui sussurrando um “é normal”, e resolvi tentar acalmar minha amiga, que já xingava a quinta geração da família do rapaz.
– O que o Davis fez agora? – Perguntei.
Davis Charmann é o pior pesadelo da Emma desde o jardim de infância, quando ele passou cola nos cabelos dela. Hoje eles tentam se evitar, mas sempre que se encontram, a Emma fica louca. E o pior: Davis é do time de basquete, ou seja, é amigo do Andrew. Resultado: uma Emma pirada e soltando fogo pela boca.
– Aquele imbecil, energúmeno, comedor de loiras aguadas! – Olhei pra ela, surpresa, mas ela não pareceu perceber o que disse. – Acredita que ele jogou água no Logan, só porque ele tava falando comigo? Por que ele não pode me ver feliz?
Emma chutou o pneu de um carro ao nosso lado, e logo soltou um guincho de dor. Me segurei para não rir, senão ela ia arrancar meus rins. Uma Emma irritada não é uma boa Emma.
– Calma, Em. Pode ter sido um acident...
– Acidente? ACIDENTE? Ele fez de propósito! Aquele idiota ainda teve a capacidade de rir e dizer pro Logan que era pra ele “abaixar o fogo”! A gente tava conversando, porra! Aquele filho da... Não vou terminar isso porque a mãe dele é legal. Mas eu odeio aquele brutamontes grosso e metido!
Não aguentei e ri de Emma, que me encarou indignada.
– Sua vaca! Rindo da minha desgraça! Vamos pra casa antes que eu fique de mal com você também! – Emma me puxou em direção à saída, mas meu braço foi segurado por Daniel, que só agora eu lembrei que estava presente.
– Te vejo as cinco, tá legal? – Ele sorriu e me deu um beijo na bochecha, antes de se distanciar.
Emma ficou quieta ao meu lado. Quando me voltei pra ela, Em tinha o seu sorriso oficial no rosto, e me encarava com malícia. Cadê a raiva dela agora?
– Eu consegui? Você vai sair com o novato bonitão? – Me virei de costas e comecei a caminhar pra saída sem respondê-la. Eu sei que isso vai deixá-la puta da vida, e essa era a intenção.
Ouvi Emma caminhar atrás de mim, mas não parecia brava. Droga.
– E aí? Consegui ou não? – Ela saltitou ao meu lado.
Não tive escolha. Contei o que aconteceu e ela logo começou a fazer planos pra essa tarde. Passei o resto do caminho em direção à minha casa ouvindo Emma falar sobre roupas e sapatos, além de quais gafes eu não poderia cometer, segundo ela, de jeito nenhum.
– Então entendeu, não é? Não use laranja de jeito nenhum e pelo amor de Deus, se ele tentar te beijar, não fuja! – Emma me lançou um olhar severo, mas logo seu sorriso voltou, e ela me deu um beijo no rosto. – Boa sorte, amiga. Te amo!
E sem esperar resposta, ela foi embora. Entrei em casa e chamei por meus pais. Ninguém em casa. Novidade. Subi pro meu quarto e coloquei o som no máximo, já abrindo as portas do guarda roupas e tentando escolher o que vestir pra sair com o Daniel, o garoto do corredor.
***
As cinco horas em ponto, escutei a campainha tocando e desci correndo pra atender. Mas então parei. Não poderia ser o Daniel. Ele não tem meu endereço. Ele não tem nem meu número! Como a gente vai se encontrar?
Segui em direção à porta com a menor vontade do mundo. Como pude esquecer disso? Que droga!
Abri a porta e me deparei com o sorriso mais lindo do mundo. Daniel estava ali, parado na minha porta, usando jeans e uma camiseta cinza.
– Oi. – ele sorriu envergonhado.
– Oi. Como descobriu onde eu moro? – Perguntei e ele coçou a parte de trás da cabeça, sem jeito.
– Eu pedi pra Georgia Mayer, ela é minha vizinha. E como ela estuda com a gente... – Ele deu de ombros. Vamos?
Nós saímos em direção à rua. Daniel caminhava ao meu lado em silêncio, enquanto eu evitava ao máximo fazer movimentos bruscos. Eu comecei a notar que nossas mãos quase se tocavam a cada passo que dávamos.
– E aí, aonde vai me levar? – Ele sorriu, ainda olhando pra frente.
Pensei por um momento. Onde ele poderia gostar de ir? Afinal eu mal o conheço. Talvez a lanchonete do Phill, todo mundo gosta de ir lá... Ou a loja de discos que o Ronan abriu... Ah! É melhor perguntar de uma vez!
– Do que você gosta? Assim fica mais fácil eu decidir onde te levar. – Ele me olhou e eu automaticamente encarei meus pés. Que vergonha.
O mirei pelo canto do olho, e vi que ele olhava para o céu, parecia ponderar o que dizer. Passou apenas alguns segundos assim, ates de sorrir novamente e me encarar. Senti meu rosto queimar por ser pega no flagra, mas ele não pareceu ligar.
– Gosto de música... De ar livre... – Ele parou, esperando que eu falasse. Por quê? Ele podia continuar falando. Eu não me importo de só ouvir.
Fiquei o olhando, e notei que no sol seus olhos ficam mais verdes. Oh, Deus! Eu preciso parar de ficar reparando nele! Só o que me faltava me apaixonar por alguém que acabei de conhecer.
– Podemos ir à loja de discos. Tem vários álbuns incríveis lá. Acho que vai gostar. – Ele sorriu levemente, e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Me arrepiei. – Depois, se quiser, podemos ir ao parque. Tomar sorvete ou sei lá.
Parei de falar e segui caminho, tentando evitar que Daniel visse minhas bochechas vermelhas.
Ele logo me alcançou e passamos a andar em silêncio novamente. Mas pelo que notei, ele não gosta muito de ficar quieto, porque logo já estávamos conversando sobre nossos artistas e bandas preferidos. Éramos parecidos em algumas coisas, mas em outras discordávamos completamente. Afinal, ele gosta de bandas como Ramones e Rolling Stones. Eu gosto de Demi Lovato e Taylor Swift. Nada parecidos.
Quando chegamos a loja, os olhos do Daniel brilharam. Ele correu até uma das prateleiras cheias de discos antigos e ficou olhando abobalhado. Parecia uma criança no balcão de doces. Ri baixinho de sua reação quando correu até outra das prateleiras lotadas. Ele percebeu e virou pra mim com uma expressão de falsa irritação.
– Está rindo de mim? Que coisa feia, Catherine. Não deveria rir de seu novo amigo sabia? – Ele se aproximou de mim, e quando chegou a minha frente já ostentava um sorriso divertido. – Vai ter que ser punida, já gosta tanto de rir...
Ele se jogou em minha direção e começou a me fazer cócegas. Assim que seus dedos encostaram em mim, eu comecei a rir desabalada. Senti meu flanco doer por causa das gargalhadas que Daniel arrancava de mim. Tentei me soltar, o que só fez com que ele se grudasse ainda mais à mim.
– Daniel... Dan... Por favor... – Tentei me soltar, lágrimas escorriam dos meus olhos de tanto que eu ria.
Daniel passou os braços a minha volta, parando com as cócegas. Descansei meu rosto em seu peito, tentando acalmar minha respiração, enquanto alguns risos ainda escapavam da minha garganta. Quando finalmente minha respiração normalizou, me dei conta que estava presa em um abraço com Daniel. Me afastei dele, corando loucamente.
– Eh... Bom... – Me perdi, não sabia o que dizer a ele. Mas ele não pareceu tão abalado.
– Vamos olhar mais alguns e depois você me mostra o parque que você falou. Pode ser? – Ele voltou a prestar atenção nos discos, mas eu notei o sorrisinho que ele manteve intacto nos lábios. Também olhei para os álbuns dos Beatles e deixei meu próprio sorriso surgir nos meus lábios.
***
Estávamos andando pelo parque da cidade. Esse é um dos lugares mais lindos da cidade. Eu até mesmo conheço o senhor que cuida das flores. Ele é extremamente gentil, e fica distribuindo flores no dia dos namorados. Aliás, eu nunca tinha notado o tanto de casais que passeiam por esse lugar. Hoje é dia dos namorados? Cadê o Harold com a minha flor?
Eu estava distraída observando os casais a minha volta, até sentir Daniel segurar minha mão. Morri um pouquinho aqui.
Olhei para ele, que sorriu.
– Quer sorvete? – Ele apontou para o carrinho de sorvete parado perto dos bancos.
– Quero sim. – Sorri de leve e o acompanhei até o homem vendendo os sorvetes.
Peguei um sorvete de morango, e ele escolheu chocolate. Daniel fez questão de pagar, e só então ele soltou minha mão. Não pude evitar a decepção que senti quando ele fez isso. Mas o sentimento não durou quase nada, já que quando ele guardou o troco na carteira, logo agarrou minha mão de novo.
Passeamos mais um tempo pelo parque, até começar a escurecer. Daniel me acompanhou até em casa, e quando finalmente chegamos no portão, ele ficou na minha frente, ainda de mãos dadas comigo.
– Te vejo amanhã na aula, então?
– Sim, Daniel. A gente se vê amanhã. – Sorri e ele me acompanhou, mas ficou parecendo uma careta.
– Me chama de Dan. Você me chamando de Daniel parece a minha mãe. – Ele fez outra careta, me fazendo rir.
– Se for assim, me chama de Cath. Catherine é muito grande.
Ele sorriu e eu me aproximei para dar um beijo na bochecha, mas no último segundo, Dan virou o rosto, me dando um selinho.
Devo ter corado até a raiz do cabelo agora.
– Boa noite, Cath.
– Boa noite, Dan.
***
Eu estava indo deitar já, quando meu celular apitou indicando uma nova mensagem.
E aí, Cath? Consegui dar um jeito de juntar o casalzinho? – E.
E enquanto eu contava tudo o que aconteceu durante a tarde para uma Emma orgulhosa de seu trabalho de cupido, eu me dei conta.
Eu estou apaixonada por Daniel Wilde. E eu tenho certeza de que isso vai transformar a minha vida. Resta descobrir se pra melhor ou pior.
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